Eliane Colchete
Este texto integra o estudo O Devir das Ciências Humanas, que elaborei entre 2006 e 2008, cobrindo os cenários epistêmicos relacionados aos temas do pensamento humano, desde a Grécia, com o objetivo de apreender a sua transformação em ciências na era contemporânea, e vindo até a atualidade. O estudo não pode ser publicado na Internet porque o provedor não aceita postá-lo. Aqui trata-se da emergência da psicologia no período contemporãneo, os trechos foram selecionados conforme sua focalização nesse tema. Inclusive, esta introdução está sendo reescrita porque o provedor já está interferindo danosamente na confecção do documento.
Os motivos pelos quais este trabalho tem sido sabotado, provavelmente interessariam à sociedade brasileira descobrir. Insistiremos no uso e nas publicações, entendendo que este espaço da Internet é público e deve estar preservado das manobras de interesses prejudiciais ao bem estar dos cidadãos deste país, manobras que nem podem vir a público para justificar-se, dado que as operações de que se servem - censura, sabotagem, intervenções no privado - são ilegais, constituindo violação dos direitos humanos.
1 ) O Fenômeno da Consciência
Se ignorássemos certo setor, bem prolífico, da produção intelectual do século XIX, facilmente se poderia estabelecer o esquema com que estamos lidando, pelo que a visão totalizante dos estudos humanos não faz um Mesmo com o emergente modelo dessas ciências autônomas. Isso permitiria estender um contínuo bem comumente encontrável entre materialismo, positivismo, realismo e socialismo, evoluindo ao longo desse período. Na verdade, o esquema não se compromete se observarmos que esse contínuo não se estabelece de modo totalmente linear. Contudo, para apreender a ambientação do século XIX é essencial observar a multiplicidade dos seus aspectos e as rupturas que nele ocorrem e que são, mais do que qualquer outro tempo, determinantes no devir da cultura.
Como se nota em Carpeaux, a história da esquerda hegeliana torna-se emblemática do curso dos acontecimentos que assinalam a transição do romantismo ao realismo. Os autores que se destacam nesse âmbito são fundamentais, como um Bauer, um Feuerbach e um Marx, e no entanto, estão numa via de crítica radical a Hegel. O cerne da polêmica parece ser a rejeição do idealismo. Assim, por mais esse fator, seríamos tentados àquela visão standard de um século XIX que só faz acentuar o primado biológico da autocompreensão da espécie, frente ao antigo viés metafísico totalizante. Se isso realmente ocorre, não se justifica a perspectiva padronizada de um cientificismo seco imperando por toda parte. Bem inversamente, o que se mostra é um novo ambiente favorável aos misticismos, idealismos, conceituações do absoluto e teorizações metafísicas. Vimos o quanto a inspiração romântica serviu à reação de uma sociedade deslocada no tempo pela revolução burguesa. Mas o romantismo apresentou mais do que uma recusa da razão em nome do sentimento. Ele pretendeu, ou foi canalizado nesse sentido, orientar o curso da racionalização conjurando o seu nexo com a posibilidade modernista, assim como conceituada por M. Berman. Como se fosse possível unir o progreso técnico ao estado de coisas prescrito pelos valores da eternidade, referendados sempre pela autoridade vigente.
A contraposição desse programa ao Iluminismo tem sido evidenciado. A revolução das Luzes pôde prognosticar o espírito da modernidade por que manejou a linguagem da liberdade e da iniciativa. Se o conhecimento emancipa, é por que ao ser humano é dado servir-se dele. Não se pensa que o objeto do conhecimento transcende a regulação das coisas, de modo que nada se segue nos termos de uma dedução da natureza do todo, exceto esse saber negativo pelo que essas coisas de que se conhece agora o modo de ser permanecem inertes ou indiferentes exceto na contingência da ação do ser humano exercer-se sobre elas. Essa ação se torna responsável por seus efeitos.
A conseqüência desse Iluminismo é a premissa empirista pela qual, sendo as relações exteriores aos termos, o dado só é reunível pelas leis da mente. As coisas nelas mesmas não são senão resultados no espírito de um agregado de sensações e permanecem assim nelas mesmas irreduíveis a qualquer unidade do Ser.
Carpeaux rotula a filosofia de Hegel como romântica “assim como a crítica de Herder e dos irmãos Schelegel”, porque Hegel pensou o mundo como um processo revelando-se o Absoluto “através da evolução histórica”. Entre o absoluto e o ser humano é que se vai portar o confronto ao longo do século XIX. A voga romântica não deve induzir à impressão de que o materialismo iluminista havia sido totalmente esquecido. No quartel inicial do século pode-se constatar a persistência do utilitarismo inglês e o acúmulo de pesquisas puramente empíricas. No entanto, após os acontecimentos de 48 torna-se claro que o contraponto foi mais do que apenas um desenvolvimento paralelo.
No território do utilitarismo, ali onde se encontra subscrito como um dogma, os novos expoentes sentem que é preciso temperar o mecanismo calculador com uma boa dose de sentimento, conforme a experiência de Stuart Mill. Educado pelo pai e por Bentham para arcar com o ônus da escola, Mill conservou o estilo límpido da prosa empirista, livre dos arroubos românticos, mas a crise de “atonia emocional”, conforme Bréhier narrada na Autobriografia (1873), o fez compreender que o problema estava no rigor da análise, nos hábitos inculcados pela educação paterna que só reservavam lugar ao intelecto lógico. Mill não abjurou do empirismo, mas o renovou profundamente. Fez a crítica da escola assim como funcionava da época de Bentham, trazendo essa transformação para dentro das ciências do humano, que o utilitarismo vinha contribuindo para libertar do domínio da metafísica.
Observando a coexistência dos dois modelos de ciências, metafísico-totalizante e empírico-cientificista, nessa época, vemos que Hegel desempenha importante papel na sustentação daquela perspectiva que o século XIX progressivamente abandonou. Lá os setores do real se comprimem numa seriação disposta a recuperar o percurso do Espírito. A duplicidade desse termo espírito/mente, assim como está sendo manejado nesse momento, relança o que está em jogo no cerne da negação do materialismo. A experiência é visada no seu caráter inteligível. Logo, é sobre si mesmo que o pensar se volta ao tematizar qualquer série fenomênica manifesta como experiência. Não só o ser humano pensa no que ele mesmo produziu e se reflete na ação, compreendendo-se, conceituando-se, tornando-se absoluto nesse Saber, mas tudo o que se pode pensar exibe a mesma demarcação recuperável como inteligência, há uma concatenação sempre concebível e enunciável naquilo que compreendemos como o Real.
Vimos que, por outro lado, há o desenvolvimento de pesquisas que só contam com a precisão do dado na sua materialidade, pelo que o ser humano é conceituado na sua pertença à espécie e esta ao mundo natural. Se também aqui há coordenação de áreas, a inter-relação das ciências, da geologia à psicologia e sociologia por meio da arqueologia, paleontologia e antropologia, nota-se que o escopo é irredutível a qualquer reconstituição da “saga” do ser que mais profundamente seria espírito. O que essas pesquisas evoluindo separdamente, de modo independente, mas informando-se mutuamente, não pretendem atingir é algum desenvolvimento desses aspectos como se presentificassem uma Unidade capaz de subsumir tudo o que a aparência faz parecer fragmento e multiplicidade, seja como seus momentos, seja como níveis, como partes de uma hierarquia, seja como efeitos expressivos ou emanativos.
O geógrafo pode atualmente pensar o sistema terra, o ecólogo raciocina em termos de inter-relação de um todo habitado, só há compreensão fisiológica numa dependência do conhecimento dos processos físicos e químicos. Mas esse tipo de “causalidade” explica cada termo por outro termo. Compreendemos as relações das partes, não nos damos a tarefa de compreender a natureza do todo, como se este fosse uma realidade dada assim como são dadas as partes na imediatez da existência.
Mas ao longo do século XIX o fenômeno epistemológico mais notável é a oscilação entre a persistência dessa tarefa, suportada pela proximidade dos séculos precedentes que nunca viram no conhecimento algo fundamentalmente independente dela, e a realidade dessa independência. Como entender, nesse esquema pelo qual a visão totalizante está contrafactada pelo modelo empírico, a démarche de um Fechner? Pesquisando numa base puramente atomístico-mecanicista, sem nada dever assim ao misticismo da Força que agora faz o Revival de Leibniz, conduzindo os estudos num caráter “preciso e positivo”, conforme a expressão de Bréhier, Fechner complementou a lei de Weber formulada com base nos experimentos sobre a relação entre estímulo e sensação. Hoje a lei Weber-Fechner está firmemente incorporada na ciência empírica, sendo básica nos estudos da psicologia da percepção, ainda que relativizada na sua interpretação determinista.
Mas Fechner desenvolveu, paralelamente, uma metafísica que já pelo meio do século faz a ressurgência daquela Naturphilosophie que a essa altura, como nota Bréhier, já parecia ter sido completamente esquecida na Alemanha. Bréhier mostra, contudo, como essa tematização de Fechner não parece com aquela do início do século, decerto visando aqui Hegel ou os arroubos místicos de Schelling. Na verdade, ela é muito mais fantasiosa. Bréhier observa que se assemelha mais a uma espécie de “espinozismo psicologicamente interpretado”, o que não pode deixar de evocar Plotino por esse viés anímico. Fechner pensa em termos de totalidade, do Uno-todo, mas isso sendo recuperável pela intuição através da evidência da consciência.
A consciência é atividade unificadora do tempo como do espaço, ou é assim que ela se mostra a nós que, exclusivamente entre os seres naturais, a experimentamos. Ela une o “longínquo ao próximo”, o passado e o presente, projetando o futuro, como os mil fragmentos de coisas numa realidade indecomponível. Assim, a consciência ensina que Deus é a consciência mesma, mas não individualizada, desconhecendo qualquer delimitação que constitui o ser de uma alma particular.
As almas são tanto mais elevadas quanto menos limitadas. Elas estão como que contidas umas nas outras, o menor no maior, e as almas das criaturas terrestres estão para a alma da terra assim como os nossos pensamentos se põem em relação com a nossa alma. Fechner enuncia uma filosofia da natureza que é ruptura com o racionalismo epistemológico de Kant e Hegel, conforme Bréhier. O essencial é a unificação do todo pela vida anímica, não a manifestação da lógica no fenômenos.
Creio que o importante a reter aqui é essa irredutibilidade um pouco assinalável por toda parte entre a índole espiritual do meio do século, entre os acontecimentos de 40 e a década de 90, e o seu período inicial. Nesse momento novo se localizam as démarches da esquerda hegeliana e o volteio do empirismo com Stuart Mill. Nele prolifera uma floração metafísica, idealista ou voltada ao vislumbre do absoluto, entre as quais o exemplo de Fechner, como ele afastadas do viés epistemológico dos sistemas típicos do período anterior.
As construções algo fantasiosas de Comte parecem fornecer o modelo dessas produções marcadas por uma influência psicológica que vão, historicamente, desembocar no pragmatismo de William James, quando então se esboroam enquanto tentativas de síntese científica. Ora, como já acentuado, é preciso compreender essa ruptura, ver se ela não está relacionada à aparência de uma contradição entre a proposição de um modelo não-totalizante de ciências que inclui pesquisas basilares como a lei de Weber-Fechner, e o pensamento místico que está não só em Fechner, mas bem presente nessa época que devia ser, justamente, aquela que marca o importantíssimo evento da superação final do vínculo entre necessidade metafísica e pesquisa científica.
Ocorre que essas construções, não obstante o desejo de enunciar a verdade do todo, não mais o visam como o dado inicial de que é preciso partir, mas como a realidade conseqüente a que é preciso aportar. O dado inicial se torna o dado científico. O homem como espécie é esse animal de consciência desenvolvida. E é então essa consciência o dado que, como as plantas e as estrelas, se apresenta agora ao escrutínio.
Paul Fraisse, citado no estudo de Jacques Cosnier, “Chaves da Psicologia”, pronunciou-se acerca do século XIX como o momento cartesiano da pesquisa psicológica moderna, isto é, já com a forma de ciência contemporânea. Ela se desencadeia, como notou Cosnier, numa pressuposição limitadora do seu objeto como sendo estritamente o psiquismo. Em vez de comportamento, conduta ou ação, há somente a pesquisa psicofísica, por um lado, e por outro a consciência pressuposta como uma espécie de centro da vida psíquica.
A consciência continua a ser conceituada como alma, sendo nela que encontramos “percepções, idéias, sentimentos e motivos”, portanto essencialmente oposta ao movimento, ao corpo, conforme a expressão de Fraisse. Cosnier pode então mencionar Fechner como “o representante típico dessa época” em que pareceu “natural o desejo de fazer da psicologia uma ciência suscetível de traduzir-se na prática pela aplicação do método experimental ao estudo do psiquismo e seus elementos”. Assim, se a psicologia agora “torna-se ciência”, isso se deve a que a ela se atribui “uma vocação experimental”. Os tratados versando sobre psicofisiologia assim como o laboratório pioneiro (Beaunis, 1889) é o Laboratoire de Psychologie Physiologique. Mas se o objeto continua a ser a alma, resta que o objetivo ulterior à descrição fisiológica pode ser estabelecer a relação entre a alma e a matéria.
Cosnier interpreta esse estado de coisas na base de uma conservação do objeto. Com efeito, se o escopo é expor uma história da psicologia, o capítulo inicial deve constar de uma apreciação dos estudos que ainda se confundem com a História da Filosofia. Assim, o momento fundador dessa “psicologia antiga”, porque não experimental, é Descartes e a separação das substâncias, pensamento (alma) e extensão (corpo). Quando o século XIX introduz a moderna psicologia experimental, conserva o objeto desse período anterior, a alma, e a influência dualista cartesiana, até que o século XX impõe uma superação desse conceito de psiquismo.
No entanto, creio , como Foucault demonstrou, que ocorre uma ruptura bem mais profunda no século XIX. A “alma” que a metafísica de Fechner tematiza não se parece com a substância de Descartes, criada por Deus. É ela mesma Deus. Mas se, em todo caso, isso pareceria mais "uma espécie de" espinozismo plotinizado, é importante reter a expressão entre aspas, citada de Bréhier. É fundamental compreender o que está embutido na observação pela qual esse espinozismo está sendo “psicologiacamente interpretado” – grifei o que me parece mais importante notar aqui.
Pois assinala-se assim, a meu ver, a irredutibilidade dessa “metafísica”, sua pertença agora derivada, não mais como um fundamento. O termo “metafísica”, para designar essa produção do século XIX, significa algo que é quase o oposto do sentido que lhe é tradicionalmente agregado.
A consciência é agora um dado. Mas ele contém algo mais que qualquer outro dado. A consciência parece subsumir todo ato de ser dado. É só quando a consciência se interpreta na exterioridade desse caráter abrangente e se transforma no conceito de percepção, ou numa condição de atenção, isto é, só quando ocorre uma subsunção da própria consciência ao que ela se relaciona é que a psicologia se torna atual ao século XX, liberta de toda conexão metafísica, ao menos na sua feição científica ortodoxa.
Ao longo do século XIX o que vemos é o percurso da conceituação dessa abrangência do dado da consciência. Inicialmente ele é a reversão da metafísica moderna, tradicionalmente conceituável como tal, assim como ainda se observa no pós-kantismo, notadamente com Hegel. Mas progressivamente o percurso instaura a consciência, desde sua interpretação psicológica, tomada como natureza psíquica cujas propriedades reflexivas são hipostasiáveis, vistas como algo em si, fenômeno ele mesmo delimitável na sua factualidade pressuposta, até sua partição como tema exclusivamente filosófico.
Husserl assinala o momento em que essa conceituação da consciência pode ser inteiramente reclamada pela filosofia. A psicologia não mais se interessa por essa rubrica e se desenvolve ora como ciência do comportamento (Pavlov, Watson), ora como psicometria (Binet), ora como pesquisa do inconsciente (Freud). Todas essas vertentes do início do século XX já exibem inspiração exclusivamente materialista e uma veemente recusa de qualquer tematização pela psicologia do psiquismo ou da consciência, como manifesta expressamente Pavlov.
O lirismo intenso desse momento, a segunda metade do século XIX, deve ser enfaticamente afirmado, em vez de parecer que o realismo já assinalou a transição para a ciência assim como a compreendemos na atualidade. Torna-se assim mais inserível o tema do estilo do Capital, e mais geralmente, a conceituação do realismo literário, desenvolvendo-se concomitantemente à emergência dos trabalhos fundadores das ciências do humano.
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No início do século o espiritualismo está expressando uma autocompreensão do humano contrastante com aquela que será sempre mais afirmada, até que aquilo que ele informa precisará retroagir frente ao que sucede. É o que se vê, por exemplo, com relação à psicologia e pelo que podemos compreender algo da contraposição entre as duas vertentes, a totalizante e a atual, das ciências do humano.
Na França, o espiritualismo embasa a vertente totalizante do mesmo modo que na Alemanha essa tarefa cabe ao pós-kantismo. Com relação à psicologia, vemos que o espiritualismo informa a via introspectiva-dedutiva, isto é, basicamente não-experimental, de Biran. Paralelamente se desenvolvem os marcos pioneiros da história da psicologia na sua enformação atual, isto é, pesquisas que já se orientam na perpectiva epistemológica do humano como espécie biológica. As formulações nessa orientação se encaminham na região da fisiologia. Mas se nessa época as pesquisas se desenvolvem também numa enformação comportamental, isso só se verifica na imanência da psiquiatria. A princípio há a formulação “fantasiosa” de que se originou a frenologia de Gall e Spurzheim. Na obra Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso ( 1804), esses autores relacionaram o cérebro como órgão da mente e associaram o controle dos vários tipos de comportamento a partes específicas do cérebro. Se até aqui isso parece bem de acordo com o senso comum científico atual, eles, contudo, aduzem que a forma externa da caixa craniana reflete a forma do cérebro. Protuberâncias e reentrâncias cranianas que se poderiam rastrear com o tato ou mesmo discernir visualmente informariam acerca da conformação pessoal dessas partes, por exemplo, se uma delas é mais pronunciada prognosticando maior aptidão para o comportamento que lhe estaria associado.
A impropriedade do sistema de Gall e Spurzheim já está sobejamente demonstrada, não somente porque a hipótese “frenológica” se mostra um meio ilusoriamente fácil de conhecer as pessoas, mas principalmente porque o mapa cerebral que traçaram nada oferece de comprobatório nesse domínio. Suas regiões não se mostram efetivamente relacionadas ao que prescrevem e isso porque o modo como fizeram o traçado era demasiado idiossincrático: porque uma histérica nos seus acessos mostrava pelos movimentos da cabeça o tamanho desenvolvido do seu pescoço, julgaram que isso mostrava a relação entre o temperamento predominantemente passional, o tamanho do pescoço e o desenvolvimento do cerebelo.
Já em 1814 Pierre Flourens publica as Pesquisas Experimentais sobre as Características e Funções do Sistema Nervoso nos Animais Vertebrados. Essa obra pode ser considerada o estudo experimental pioneiro que relaciona o comportamento ao cérebro, pois se a obra de Gall e Spurzheim já haviam lançado a hipótese dessa relação, seus resultados basearam-se na observação não controlada, simples coleção de casos, em vez da indução garantida por processos e técnicas pertinentes, de valor conclusivo comprovado, nesse caso a ablação, a incisão ou corte cirúrgico. Essa é a técnica básica que ainda se utiliza na atualidade nesse campo de estudos.
David Krech e Richard Crutchfield, que expõem a seqüência dessas pesquisas, mostram que é Flourens quem estabelece o cérebro, um todo composto por vários órgãos, como “lugar” da inteligência, o cerebelo como sede do princípio que coordena os mecanismos locomotores e o encéfalo como unidade das faculdades intelectuais. Flourens, ao relacionar essas faculdades exclusivamente com o encéfalo, se bem que os autores registrem que “hoje”, isto é, na década de 50 quando se publicaram os dois volumes do seu "Elementos de Psicologia", ainda há dúvidas sobre isso, se contrapôs definitivamente aos frenologistas lançando as bases do desenvolvimento dos estudos relacionados e cada vez mais variados, que se seguiram desde então.
Em 1834 a fisiologia pôde enunciar a lei da relação entre estímulo e sensibilidade, com os estudos de Weber. Várias noções importantes se estabelecem aqui, sendo essencial reter a de limiar. Não apenas essa noção tem a ver com a delimitação do campo energético dentro do qual se efetiva o registro sensível, algo que é variável conforme as espécies, o que se exemplifica correntemente pela altura do som que o cão percebe e que nós não percebemos, designado o limiar absoluto. O que se tornou importante na enunciação da lei de Weber foi também o registro do limiar diferencial, quando, no interior do campo perceptível já estabelecido, se mede a capacidade de percepção de diferenças no estímulo, por exemplo, entre duas luzes percebidas, se sua intensidade varia muito pouco, pode-se vê-las como iguais. Qual é o limiar pelo qual se começa a perceber que não são iguais?
O limiar diferencial é atingido quando se constata a diferença apenas perceptível (d.a.p.), e por convenção adota-se que se atingiu quando a percepção é registrada na metade do tempo entre a faixa na qual nada se percebe e aquele em que a percepção se mantém contínua, o mesmo critério que se utiliza para localizar o limiar absoluto, isto é, aquele em que se mapeia o campo perceptível da espécie. Ora, o que a lei de Weber permitiu ver foi que, dentro de certos limites, o limiar diferencial tende a ser uma fração constante da intensidade do estímulo, o que também mostra que a fração tem que ser determinada pela mensuração real para cada tipo de estímulo, havendo enormes variações nas frações para os vários sentidos e características.
A quantidade de energia que precisa ser acrescentada, para produzir uma diferença discernível, é relativa à quantidade de energia já existente. Supondo que o limiar para um peso de 50 libras seja 1 libra, são necessárias pelo menos 51 libras para que o objeto seja percebido como mais pesado. A amplitude da sensibilidade dos vários sentitos está bem demonstrada, pois quanto ao tom musical, por exemplo, uma diferença tão pequena quanto um terço de um por cento pode ser percebida, enquanto que, com relação ao gosto, a diferença precisa ser de aproximadamente vinte por cento para ser percebida.
A formulação da autocompreensão do humano em termos de espécie está assim associada intimamente com a descoberta do universo como conjunto de energias físicas, ondas que se desdobram no espaço e que variam quanto à sua natureza: radiantes, vibratórias, químicas, térmicas, mecânicas. A compreensão dos fenômenos de interação energética vislumbra a capacidade dos seres vivos como instrumentos sensíveis e fundamentalmente seletivos que se locomovem nesse mar de energias. Instrumentos mais ativos que passivos, pois não apenas registram informações selecionadas pelo seu limiar absoluto, mas as procuram.
A complexidade dos estudos orientados por essa epistemologia, no campo da compreensão dessas interações energéticas do vivo, no seu aspecto psicológico está relacionada tanto ao fato de que as interpetrações do instrumento são incrivelmente ricas quanto com que nem todos fazemos as mesmas interpretações. As qualidades perceptivas variam conforme as condições de sua experiência, tanto do ponto de vista dos seus parâmetros formais, um círculo pode parecer estranhamente deformado se exposto sob um fundo de linhas quebradas dispostas num certo ângulo, quanto dos parâmetros subjetivos, pelo que os “mundos” da criança e do adulto, e mesmo do adulto normal e do cego ou surdo, podem não parecer os mesmos.
2 ) Psicologia Científica?
Mais ou menos recentemente um cientista brasileiro respondendo a entrevista em uma revista de grande circulação, acerca do problema da legalidade das patentes de genes humanos, respondeu literalmente que “argumentos filosóficos, quando entram no mundo legal, causam uma bagunça” e que nos Estados Unidos quando se cuidou da questão foi ponto pacífico que não se deveria “entrar em questões filosóficas”. Simplesmente pega-se a lei das patentes feitas totalmente na dependência do modelo de coisas e aplica-se ao genoma resultando assim que se for provada a sua utilidade, ele será patenteável, mas enquanto for apenas “uma seqüência”, não.
Seria preciso indagar como é que a compreensão e aplicação de leis poderia ser vista como algo desprovido de argumentos. E sendo a matéria de suas discussões o que é, o campo inteiro da subjetividade e do sentido de humanidade, como é que poderia se pensar esses argumentos como totalmente sem relação com uma perspectiva filosófica, o que equivale afirmar que não tem a matéria qualquer aporte político.
Creio que uma posição como essa permite supor que se Foucault preferia que a tematização que se tornou reclamada pelas áreas que se autodesignam ciências humanas fossem desvinculadas do ideal de cientificidade, isso não se deve apenas à conquência do seu modelo epistemológico, mas também do intuito de preservação de suas temáticas desse "superego cientista" que exige, por exemplo, a coisificação da psique, condicionando sua apreensão através de coordenadas que lhe são extrínsecas, utilizando aqui a expressão de Guattari.
A questão é de como o Saber e o Poder fazem o seu encontro. Mas é preciso lembrar que nenhum desses dois termos está sendo visado conforme uma pura neutralidade prévia que viria, na sua positividade, juntar-se ao Outro que o duplica e que o faz assim mudar. Saber e Poder são focos orientadores de práticas múltiplas. O relevante, historicamente, é o modo como a surgência de um Status científico das Humanities - designarei assim as polemizadas ciências do humano - foi suportado pela transposição de todo o plano do Saber que se tornou disciplinarmente investido ao longo do século XIX. Ou seja, foi investido pelo Poder com papéis e atribuições novos, que não permaneceram extrínsecos à formulação de seus próprios conteúdos.
O Saber se tornou a voz do Poder, o seu emissário, o seu suporte de legitimação, o que o Saber não era de modo algum anteriormente. Numa contingência como essa a conveniência das ciências humanas é enorme. Elas podem levar o pronunciamento legítimo do Poder a todos os setores da subjetividade que se vê inteiramente sobredeterminada por um discurso que dá a impressão de falar do próprio fundo das coisas: da linguagem, vida, produção, mas também agora do texto, sexualidade, sociedade.
O Saber se torna investido pelo Poder quando, na formulação de Marcuse a propósito dessa temática hoje quase que universalmente enfrentada pelos historiadores e críticos da ciência, a Sociedade Industrial se torna a reificação de um projeto político historicamente localizado pelo qual a “experiência, a transformação e a organização da natureza” se tornam “simples suportes da dominação”. Essas expressões de Michel Bernard no capítulo sobre “Psicologia” do volume VII da História da Filosofia de Chatelet, consagrado à “Filosofia das Ciências Sociais” se endereçam no sentido de mostrar que, conforme Marcuse, modelando o discurso e a ação, a cultura e a ciência, um tal projeto jaz manifesto nos conceitos e no método científicos como inscrição do seu intuito de dominação universal. Hierarquias de Razão e de Estado agora interpenetram-se.
O que pertence originalmente à Razão, no enfoque de Marcuse, é algo da ordem da criatividade, o que acena para a sua vocação subversiva e antagônica da dominação. Mas desde que o conceito se torna o simples conjunto de suas operações, a síntese das suas formas de intervenção, como no operacionalismo, ele é limitado a uma eficácia niveladora das condições de possibilidade do aproveitamenteo objetivo do fenômeno com vistas à manipulação tecnológica.
Bernard utiliza o exemplo do operacionalismo, que sabemos ter sido proposto por Bridgman, apenas tangencialmente, para ilustrar como Marcuse focalizou o problema de uma sobredeterminação da Razão, o traçado de sua imagem no rumo de uma constituição positiva da cientificidade como algo ao mesmo tempo objetivo e objetivador – quero com isso fazer ver que o ideal de objetividade, como sendo o de uma neutralidade, é contraditório com aquilo no que ele desemboca, a objetivação no sentido de dominação da natureza visada como um simples objeto de interesse e usos humanos, mas assim definidos unilateralmente pelos representatnes do capitalista-técno-monopolista.
É preciso agora inserir essa problemática no caso mais conspícuo da psicologia. Pois a questão aqui é a batalha pela cientificidade como liberação da ideologia espiritualista.
Mais do que outras ciências, a psicologia enfrenta essa polêmica acerca das "humanities" por que se espera dela uma eficiência na ordem terapêutica, de modo que caucionar a sua pretensão nesse campo científico torna-se mais necessário do ponto de vista de seu desenvolvimento do que no caso da sociologia, da história ou da crítica literária. Até hoje, quase um século após o processo que Politzer instaurou contra a psicologia, o seu status epistemológico parece ser ambíguo – ele julgava que, conforme sua célebre expressão, “os psicólogos são cientistas como os selvagens evangelizados são cristãos”. Parece-me que não seria de todo sem proveito notar que isso não soa ofensivo apenas para os psicólogos, mas também para os evangelizados, ainda que ele estivesse referenciando a evangelização imposta pelos apart-heids neocoloniais, não o que ocorre em nível particular.
Assim, se nos acercamos do modo como a polêmica evoluiu, temos uma amostra do que estava em jogo quando se pensava em termos de garantir a cientificidade e o que se mostrou infenso a esse empreendimento.
Inicialmente o processo contra a psicologia científica foi ditado por uma orientação vinda da filosofia. Todos conhecem o relato dessa longa querela feito por Piaget, contando sobre os obstáculos que enfrentou, movidos pelos departamentos de filosofia, contra qualquer iniciativa de pesquisa experimental no campo da psicologia que esses departamentos considevam província sua.
Bernard ilustra um pouco dessa situação reportando como Mueller, advogando a causa de uma supervisão antropológico-filosófica da psicologia, que de outro modo nada mais seria do que uma “universalidade vazia”, encontrou a réplica famosa de Piaget que num texto magistral mostrou “as ilusões da filosofia” como conhecimento do real.
Creio que a posição mais ponderada quanto a isso veio de Robert Pagès. Ele, conforme Bernard, mostrou que é preciso demarcar cuidadosamente o que são a ciência psicológica, a técnica psicológica e a filosofia, implícita ou explícita, da psicologia.
O problema é que quando se fala sobre filosofia da psicologia, estamos supondo que podemos lidar com uma doutrina em separado quando, no que tange à filosofia, na verdade não se iria geralmente estar muito inclinados a concordar com isso. Descobrimos assim que o problema não afeta a psicologia vindo da filosofia sem afetar, ao mesmo tempo e profundamente, a filosofia, vindo da psicologia.
As ciências contemporâneas, que, queiramos ou não, abrange um quadro de disciplinas exercendo-swe como ciências do humano, instauram uma problemática complexa que afeta todos os setores do pensamento e das práticas éticas e políticas. Se bem que parece precipitado tentar estabelecer o que entre tantos temas axiais da vida na atualidade, conexos a essa problemática, é o fundamental, creio que se pode tratar como algo básico o que abrange o estatuto da Racionalidade, pois é daqui que se desdobram ao mesmo tempo o critério de atribuição da cientificidade e de crítica do que a ciência se tornou, assim como de uma razoável prognose do que ela pode ser.
A defesa da psicologia como ciência teve, por um lado, o apoio da motivação experimental, como em Piaget. Mas encontrou também ressonância nos teóricos do marxismo, se bem que aqui as posições não fossem sempre consensuais. A argumentação de Marcuse, por exemplo, permaneceu dialética. Ele se lançou na via de um processo da racionalidade objetivista da ciência comprometida com o projeto ocidental de dominação da natureza, e se preocupou, conseqüentemente, com fornecer uma conceituação da razão autêntica, que seria uma lógica da contradição impulsionadora da mudança, contrapondo-se à organização totalitária da sociedade. O oposto dessa dialética seria a imagem neutra/objetificante da razão, que a psicologia, conforme Marcuse, teria investido prioritariamente.
Prolongando as críticas de Marcuse, conforme Bernard, Deleule vai mostrar que há uma íntima conexão entre a pretensão científica da psicologia e sua destinação ao sistema. Mas Deleule não está fornecendo uma crítica da cientificidade do porte daquela de Marcuse. Ele ressalta que sempre houve na história da ciências da natureza um relato de ruptura com a ideologia dominante que lhe precedeu, Galileu sendo o caso típico. Essa ideologia se torna de certo modo uma das determinantes dos rumos da pesquisa científica que se põe a contrafazê-la, de modo que o seu conteúdo mesmo se torna, por uma via negativa, um ingrediente da lógica da pesquisa – assim a física de Galileu contra a física escolástica.
Ora, Deleule pensa que nada disso ocorre na psicologia que apenas importa a armação teórico-formal das ciências constituídas misturando-as à formula imperativa do ajuste do indivíduo ao socius. Assim, todos os seus construtos teóricos são produzidos como uma ferramenta do sistema para excluir o que é oriundo da capacidade crítica do pensamento mesmo, transpondo-o como algo a ser descartado no interesse de se tornar saudável. Mas é essa capacidade crítica do paciente que é saudável, ainda que se tenha visto confrontada ao sistema de dominação que, ele sim, seria o patológico.
Nessa via de argumentação Deleule vai propor uma psicanálise da psicologia para cientificizá-la efetivamente, estando assim estabelecido que o que ela manipula em termos de cientificidade tem sido apenas a mais pura expresão da ideologia. A psicanálise lhe poderia fornecer o que ela não tem, o objeto, a saber, o inconsciente. Ele, o inconsciente, é o objeto tão mais adequado à psicologia porquanto se destina como instrumento contra-ideológico, já que desfaz as armadilhas do ego e da consciência.
Mas Bernard registra o quanto a posição de Deleule se tornou insustentável ao enfrentar a dupla objeção pela qual há muitas vezes rejeição da psicologia pela classe dominante, que a culpa por fomentar insurreições individuais, e há vários exemplos de psicólogos que se opõem a atuar como veículos dessa forçada “integração social”.
Nessa circunstância, Deleule tentou diferenciar psicólogos e psicologia. A inconsistência do procedimento sendo tão óbvia, restou a defesa da psicologia aos adeptos do materialismo. Ora, aqui, curiosamente, a problemática da cientificidade da psicologia intercepta a polêmica teórica acerca do alcance legítimo do materialismo de Marx, se dialético, ou somente histórico, ou nem mesmo qualquer dessas opções. Voutsinas, Wallon, Le Ny, Andréani, e misturando essa inflexão à motivação fenomenológica, Tran-Duc-Thao, se engajaram nessa problemática.
O que me parece particularmente interessante é o modo como os argumentos aduzidos por esses pensadores tem, não obstante não serem as mesmas noções do que possa ser o marxismo, em comum o fato de portarem sobre a atribuição da psicologia como Saber apto a contrafazer os procedimentos mais adaptáveis aos descaminhos da metafísica. Reverte-se assim completamente a acusação de Deleule, pela qual a psicologia não exibiu uma ruptura fundadora para com a ideologia que lhe precedeu. Pois em todas essas démarches, aceita-se que a psicologia dependeu, sim, no curso de sua consolidação como ciência, de uma ruptura com um certo discurso ideológico, precisamente, aquele cartesiano que preconizava o dualismo do espírito versus matéria.
Manejando as armas da verificação experimental, baseando-se na assunção da legitimidade da inter-relação dos fenômenos em qualquer plano do real e apostando na factualidade objetiva de todos os fenômenos observáveis, a psicologia desfez o preconceito espiritualista e por esse motivo pareceu aos adeptos do marxismo especialmente passível de convergir com seu viés materialista que caracterizava a dialética por sua abrangência, igualmente, a qualquer plano do real. Tentou-se então visar como dialéticas as interações consciência-organismo-meio.
Essa orientação atinge o auge na explicação de Tran-Duc-Thao. Ele pensou a hierarquia dos centros nos animais superiores como correspondendo à série genética do comportamento. Assim, coluna vertebral, tronco e cerebelo, sistema opto-estriado e córtex correspondem a deslocamento reflexo, locomoção ou orientação, automatismo afetivo (apreensão), atividade voluntária (desvio e manipulação). Mas como, a cada nível, o centro inferior é inibido pelo centro superior, isso viria validar a definição da consciência como comportamento esboçado e reprimido, num processo atenticamente dialético de negação e síntese, pelo que cada estrutura que sobrevém reprime a que precede, absorvendo-a na interioridade vivida. A cientificidade da psicologia se garantiria como ciência do comportamento porque o comportamento mesmo é definido como dialética da matéria em movimento.
Tentativas assim naufragaram junto com a teoria do reflexo, a epistemologia do marxismo-leninismo ortodoxo. A hipótese de uma dialética da matéria foi justa e devidamente criticada por Sartre. Ela não esgota, porém, as possibilidades do investimento materialista marxista da psicologia, agora pela via das interações sujeito/história, personalidade/meio, indivíduo/trabalho.
Sève propôs essa transposição baseando-se em que o próprio materialismo dialético exigiria colocar a psicologia no território super-estrutural, relacionando o fato psicológico às flutuações históricas das relações de produção. Se o cerne da doutrinação marxista é a base econômica como explicação da sociedade e da história, a consciência estando mais como repositório de comportamentos e valores, a psicologia materialista precisaria inicialmente tomar a realidade pelo seu verdadeiro núcleo, a inserção do sujeito no trabalho, na práxis social.
Le Ny e Andréani se encarregam de criticar essa integração da personalidade às categorias econômicas, conforme Bernard. Sabemos que o determinismo infra-estrutural se tornou o ponto fraco do marxismo, pelo que creio que hoje a necessidade de uma renovação desse esquema se encontra quase que universalmente aceita. Na perspectiva de Le Ny e Andréani o problema de uma abordagem como a de Sève está em que, assim fazendo, se compromete o que se apontou como a via de ruptura da psicologia com a ideologia que lhe precedeu, a do espiritualismo essencialista, que supõe uma qüididade do humano independente da matéria. O enraizamento biológico da psicologia não pode deixar de ser investido, mas, ao mesmo tempo, conforme eles, a idéia de que existe uma síntese marxista disponível, integrando dialeticamente espírito e matéria, deve ser esvaziada.
Seria preciso mostrar que o “materialismo” foi posteriormente arranjado para funcionar como explicação de mundo quando, originariamente, de concreto, Marx forneceu apenas uma “ciência das estruturas sociais”, conforme Andréani. Mas por esse meio, ainda é o marxismo que fornece a legitimação epistemológica das ciências do humano. O ponto de artumentação de Andréani é bastante válido, a meu ver, naquilo que opõe a Sève. Pois ele define a cientificidade numa base bem mais acurada, aquela pela qual não ocorre pura identificação com o domínio empírico, mas tampouco simples descrição de efeitos super-estruturais.
Como em Althusser, é porque há algo que a ciência contrafaz, o discurso ideológico em nível empírico, isto é, observável em quaisquer condições, que se pode postular algo como a cientificidade. Assim, a definição do científico está no fato de que é a ciência a reconstrução de estruturas ocultas, inconscientes, que explicam o visível e os efeitos de consciência. Ora, Marx não forneceu nenhuma estrutura desse tipo para dar conta da psicologia, ele o fez apenas na região da teoria econômica. Temos assim ao mesmo tempo a interdependência da psicologia e da biologia e a garantia de sua cientificidade pelo descerramento da ilusão ideológica do espírito-consciência proveniente dessa interconexão. Mas como essa ilusão ideológica veio sempre suportada por uma explicação de mundo totalizante, seria reverter o procedimento mesmo do marxismo supô-lo como uma explicação assim. Creio que esse ponto é fundamental no resgate das relações entre contra-ideologia, marxismo e ciência.
Por outro lado, Sève apresenta uma crítica de Foucault. Portando uma justificação epistemológica geral na base da explicação materialista-dialética de todos os fenômenos cientificamente compartilhados, ele pensa ter como definir assim mesmo o que chama de a ciência do Homem. Ora, sabe-se que Foucault rejeita essa conclusão, construindo um esquema pelo qual é a dependência mesma das ciências do humano ao triedo dos saberes que impede tratá-las, a sério, como ciências.
Sendo discursos de representação, elas representam-se os objetos das ciências empíricas, biológicas, econômicas e lingüísticas. Reduplicam-se, ainda mais, como saber de si mesmas produzindo psicologias da psicologia, sociologias da sociologia, etc. Mas quando o modelo lingüístico entra em cena, por volta da segunda metade do século XX, isso implica a transformação de toda a problemática científica em linguagem. Foucault se pergunta então, conforme Bernard, se não seria isso um ultrapassamento da Representação, de modo que o estatuto do Homem, objeto inventado pela epistemologia da modernidade onde emergiu o triedo dos saberes, se veria assim ameaçado como um a priori histórico não mais plenamente atuante.
Bernard observa que aquilo que Sève objeta a Foucault é que epistemologicamente ele deixa de considerar a decalagem entre a forma ideológica que seria o Homem do postulado do Saber, e a realidade em que ele existe, as relações sociais e históricas. Assim, que a forma seja ultrapassada não implica que esse conteúdo, as relações efetivas, tenham mudado, concomitantemente. Mas ocorre também que Sève considera profundamente acomodatício que as estruturas sociais, em vez de estarem dialeticamente encadeadas numa lógica da história universal, sejam agora realidades descontínuas, portanto, para Sève, sem sentido humano intrínseco.
Parece-me que a observação sobre a relação entre postulado do Saber e formas do Poder foi injustamente colocado por Sève como tendo sido assim tão correlacionadas por Foucault. Quanto à necessidade de uma lógica universal da história, a questão é que ela está pressuposta como já estando lá, portanto tendo que ser explicitada como um fundamento e no que tange à sua natureza, quando nada tenha sido feito para demonstrar essa necessidade. Aqui a ilusão é mesmo fundamental, pois trata-se de mostrar que, inversamente o pressuposto por uma objeção assim, é o sujeito mesmo que de modo algum poderia ser aceito como evidente. Creio ser essa a pressuposição de todas as ideologias , conforme a observação de Guattari, que pretendem funcionar de maneira unívoca.
Bernard nota que Sève não deixa, sem perceber, de validar a tese de Foucault acerca da ambigüidade da psicologia. Nem ciência, nem, propriamente, apenas ideologia, para Foucault, podendo ser ambas, para Sève, conforme elejam o caminho meramente especulativo ou o estudo da realidade concreta do sujeito. Mas, conforme Bernard, isso ainda permanece como o testemunho de sua ambigüidade fundamental.
Contudo, Bernard sugere uma via alternativa dessa ambigüidade. Ela se põe entre vontade de objetividade, necessária ancoragem nos modelos formais das outras ciências e comprometimento com valores que são, a cada vez, os da pessoa do psicólogo. Encarar toda essa ambivalência não seria o mesmo que já estar procedendo de modo a superá-la? Ruptura com a importação não-crítica de pressupostos e deciframento dos mecanismos de inserção ideológica parecem a Bernard os componentes da receita paradoxal a fim de restituir o Status científico a esse saber da psicologia que teve na própria ambição de ser ciência a denunciação de “seu peso ideológico e sua ambivalência”.
Encontramos aqui uma via de legitimação da psicologia, e a meu ver, também das ciências do humano, não especificamente devedora do fio vermelho da inteligibilidade dialética. O resumo conclusivo de Chatelet ao volume VII da sua História da Filosofia aponta para os três tópicos dados como consensuais enquanto resultantes do processo de constituição das ciências do humano no século XIX e sua consolidação crítico-epistemológica ao longo do século XX: superação do ideal especulativo de uma síntese de metafísica e ciência; superação do ideal positivista de deslocamento cabal da filosofia pelas ciências; dependência das humanities a uma contínua autocrítica como possibilidade de sua cientificidade.
Mas o que se torna bem oportuno é a constatação de que as “questões propostas pelas ciências sociais às sociedades que as produziram são da ordem da espera por legitimação intelectual e técnicas de integração”. É sobremodo interessante, a meu ver, como Chatelet parece estar assim invertendo o habitual modo de colocar que era a sociedade industrial e o sistema de dominação da natureza que esperava sua legitimação das ciências, em particular das humanities, e que até mesmo havia sido para isso que a sociedade as havia engendrado. Não obstante, essas mesmas questões, prossegue Chatelet, foram “no mesmo momento”, isto é, na emergência das ciências do humano, também colocadas “por outros pensadores”, o resultado tendo sido o questionamento do fundamento “da ordem industrial e burocrática”, a saber, “uma” certa “racionalidade” - essa desse fundamento. É aqui que Chatelet localiza o intuito dos pensadores do século XX, de que se ocupam os subseqüentes volumes da sua História da Filosofia. A questão se tornou, pois, redescobrir a inteligibilidade soterrada por essa imagem técno-burocrática da razão. Contudo, unir assim os propósitos de Freud, Wittgenstein, Lênin, Heidegger e “pensadores mais próximos no tempo” – Chatelet escrevia entre as décadas de 60/70 – permanece algo surpreendente.
Conforme o que temos visto, poderíamos afirmar que a problemática das ciências, e as do humano em particular, parece ter instituído uma linha de demarcação entre posições de franca recusa, em nome de uma inteligibilidade mais autêntica, e a dos que a aceitam, mas tornando-se estes, por sua vez, agora opostos conforme incluem ou não as humanities nesse status. Quanto a isso, seria interessante observar que uma postulação crítica mais atual desse problema se encontra na obra de Guattari, notadamente em As Três Ecologias (1990) onde o tema das ciências e mesmo do povo “psi”, os terapeutas e pesquisadores da área, retorna freqüentemente ao longo do texto, como um ritornelo. Essa é uma amostra importante do pensamento de Guattari sobre o problema porque raramente ocorre que o tema da cientificidade esteja, nos escritos com Deleuze, conexos ao das ciências do humano. Em Mille Plateaux, quando se trata de esboçar o modelo alternativo da "ciência nômade" frente à "ciência real", a do Estado, os exemplos são todos oriundos das matemáticas ou das ciências da natureza. Em O que é a Filosofia existe uma apresentação específica da questão que imbrica cientificidade e racionalidade – o que é a filosofia responde também a o que são a ciência, a lógica e a arte. Mas também ali reserva-se o movimento textual, no que concerne à função das ciências, a exemplos extraídos dos mesmos setores. As Três Ecologias, que registra copyright anterior ao de O que é a Filosofia , já exibe operadores que serão desenvolvidos nesse volume escrito com Deleuze, mas de um modo que permite estender mais amplamente a conexão com a problemática das humanities.
É sobremodo importante observar que não creio uma aproximação de certos temas e motivações da obra de Deleuze-Guattari com Apel totalmente impossível. Seria importante o paralelo das estratégias de demarcação entre ciência e filosofia, assim como do projeto de instrumentação filosófica das ciências, tal como se depreende nesses dois registros. Não obstante, os resultados e intenções desembocam em caminhos alternativos que convergem no momento mesmo em que bifurcam. A conceituação do que está em jogo nesse instante de remissão temática e implicação mútua se torna extremamente vantajosa para aquilatar o estado da problemática epistemológica que permanece atual.
Apel situou a ênfase desse projeto numa postulação hermenêutica das ciências do humano. Ele não parece ter tratado como uma questão a caracterização dessas ciências como interpretativas. Mas aquilo de que parte a condução do tema me parece um tópico de apreciação nietzscheana. Assim como Nietzsche fornecendo a crítica do homem histórico, que não sabe o que fazer de si porque, tendo objetivado a origem de todas as suas verdades e valores por meio de uma clarificação historico-cientificista num tempo que não mais guarda conexão com o presente, dados os próprios meios pelos quais a pesquisa histórica conduz o relato independente de qualquer pretensão a interpretação humanística, Apel oferece o exemplo do Homem sem Qualidades encenado no teatro de Musil.
O problema que Apel localiza nesse personagem, creio que se pode caracterizar como necessidade de uma endoconsistência existencial , pois ele não pode fazer frente ao presente. Não seria essa a situação do parnasiano típico? Enquanto o poeta se refigiou na arte ele construiu com as peças descosidas da história, precisamente, aquele “museu imaginário” que se transformou, então, simplesmente, em todo o fundamento existencial do humano junto com o desmoronamento da metafísica e da legitimação ideológico-meta-institucional.
Mas esse “recalcamento positivista do engajamento histórico”, na expressão de Apel, que teria sido o responsável pelo fato de as humanities não terem feito nada mais do que conduzir para a situação do museu imaginário, não poderia ser melhor sobrepassado pela “exigência incabível” - existencialista ou marxista – de uma qualquer “aplicação obrigatória do seu Compreender”. Inversamente, esses dois contra-aspectos, que parecem assim votados a uma eterna peleja, corrompem igualmente, pelo comprometimento mais ideológico, as ciências do humano, conforme Apel. Mas o que ele vê como remédio dessa deplorável contingência é uma integração racional dos resultados dessas ciências.
O verdadeiro problema seria então uma dispersão de objetivos que se tornam inqualificáveis do ponto de vista do ser-uno do sujeito, o ente empírico que vive inapelavelmente para si, e a impossibilidade de cooptar-se desse modo uma racionalidade pelo fato mesmo dessa dispersão de métodos, temas, procedimentos e motivos.
É interessante como essa constatação ressoa com a obra de Foucault, pois o problema que se constata em As Palavras e as Coisas é o estatuto, tornado ao mesmo tempo fundamental e ambíguo, do Homem. Apel pensa, contudo, que essa ambigüidade é perfeitamente contornável se ela resulta de uma dispersão do Saber. A filosofia, particularmente a filosofia da história, está aí mesmo para reconduzir os membra disjecta à unidade. Mas, conforme Foucault, a ambigüidade não resulta da dispersão, ela é o que tornou a dispersão possível. Assim, numa perspectiva como a de Foucault, psicanalizar a história para reintroduzir uma integração do humano-natureza, como pretende Apel apenas substituindo a psicanálise tout court pela hermenêutica da comunicação, seria permanecer no mesmo apriori que instaura o limite não-científico e puramente representativo das humanities.
O papel da linguagem se torna especialmente relevante, porque se é na possibilidade da guinada lingüística que Foucault viu a confrontação desse apriori epistêmico da modernidade, não a garantia, finalmente, da cientificidade do humano, mas a ultrapassagem definitiva do universal humano como paradigma epistêmico, Apel pretende reintroduzir o humanismo via jogo de linguagem transcendental que seria apto a vincular, ou mediatizar, as línguas particulares – e os jogos de linguagem embutidos na sua modelização, supomos – conforme um “instinto”, uma gramática gerativa universal devida à hipótese de Chomsky.
Essa seria uma linguagem conceitual que corrobora a possibilidade de uma eidética intersubjetivamente válida como operações formais últimas, irredutíveis e absolutamente válidas. Assim, a Transformação lingüística é da Filosofia enquanto transcendental, na medida em que se propõe como um mínimo de operações conceituais, lógico-pragmáticas, que se põem a efeito na argumentação que não pode, como tal, se fazer fora da linguagem.
Em todo caso o sujeito é reintegrado como operador argumentativo que, sendo assim, não pode não ser o responsável por esse seu, ouso expressar, engajamento lógico. Ora, a inconsistência dessa expressão, algo humorística, não deixa de revelar o que me parece o maior problema desse resultado, se bem que Apel tenha permitido ao longo do desenvolvimento compreender com muita abrangência e pertinácia a problemática filosófica do Ocidente contemporâneo. É que isso não pode deixar de implicar aquilo mesmo que parecia se destinar a conjurar, a saber, a maior reificação do sujeito, que fica assim chapado naquilo que lhe é tão extrínseco quanto qualquer processo de gênese e funcionamento autônomo. Seria preciso responsabilizar o sujeito pelo todo da realidade para vê-lo como identificação de seus procedimentos argumentativos no qual ele, no entanto, é coagido a se engajar.
O único modo de não se colocar isso como uma gigantesta tirania seria pensar que o sujeito, como os filhos de Adão, é culpado pela culpa dos seus ancestrais. Qualquer argumentação extrapola os vetores de subjetivação que compõe aquilo que habitualmente tratamos como “o” sujeito. A argumentação se conjuga no entremeio, como numa situação concreta, em condições que não foi o sujeito que traçou, portanto, ela não poderia ser utilizada para o identificar como sua natuza e sentido existencial, enquanto modo de ser mais fundamental do seu pensar. De modo algum há esperança para o sujeito unificado da ideologia, pois tratando-o como o sujeito de responsabilidade argumentativa só se está lidando com mais um objeto no meio de uma síntese de operadores lógico-lingüísticos. Que isso é natureza humana ninguém ainda veio a provar.
A possibilidade do acordo permanece na instância das variáveis que o compõem, forças e processos que não podem ser totalizados por ninguém. Quando se tem a impressão de tê-lo feito, o que se instaurou foi uma forma de dominação do que se fez, por conseguinte, calar. Não me parece minimizável o papel da argumentação e do diálogo na prática humana, nem seu potencial revelador do que põe em jogo, os valores e determinações históricas das situações. Mas isso não implica erigí-los como modelos do pensamento, ou modelos existenciais, ainda mais quando se pretende assim fornecer uma integração de todos os jogos de linguagem múltiplos, parciais. Nesse sentido é interessante verificar que o texto de Guattari identifica imediatamente o problema quando, em vez de “integração”, utiliza o termo “integrismo” como aquilo que compromete o inteiro problema da subjetivação.
Apel deve contrafazer o sujeito cartesiano, aquele que só está aí perante o objeto, do mesmo modo que Deleuze-Gauttari. Nessa via, ele estende a problemática da inserção cultural, da forma de vida e dos jogos de linguagem, onde emerge o sujeito de interpretação do seu mundo. Guattari designa assim, também, a conexão impossível de desfazer entre os componentes de subjetivação e os “territórios existenciais” emaranhados ou interconectados como as placas teutônicas sob a superfície do continente.
Apel solve o objeto neutro, a qüididade, por meio do situamento junto ao outro do sujeito, que assim se põe em meio ao que dispõe, mas esse outro é sempre o mais próximo. E a essência, o Eidos, retorna pela via das ligações lógico-argumentativas que pretensamente estão podendo, transcendentalmente, ignorar toda a diferença dos jogos e das proximidades. Logo, quando esse pseudo-outro devém distante, é preciso muito depressa aproximá-lo. A distância do Eu ao Eu, isso não deve nem pode aflorar quando se trata de liquidar o conceito como novidade absoluta para fazer dele um operador pragmático de argumentação.
Apel, como Deleuze-Guattari, se interessa por desfazer um certo “ideal caduco de cientificidade”, conforme a expressão de Guattari. Em todo caso, o que caducou foi o positivismo, a objetividade pura, a universalidade como horizonte de neutralidade do significado - o que restou apenas como discurso da dominação, imediatamente identificável por sua falta de lastro teórico, uma vez que as premissas desse discurso já foram sobejamente criticadas, sem que se tenha superado essas críticas. Mas Apel pensa que o meio de transpor esse ideal é a unificação mais absoluta do termo sujeito humano na base de uma, não menos, Universalidade. A filosofia da história resolve todos os sujeitos num mesmo projeto de racionalidade, instrumentando cientificamente, por isso que é racionalidade universal, todas as ciências dispersas enquanto expressões do mesmo ser que argumenta e opera numa viabilidade de comunicação formalizada como uma Comunidade supra-local, ela mesma transcendental.
Não há como não ver que identificar cientificidade e racionalidade universal é a base mesma do projeto positivista e o meio pelo qual se reificou o sujeito como possibilidade de definir o que ele seja de um modo que lhe é completamente extrínseco, ainda que isso esteja na freqüência da sua atuação – entretanto o modo dessa atuação não me parece estar, tampouco, perfeitamente designado, senão de modo idealista, quando se o faz caracterizar por uma eidética, um repositório formal de conceitos agora dados como ligações argumentativas. Assim, como quando se pensa o conceito no operacionalismo, é a capacidade inventiva, o seu nada ter a ver com um argumentar, que se torna impossível de tematizar assim. A oposição de natureza entre a ciência em se fazendo e a ciência já feita, tornou-se um locus indeslocável na epistemologia, ainda que essa oposição assim nomeada por Molles, neste encontre apenas uma de suas apreensões exemplificáveis.
Se a gênese do conceito fosse argumentação, o que a resolução dialética da aporia ideológica requer, como é o caso de Apel, todo o processo seria sempre uma reação. O que é ativo no conceito seria impensável. Esse enfoque nietzcheano se prolonga em O que é a Filosofia, de Guattari-Deleuze, quando se trata de recuperar sua endoconsistência, sua autopoiese. Por isso é importante diferenciar conceito filosófico e função científica. Somente a função científica tem uma exoreferência.
Em As três Ecologias Guattari também procurará deslocar o positivismo por uma instrumentalização filosófica da ciência. Mas ele começa por sustentar que o sujeito só se torna a reificação de si mesmo quando o pensamento se obstina na autoapreensão. Fora isso há inúmeras maneiras de existir que se instauram fora da consciência e é por isso que é melhor usar a expressão componentes de subjetivação, que são visados na independência de qualquer eixo ou horizonte de sua totalização, do que simplesmente “sujeito”. É preciso separar os conceitos de indivíduo e subjetividade e pensar a subjetivação tanto individual quanto coletivamente.
Mas essa proposta, que encontra ressonância no próprio campo científico, à exemplo de Prigogine e Stenghers, já está numa via de superação e crítica do parâmetro científico da psicologia, desenvolvendo-se num novo sentido, pois é o próprio conceito de cientificidade que está sendo reformulado, para se propor numa abrangência ético-estética, em todo caso reservando-se expressamente às condições de sua produção.
Aqui a coerência da ambientação epistêmica do século XX, "experimental" e laboratorial, é o que parece estar se questionando, naquilo que pode suscitar uma terminologia de "pós-modernidade". Por outro lado, já se deixa apreciar assim, a posição da fenomenologia quando, via existencialismo, veio a se tornar uma influência nas humanities engajadas numa crítica à razão técnica. A psicologia humanista (Laing, Cooper, Bateson), não é uma forma de renovação ou transformação da episteme, mas uma recusa desta como "Anti-psiquiatria". Assim, Guattari em Caosmose registrou que não obstante ter havido uma ambientação comum nos sixties, de crítica do vínculo saber-poder, nessa área isso se expressando como comum recusa da autoridade do "avental branco", da "psiquiatria de setor", etc., ele mesmo não se considerou um "anti-psiquiatra".
A propósito do estatuto das humanities nesse cenário mais atual, cabe registrar como importante o fato de que se o pós-estruturalismo manteve geralmente a recusa foucaultiana desse estatuto em termos de cientificidade, sem que isso implicasse recusa da cientificidade em geral - como se pode ver pelo esquema de as palavras e as coisas - talvez a partição de endoconsistência e exoreferência de O que é a filosofia, mostre em que o pós-estruturalismo realmente pode ser criticado quanto a isso.
Como assinalei, entre ambos não se trata de uma variação dentro de um mesmo campo que seria o saber, mas dois campos irredutíveis. A exoreferência da função instaura o campo científico, a endoreferência do conceito instaura o campo filosófico. Mas "função" aí significa o f(x) matemático, que possivelmente conceitua a inteligibilidade das ciências da natureza modernas. Seria complicado pensar f(x) como universal da pesquisa em humanities. Mas isso por que um dos requisitos metodológicos das ciências humanas que mais tem sido enfatizado, não cabe em nenhum desses dois processos supostos básicos e entre-excludentes, da intelecção ("pensamento").
Se por um lado as humanities não devem certamente produzir uma noção auto-construída como um "conceito", se elas se relacionam ao que apresentam como uma realidade exterior, por outro lado elas não o fazem de modo tal que essa realidade possa, para elas, ser considerada "dado" assim como a montanha para o geólogo, o que se vê no microscópio para o biólogo, ou o que é inferido de reações imediatamente verificáveis pelo físico. Em ciências humanas, sabemos bem que só temos acesso ao que julgamos uma realidade, por exemplo sociológica ou psicológica - a luta de classes ou o ideal-tipo; o self ou o isolável comportamento operante, etc. - por meio da teoria em que essa realidade é justificada como pensável estar na exterioridade fenomêmica correspondente.
A teoria é armada em torno do pressuposto de já se estar na posse do observável -o grupo social, as taxas de ocorrências, a situação de laboratório - mas, de fato, o observável está de modo intrínseco condicionado por um fator textual que orienta a teoria em que ele se apreende como tal. Pode-se contrapor que como vimos, o que opõe experiência empírica ou sensível, e experiência científica é que somente esta é controlada, mas não se segue que nas ciências da natureza se tenha a priori, para todos os campos, a afirmação de uma dependência textual (textualizável e a textualizar necessariamente) da existência objeto. Assim vemos que é um erro supor que o objeto de uma ciência humana seja a coisa dada ao senso comum como "a sociedade" para a sociologia, pois cabe a esta, justamente, nos dizer o que é a sociedade.
O interessante quanto a isso, é notar que estudar a história da psicologia acresce à epistemologia um interesse a mais, porque se para a sociologia ou a antropologia, assim como para a teoria literária, sempre pareceria contraponível que a produção estética com seu fenômeno de recepção, e as coletividades humanas, estão sempre "lá" de qualquer maneira, poderíamos indagar ao objtor o que está "lá" como o objeto da psicologia, antes dela o definir. Se dissermos que é o homem na sua existência física, ele seria o objeto da biologia e da medicina; mas se dissermos que é alma, ou eu, ou personalidade, ou reflexo da realidade social, ou inconsciente, ou meramente natureza, do comportamento ou inversamente, mental, etc., esses são conceitos imediatamente apreensíveis como psicológicos, secundários em relação a crenças cotidianas quase infinitamente variadas, que elas mesmas precisam ser explicadas, nada explicam. E o mais importante: seja qual for a teoria escolhida, ela não se reduz a uma definição conceitual do objeto; é apenas o protocolo da pesquisa, implicando se cabe ou não a matematização de dados, quais são os limites de generalização, etc.
Entre exoreferência e endoconsistência, portanto, há bem mais que uma bifurcação irredutível. Mas isso implica também questionar a unidade do apriori histórico foucaultiano, não só no que ele diz explicitamente, pois está claro que o paradigma da Representação não é compartilhado por muitos ramos da pesquisa em humanities. Mas também no que está implícito, a saber, que necessariamente as humanities implicam uma reduplicação da science em termos do que se arroga justificá-las como produções do Homem. Não há o universal Homem estruturando o discurso das humanities, pois também se pode negar haver um discurso que possa unificar como algum a priori, todas as teorias se elas variam inclusive como decisões quanto ao próprio caráter da universalidade do objeto, que algumas "culturalistas" negam, implicando nessa negação a sua reserva metodológica em relação à science. Já a epistemologia não é uma ciência humana, é um dos ramos da filosofia.
Coube a Bakhtin destacar esse componente textual como constituindo o horizonte da pesquisa em humanities, como aquilo com que elas dialogam na sua construção ela mesma texto-teórica, nesse diálogo baseando o seu exercício. Isso, inversamente à science que tem seu horizonte na objetividade, isto é, no que pode ter um caráter imediato de dado independente.
É necessário ainda, não obstante o nosso foco ser mais a história da psicologia, registrar a reserva terminológica de "ciência", quando se trata de postular uma metodologia autônoma às humanities, enquanto que, por outro lado, há cientistas desta área que compartilham a opinião dos positivistas, pela qual toda ciência é a mesma coisa. Aqui a natureza da pesquisa é o importante, pois mesmo os que defendem a reserva do método ou autonomia das humanities frente às ciências da natureza podem objetar que dadas as premissas que já ventilamos, ainda assim pode-se falsear. Como se sabe, que o enunciado seja falseável é o requisito de Popper para a ciência em geral, num parâmetro positivista.
Por exemplo, Apple realizou uma pesquisa numa escola para testar a validez do que deveria ser esperável desde a formulação teórica dos "aparelhos ideológicos de Estado", de Althusser. Apple concluiu, podendo demonstrar pelos dados da pesquisa, que não se verificavam vários aspectos daquela formulação, de modo que possivelmente uma escola não se descreve bem como um "aparelho" assim. Pode ser que mais pesquisas, realizadas com propósito de testagem da contra-hipótese, etc., devessem ser realizadas,mas nada impede que seja esse enfoque "empírico" da ciência normal o que se realiza em pesquisas na área de humanities,não obstante a questão metodológica.
Mapeamos aqui as posições relativas à problemática epistemológica das humanities, conforme as posições encontráveis:
a) recusa do caráter científico das humanities, variando essa recusa como defesa (hermenêutica) ou como ataque a elas (Foucault); b) aceitação do caráter científico das humanities, variando essa aceitação como conexa a uma reserva de autonomia metodológica frente às ciências naturais (numerosos exemplos, ainda com variantes internas) ou como afirmação da comunidade das áreas num mesmo parâmetro metodológico de ciências (positivistas).
Os exemplos entre parêntesis não implicam que todos os que manifestam opiniões pertinentes a cada uma das posições, devem ser reduzidos a estes rótulos ou dados como seguidores d eum autor, mas são apenas registros de mais conspícuos casos de adesão à posição em tela. A mim parece que a aceitação do caráter científico das humanities, com autonomia metodológica, é em geral a posição mais consequente.
3 ) A psicologia do século XX
Ocorre também que ele relaciona muito esse novo objetivismo cientificista com a adoção da perspectiva materialista dialética, na base de que esta é o que, concomitantemente, estava contraditando “com ardor a consciência e seus eflúvios idealistas”.
Algo que me parece vago é a equiparação que Cosnier propõe, baseando-se em Zazzo, entre a recusa da consciência na psicologia e o que ocorre na filosofia fenomenológica de Husserl, para mostrar como essa crítica é, nesse momento, geral. Contudo, o que parece estar em jogo na fenomenologia é a sustentação de premissas opostas ao que compacta o salto na teoria psicológica, e isso porque a teorização do Ego transcendental se propõe no caminho mesmo de uma “investigação da consciência”, assim como reza o roteiro das Meditações Cartesianas de Husserl.
Ora, o pragmatismo surge assim, ao que me parece, numa vertente bem mais adequadamente aproximada do período em questão na história da psicologia, do que o pensamento dialético, descartando-se de vez que isso esteja numa qualquer confluência com a fenomenologia, senão por uma via inteiramente negativa da recusa da ciência por essa corrente filosófica.
Ambas as transições, na filosofia pragmática e na ciência psicológica, configuram o mesmo salto epistemológico que parece compactar a transformação histórica da contemporaneidade. Logo, será preciso estabelecer adequadamente as relações entre esses dois campos e o pensamento social, o que se logra através da observação do que ocorre no âmbito do movimento pragmático. Vislumbra-se uma espécie de campo da cientificidade do humano, em que suas problematizações específicas se mantém fortemente interligadas.
A superação da “escolástica” - a que se reduziu tudo que precede o pragmatismo - parece-me adequadamente formulada pela afirmação de que nele o conteúdo das palavras que antes designavam a realidade pura desapareceu, nesse mundo em que os termos só nomeiam experiências, não possíveis, mas efetivas. Se tais expressões resistem por seu encanto, elas são designadas poesia. Não seria o surrealismo uma aceitação-celebração de que o lugar da poesia é o vazio do significado em prol do livre jogo significante?
Ora, a conexão entre pragmatismo e psicologia está bem documentada em James – Cosnier utiliza uma citação sua como ilustrativa do trend desse segundo período: “Parece-me chegado o momento de negar, franca e publicamente, a consciência.” Contudo, o que me parece ter encaminhado a revolução do simbólico é a transposição da problemática do pensamento – por conseguinte, da lógica e da verdade, ao campo da linguagem, o que se operou com Peirce.
É assim que a tentativa do neokantismo no sentido de liberar uma – a meu ver – metafísica do símbolo pode ser adequadamente confrontada a esse viés pragmático de Peirce, unicamente de que se alimentaram as ciências do humano desde aí, naquilo que caracterizou o seu afã teórico por meios de compreensão das práticas, não por formas de explicação generalizantes de atributos.
Contudo, não se pode deixar de notar que os outros movimentos, como o idealismo e o materialismo, constituíram caminhos historicamente válidos nessa área. Ocorre que em seu desenvolvimento não deixaram de incorporar como puderam o viés simbólico que é subversivo de suas intenções originais, enquanto que é nele que se institui a movimentação mesma do pragmatismo nascente.
A psicologia intercepta o viés pragmático no momento em que desloca sua atenção às práticas, condutas, conforme a expressão de Wallon a propósito do “cambio de frente que se há operado em el estudio de la vida psíquica” , em seu texto "La Consciencia y La Vida Subconsciente”, publicado numa coleção bastante representativa de textos organizada por Georges Dumas, designada “Nuevo Tratado de Psicologia” . Assim, conforme Wallon explica a inovação de Janet, não se pode explicar tal mudança melhor do que pela focalização dessa “sustituición de las sensaciones y las imágenes, por las conductas como elementos de la actividad mental”.
Retornando sobre os escritos de Peirce e James, respectivamente os Escritos Publicados e os Princípios de Psicologia, temos ali como sua enunciação inovadora que a apreciação filosófica habitual desses tópicos – sensações, emoções, imagens, conceitos – no que deveria ser uma teoria do conhecimento, deve substituir as asserções tradicionais básicas de que, como Descartes pressupôs, tudo se equivale como pensamento frente à materialidade das coisas, e pelo que tais realidades subsistem como unidades simples, fatores discretos cuja associação deveria compor a tessitura da consciência.
Por essa via o que deveria restar a explicar é o como da composição e sua relação com a realidade subsistente na exterioridade. Mas agora o que se propõe é que cada uma dessas entidades têm uma dinâmica própria, sendo que só poderíamos englobá-las na base de que, longe de serem reflexões em níveis diversos de uma atividade constante de representação das coisas ou ideativa, elas correspondem a movimentos corporais, ações cerebrais em um meio orgânico, a comportamentos.
Ademais, não ocorrem jamais como unidades discretas. Conforme Wallon observou, não existem sensações brutas, como dados simples, ou, colocando nas palavras de Peirce, do mesmo modo que com a razão filosófica, não se deveria conceber o fluxo da vida psíquica como “corrente de elos igualmente sólidos” e sim “como uma corda, mesmo deslgada, mas cujos fios são numerosos e bem entrelaçados”.
O essencial aí é que essa continuidade não se propõe como um todo homogêneo, dado como a consciência ou síntese da representação. Nenhum estado de consciência possui existência absoluta, definitiva, imutável, como Wallon observa, e James o reafirma quando, na sua refutação do atomismo mental, mostra que jamais obtemos sensações corporais exatamente iguais, pois para uma sensação idêntica ocorrer novamente, seria preciso que o cérebro fosse imutável, enquanto ele é concebido como um complexo de processos em ato.
Assim, “uma idéia ou 'Vorstellung' permanentemente existente que faz seu aparecimento no palco da consciência em intervalos periódicos, é uma entidade tão mitológica quanto o Valete de Espadas”, conforme a expressão de James, criticando a perspectiva de Locke. Tratar os fatos mentais de modo atomista, e os estados de consciência superiores como se fossem todos construídos a partir de idéias simples e imutáveis, não resta mais do que uma aproximação, assim como “tratar as curvas como se fossem compostas de pequenas linhas retas”.
Seria então o momento de inserir a problemática do signo. O que Peirce focalizou foi esse meio contínuo que é o pensamento, de modo que sua abordagem de conceituação da fluidez ou caráter intrínseco desse fluxo consistiu numa definição do pensamento como a interpretação ou representação de alguma coisa por outra coisa, isto é, cada pensamento ou “idéia” age como signo em relação ao seguinte.
Cosnier, como é usual quando se trata de historiar a psicologia, situa a interseção dessa ciência com a problemática da linguagem somente num momento posterior, e isso por meio da Teoria da Comunicação. Mas nesse tipo de enquadramento a psicanálise costuma ser tratada num capítulo separado, de modo que a sua interdependência com a temática do signo e da linguagem, já desde a viragem do século, permanece como que à margem da corrente principal na narrativa do desenvolvimento dos métodos e escolas.
O texto de Wallon insere de modo mais harmonioso a psicanálise no curso da ruptura com a perspectiva “metafísica” que ainda se inseria no associacionismo pelo que “la vida psíquica” é “hecha y compuesta de elementos tomados em sí mismos, definidos de una vez por todas”. Aqui podemos apreciar como os dois momentos de teorização de Freud progridem. Inicialmente, uma teoria funcional que lida com relações entre estruturas, inconsciente, pré-consciente e consciente; e então a transposição para uma teoria interacional que lida com relações entre fatores, o id, o super-ego e o Ego. Ora, o simbólico vai ter aqui um papel de extrema importância, mas naquilo em que a linguagem não desempenha uma simples função a se explicar, e sim, como produção de símbolos, atua entre sistemas cujas correntes, ou lógicas, podem ser antagônicas, como aquela que se destina a reprimir conteúdos e aquela que força por fazer o reprimido ser liberado em algum estado consciente.
Quanto a Peirce, muito inversamente a que essa relação entre uma teoria do pensamento e a introdução da realidade do signo, logo entre teoria do conhecimento, lógica simbólica e psicologia, seria uma apropriação linguageira do apriorismo kantisno, sua mera posição deveria conduzir à constatação de a que se deve. Onde notamos que vem da recusa de qualquer conteúdo representativo-ideativo permanente como informação subjacente ao que se manifesta em termos de consciência. Ou seja, deriva da visualização do que ocorre como práticas, atuações, movimentos num fluxo interativo perene.
A liberação do simbólico sobre esse fundo de atividades depende então, exatamente como notou Wallon a propósito de Freud, de que “en los hechos complejos de la vida mental, el criterio de veracidad no puede ser sino múltiple”, fundando-se “en numerosas comparaciones, em las que se confronten no sólo casos muy diversos, sino también resultados obtenidos acerca del mismo, partiendo de puntos de vista muy diferentes”.
Numa perspectiva algo conservadora, Wallon constata que isso compromete a viabilidade plena da psiquiatria clínica, pois a cura iria estar assim conexa a mecanismos demasiado numerosos e polivalentes para poderem ser suportados pela prova científica. Contudo, sem precipitar o andamento dessa questão por agora, o muito amplo desenvolvimento da teoria psicanalítica, até naquilo pelo que recusou a limitação “psi” da psicologia, parece-me mostrar mais o que é fecundo nessa via do que uma sua qualquer impossibilidade de base.
A convergência epistemológica que considero haver entre os teóricos do pragmatismo e a psicanálise de Freud reside nisso pelo que, quando o cerne da indagação conduz à região do simbólico, o que se superou foi aquele tipo de busca que tinha na Representação a sua palavra chave, isto é, todo o panorama da modernidade na acepção de Foucault. Agora, a representação se torna algo outro.
Não mais a apreensão intelectiva do Real que se supõe “estar lá”, na natureza ou na mente de Deus, mas sim o tipo de relação que um signo mantém com uma referência, pelo que um interpretante, que tem que ser ainda outro signo, fecha o circuito semiótico. Por aí vemos que um signo – ou pensamento, na concepção de Peirce – jamais tem seu conteúdo em si mesmo, mas sempre em outro signo, que tem seu conteúdo em outro signo, e assim ininterruptamente, formando-se o continuun pensável.
É assim que o vínculo da corrente contínua ou fluxo consciente é sempre o mais extremamente pessoal ou acidental, pois as chaves de interpretações dos signos, ou formações de hipótese sobre eles, dependem de signos que derivam eles mesmos de conexões contingentes que se formam ao acaso dos encontros de uma “experiência” - essa coloração de folha nesse tom suscitado por uma certa posição do observador em certo momento de incidência da luz do sol evoca a ele a recordação de um objeto que por acaso viu ontem num passeio, etc. Nesse novo sentido, a Representação deixa de ser identificada à consciência mesma.
Enquanto que interpretar a emergência do simbólico como transposição à linguagem do mesmo a priorismo de Kant seria supor que a transição epistemológica com que estamos lidando resume-se a um progresso no sentido de melhor captar o esquematismo da “Representação” naquele sentido “moderno”. Mas, se assim fosse, o símbolo seria o veículo da forma “verdadeira”, única para nós, o que viria definitivamente estancar qualquer ponto de vista nominalista como meramente sofístico no sentido usual pejorativo desse termo. E ele poderia, já num momento pós - gerativo dessa interpretação, ser reposto numa sintaxe de interações remetendo às possibilidades da interlocução, o que iria redundar numa ética lógico-discursiva, ao modo “pragmático” de Apel e Habermas.
Contudo, o ponto de vista peirceano-pragmático que encaminhou a real revolução epistemológica do simbólico, a meu ver, só pode ser adequadamente visada se deslocamos definitivamente a concepção pela qual o que está em jogo se limita ao tipo de indagação cujo móvel foi sempre a problemática do sentido assim como metafisicamente posicionada, isto é, na base de que existem termos últimos – o sistema de imagens e conceitos perfeitamente claros, como situou criticamente Wallon – que respondem na sua formalização pelo que se considera a experiência do verdadeiro, os quais derivam de uma conformação que é a do Real.
O salto poderia começar a ser apreciado pela constatação de que esse eixo epistemológico simbólico, irredutível como é ao eixo tradicional da representação, não se desenvolve pela via da descrição ou da observação da consciência normal, mas sim pelo acompanhamento e compreensão do que ocorre nos seus estados patológicos, hipnagógicos, crepusculares, ou na infância. Logo, desvanece-se a via introspectiva de acesso aos fenômenos psíquicos, tornando-se os fatos somente objetos de uma questão cuja ordenação é experimental.
Como notou Wallon, isso conduziu também a uma recusa da “ilusión de que no hay consciencia posible sin un sujeto que se percibe a sí mimo primero y siempre, al mismo tiempo que el contenido móvil de su consciencia”.
Podemos lembrar aqui que a afirmação dessa proposição constituía o essencial do pensamento pós-kantiano, desde Fichte, e creio que o essencial da contraposição entre a psicologia científica e a fenomenologia está nisso, pois que há uma noção egóica como o dado primitivo de qualquer realidade “dada” é o que Wallon mostra ser agora considerado irreal na teoria psicológica. Essa noção, com efeito, não ocorre “en muchos estadios de la evolución pssíquica, y después de su tardía aparición, guarda uma manifiesta facilidad para alterarse y desvanecerse”.
Wallon chega a registrar que foi da introspecção como forma inicial da observação psicológica que resultou essa noção inadequada que toma o pensamento reflexivo como arquétipo de todo estado de consciência, de modo que assim se assinala o caráter de ruptura desse momento, em relação ao que vinha se propondo como “psicologia”.
O que se abandonou foi a ficção da consciência como, ela mesma, algo de uno e de dado. A pesquisa em ciência psicológica desenvolve-se agora apenas na base da observação de ocorrências, procura-se caracteriza-las no seu vir a ser, para somente depois iniciar o trabalho de compreender como se inter-relacionam essas atividades – e eis aí especificamente o método pragmático.
Mesmo podendo ser considerado apenas tangencial à história da psicologia, creio ser oportuno deter-se mais na apreensão do rise pragmático.
Há assim ao mesmo tempo uma extrema independência das relações aos seus termos e – o que costuma ser negligenciado quanto ao empirismo – uma vinculação entre o espírito e a “natureza”. Ou deveríamos colocar, entre o espírito e os dados que ele ordena, não na sua atomicidade, mas na sua ordem de entrada, por assim expressar. Por outro lado, pode-se interpretar isso mais como se a vinculação fosse entre o primitivamente acumulado e o secundariamente organizado. Esse modo de ver ou de acentuar explica aquela negligência.
Compreender o aporte simbólico, que nega essa atomicidade primitiva do dado, requer, contudo, que tenhamos sob a vista esse deslocamento, pois é algo de mesma índole que se propõe estar operando, só que, agora, não sobre o acúmulo dos dados brutos, e sim sobre um tipo de ocorrência paralela ao que habitualmente designaríamos “consciência” ou experiência sensível.
Notamos já que isso era o que estava sendo ultrapassado igualmente pelos pensadores pragmáticos e pelos psicólogos profissionais. Creio ter ficado claro que o objeto dessa recusa foi a consciência naquilo pelo que sempre vinha sendo visada como uma substância. Era nada menos do que o dualismo natureza e experiência intelectiva o que se estava negando, como se essas duas coisas fossem os atributos, as Res cartesianas. Ora, aquilo de que as ciências do humano dependeram para sua emergência foi a reversão desse paradigma, quando a animalidade do homem-expécie tornou evidente a vinculação orgânica com o meio físico como algo não simplesmente redutível ao mecanicismo da res extensa, da materialidade, mas em termos evolutivos, como chave de compreensão da existência no humano do que até então era considerado como prerrogativas do espírito, a destreza manual, a linguagem, o pensamento lógico.
Uma vez que as indagações acerca dessas prerrogativas se voltaram à psique, já se encontrando impossibilitada a abordagem substancial da consciência, ainda assim continuou-se, a princípio, a operar como se o fenômeno dessas atribuições pudesse ser descritos pertencentes a um reino particular, subjetivo, intelectivo. Continuou-se, como vimos, no quartel inicial do século XIX, a operar sobre uma vinculação da fisiologia com um objeto a descrever que seria esse reino, daí os historiadores da ciência psicológica reportarem-se a esse período inicial como “cartesiano”, isto é, dualista.
O pragmatismo emerge, pois, quando é o prosseguimento mesmo das pesquisas que invibializam esse aporte. Pois torna-se claro que um dos métodos mais profícuos para compreender o funcionamento do cérebro é a obliteração de certos constituintes normais, de modo a observar de que depende a normalidade. Numa via semelhante, ocorre a pesquisa de funcionamentos que são coextensivos aos animais e aos seres humanos.
A experiência consciente revela-se então não mais algo de algum modo uno, compacto, e sim fragmentário, composto de intervalos e orlas. Os intervalos assinalam sua descontinuidade, como o sono, o hipnotismo, os estados mórbidos – nessa época há uma intensa pesquisa do fenômeno da personalidade múltipla, assim como das anestesias histéricas. As orlas seriam aquilo de que dependem desempenhos que `a consciência surgem como seus, mas que ela mesma não pode explicar-se no ato de desempenhá-los.
O artista treinado só executa seu instrumento ou número se mantiver a consciência como que suspensa na expectação do que faz. Uma vez que o músico, como no exemplo de Wallon, se torna “consciente” do movimento das mãos, o risco de comprometer a fluidez da execução é grande. James designa por esse termo, “orla”, a margem quase-inconsciente que circunda o uso dos termos numa proposição, de modo que a expectativa de suas ligações uns aos outros está como que de antemão garantida, ainda que não se “saiba” como, no momento em que se o vivencia: o leitor em voz alta, perante um texto nunca lido anteriormente, inflexiona a voz de modo totalmente adequado a cada termo que expressa.
Assim, entre os fenômenos de obliteração dos constituintes “normais” do funcionamento consciente, estão agora esses “automatismos”, até então considerados tão integrados à Res congitans como a expressão de uma injunção muito claramente intencionada e objetivada.
Ora, o que unifica tudo isso é a noção de sistema nervoso em meio orgânico e ambiental, de onde se originam atividades mentais. Isso é agora o absolutamente contínuo, de que a experiência consciente será exemplo. O estado consciente se descreve assim como esse fluxo de sensações, impressões e concepções cujos objetos não são simplesmente o exterior, mas também o que vem de nós mesmos, em termos de atividades, reações a estímulos, sentimentos, etc. que não são “voluntários” ou autônomos, isto é, cujas leis não seriam a clareza e a distinção.
A lei de Fechner-Weber mostrava já que os estímulos só fazem sentido dentro de certos limiares de apreensão e de variação. Agora, como Wallon observa, nota-se que o fluxo sensível da consciência pode induzir o sujeito a constatar que, entre duas variáveis onde tecnicamente não pode haver constatação de resposta, há efetivamente algo que destoa, ainda que não possa explicar o quê. Ou como no exemplo de James, aquilo que parece intensamente branco num quadro onde surge circundado por objetos sombrios, numa cena ao luar pintada, permanece, na verdade, milhares de vezes menos branco, mais sombrio ou cinzento, do que uma superfície dessa cor, naturalmente iluminada pelo sol. A expressão pode parecer algo inconsistente, mas creio que traduz bem o que James quer expressar: uma cor não seria o objeto de experiência como um dado constante, definitivo, mas ocorre como o branco que é sempre o que parecer mais claro numa série de nuances de clareza.
O fluxo da consciência sensível é unificante como a atividade cerebral, mas ao mesmo tempo ele é vinculatório, induz o que somente por abstração se poderiam designar as suas “partes” ou “termos” a uma entre-expectação de sentido. Assim, a novidade é que o pragmatismo vai sustentar que as relações são tanto objetos de sensação quanto seus termos, mas que nem estes nem aquelas são dados redutíveis ao status de partes atômicas, e sim que são vivenciadas na sua conjunção contínua.
Nesse momento a enunciação de James se aproxima de modo curioso daquela de Bergson, ele também envolvido numa intensa polêmica contra o associacionismo. James libera uma notação para a visualização dessa vinculação em que consiste a experiência. Os termos que se relacionam não são dados consecutivamente como a, b, c, mas no momento em que a ocorre, ele repercute em b assim como a junção a-b irá influir no modo como expectamos e recebemos c, de modo que a notação correta seria a forma da potenciação com base em a, b e c como potências de potência. Quanto a Begson, tornou-se célebre a sua figura em cone, pelo que a ponta representando o presente, sempre traz implicado o restante da figura desde a base, como seu passado. A figura representa assim o movimento do tempo “anímico”, intenso (oposto a extenso ou físico).
Nessa pressuposição pragmática, porém, é simplesmente todo o aporte tradicional do problema do significado que teve que ser deixado de lado, pois, conforme Dewey enfatizou, ele vinha dependendo da impressão completamente falaciosa de que existe algo, no indivíduo “auto-suficiente”, capaz de apreender “observações e idéias que possuem uma existência prévia”, como que independentes.
O discurso seria, assim, apenas um meio na emissão desses elementos “percepções, sentimentos e pensamentos que são totalmente anteriores à linguagem”. O significado seria esse resíduo lógico do que no real permanece único, autônomo, independente, imutável. O solilóquio está, nesse modelo tradicional de pensar, posto como a realidade primitiva do espírito, sobre o que se tem apenas que mostrar como se apresenta e se relaciona com o real.
O que já Peirce havia demonstrado ser falacioso, ao notar que o que se desempenha na comunicação é linguagem, uma ordenação de signos com estrutura autônoma, um sistema ou automatismo, poderíamos colocar. A intensa penetração do pensamento de Peirce se deve a que ele mostrou que essa ordenação pode ser tão regular quanto é automática. Ela se constitui tendo como objeto as possibilidades de operação semiótica, assim como no empirismo primitivo ocorria com a elaboração reflexiva sobre o acúmulo de dados fixados no espírito. Após esse período inicial, a psicologia se esforçará para superar a atração do automatismo, como veremos.
Mas permanecendo no parâmetro considerado, de emergência do pragmatismo, enquanto nesse aporte primitivo o acúmulo dos dados mostrava ao espírito que eles eram sempre recebidos conforme uma ordenação relativa, por exemplo, contíguos ou não, sempre contíguos ou apenas por vezes, agora é o funcionamento sígnico, na sua autonomia, que aparece sempre conforme certas possibilidades: os signos podem ser expressivos de qualidades puras, ou estar unidos por uma vinculação relacional, ou então ser expressivos de um modo de vinculação invariável. Respectivamente teríamos o que Peirce designou as categorias semióticas de primeiridade, secundidade, terceiridade.
A primeiridade veicula o signo “puro”, assim como tradicionalmente se considerou o “significado” ou “essência”, agora manifestamente uma abstração do ponto de vista da experiência, mas o elemento operativo, do ponto de vista estrito do sistema semiótico. Corresponde, portanto, ao que se designa habitualmente o sentimento ou a sensação. A secundidade já correponderia, assim, ao fato, pois este articula uma ação ou resistência entre os elementos que conjuga. Na terceiridade encontramos as leis, como as formas de relação constantes que se deduzem dos fatos enquanto possibilidades de conjugação de elementos. Na fisiologia as três categorias corresponderiam à excitação da célula, à emissão do impulso nervoso e ao hábito.
É importante notar que não ocorre consideração da experiência consciente como simples epifenômeno do funcionamento fisiológico, pois, em termos de conteúdo, aquela não se explica por este. James utiliza as expressões “psicose” e “neurose” para denotar o ato expressivo da consciência e o ato fisiológico do cérebro. Mas que a relação entre ambos não se reduz ao epifenomênico não significa que não seja algo básico daquilo que designamos vida psíquica.
A regularidade da linguagem é, assim, agora, aquela que Peirce logrou definir de um funcionamento, de modo algum da experiência no sentido da Razão. Podemos notar que sua “faneroscopia” tem, como Bogomólov assinalou, “impressionante semelhança com a idéia básica da fenomenologia de Husserl”, mas é preciso salientar não somente que lhe é precedente como também que “Husserl não teve conhecimento dela”. Ora, a meu ver, a irredutibilidade se revela bem maior quando lembramos que Husserl pretendeu estar descrevendo, com as leis do fenômeno, ao mesmo tempo, as leis da consciência como do Real.
Nesse sentido ele fica bem dentro da tradição do racionalismo clássico, apenas tendo tido o cuidado de solver as Res numa só continuidade transcendental. É certo que as essências que se atingem por meio da redução do que há de fortuito ou empírico na vivência do fenômeno não são independentes do ato da consciência pelo que ela constitui significado, e assim poderíamos ter a impressão de que é a “experiência” mesma que se atingiu com o transcendental, mas a questão é que esse ato está muito longe da prática assim como a compreende o pragmatismo.
Esta integra o corpo e esses automatismos, esses funcionamentos independentes que, no entanto, vão envolver o ambiente e a interação em sociedade. Mas, principalmente, integra a multiplicidade ou Caosmos, enquanto a fenomenologia, mesmo quando, bem depois de Husserl, pretendeu localizar os a priori de corpo e linguagem, lida sempre com a essência. Ora, a prática não resulta, no aporte pragmático, como uma limitação da multiplicidade que seria, enquanto limite, o finalmente uno. Ela é o que está Entre, não “sobre”. Assim a prática abole o “sujeito”, como o “objeto”, mas também o “significado” puro, para poder se endereçar à compreensão na sua complexidade.
Mas desse modo, como não cessa de acentuar James, a coerência é um requisito da experiência, pois as idéias, na sua entrevinculação, exibem absoluta necessidade de ancorar sua aceitação à acomodação com o que já se acolheu, de modo que ou a idéia muda pressupostos na base de que estes não estavam solidamente unidos, e assim opera na seleção daquilo a que se deve renunciar e do que se deve então afirmar, ou não se pode convir no seu conteúdo.
Nesse cenário a polêmica mais representativa fica sendo a que se contrasta ao idealismo absoluto de Bradley. Este negava qualquer critério de objetividade dos juízos formulados pelo intelecto humano, como a interação prática com o real de que resulta a utilidade dos pragmáticos, ou a invariabilidade da experiência dos empiristas.
O idealismo atribui ao conhecimento “discursivo” apenas um saber relativo à aparência, de modo que Bradley chega a negar, ao modo dos antigos megáricos, a possibilidade da predicação que envolve sempre alguma relação postulável como real. Conforme James reporta, ele argumentava na base de que “o livro está sobre a cadeira” e “o livro está na estante” não poderia ser sustentado do mesmo livro, o que repõe a antiga polêmica acerca da mesmidade ou não de Sócrates e Sócrates sentado.
O que o idealismo pretendeu com essa crítica dos conceitos foi uma revalorização do Absoluto, pelo que, conforme Duchesnau “o despedaçamento da verdadeira realidade em realidades finitas, unidas por relações, só é uma visão ilusória”, o Real efetivamente sendo apenas o Absoluto que “integra a totalidade de suas aparências e reabsorve as contradições internas” que surgem quando pensamos por meio desses conceitos fragmentados. Assim, só o Absoluto poderia ser “intrinsecamente verdadeiro”.
James contra-argumenta a Bradley mostrando que o critério de verdadeiro precisa ser definido de um modo aceitável na prática, já que a argumentação idealista parece ignorá-la como se isso fosse um procedimento que, uma vez aceito, facultasse o prosseguimento da argumentação. Contudo, qualquer teorização do real deve mostrar a validez das práticas que nele se exercem, o que o idealismo simplesmente, após ignorar, nega na sua verdade de aplicação. Como se, para evitar o trabalho de compreender algo, apenas precisássemos etiquetá-lo como aparente, não obstante sua persistência e plena vigência inclusive como uma prática daquele mesmo que o ignora e nega. A polêmica, quanto a James, se desenvolve porém mais no sentido de uma oportunidade para explicitar a doutrina pragmática das relações como sendo elas mesmas objetos de sensação.
Os textos de James são particularmente instrutivos quanto à penetração das ciências do humano na reflexão filosófica, o que se pode verificar por sua proximidade com a psicologia. Com Dewey, porém, ocorre uma aplicação epistemológica bastante ampla, cuja pertinência ao pensamento social se tornará um ponto importante de apreciação.
Se Cosnier enfatizou a necessidade de se relacionar essa revolução na teoria psicológica com a evolução concomitante em ciência, filosofia e sociedade ocidental, Ray Hyman ("Natureza da investigação psicológica") descreveu a emergência da teorização de Watson, nos EUA, não apenas como uma ruptura com os métodos de introspecção praticados até então, mas como se a psicologia houvesse incorporado um “programa militante”, pelo que se tornava “uma ciência natural”, e isso na exata medida em que não se ocuparia da experiência subjetiva e particular. Mas, sim, “focalizaria apenas o que pudesse ser observado enquanto os organismos se empenham em resolver problemas, dominar quebra-cabeças e reagir a estímulos”. O “comportamento” seria então “coisas como as reações glandulares e musculares a estímulos externos”. A incorporação das experiências de Pavlov à pesquisa behaviorista seria bastante esperável.
Freqüentemente isso é descrito pelos historiadores da psicologia do seguinte modo: os dados subjetivos foram reduzidos pelo behaviorismo a uma caixa preta interposta entre o estímulo e a resposta, estes, somente, observáveis.
Em cibernética a caixa preta é aquele construto que o engenheiro precisa descrever no seu funcionamento, porém sem que lhe seja facultado observar o interior. Nessas condições, tudo o que o profissional pode empreender são recursos que ele faz intervir para descrever o comportamento que então se efetiva. Conforme Ross Ashby ("Cibernética"):
“O Problema da Caixa Preta surgiu na eletrotécnica. É dado ao engenheiro uma caixa lacrada com terminais de entrada, aos quais pode aplicar quaisquer voltagens, choques ou outras pertubações que quiser, e terminais de saída, a partir dos quais pode observar o que puder. O engenheiro deve deduzir o que puder do seu conteúdo”.
( O espaço do blog não comporta a imagem correspondente, que se compõe de uma seta simbolizando os dados de "Estímulo", um quadrado representando a caixa preta que simboliza o "organismo", e uma seta subsequente simbolizando os dados de "Resposta").
Assim, organismo e interioridade são para Watson, conforme Cosnier, do domínio da biologia, lembrando que até então a consciência era tratada pela psicologia como função da pesquisa fisiológica. Somente se reservam agora à competência do estudo psicológico as reações orgânicas numa certa situação. A finalidade do psicólogo behaviorista seria descrever as leis que ligam essa situação às reações, construindo eventualmente modelos, preferencialmente matemáticos.
O desenvolvimento do “behaviorismo”, teorização exclusiva do comportamento, se implementou inicialmente no sentido de uma reincorporação controlada dos componentes “interiores”, como informações referentes ao domínio orgânico na sua relação com o meio, o que se pode exemplificar com o conceito de propositividade de Tolman, onde se procurou conceituar a conduta pressupondo que ela sempre se relaciona a algum objetivo. Ou seja, tudo o que fosse dominio mental ou subjetivo, estava descartado, com somenta o observável sendo equacionado pertinente à psicologia. Gradualmente, a redução do organismo e interioridade ao observável foi se mostrando problemática ao objetivo de manter a definição do behaviorismo na base única de estímulo e resposta.
Essa viragem de Tolman pode ser adequadamente visada na moldura mais geral da época, por exemplo, quando constatamos que o próprio neopositivismo do círculo de Viena estava tendo que evoluir de uma posição estritamente objetivista como a de Schlick, onde o único critério de sentido era a verificação experimental, para uma problematização mais abrangente do que pode sustentar o conceito de verificabilidade. Ela também está bem ambientada num circuito filosófico que abrange, como deveremos constatar, a polêmica do pragmatismo com o neo-realismo e o realismo crítico, onde a noção de organismo se torna central.
Mas a ruptura mais decisiva se encontra subseqüentemente, quando o objetivismo behaviorista, até aqui de um modo ou outro garantido na base do observacional, intercepta a temática da abrangência social do comportamento. Entre os anos 30 e 40 surge a Teoria da Aprendizagem Social.
Conforme Antonio Pena (Introdução à História da Psicologia Contemporânea) a "Teoria" se demarca sob inflência de Clarck Hull, cuja contribuição, subseqüente ao impacto causado pelo trabalho – e pela personalidade, conforme Cosnier – de Watson, enfatizou as possibilidades de convergência da pesquisa comportamental com a focalização psicanalítica. Mas também haveria o influxo da antropologia cultural, o que mostra que a essa altura o behaviorismo já havia renunciado a uma atribuição exclusivamente “natural”, recolocando-se na sua vocação ao “humano”.
Surge assim, conforme Pena, no contexto mesmo do movimento behaviorista essa “Teoria" que teria, de Miller a Dollar, e depois, de Bandura a Walters, colocado como central o tema que vinha sendo por excelência objeto da psicologia social como na abordagem de Mc Dougall, o da imitação. Enquanto que a vinculação dessa corrente à problematização psicanalítica é sugerida pela ênfase no outro tema que caracteriza o novo aporte de aproximação comportamental, aquele da agressividade.
O que demarca a apropriação psicológica desses tópicos é a abordagem experimental, onde as decisões teóricas precisam ser suportadas pela evidência induzida. Por exemplo, a questão de saber se a tendência à imitação é algo inato ou adquirido foi atrelada à programação do labirinto, onde um modelo ou guia era treinado no sentido da escolha de uma das pistas, outros animais sendo introduzidos então para ver se a tendência a reproduzir o comportamento do guia era geral ou não. Ou, quando a questão era resolver o que é que o rato aprende, reações musculares, como acreditava Watson, ou o “lugar” do labirinto onde estava a comida, como pensava Tolman, e o procedimento se tornou a alteração fisiológica dos animais observados na situação experimental.
Se bem que o modo como tais questões foram colocadas nesse momento inicial pareceu, depois, a razão de ser desses dilemas, que num outro aporte aproximativo envolvendo programação experimental e abordagens teóricas mais adequadas puderam se provar não adequadamente orientadas, o que importa por ora é notar a imitação e a agressão como temas da Teoria da Aprendizagem Social que trouxe à focalização o problema da linguagem e se desenvolveu quando a pesquisa behaviorista se voltou em nível humano.
Seria bom apenas colocar, quanto à questão da imitação, que o desenvolvimento das pesquisas conduziu a ver a relação entre o inato e o adquirido de modo não tão simplesmente opositivo. Hyman registra que, posteriormente a essas aproximações iniciais, as pesquisas de Restle parecem ter sido conclusivas quanto ao fato de que os ratos não aprendem, somente, nem o lugar, nem a resposta muscular, mas sim todas as pistas relevantes, de modo que é a capacidade de saber o que é relevante ou não o que se torna o real teor de sua aquisição.
A problemática assim destinada em termos de linguagem, se tornou decisiva, por exemplo, na teorização de Wigotsky e Luria, como sublinhou Pena, de modo que se pode compreender como sua abrangência penetrou o mais amplamente, desde que evolui a problemátia da cognição e do comportamento na perspectiva social.
A apresentação desses temas que marcam o desenvolvimento da psicologia no início do século XX está aqui somente delineada, sendo necessário uma aproximação bem mais minuciosa, que espero apresentar mais à frente, para estender uma compreensão adequada do se propõe na sua abrangência. A colocação nesse momento, porém, se revela útil para mostrar como o instrumentalismo de Dewey, que veremos estender-se desde uma circunscrição mais epistemológica a amplas conseqüências em ética e política, só poderá ser devidamente conceituado na vizinhança dessa temática.
Ora, o que poderia articular a linguagem com essas notas da prática humana, já que os utensílios são facilmente acomodados na abrangência de tudo o que é utilitário, como a arte, o conhecimento sobre o mundo e a ciência, seria então mostrar que tudo o mais, incluindo as utilizações possíveis, está vinculado a sugestões, registros e direcionamentos “tornados possíveis pelo falar”.
Dewey se põe a descrever a imagem que se tem habitualmente da linguagem, na sua dependência ao significado suposto uno, prévio, para mostrar que desse modo não se poderia estabelecer a conexão almejada. Assim, o que se compreende é que esses supostos resíduos essenciais, simples ou primitivos da corrente da experiência, o que até aqui vinha sendo de um modo ou de outro considerado o real com que lidamos, são eles mesmos dependentes do modo como a linguagem se organiza em torno de substantivos, verbos, partículas de ligação. Não são “as” realidades do pensamento que traduziriam a verdade das coisas, mas resultam da maneira como a linguagem se articula.
A grande ilusão aqui, isso desde os gregos, foi ter tomado a estrutura do discurso como um decalque da estrutura das coisas. Se bem que Dewey não reporta a singularidade do pensamento sofístico e retórico, quanto a isso, creio que sua proposição capta bem o que ocorre. A novidade é que o suposto como o significado, e que está na corrente de uma prática comunicativa, resulta de agenciamentos sociais, não pontuais, mas como termos de “uma história complexa”. Em vez de um mundo “separado e privado feito de sensações, imagens, sentimentos”, conforme a perspectiva habitual dos modernos, mas também em vez do decalque neutro das coisas pelo discurso, conforme o vezo grego, teríamos que lidar com o sentido assim como com “uma obra de arte social”.
Conforme ele registra, “a significação das essências lógicas e racionais é a conseqüência nas interações sociais, no convívio”, de modo que jamais ocorre que a correspondência entre coisas e significados possa ser anterior à linguagem e ao intercurso social. Nosso uso particular da linguagem, por exemplo, no solilóquio, nós o aprendemos com os outros. Não subsiste qualquer primeiro instante de introdução no social, mas estamos sempre em um meio de interações e comunicações, onde não cessam de proliferar relações de todo tipo. As palavras são como moedas, enquanto que os valores socialmente mediados são como o dinheiro, na metáfora de Dewey.
Lembramos aqui a definição do não-senso, que James observou também. Uma vez que o falante se abandona ao livre curso das palavras, como se valessem por si, não por seus valores, surge o não-sentido – James exemplifica com certas construções demasiado complexas de Hegel, ou, alhures, com as discussões acerca de temas cuja decisão nada altera no plano dos fatos. Algo exemplificado por Russel, ainda que sua abordagem não coincida com os pragmatistas, e sim mais com os positivistas lógicos: se alguém realmente acreditasse no livre arbítrio, tanto quanto costuma defendê-lo ardorosamente, jamais iria postar uma carta, pois o carteiro poderia ou não querer comparecer ao emprego amanhã, nem contar com serviços públicos, pois ninguém têm garantias quanto ao cumprimento do dever cotidiano por parte dos outros, etc.
O conhecimento, nessa perpectiva pragmática, seria então mediado. Nessa época, assim como o próprio Dewey nota no texto que estamos considerando, onde reporta sua polêmica com “o neo-realista inglês, com seus dados atômicos elementares” e com “o neo-realista americano, com suas essências pré-fabricadas”, esse ponto era objeto de intensa controvérsia. Focalizando-o, temos como posicionar a confrontação teórica enfrentada por Dewey, como vimos ser o caso de James com relação ao idealismo absoluto.
Temos portanto que no contexto deweyano o pragmatismo se opõe a esses dois movimentos importantes, o neo-realismo de Perry, Montague, e, eminentemente, Whitehead, por um lado; e o realismo crítico de Lovejoy, Pratt, Santayana, Sellars e Strong, por outro. Assim como Dewey, o realismo crítico aceita a mediação do conhecimento real, enquanto que o neo-realismo o nega. Mas essa aceitação pelos realistas críticos envolve uma recusa do pragmatismo, por seus adeptos acusado de ser um simples subjetivismo.
A filosofia especulativa se torna então uma cosmologia, abrangendo o sistema necessário de idéias comuns apto a interpretar cada elemento da experiência, onde a constante é a compertinência de dois aspectos, o racional (coerência, lógica) e o empírico (aplicabilidade, adequabilidade). A unidade desses aspectos seria garantida por certa essência universal, como a necessidade lógica da universalidade empírica. Whitehead distingue duas categorias existenciais, a Essência Real e os Objetos Eternos. Aquela seria o domínio das coisas, da experiência e das funções, esta abrange os universais, como a brancura, a humanidade, etc, e as variáveis, seja de natureza matemática ou lógica.
Os objetos eternos ingressam na realidade por sua entrada na respectiva essência real. Esse princípio ontológico reza que a essência real determina o fundamento da coisa. Deus, fundamentando o absoluto, certas essências temporais o fazem com relação a certos fatos particulares. Assim, nas categorias existenciais incluem-se agora as captações , os nexos, as formas subjetivas, as proposições, as diversidades e os contrastes, como tantos modos de envolvimento das essências. Torna-se bem nítido o quanto essa perspectiva se afasta da contextualização pragmática que nada conserva que seja dado no sentido de eternidade, mas considera a significação algo sempre em mudança, em devir, pois socialmente produzida.
O subjetivismo é negado, ao mesmo tempo em que, conforme Sellars, não persiste qualquer redução do real ao sensível. O processo gnoseológico seria então:
. objeto físico → percepção consciente → relação entre ambos (interligação de conteúdo da
consciência e objeto).
Bogomólov ("A filosofia americana no século XX"), que instrui nossa leitura desses movimentos, endereçou a crítica materialista ao neo-realismo na base de que este teria apenas reposto a representação, não resolvido verdadeiramente o dualismo espírito-matéria que por essa época a ciência já estava considerando ultrapassado enquanto as teorizações filosóficas procuravam integrar as aquisições oriundas desse domínio experimental. Assim, ele mostra como o realismo crítico se aproximou bem mais da teoria marxista-leninista do reflexo – Sellars chegou a contribuir com um artigo à revista soviética Voprósi Filosófii, quando o contexto de sua epistemologia interceptou os estudos sobre o sistema nervoso (sn), e nessa fase Sellars libera novo esquema:
= Estimulação do sn pelo objeto
Bogomólov, que a princípio objeta a Sellars a inadequação de sua teoria à instância prática, precisa estender a crítica no sentido de que esta só seria considerada adequada à perspectiva revolucionária se fosse definida como adesão ao processo do desenvolvimento do materialismo, de modo que qualquer teorização da cognição deveria suportar uma instância de sua correspondência à contestação da sociedade de classes capitalista. Asim, “conceber a prática à maneira marxista significa aderir à concepção integral do mundo do materialismo marxista”.
Creio que esse pressuposto da ortodoxia leninista se mostra demasiadamente vinculado a uma concepção do real que nunca pôde ser suficientemente demonstrada. Contudo, o que Bogomólov conclui, acertadamente, acerca de Sellars, é que sua teorização se encaminhou no sentido de um “naturalismo”, onde somente a natureza é considerada como o Real todo-abrangente.
Sellars conceituou, porém, o seu naturalismo como sendo irredutível ao materialismo, devido a que este seria apenas um oposto à concepção idealista, sustentação da matéria versus afirmação do espírito, quando o que ele mesmo supõe é a realidade única da natureza. Bogomólov salientou que esse materialismo recusado não é sinônimo do materialismo per se, mas apenas a ideologia científica do século XIX, que Sellars confutou como mecanicista e pré-evolucionista. Assim, a despeito do que ele considerava estar negando, sua perspectiva se manteve materialista, ainda que não dialética ou estritamente marxista. A inadequação de Sellars em lidar com esses rótulos teria sido, portanto, total. Por um lado, pensou-se marxista, onde não havia sido, por outro, recusou o materialismo, ali onde jamais rompeu com seus pressupostos.
Bogomólov tenta mostrar, ao mesmo tempo, que a doutrinação revolucionária ortodoxa do marxismo não corresponde ao conteúdo criticado por Sellars, e que este, tampouco, atingiu verdadeiramente as suas conseqüencias, de modo que jamais apreendeu o nexo entre os materialismos histórico e dialético, limitando-se a ver o processo evolutivo como dinamismo ou “emergência”, recusando a lei da transformação da mudanças quantitativas em qualitativas como algo restrito ao hegelianismo. No conjunto, creio que a preciosa contribuição de Bogomólov à apreciação da história do pensamento está mais nas exposições que fornece do que nos julgamentos ortodoxosa que submete os autores que apresenta.
Assim, vemos que ele nota com muita oportunidade que o naturalismo foi considerado por vezes como fluxo único do pensamento americano, abrangendo, desde Dewey e o neo-realismo, até os teístas que afirmariam a naturalidade do sobrenatural como Frederic Woodbridge e o neopositivismo remanescente nos sixties, como em Nagel, mas que isso precisa ser adequadamente revisto, não se mostrando exato.
Ora, essa questão irá interceptar a problemática social, uma vez que o que se incluiu nesse naturalismo alargado foi nada menos do que o assim designado movimento democrático que erigiu uma espécie de socialismo americano, o que compacta uma evidente confluência com perspectivas políticas aparentemente comuns a Sellars como a Dewey.
Na verdade o que ocorre na metade inicial do século nos EUA é uma movimentação social de aspecto tão amplo que pretender unificá-la como subsumida a uma determinada tendência filosófica ou escola seria induzir a erros. O que se deve é mostrar como as variadas matizes de pensamento a ela aderiram, evidenciando-se em que um encaminhamento mais geral da vida política nesse país influenciou a obra de autores pelo modo como isso aflorou conceitualmente nessas perspectivas restritas.
Quanto a Sellars, sua teorização incluiu os valores na incorporação do objeto ao sistema humano, de modo que eles aparecem na relação percepção-juízo. A sociedade inclui algo como o “salto emergente” , desde a natureza, sempre conservando a causalidade como movimento progressivo de sistemas físicos.
Sua concepção política propugnou o socialismo democrático que deveria ampliar as oportunidades pessoais de modo a impossibilitar, progressivamente, os privilégios injustos de certos indivíduos, ao mesmo tempo em que seria esse o caminho para garantir “uma organização econômica da sociedade” que concedesse “o máximo de justiça e liberdade possíveis em qualquer tempo”, conforme Bogomólov cita do livro de Sellars “O passo seguinte da democracia”, onde se revela a influência dos Webb.
O essencial desse pensamento social que Sellars designou “humanismo naturalista” é a negação de qualquer ímpeto de transformação súbita: “A evolução racional é sempre melhor que a perturbação do proceso vital e a revolução”. Assim, parece-me claro que ele compreendeu bem o limites de sua adesão à teoria do reflexo, limitando-se ao epistemológico, enquanto recusava com clareza as implicações ontológicas e sociais na perspectiva do marxismo ortodoxo. A abrangência do seu naturalismo seria assim um meio de evitar as delimitações demasiado pressupostas dessa doutrinação dialética. Ora, deveremos observar como a prática mais abrangente da esquerda nos EUA dessa época confrontou exatamente o mesmo problema, pelo que deveria conciliar a crítica social e o ativismo com a recusa da implicação da ditadura do proletariado.
Quanto à irredutibilidade do realismo crítico ao pragmatismo deweyano, isso fica mais claro quando notamos que há uma tendência a objetivar a relação de conhecimento, o que o pragmatismo iria recusar. Não obstante a vinculação prática dessa tendência crítica, ela não resta menos “realista”, pelo que o critério pragmático muito amplo de “utilidade”, que estende não apenas o comportamento adaptativo no sentido de uma limitação à objetividade da reação, mas comporta a criatividade ou a incrível variedade do que pode se revelar usufruível do ponto de vista humano, não seria assim considerada pelo viés de uma cognição, mas tão somente de contingências vivenciais fortuitas, prazeres, fantasias, etc.
Conforme Sellars, reportando-se a Dewey, que já nessa época se tentava rotular como naturalista, o pragmatismo conserva-se apenas “uma visão pseudonaturalista que conservou demasiado do idealismo”.
Vimos que o simbólico, enquanto o elemento da linguagem, se coloca, na perspectiva de Dewey, não mais com uma possibilidade de fornecer o cálculo dos significados últimos que perfazem o mundo, e sim como o meio social de sentido. O valor não poderia ser adequadamente teorizado conforme o esquema perceptivo, que se limita à relação objeto-indivíduo, mas precisa estar numa abrangência de linguagem, portanto sempre coletiva. Ele se preocupa então, inicialmente, com a possibilidade de fornecer uma epistemologia que inclui essa pertinência ao social. Contudo, como nota Bogomólov, progressivamente Dewey se afasta dessa preocupação para favorecer exclusivamente o desenvolvimento de uma lógica da pesquisa, algo como uma lógica experimental.
O “instrumentalismo” que resultou desse intuito, evoluiu, portanto, desde um aporte mais biológico, tentando localizar a abrangência do social no intervalo adaptativo entre organismo e meio, a uma perspectiva propensa a construir uma teorização lógica completa. Dewey propõe haver, por um lado, a unidade orgânica em sua relação com o ambiente. Logo o conhecimento e seu processo se apresentam como uma tríade ativa: perturbação dessa unidade, movimento de procura do restabelecimento (pesquisa) e satisfação ou restabelecimento como resultado (verdade).
Mais geralmente o processo cognitivo se comprime na movimentação da pesquisa, como a transformação controlada de uma situação indefinida em situação definida, onde os elementos originais se reúnem e unificam. Ora, Dewey encontra na unicidade e singularidade da situação o limite da aplicação lógica. No entanto, esta é manifestamente um instrumento na pesquisa e, desde aí, ele tentará resolver o problema de postular e formular uma lógica da ciência.
Consoante sua teorização pragmática do significado, que o define em termos de “comunidade de participação” numa trama de conseqüências aceitas, não poderia haver um objeto de ciência independente, de modo que ele aceita a proposição pela qual o conhecimento cria objetos de ciência na experiência. Assim como Bentley, Dewey pensa que sujeito e objeto só existem como aspectos de uma trans-ação, não como termos independentes de um interação possível, e sim constituindo-se relacionalmente na trans-ação. Moore ilustra essa idéia mostrando que conforme Bentley e Dewey, o comedor e a comida só existem pelo ato de comer, como dois aspecto desse ato, o processo de alimentar-se.
Para contornar a irredutibilidade do singular de situação, Dewey identifica as formas relacionais das proposições da lógica aristotélica clássica a estágios específicos e sucessivos do progresso da pesquisa. É assim da perspectiva da pesquisa que se situa o experimento, em oposição à lógica-matemática e ao formalismo que iriam sustentar o inverso. O esquema seria:
Bogomólov mostra assim que o problema das doutrinas que ele considera igualmente “idealistas” é que lidam ou com o individual ou com o universal, enquanto é preciso mostrar em que se interpenetram, onde a prática desempenha não menor papel. Mas como vimos, isso não deixa de estar, de início, supondo uma universalidade para a qual o individual vai desempenhar a função de abstrato. Ora, a meu ver, esse é o cerne do idealismo dialético que o materialismo ortodoxo jamais confronta, até porque isso comprometeria sua visão evolucionista do processo histórico que supõe pré-determinado pela produção.
O pragmatismo penetra nesse ponto para indagar não sobre qualquer universal, que se supõe ilusório ao modo de um significado stacato, mas para compreender as ligações que suscitam a univocidade do sentido aí onde - e de que modos - ele se produz.
O instrumentalismo deweyano, como vimos, define o conhecimento como um processo de reestabelecimento do equilíbrio, de modo que “podemos encontrar nos atos mais corriqueiros o protótipo do ato experimental”, conforme a expressão de Bogomólov. O caráter científico da experiência só se evidencia porque nela reforçamos os atos habituais pelos quais interagimos com o objeto, como iluminá-lo, pressioná-lo, etc., com recursos instrumentais, adaptações e aparelhos, usando mensuração precisa e outros recursos.
Conforme registra Bogomólov, essa lógica pragmaticista integra uma vasta corrente que se colocou em oposição ao desenvolvimento vertiginoso da lógica matemática no século XX e do qual Russel, como os neopositivistas do círculo de Viena, é um expoente. Tratava-se no pragmatismo, e isso cada vez mais enquanto o panorama das duas guerras se descortinava, de captar a experiência precisamente naquilo em que ela é irredutível às operações lógico-formais. Mas nessa via, já num momento mais tardio de sua carreira, Dewey problematizou amplamente temas filosóficos que ele considerava ainda irresolvidos, mais estritamente a problemática social.
Vimos que no início de sua teorização epistemológica ele havia tentado interpenetrar o social numa teoria da cognição, o que se verificou através da compreensão da linguagem como meio de sentido. Mas agora tratava-se de uma ambiciosa centragem no instrumentalismo como uma teoria ampla, apta a fornecer contextualizações adequadas não somente do ponto de vista epistêmico. Assim, deveria ser exeqüível também uma ética e uma religião “instrumentais”. Mas aqui o desenvolvimento da obra de Dewey não poderia ser adequadamente visado sem que se observasse concomitantemente, tanto quanto o tópico da influência de Mead, a sua participação no cenário social norte-americano.
Ora, por esse meio, uma vez que a dialética não pode ser comprovada cientificamente, ainda que isso figure como o pressuposto básico da ortodoxia, a prática política se vê atrelada a um determinismo ainda mais preocupante do que os meros preconceitos acerca do que é o homem. Aqui ainda há espaço para que se ventilem atribuições e aspirações não meramente designáveis pela lógica da classe, o pensador estando, como geralmente é o caso, interessado em abranger algo como uma generalidade que deve assim ultrapassar o seu próprio circuito de status. Mas sem dúvida seria mais proveitoso abandonar uma tal perspectiva da “natureza”, humana ou dialética, para localizar a problematização social na sua efetividade histórica, nas práticas que se revelam atuantes.
Mas isso corresponde ao que o pragmatismo pretendeu. Bogomólov, após notar que Dewey se opôs explicitamente a desenvolver o tema partindo do ponto de vista de uma qualquer “imutabilidade” que seria da natureza do humano, considerando-a uma invenção destinada a atribuir ao “caduco Adão” - conforme a expressão de Dewey - a responsabilidade pelo conservadorismo das instituições, pensa que, ainda assim, seria possível rastrear nele a intenção de enunciar o que seria a “natureza primitiva do homem”.
A contradição que Bogomólov destaca dos escritos deweyanos – alhures ele se expressa em termos de que não considera “que as necessidades inatas dos homens tenham mudado desde que o homem tornou-se homem” – me parece esclarecer-se, se focalizarmos os dois sentidos pelo que se pode utilizar o termo “natureza” na contextualização humana.
Num caso podemos supô-la como uma tendência a ser efetivada desde que determinados atributos possam ser definidos de antemão. Nessa linha raciocinava o positivismo evolucionista do século XIX. Mas no outro trata-se de procurar o que é inato e o que é adquirido para estipular exatamente o salto entre “as formas sociais entrelaçadas no material da atividade instintiva do homem”, na expressão de Dewey. Essa atividade é invariável, mas aquelas formas, não. Creio que essa contextualização de seu pensamento social está bem historicamente amalgamada ao que vimos estar se desenvolvendo, concomitantemente, nas ciências do humano.
Ao colocar desse modo a tarefa de compreender a problemática social, o tema se torna o comportamento agressivo e sua relação com a guerra. Esta seria inconcebível sem aquele, mas não pré-determinada por ele, pois “a ira, a disposição de luta, a concorrência, a vontade de exibir-se e outras tendências hostis” podem – e devem, no vir a ser indeterminado das sociedades – veicular-se por inúmeros outros modos. Outro questionamento, que não seria preciso colocar agora, seria referente a até que ponto essa partição do inato e do adquirido permanece legítima.
Bogomólov nota com clareza, porém, a que essa conceitualização pretende conduzir. Há assim as oposições entre o que é inato ao homem e o que é formalizado pelo social. Ora, no intervalo do que se opõe resta o espaço de manobra para intervir eficazmente no vir a ser comunitário. Ele ironiza. O “parteiro” instrumentalista desse novo mundo humano “esquece inteiramente que os partos são sempre uma comoção”. Com efeito, conforme a citação de Dewey, o novo estado de coisas deve se produzir “com o mínimo de comoções e desordens”.
Logo, o que deverá fazer intervir a mudança é a transformação do particular, da pessoa, pela educação e desenvolvimento da personalidade. Nessa via coloca-se a necessidade de ampliar o questionamento das relações entre o homem e a sociedade, pois se compreendemos o que os opõe, devemos agora localizar a sua interconexão, já que é o humano enquanto pessoa, o “indivíduo isolado”, que deve conduzir a modulação do social. E aquui Bogomólov encontra a influência de Mead sobre o pensamento de Dewey.
Pela época da influência de Mead, já estava em curso mesmo no behaviorismo a noção dos fatores intervenientes, de Tolman, como fatores cognitivos, afetivos ou emocionais, e Cosnier designa mesmo sua teorização como um “operacionismo”. Aqui não são apenas as variáveis independentes controladas pelo experimentador (situação ou estímulo) e dependentes (reações ou respostas) que devem entrar na formulação do comportamente, mas também as intervenientes (organismo, sujeito, personalidade).
É forçoso, para compreender o processo de constituição de uma consciência social ao modo de Mead, fazer intervir uma interligação reflexiva entre ambos os fatores a que na problematização da imitação se havia limitado a observação, o guia e os (re ?)-produtores da ação. É isso que permite recuperar a forma de inter-ação, de Simmel, ou a tendência ideal-típica de Weber, mas ao mesmo tempo, o aspecto da crítica social, pelo que a intervenção do Me (eu social, objetado) na autoconcepção do I (o eu autêntico) recobre as ambigüidades da conservação: necessária e “inestimável” por garantir “integração e estabilidade”, conforme Mead, mas podendo veicular no Self a convencionalidade objetificadora do Socius numa limitação de si mesmo ao domínio do não-autêntico, na sua identificação pelo passado dos papéis atribuídos por tradições obsoletas.
Na conexão da psicologia social aos estudos sociológicos, como vemos com Marsal (Enciclopédia Salvat:"sociologia" ) a pragmática de Mead se apreende como "interacinaismo simbólico", o I é visado como o lado ativo que decide sobre modelos de ação, sendo o Me o lado passivo que assimila esses modelos a partir da imitação dos exemplos revestidos de pertinência, como a criança imita os comportamentos dos pais e professores.
Na psicologia social de Gabriel Tarde, localizando-se no contexto positivista do século XIX, a imitação ainda se coloca como o fator preponderante da socialização. Se bem que a conceituação de imitação de Tarde não seja de natureza simples nem mecânica, sua teorização sendo recuperada por Deleuze como tendo já incluído a interconexão de diferença e repetição, inclusive sendo Tarde identificado como o momento da conversão da pesquisa social no sentido de uma microsociologia – ele abandona o dilema entre a sociedade ou a imitação dos grandes homens como causas das similitudes observadas nas práticas sociais, pela colocação das pequenas idéias dos pequenos homens que são objeto de repetição, isto é, interferem no que seriam as correntes imitativas.
A repetição seria assim sempre criativa, pois soma pequenas variações que deslocam o processo imitativo da dualidade do modelo e do reprodutor para a observação do deslocamento infinitesimal do que é assimilado pelo sujeito. Não obstante Deleuze visar em Tarde nada menos que a criação dos conceitos de diferença e repetição como categorias da Natureza e do Espírito, creio que o salto desse contexto epistemológico ainda na inerência dessa temática de natural e espiritual que se ambicionava, como Kierkegaard, furtar ao domínio do hegelianismo, é essencial.
A novidade agora, com Mead, é a intervenção do elemento da Reflexão, mas ao mesmo tempo, o idealismo da “reflexão” se conjura desde que esta se propõe no elemento simbólico, pelo que o tipo de generalização que intervém no Me, exercendo-se sobre os pressupostos que o indivíduo pensa que os outros atribuem a ele mesmo, não reflete formas definitivas que seriam “ideais”, que poderiam caracterizar o humano na sua “natureza”, mas constituem sistemas de valores que atuam como que objetivamente, assim como na linguagem se atribuem os lugares e as posições de interlocução, ainda que nenhum desses fatores deva ser considerado como naturalmente reveladores do que cada um é.
Esse implemento da reflexão se conserva na sociológica teorização mais atual de Giddens, que em Constituição da Sociedade a reposiciona em termos de “monitoramento”. Assim, surge o conceito de atividades humanas Recursivas: não são criadas pelos atores sociais mas recriadas continuamente por eles através dos meios pelos quais se expressam como atores, numa reprodução contínua da possibilidade das atividades. Ora, nessa abordagem a reflexividade definida como “caráter monitorado", no sentido exclusivo de auto-monitorado, "no fluxo contínuo da vida social” , é o fundamento das práticas recursivas, pelo que os atores estão sempre se re-asenhorando de sua atividade, podendo reconceituá-las algo livremente, conforme o devir social é também algo que se pode pensar na abrangência da mudança contínua.
A situação de linguagem propícia à compreensão dessa teorização de Mead seria, como notou Habermas ("pensamento pós-metafisico") escrevendo sobre ele, não o diálogo, nem o monólogo, mas a conversa que têm lugar em um grupo de pessoas, caso em que se configura um complexo de interlocução que parece anteceder a fala de cada pessoa particularmente considerada.
Mas vemos que isso não implica na formalização desse complexo como o recurso mais adequado às intenções teóricas do pragmatismo nessa acepção. Bem inversamente, o que parece original e interessante aqui é que se estabelece aquela interface entre o automatismo e a deliberação consciente que faz dos usos não casos de performance, e sim algo como uma “variação contínua”, conforme a expressão de Deleuze.
O signo, como a cor branca, não tem um denominador comum, uma média referencial, mas é, sim, uma possibilidade de variação conforme uma situação de vizinhança, como já proposto no exemplo de James. Nesse ponto exato podemos aquilatar o que há de irredutível entre a aproximação natural e das ciências humanas, pois se faz sentido estabelecer uma escala de freqüência física da recepção das cores, compreende-se por que que não se deve estender esse modo de inteligibilidade ao fenômeno psicológico de constituição da experiência da cor pelo ser humano.
Ora, a conceituação proposta engendra uma interconexão da sociedade com o indivíduo sui generis. Ao mesmo tempo que a forma lhe pré-configura papéis e até mesmo auto-compreensão, ela sempre é uma forma de abertura para a sua própria exterioridade. Por isso seria melhor utilizar a trama conceitual pela qual Deleuze captou bem o que se põe em jogo. Em vez de “forma”, que é algo fechado, concreto na sua determinação, é mais adequada a terminologia da “linha abstrata”.
O fato objetivo fortuito não desempenha papel preponderante agora, mas sim o modo como a vocação inata ao símbolo precisa ser reconduzida a fim de coadunar-se com as conveniências e convenções do meio social. A redução do que não pode exibir essa conformação faculta a formação de sistemas parciais, como despossessões do consciente, correndo soltos, por assim expressar, à sua margem, manifestando-se porém nos sintomas cujo controle a pessoa não possui.
Assim, Melanie Klein talvez tivesse mais razão do que se supõe, ao afirmar que havia permanecido na linha de pensamento de Freud. Apenas, em vez da regressão de Jung a um paradigma epistemológico superado, ela fez avançar as possibilidades desse enfoque, estendendo a teorização ao processo de interconexão sujeito-objeto, eu-outro, incluindo agora a contingência dos sistemas parciais que se mostram decisivos no resgate desses dinamismos constitutivos da atuação psíquica. Creio que o “avanço” se revela mormente no sentido da amplicação do espaço de intervenção clínica, o que tem ainda o mérito de reposicionar a polêmica acerca do alcance terapêutico da análise.
Já o que notamos peculiar na teorização de Mead permitiu a convergência que pareceu tão oportuna e consoante os fatos entre o pragmatismo e o pensamento político norte-americano dessa época, centrado no ufanismo democrático do Mundo Novo, que os indivíduos todos juntos poderiam e deveriam produzir.
O que se focaliza é a interconexão, não como pré-estabelecida, mas na sua constituição como prática do mundo, entre o sujeito naquilo que é sua realidade autêntica, o que está sempre em devir e cuja vocação é somente o novo, pois esse sujeito (I) é mais como o fluxo de subjetividade na interconexão ativa com o futuro, o que está vindo a ser no caráter mesmo da experiência mais comezinha; e o sujeito (Me) naquilo em que já se constituiu nessa mesma experiência, onde o mundo se introduziu mas não podendo ser compreendido como uma realidade física totalmente independente, irredutível ao que o sujeito “compreendeu” na sua prática – não apenas nos termos da consciência, mas de modo integral, onde a resposta muscular, como lembramos, é tão importante quanto a personalidade e os fatores ambientais.
Na proximidade desse momento, por exemplo, havia a alternativa Wigotsky – Piaget acerca de como se constituía a chamada Linguagem Egocêntrica, da criança, este conceituando-a como monólogo, aquele como diálogo. Ora, tal camada de expressão já seria anteposta a uma Linguagem Interna e a uma Linguagem Externa, como algo apto a interligar a ambas. Sendo funcionalmente a linguagem do falante, ela se recolhe no íntimo, não sendo muito de si comunicável eficazmente aos outros, mas está profundamente arraigada no comportamento da criança, que assim pode acomodar os impulsos de sua expressão interna e a regularidade, o caráter coercitivo e legal, da linguagem externa – como demonstram Sebastian e Herma Goeppert em seu extremamente útil volume Linguagem e Psicanálise.
Num aporte mais social, como em Mead, ou mais voltado à prática da criança que é o brincar, em Klein, essas noções de mundo interior e objetificação da experiência são interligados não mais na perspectiva de um processo pessoal. Assim, o aspecto externo que é o do mundo, deixa de se restringir a uma colocação teórica na qual só pode figurar como a coerção de um sistema de regras a internalizar de algum modo. Ele já está desde sempre na atividade constitutiva do Eu, já que esta não se põe como um procedimento “signitivo”, de constituição “racional” ou “apodítico” de significados, conforme pretendeu o neocartesianismo fenomenológico, mas como prática incessante do mundo, fluxo da experiência ao qual somente através da maior abstração, ou vacuidade do pensar, pode o sujeito pretender furtar-se - onde o corpo e o desejo são inalienáveis à compreensão do que se desenvolve.
O que se antepõe naturalmente ao pesquisador parece ser o corolário pelo qual, nesse entremeio de constituição da experiência, que nunca pode ser “impessoal”, a Intervenção é algo já localizado na sua possibilidade clínica, desde que a prática interativa será, sem qualquer dúvida, fator determinante na experiência dos sujeitos que assim se envolvem. Um aspecto notável aqui seria a aproximação de Mead ao existencialismo, conforme sublinhado por Bogomólov, pelo que podemos notar a preocupação clínica sociológica se estendendo a um crítica bem fundada, como vimos, das possibilidades reificantes da subjetividade por processos sociais doentios – ainda que isso não seja o que Bogomólov propõe, já que para ele a preocupação existencialista ou pragmática não têm viabilidade prática, restando como meio aparente de contornar o problema real que é o modo de produção capitalista.
A compreensão da abrangência do pragmatismo no pensamento e na ação social intercepta justamente o tema da acomodação da sociedade ocidental à ambientação do imperialismo na era do capital monopolista. Assim, isso veio ao encontro do que nos Estados Unidos se revelava como algo típico de sua constituição como nação independente. O volume de Rorty sobre “O Pensamento de esquerda nos éculo XX na América”, como reza o subtítulo de Achieving our Coutry, cobre esse tema no interesse da atualidade do pragmatismo como escola nos EUA, mas sendo a exposição mais histórico-social, manter a focalização nesse espaço do Blog se torna mais favorecido pela simples referência ao título.
Aqui devemos salientar somente o grande equívoco político dessa esquerda, no momeneto em que considerou o stalinismo como suficiente motivo para fomentar intervenções internacionais do governo americano, o que ainda não aparece correlato a uma auto-crítica nesse referencial rortyano.
Para efeitos de composição da perspectiva, iremos agora observar como o pragmatismo que salientei conexo ao ativismo social de grande envergadura das duas décadas iniciais do século XX nos Eua, se tornou objeto de crítica ou de reapropriação no contexto das décadas subsequentes que assinalam a viragem mais formal e acadêmica decorrente de uma estabilização no campo epistêmico, que podemos compreender um tanto convulsionado não só pela transição radical nas humanities após o positivismo, como pela mecânica quântica ainda na sua época polêmica.
Teremos por esse meio um quadro abrangente do movimento de consolidação da psicologia, após o abandono da perspectiva dualista, da "consciência", correlata aos parâmetros fisiologistas do positivismo.
Após o que, podemos desenvolver uma apreciação contínua, mais minuciosa, da evolução do behaviorismo, a qual ilustra do mesmo modo a mudança que estaremos agora interceptando. É da consolidação de uma boa base acerca da história desses movimentos que poderemos examinar as escolas que surgem propriamente já dentro do parâmetro que estaremos designando formal, como o gestaltismo,mas que é geralmente arrolado como "funcionalismo".
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Vimos com Wallon que Janet havia mantido a transformação nitidamente observável no curso dos estudos psicológicos na base de uma “sustituición de las sensaciones y las imágenes, por las conductas como elementos de la actividad mental”. Isso acarretou uma mudança mais notável, aquela que inviabilizou limitar essas condutas a associações de elementos discretos, onde ao pensamento e à consciência, definidos como atividades de representação, se reservava um papel subordinado, esmaecido, em relação à vivacidade e imediatez do dado isolado.
Vemos essa inviabilização se tornar cada vez mais pronunciada até que, desde a década de trinta, favorece sobremaneira o formalismo funcionalista e os tratamentos sistêmicos dos fenômenos humanos, como se observa na sociologia e poderemos constatar na psicologia. A polissemia desses termos "funcional" e "formal" é notável como geralmente ocorre em humanities, mas aqui estão designando ambos uma exigência de método que se opõe à imediatez do dado que tanto interessa aos ativismos em política, e à observação empírica em sociologia, como ao pragmatismo em psicologia e espistemologia.
O que se substitui ao associacionismo, que parece ter tido o seu último grande representante com Stuart Mill, vimos ter sido, já com William James e o pragmatismo, a noção de que a consciência é fluxo, unidade, não somação de dados autônomos. Essa concepção se torna fortalecida quando se principia a formar uma noção mais precisa do que efetivamente ocorre em termos de vida psíquica, isto é, quando se começa a isolar os seus fatos constitutivos, as suas funções, por assim expressar, e procurar o como da sua efetivação.
Agora a separação entre sensação, percepção, pensamento, torna-se muito importante pois somente assim se pode fundamentar, se isso se mostra possível, a tentativa de investir experimentalmente cada um desses constituintes da vida psíquica. São dois, portanto, os núcleos dessa viragem: as noções de ato e comportamento, aquele podendo ser constitutivo deste. O ato, como uma percepção ou um juízo, não pode ser concebido como uma síntese, e sim como algo original, uma atitude. O comportamento é um conjunto de atos específicos de modo que o estudo não poderia ser sobre "a" consciência ou "o" espírito, mas sobre o aprender, o perceber, o compreender, etc.
Ora, vemos que é o conceito mesmo de subjetividade que se transforma assim. Focalizando a ambiência do associacionismo: ele provém do contexto clássico do século XVII, onde nasceu na polêmica entre Descartes e Locke. Tornou-se fundamentado na sua contextualização mais corrente com Hume, no século XVIII e se instrumentalizou na tendência mais geral de fornecer um quadro de referência às ciências do humano assim como as concebeu o positivismo, no século XIX, com Stuart Mill. Creio que não seria inadequado ligar o associacionismo com aquele fundamento barroco de um mundo que se supõe dobrado nas duas metades de pensamento e extensão.
A novidade do sujeito nesse contexto é imensa, principalmente se a visarmos pelo aspecto empirista. É certo que Descartes o havia introduzido na consciência filosófica por meio do Cogito. Desde esse ponto é possível a idéia de um "espaço" que seria do espírito, onde se ama e detesta, onde se pensa nas palavras de um poema ou se concebe um algorritmo matemático. Esse espaço de idéias não pode ser o mesmo daquele espaço "exterior", onde evoluem as coisas, os objetos, que se quebram ou se constróem, que comunicam seus impulsos e provocam dinamismos, lá onde repousa a máquina. Mas é com o empirismo, especialmente Hume, que esse espaço se anima com uma atividade própria. São suas as leis que permitem lidar com esses mesmos objetos. Sem essas leis os objetos jamais se poderiam formar para uma consciência na comunicação de tantos influxos que constituem uma experiência.
É assim que Deleuze reservou o termo subjetividade para esse espírito que ordena os dados impondo a estes as suas relações. Sobretudo, esse espírito cujas "leis" não são apenas as de uma imaginação, de um intelecto, mas também de paixões que envolvem o que nele há de especialmente humano.
Não resta menos que essa subjetividade do empirismo permanece como um bloco talhado por sua irredutibilidade ao outro mundo das puros dados, fluxo eterno de traços sem concatenação de direito, intrínseca. Esse bloco, mesmo ali onde se faz paixão, funciona de um modo que o torna mais privilegiadamente o objeto de descrição de uma lógica do que daquilo que hoje designamos psicologia - não obstante não ser fácil definir esse termo.
Trata-se de um puro Cogitans, enunciável como conjunto de leis, desde que seus constituintes são relações de tipo lógico, como contigüidade e semelhança, simpatia e preminência, que devem explicar como os traços são unidos na experiência sempre possivelmente, portanto, tratada na iminência de um relato.
Não se deixou de observar a proximidade entre essa "psicologia" em sentido lato, e a física newtoniana. Sua novidade reside no fato de ter ajustado o fundamento da causalidade ao fenômeno relatável, deixando de concebê-la como uma dependência da parte ao todo. Uma causalidade fenomênica intrínseca que poderia explicar uma instituição local pelos leis da paixão assim como o sistema solar pela lei da gravidade, mas não menos uma relação causal rigorosa, ainda que nem precisasse ser creditada às coisas elas mesmas. A revolução de Kant não tardou e seus efeitos perduraram. O neokantismo está em plena atividade ainda na transição ao século XX e a polêmica contra o associacionismo ainda está acesa na época de produção de Bergson e dos gestaltistas.
Ora, por outro lado, não há como não notar que a quebra da Mathesis, ali onde a concatenação universal de idéias não mais viabilizava a captura das relações subjacentes às coisas, deveria acarretar uma concepção de subjetividade irredutível àquela que se delineava no quadro desse dualismo fundamental. Não obstante, a física de Newton é sem dúvida adequável à continuidade da orientação associacionista, ambas originadas no ambiente de transformações em relação ao Renascimento que impõe o Saber clássico,.
Mas, por volta dos anos vinte, as coisas não puderam se manter nessa contextualização. A mecânica quântica deparou com um território ao mesmo tempo fenomênico e não regido pelas leis da causalidade que designarei "narrativa". Impôs-se um domínio de fatos cuja característica era a descontinuidade e cuja inteligibilidade se manteve, não obstante, ainda que com base num tratamento estatístico e probabilístico.
É curioso como a problemática do Compreender pode ser adequadamente utilizada tanto para introduzir o desenvolvimento das ciências sociais do século XX, especialmente da sociologia, quanto aquele da psicologia. No entanto, enquanto naquele quadro neokantiano o objeto problemático do compreender havia se tornado a cultura naquilo pelo que se havia insinuado o elemento da alteridade, da irredutibilidade social entre os povos e etnias, aqui ele se propôs no elemento da interioridade da própria cultura ocidental, no seu cerne inteligível. Heisemberg o expressa convenientemente ao relatar uma conversa com Wolfgang Pauli e Otto Laporte, entre 1920-22. Ele registra essa acalorada polêmica entre amigos, então estudantes da Universidade de Munique, sob o título "o conceito de 'compreensão' na física moderna", inserido no volume autobiográfico "A Parte e o Todo".
Aqui o problema do "compreender" se coloca perante um conceito de tempo como o einsteiniano, da relatividade, não intuitivamente acessível. Heisemberg propõe a questão de se o seu conhecimento da teoria de Einstein, sua competência comprovada na manipulação dos elementos e cálculos dela constituintes, o habilita efetivamente para testemunhar uma "compreensão" da relatividade. Pois esse termo envolve habitualmente um acesso intuitivo que o contorno epistêmico do novo conceitual da física não fornece. Assim, a questão de Heisemberg coloca mais geralmente, nesse início histórico de sua carreira como das transformações que informam a ciência atual, o problema epistemológico que esta acarretou. Será que, de fato, se pode aceitar que a Relatividade fornece uma "compreensão" sobre o tempo? Obviamente a dúvida não se refere à sua exatidão quanto à previsão.
Wolfgang Pauli, defensor da plena viabilidade epistemológica da física atual, argumenta que Einstein utilizou o pressuposto corriqueiro de que "o tempo é aquilo que se lê num relógio". Quanto a Heisemberg, suas reservas permanecem sobre a estimativa de que desde que o conceito ingênuo do tempo não serve mais na ambiência da relatividade, a linguagem e o pensamento tornam-se, eles mesmos, suspeitos.
A leitura desse texto mostra que o conceito ingênuo do tempo nunca foi o puramente observável no mostrador dos aparelhos de mensuração, mas sim aquilo com que Kant trafegou, ou seja, algo que possui uma essência, algo absoluto, ainda que Kant o tenha conceituado como transcendental. Mantendo-se na estrita abrangência do observável ou mensurável, Einstein inviabilizou a conservação de um referente objetivo, existencial, do tempo, para utilizar somente comportamentos descritíveis e previsíveis.
Exemplificou-se por tantos modos a acentuação cada vez mais pronunciada desse intervalo entre teoria física e intuição que o tema se tornou corriqueiro. O irônico no texto de Heisemberg é que ele começa com a colocação do problema como algo exterior ao seu próprio desempenho, como algo vindo de Einstein, mas no percurso de sua carreira ele se envolve radicalmente com esse quadro de impossibilitação do compreender numa via intuitiva, de modo que no decorrer da narrativa assiste-se como que à sua conversão a um novo modelo epistemológico que ele não tem como recusar, já que sua imposição se torna implicada por contribuição própria.
A questão se equacionou em torno de um novo consenso epistêmico baseado nas noções de simplicidade e totalidade. A unidade teórica se torna agora veículo de uma compreensão autêntica apenas no sentido pelo que resume o princípio comum ao qual se pode reduzir uma multiplicidade fenomênica. Esse princípio seria assim a relação ou o conjunto de relações que expressam a interligação de fenômenos observáveis em um fato enunciável. "Compreender a natureza", conforme Pauli, é o mesmo que examinar minuciosamente suas conexões e estar certo acerca do seu funcionamento interno, de modo que ese conhecimento pode ser reclamado sobre um fenômeno isolado ou um grupo de fenômenos.
É de um modo muito aproximado que Paul Guillaume, escrevendo sobre a "Psicologia da forma", estabelece o quadro mais abrangente em que se estavam definindo as pesquisas nessa área não somente nessa orientação, mas de modo geral: a psicologia, ele afirma, "não tem que criar entidades para explicar fatos, mas sim descrever estes e determinar as condições que permitem sua previsão".
Quanto mais ricos e complexos são os fenômenos e quanto mais simples é o princípio comum a que todos podem ser reduzidos, tanto menor é o risco de cometer erros, o que se propõe também como aptidão praticamente ilimitada da teoria a ampliar o número de ligações equacionáveis, observa Pauli. Enquanto que o conhecimento de tipo filosófico versava sobre a qüididade ou a essência - a "entidade", na expressão de Guillaume, isto é, não os traços do fenômeno como um comportamento observável mas um objeto ou coisa supostamente existente por si mesmo. Por isso, conforme a intervenção jocosa de Pauli no volume de Heisemberg, a filosofia se vota à definição de ser "utilização inadequada, de forma sistemática", de uma terminologia inventada para esse fim.
A interligação básica inter-fenomênica depende, portanto, não de uma explicação causal da natureza íntima do todo ao qual pertencem, a Physis grega ou o Deus cristão, mas sim do todo conceituado como o observável em termos do fato simples que se pode enunciar como o ambiente que envolve todos os fenômenos múltiplos e inter-relacionados nele e por ele. Compreender se torna possuir representações e conceitos necessários tão somente para verificar que uma multidão de fenômenos múltiplos integra um todo coerente.
Entre Pauli e Otto Laporte eclode então a polêmica sobre o status desse novo conceito de totalidade. Numa hipótese tratar-se-ia apenas da representação matemática que explica adequadamente o que nos é fornecido pela percepção sensorial. Mas Pauli interessa-se pela realidade factual da interligação fenomênica teoricamente enunciada.
A questão se torna ainda mais emblemática no quadro das ciências do humano, especialmente a psicologia, quando a inacesibilidade do dado à intuição se transporta para a mecânica quântica, onde o problema não é mais a inexistência de um substrato intuitivo àquilo que é mensurado, no caso o tempo, mas, inversamente do ponto de vista da apreensão subjetiva, da existência de um referente que não pode ser "adequadamente" mensurado.
Isto é, a mensuração desse referente não pode ser feita num padrão causal que, por um lado, iria permitir que se o lesse na relação biunívoca de uma quantidade, mas por outro iria estar dentro do esquema intuitivo pelo que um fenômeno é causado por aquele que lhe precede, não podendo haver algo "solto", sem relação com algo que o impele a ser. Assim, uma quantidade se predica de um referente desde que alguma outra quantidade precedente sofreu uma determinação, igualmente equacionável, que implicou o novo valor numérico observável. Nada ocorre desse modo na ambiência teórica de Niels Bohr. A questão aqui é a dos saltos quânticos.
Bohr enuncia o problema que o conduziu à formulação da mecânica quântica como tendo por objeto a estabilidade da matéria. Isso ocorre por ocasião do Festival Bohr de Göttingen, no verão de 1922, realizado com o intuito de fornecer a este a oportunidade para esclarecer questões que a essa altura inflamavam acirradas polêmicas pelo mundo inteiro, e que resultou na aproximação pessoal de Heisemberg e Bohr.
O que Bohr coloca com bastante oportunidade do ponto de vista epistemológico é que esse problema não podia ser sequer visto na perspectiva da física de Newton. Nos limites da mecânica clássica seria impossível formular aquilo que Bohr chega a expressar em termos do "milagre da estabilidade da matéria".
Mas desde que o acúmulo de informações sobre o comportamento dos átomos, como aquelas que vieram das experiências de Planck e Rutheford, mostrou que suas alterações energéticas implicavam estados estacionários, relações quantificáveis entre um e outro estado sem implicar que um fosse causa do outro, a estabilidade da matéria se tornava um enigma. Enquanto que no ambiente da física newtoniana, onde nada ocorre sem causação suficiente, essa estabilidade parecia por si só garantida pelas leis adequadamente mensuráveis que regiam o comportamento dos corpos.
O que se designou "salto quântico", essa alteração do estado energético do elétron, implica que, enquanto permanece estacionário em sua órbita, ele não absorve nem emite energia, mas que ao saltar para outra órbita o elétron emite ou absorve uma quantidade bem definida (quantum) de energia, as órbitas e as possibilidades de tráfego do elétron entre elas também sendo estritamente definíveis. Ora, o problema aqui é que nas palavras de Bohr, se "os conceitos intuitivos com que descrevemos os acontecimentos da vida cotidiada e os experimentos da física clássica são inadequados à descrição dos saltos quânticos" , isto se deve a que não ocorre pré-determinação desse salto do elétron. Ocorre uma verdadeira descontinuidade, não podendo de modo algum descrever-se o que se observa em termos de um "processo" no tempo e no espaço.
Aquele procurou reduzir todos os fenômenos sub-atômicos à descrição ondulatória, contra a complementaridade que Bohr já havia estabelecido, princípio que demonstra o outro aspecto desconcertante da teoria física e pelo qual os fenômenos sub-atômicos tanto implicam descrições em termos de corpúsculos quanto em termos de ondas. Ainda que o tratamento matemático com base na teoria ondulatória que Shrödinger forneceu tenha se revelado útil a certas aplicações, a denegação da complementaridade não pôde ser feita.
No momento do encontro narrado por Heisemberg, porém, a posição de Shrödinger estava sendo aceita como exeqüível, na base de que a maioria dos físicos se sentia muito desconfortável com os aspectos não diretamente intuíveis da mecânica quântica. Ele lançou a Bohr a acusação de ter formulado uma idéia francamente "absurda", de modo algum aceitando que os saltos quânticos pudessem ter validade epistemológica, enquanto que este aceitava suas colocações quanto à bizarra formulação conceitual e louvava suas contribuições matemáticas, mas sem abrir mão da existência dos saltos quânticos que hoje são ensinados nas escolas já em nível de segundo grau.
O conceito que Bohr utiliza para viabilizar epistemologicamente a mecânica quântica, uma vez que estava plenamente convencido de sua aplicabilidade na física, foi o de Forma, definida de um modo que veremos ser retomado com a maior fidelidade na psicologia. É nesse ponto que nos conscientizamos do sentido do título do livro de Heisemberg, A Parte e o Todo, pois Forma aqui designa o Todo definido como uma realidade pré-existente às suas partes, sobre elas exercendo uma coerção organizadora, uma ação de estruturação que as define como partes.
Paul Guillaume em "Psicologia da Forma" expressou o mesmo conceito ao escrever sobre a psicologia gestaltista que se implementa desde, aproximadamente, 1912. Seria oportuno, a meu ver, registrar que a Gestalt mantem boa penetração na psicologia atual, especialmente no Brasil, onde os ônibus do Rio de Janeiro tem ostentado a propaganda de um instituto de psicologia gestaltista.
Guillaume irá definir uma Forma (Gestalt) por contraposição ao que designa um "grupamento aditivo". A forma não resulta como uma somação dos elementos que existiriam antes dela. A forma é o que faz com que posteriormente à sua percepção, possamos identificar o que se apresentam como sendo os seus elementos, numa reversão completa da psicologia associacionista,mas por outros pincípios que não os do pragmatismo, lembrando que para James, de fato este poderia ser considerado um "empirismo radical" que superava o associacionismo para melhor preservar a orientação da ausência de princípios totalizantes à experiência. .
Assim, por "estabilidade", seu conceito básico, ele compreendeu o fato das mesmas substâncias terem sempre as mesmas propriedades. Um átomo de ferro, como um organismo vivo, são totalidades pois apresentam essa mesma característica de se repor, ainda que perturbadas por fatores extrínsecos, na sua configuração comum. Essa Ganzheit, como Bohr define numa ocasião ulterior de convívio com Heisemberg, não poderia se colocar como um "sistema composto por uma multiplicidade de tijolos atômicos". A totalidade aqui se designa como "estrutura global" , podendo-se comparar as que se observam na física atômica (átomos, moléculas, cristais) com aquelas que se vêem na biologia (os organismos), isto é, como Formas.
Veremos que o gestaltismo depende muito da independência entre fato psicológico e substrato fisiológico, sendo aí que se impõe a reinterpretação da lei de Fechner- Weber sobre os limiares de sensação, ao mesmo tempo que mantém a autonomia das leis que regem a composição de Formas independentes do reino onde estas se constituem, psicológico, biológico ou físico.
Assim como "compreender a matriz S" não significa afirmar que compreendemos o que ocorre, mas apenas que temos um modelo apto a fornecer resultados adequados à realidade experimental, os funcionalistas se interessam pelo cérebro como se as interações ocorressem na "caixa preta", só sendo analisáveis "os seus produtos, seus comportamentos", na expressão de Connes. Uma função cerebral seria identificável a um algorritmo matemático.
É certo que observa-se aí como esse desenvolvimento da obra de Heisemberg parece retroceder em relação à perspectiva da teoria dos campos, onde não se privilegiam as partículas isoladas, mas campos que dependem de uma infinidade de variáveis, o que, pelo que se pode deduzir, implica de modo mais proeminente a perspectiva do todo. Contudo, veremos que o envolvimento com o modelo da Forma se torna imbricado à conduta da caixa preta, de modo que Gestalt e Behaviorismo, a princípio movimentos opostos, não cessaram de se interpenetrar ao longo do seu desenvolvimento.
O experimento de Wertheimer consistiu na projeção sucessiva, em dois pontos de uma tela, da imagem de um mesmo objeto, por exemplo, um círculo luminoso. Constatou-se que dependendo de certas colocações de duração e distância das projeções, vê-se um círculo que se move da posição inicial à posição seguinte. Esse movimento aparente não se distingue do movimento real.
Observou-se nesse resultado não somente a refutação da tese associacionista, pelo que o que se vê teria que parecer uma reminiscência dos movimentos reais, mas também da assim designada "tese da constância" que se relaciona à concepção de uma veiculação determinista dos fenômenos psicológicos aos mecanismos fisiológicos. A tese afirmava uma relação constante entre a excitação local e a sensação. Mas essa percepão do moviemnto aparente, como das imagens ilusivas em geral, não se explica pelas excitações retinianas locais. A simples adição de circuitos cinestésicos, de movimentos dos olhos, aos circuitos de origem retiniana, não sendo suficientes aqui.
Notou-se igualmente que a imagem retiniana não apresenta as deformações percebidas no tipo de ilusão que perfaz figuras ambíguas, aquelas que podem ser vistas de um modo ou de outro, como no exemplo de Wittgenstein onde tanto se pode vislumbrar um pato quanto um coelho. Na literatura psicológica utiliza-se para exemplificar esse tipo de figura, a imagem publicada por Boring, chamada da mulher e da sogra. É uma mesma figura, um desenho, que pode ser percebida como a de uma jovem ou como a de uma mulher idosa.
Observe que nesses exemplos de configuração ilusória, podemos ver as coisas de um modo ou de outro, mas não ambos ao mesmo tempo.Tornou-se inevitável propor a noção de "campo", que já examinamos estar comum à epistemologia quântica - se pudermos nos expressar assim. A noção de campo institui uma referência em que as tensões produzidas pelos contrastes na organização de uma forma são sempre resolvidas a um valor mínimo, a forma percebida sendo sempre a "boa forma", nesse sentido de que é aquela que logra o maior alcance nessa redução da tensão na configuração dos elementos.
É forçoso reinterpretar assim a lei de Fechner-Weber, pois os limiares de sensação só são constitutivos da percepção enquanto integrantes da organização desta, não sendo de modo algum determinantes elementares do modo de sua realização.
A comparação de pesos, por exemplo, não poderia ser um ato acrescentado a percepções de cada experiência de objeto pesado, mas é a forma da organização da percepção, na qual as partes dependem do todo, que orienta no sentido de atribuir valores. Constatou-se que numa série de comparações os sujeitos "acertam", numa proporção não redutível à coincidência, os valores de mais ou menos pesado que são apresentados, propositadamente, "entre" os limiares.
Nesses exemplos de figuras ambíguas e comparação de pesos, como na percepção do movimento estroboscópico, se nota que há coerção estrutural da forma, independente da vontade e do saber, como da significação, o elemento local sendo então dependente da função que desempenha na estrutura (= forma).
"A relação parte-todo" é usada, então, "como básica" à construção em matemática, do espaço topológico que pode ser extenso à psicologia, como faz Lewin, enquanto característica do "espaço vital" (EV), ou propriamente "espaço psicológico". Não estensível assim à psicologia, o "espaço métrico" matemático: "De momento, não há, certamente, determinações métricas respeitantes ao espaço vital psicológico".
Além disso, o espaço do mundo físico é único, mas um espaço psicológico é singular a cada sujeito. O EV de cada um de nós é inteiramente separado dos demais, e assim, contrastando com a unidade ou singularidade do mundo físico, podemos sustentar a "pluraridade dos mundos psicológicos".
Como estudaremos em psicologia animal, esse tipo de distinção é importante também nesse campo de investigações, o animal não partilhando o mesmo mundo dos de outras espécies. Mas o que torna único o espaço psicológico humano não implica apenas fatores instintivos, o que podemos notar como complica a noção de "humano", pois na verdade justamente o que distingue o espaço psicológico é que ele é subjetivo, formalmente diferenciável de pessoa a pessoa, não um espaço de espécie (universal). .
Aqui Lewin distingue também a psicologia da sociologia, pois esta não está obrigada a considerar a mesma espacialidade subjetiva: "a dinâmica de um grupo de pessoas pode representar um único sistema para a sociologia". Mas quanto ao EV da psicologia, ele se desenha como se desenha um conjunto em matemáticas, cuja linha de demarcação é decorrente dos pontos fronteiriços fora da qual está a "carcaça" não-psicológica, onde se posicionam os "fatos não governados por leis psicológicas", mas por outras leis; e dentro do qual está o EV em si do sujeito "x", como o de cada um de nós. As relações variáveis entre a carcaça - o padrão de acontecimentos que afetam de fora - e o EV, torna-se o objeto da descrição do psicólogo a fim de apreender os acontecimentos relevantes no seu interior.
Como observou Garcia-Roza ("Psicologia estrutural"), Lewin se utilizou dos conceitos ".matemáticos relativos ao "espaço topológico" para tratar problemas atinentes à "estrutura e dimensão do campo psicológico", considerando assim que "a topologia nos permite determinar quais os eventos possíveis ou não num dado espaço de vida", aqui sendo importante as noções de região e suas variantes (ponto, conexa, fechada, aberta, limitada, de conexão simples, de conexão múltipla), caminho (path), interseção, etc; que resultam nos conceitos psicológicos de região e os casos de sua variação, locomoção, fronteira e suas variações tais como obstáculos, superposições, etc.
Mas Lewin conceituou outro tipo de problemas, os chamados "vetoriais, atinentes a "tensões e campos induzidos" que nos permitem determinar, "dentre os eventos possíveis, qual o que poderá ocorrer num caso específico". Ora, da topologia à hodologia, conforme Garzia-Roza, o trânsito é o seguinte. Através da topologia determina-se quais os pontos do campo psicológico são ligados pelos vários caminhos e que regiões esses caminhos atravessam. Mas esse espaço é muito geral para problemas que incluem conceitos de direção, distância ou força - como tamanho, intensidade, etc . - , isto é, não só determinantes dos caminhos possíveis, mas dos deslocamentos capazes de produzir num determinado momento. O conceito de força está ligado causativamente ao comportamento, e "as forças psicológicas seriam, portanto, de natureza vetorial". A hodologia é uma geometria construída por Lewin, não para substituir a topologia, mas para completá-la.
Krech e Crutchfield adotam uma conceituação espacial de Lewin já ampliada, apresentando-a em termos de uma definição do que seria o espaço psicológico mesmo, algo que ele teria designado como o "espaço da vida" e que seria, conforme os autores, "a concepção total que o indivíduo tem dos mundos em que existe e se comporta" incluindo os seus perceptos (imagens das coisas exteriores), mas também as coisas abstratas e irreais que ele concebe, seu conhecimento e suas crenças, suas perspectivas do tempo. Qualquer atividade potencial em que a pessoa pode conceber a sua particição constituiria assim uma região no "espaço da vida".
Creio importante notar que aquilo que poderíamos identificar como a motivação básica da psicologia espacial de Lewin, mantem-se firmemente num plano mais geral da problematização do sujeito. Assim, na psicanálsie lacaniana, que no entanto insiste na determinação de não ser uma psicologia, vemos Lacan afirmar que "canalhice é querer ser o Outro de alguém", sendo Outro algo que é o oposto de "outro" como apenas outras pessoas em relação a nós. Se bem que um conceito complexo, o Outro lacaniano pode ser razoavelmente posicionado como a realidade em que cada um de nós nos apreendemos, separadamente.
Podemos recolocar o que se verifica nessa transição do seguinte modo. Pela quebra da Mathêsis o universal já não se põe como o laço das idéias que assegura a conexão das coisas. Estas exibem seus funcionamentos parciais, não dependem de que se recupere a compreensão da inteligibilidade humana para que se possa esclarecer a sua manutenção enquanto sistemas - orgânicos, lingüísticos, produtivos, como mostrou Foucault. Mas assim a universalidade tampouco se põe como "o" objeto de pesquisa sobre o que seja a vida psíquica, inversamente ao que Foucault sugeriu. Em si o universal tornou-se objeto ambíguo que pode ser relativizado. Mas com relação ao sujeito, tornou-se o correlato de processos também autônomos que é preciso esclarecer sem, para isso, fazer apelo ao modo de ser das coisas.
Como já repeti algumas vezes, enquanto durou o associacionismo e todo o quadro "moderno", a consciência pôde ser inicialmente colocada como um epifenômeno. À fisiologia caberia o domínio das causas, portanto, enquanto que à psicologia só restava assinalar os seus pálidos reflexos.
Mas nessa mesma via, e enquanto a recusa do dualismo pareceu ao mesmo tempo implicada e contornável, o próprio domínio "epifenomênico" desses reflexos mostrou-se descontínuo, já que nos atos da consciência intervém agora fatores que não são percebidos atualmente pelo sujeito da experiência consciente, como vimos com Guillaume e mais geralmente no estudo das ilusões. Variedade dos estados de consciência e unidade da consciência, eis dois termos que se tornaram "obligadamente complementarios" conforme a expressão de Wallon.
Ao mesmo tempo que os estados de consciência implicam a irredutibilidade de seus processos, a consciência sempre se mantém na experiência subjetiva como um fluxo contínuo, ininterrupto. Eis por que nesse início do século a patologia da personalidade múltipla suscitou tanto interesse. Nesse caso a tendência à unidade se conserva ainda que para cada personalidade "particular", abrigada na individualidade ou personalidade referencial do sujeito, isto é, aquela que responde pelo nome e pelas experiências que socialmente lhe são atribuídas.
Como compreender a complementaridade entre o uno e o múltiplo, a tendência à unidade e a irredutibilidade dos estados psíquicos tornou-se o problema mais importante no sentido de que dele iria depender a definição do complexo consciente, isto é, a compreensão da vida psíquica.
Paul Guillaume mostra que essa concepção supõe dois níveis do pensamento na análise psicológica. Um deles é o inferior, do mecanismo puro, regido pelas leis da associação, onde não ocorre ainda o pensamento, mas esses processos descontínuos de fuga das idéias como no devaneio ou no sonho, nas estereotipias ou nas distrações. O nível superior seria o da síntese mental, onde o pensamento é produtivo e inteligente.
Guillaume nota como aqui já se insinuam as necessárias oposições de nuances e planos no que antes era o quadro sem matizes do associacionismo. Mas, como Wallon, registra que ainda resta muito de atomismo psíquico nessas idéias, tais como exemplificadas pela lei geral, que Paulham queria identificar à finalidade, enquanto algo que poderia unificar os processos da consciência - "atomismo" aqui é o oposto do quântico sub-atômico, assim como a aparência do uno é oposto ao realmente múltiplo.
Em qualquer desses casos constatou-se que ora se precisava ajuntar graus entre o inferior e o superior, de modo que o limite se tornava fictício, ora se devia ajuntar uma série de hipóteses particulares, jamais formuladas de modo convenientemente explícito, para manter a determinação da lei geral.
Logo, torna-se claro que é preciso observar como se desenvolvem teorizações mais engajadas na via das conseqüências da inviabilização de considerar que o básico da vida mental consiste em elementos ou partes ainda não sistematizadas numa organização coerente. Nessa progressão encontra-se, ainda que não diretamente relacionado ao escopo desses dois autores, Guilheume e Wallon, a concatenação entre a fundação do pioneiro laboratório de psicologia em Leipzig, por Wilhelm Wundt, e o desenvolvimento das pesquisas em Wurtzburg.
O período de transição, em que se tenta preservar elementos da psicologia da consciência do século XIX, mas já na presença de fatores críticos que desembocam na psicologia do século XX, é tradicionalmente referenciado pelo fracasso da escola introspeccionista, acontecimento espetacular que demonstrou a impossibilidade da concepção prévia.
Como a introspecção havia sido o meio de acesso a uma teorização da consciência no quadro dualista do século XIX, ela não precisava de modo algum do elemento da experiência no sentido da transposição laboratorial. Este se torna relacionável à problemática da psicologia quando o bloco talhado contra o domínio material se desfaz, surgindo esses múltiplos funcionamentos que, como comportamentos, parecem constituir o psiquismo. W. Wundt é o pioneiro no sentido de que pensou em instrumentalizar a própria introspecção que se tornaria, desde uma via de auto-apreensão subjetiva, uma prática objetiva de expressão onde o que ocorre ao sujeito viria a ser veiculado numa base de perene confrontação, nas mesmas condições, com a experiência dos outros sujeitos. Não obstante, essa transposição ao laboratorial não seria exatamente uma instrumentalização experimental (indutiva), e sim apenas observacional.
Contudo, Wundt não estendeu essa possibilidade ao pensamento, limitando-o, conforme Antonio Pena (op. cit.), ao "simples e puro controle de variáveis fisiológicas". Hymann o estabelece do mesmo modo. A fonte dessa psicologia experimental seriam "as observações efetuadas por introspeccionistas treinados sobre o conteúdo de suas próprias consciências", mas por esse termo, experiências, entendendo-se apenas as receppções sensoriais, isto é, pensava-se que dois observadores poderiam descrever o mesmo estímulo, usando uma terminologia sensorial semelhante.
Aqui, conforme Pena, a concepção sintética do pensamento aceita por Wundt, era o que inviabilizava, na sua perspectiva, que este pudesse ser acessível ao método experimental, pois essas produções sintéticas que estariam caracterizando o nível do pensamento não poderiam de modo algum ser explicadas na base de elementos representativos que dele participam. Também aqui já intervém a recusa de que os processos intelectuais possam ser definidos como isomorfos aos processos neurofisiológicos que ocorrem concomitantemente a eles.
Ainda que a literatura desses protocolos de pesquisa tenham se revelado uma "leitura monótona", conforme Hymann, os resultados pareciam confirmadores da viabilidade de conservar a introspecção como método, desde que mantida numa enformação observacional, pois não se discutia a convicção de que esses protocolos representavam um conjunto de observações científicas.
O professor Romeu Gomes, numa monografia destinada aos seus alunos, intitulada "A Psicologia Contemporânea", registra que a iniciativa de Wundt se mantém conceituada como na abordagem estruturalista em psicologia, considerando-se que ele é o seu iniciador. Assim, a limitação das observações sobre a consciência a aspectos de sensação e percepção estaria lastreada na concepção pela qual com a introspecção poder-se-ia "identificar a estrutura da mente, através da identificação dos aspectos fundamentais da experiência mental".
O Léxico de Psicologia de Claude Goulet, veiculado na Internet, esclarece que a atribuição de iniciador da abordagem estruturalista a Wundt foi contestada por alguns que consideram ser isso mais adequadamente expresso de Titchener, aluno de Wundt. Assim, usa-se por vezes o rótulo de elementarismo para traduzir o que é próprio da concepção introduzida por este. Obviamente, não se trata do movimento "estruturalista" como uma tendência geral em ciências humanas, uma metodologia, o que só se pode afirmar desde Levi-Strauss, Althusser e Lacan, movimento que tem sido variamente interpretado, para alguns podendo ser atribuído, como ao seu pioneiro, ao tratamento de Hegel por Kojéve. Omais comum é propor-se que se tratou da aplicação da linguística de Saussure aos problemas de áreas específicas em humanities.
Romeu Gomes nota que um dos experimentos mais famosos de Wundt foi o estudo para mensurar o tempo decorrido entre a apresentação de um estímulo e a reação do sujeito frente a ele. Gomes assinala a impressão de Reuchlin pelo que a importância de Wundt não se limitou aos resultados de suas observações, mas abrange as polêmicas que suscitou e as reações a aspectos de sua concepção que parecem ter alimentado as correntes da psicologia "experimental" (laboratorial) inicial.
A problematização da introspecção como método privilegiado da ciência psicológica ocorre no momento em que pesquisadores de Wurzburg decidem estender sua aplicação experimental ao domínio do pensamento, especialmente Külpe, Karl Büller e Selz, a quem N. Ach, A. Messer, H.J.Watt e K. Marbe se unem na aceitação de que há outro modo de abordar as atividades produtivas do pensamento além do método proposto por Wundt, de resídios históricos, pelo que somente as produções culturais poderiam ser fontes nesse tipo de pesquisa. Esse enfoque caracteriza assim as pesquisas que se enfeixam sob a rubrica da "escola de Wurzburg".
Aqui sugere-se a não concomitância de sujeito e experimentador no processo introspectivo. O experimentador controla o sujeito a quem cabe a tarefa de resolver os problemas apresentados por ele, descrevendo posteriormente as tentativas e estratégias que utilizou na consecução da tarefa. Claparéde, em 1936, adaptou ligeiramente essa técnica, de modo que o sujeito iria narrar suas estratégias ao mesmo tempo em que as utilizava, pensando em voz alta, por assim expressar, conforme nota Antonio Pena.
Um dos maiores críticos da "escola de Wurzburg" foi o próprio Wundt. Na formulação de suas objeções, lançada em 1907, ele produziu um verdadeiro tratado sobre o que deveria ser o método experimental, para então observar que nada se processava conforme o devido na "escola", a que foi contraposto, contudo, que o rigor preconizado por Wundt não se verificava na prática nem nos experimentos de ciências físicas.
O que determinou a ruptura mais fundamental entre Wundt e os pesquisadores de Wurzburg, porém, foi a questão do pensamento sem imagens. Pena apresenta essa tese da escola de Wurzburg com base em que ela deriva da influência da psicologia do ato de Brentano. Este autor é importantíssimo para compreender muito do que ocorre na viragem do século, de fato sendo reclamado como influência determinante de tendências tão contrastantes quanto a dos neopositivistas do Círculo de Viena e da fenomenologia de Husserl. Sua colocação é baseada numa oposição entre ato e conteúdo. Os conteúdos não seriam psíquicos, mas físicos, enquanto que os atos ou funções seriam o essencial da vida psíquica.
Observa-se assim uma reversão não mais apenas do associacionismo, mas também do elementarismo de Wundt e do tipo de abordagem intermediária, como de Janet e Paulham. Nesse viés lidava-se apenas com conteúdos, isto é, representações e imagens, em termos de materiais recolhidos pelos sentidos, para então postular uma posterior unidade que seria da consciência. É nítido que Brentano inverteu o esquema, mostrando então que a psicologia não mais deveria se preocupar com representações, mas com o ato de representar, nem com a imagem, mas com o ato de imaginar, menos ainda com o juízo, mas com o ato de emiti-lo ou enunciá-lo, conforme Pena, que atribui a essa colocação de Brentano o situamento da escola de Wurzburg como uma autêntica "psicologia estrutural e centrada no sujeito", inversamente ao trend do século anterior.
Hyman conta numa perspectiva mais prosaica a história do "golpe mais devastador" que minou a "confiança nos dados introspectivos". Assim, teria havido comunicações, reportadas pelos observadores treinados na introspecção, que mostravam elementos que não correspondiam ao esquema clássico de sensação, imagem e sentimento simples, até aqui considerado como as unidades básicas da consciência. Esses "novos e indescritíveis elementos conscientes" foram então designados "pensamentos sem imagens".
Titchener surge como "o principal expoente da psicologia wundtiana" que, nos Estados Unidos, se pôs a atacar a tese de Wurzburg, assim como Wundt. Eles insistiam em que tratava-se de um equívoco, essa tese do pensamento sem imagens reportando-se a um fato meramente suposto, devido à deficiência do manejo da técnica de introspecção. Mas na colocação de Hyman, a controvérsia sinalizou ao mundo acadêmico que a introspecção não poderia ser um instrumento confiável na obtenção de dados científicos. O que resultava como relato poderia tanto ser produto do treino e do laboratório onde este ocorria, quanto observação de dados objetivos.
Pena observa, contudo, que a sorte da teoria tão atacada por Wundt foi amplamente aceita por várias correntes, cujos experimentos "confirmaram a existência de um pensamento sem imagens". Isto seria apoiado por Deleuze, que considera o pensamento numa base irredutível aos processos de "recognição", isto é, de assimilação de dados exteriores onde o "erro" seria do tipo reportado por Platão, onde se diz "bom dia Teodoro" quando é com Teeteto que casualmente encontramos.
Mas de fato, o pensamento sem imagens descoberto em inícios do século XX, não é apenas o correlato do conceito filosófico ou de uma capacidade artística . Esse, aliás, me parece um ponto obscuro em Deleuze, pois Diferença e Repetição nos mostra a "recognição" como referencial de uma série de teorias clássicas cujo erro deriva de que ignoram o "pensamento", mas por outro lado parece estar preservando essa dicotomia que criou entre o que não existe e o que existe, como se fosse entre duas ordens de existência.
Os exemplos do pensamento real, que ilustrariam sua teoria de como pensamos, logo, exemplos que mostrariam como o pensamento não é recognição, nunca são possíveis se não a partir de textos ou experiências de esquizofrênicos, ou artistas ou filósofos engajados em formas de estranhamento das práticas comuns de expressão ou da linha tradicional da "história da filosofia", assim como entende Deleuze essa deriva paralela da "história". Estes filósofos e artistas são mostrados sempre como serem em conflito com os medíocres, a maioria, os que pensam - ou pensam que pensam? E por que? Isso não se explica - recognitivamente.
Esse vício de argumentação fica ainda mais complicado no Anti-édipo. Ali o Édipo freudiano fica reservado a uma forma de socialização, entre as demais formas, e todas elas sendo irredutíveis ao "esquizofrênico" que cria sua própria forma. Mas ou existe o Édipo freudiano, ou existe o esquizofrênico deleuziano, posto que o Édipo freudiano não é apenas o "papai-mamãe-e-eu" mas sobretudo as formas de derivação patológicas que podem ocorrer desde esse esquema primordial, o que inclui o esquizofrênico como uma delas.
Seria como supor que a física de Newton poderia ser parte da física de Einstein. Assim como estas são duas teorias físicas completas, portanto entre-excludentes, as teorias de Deleuze e Freud são teorias da mente completas, portanto incompatíveis. Ora, é preciso saber que é que estamos criticando em Freud. Não podemos como Deleuze afirmar que o criticamos porque ele forneceu uma forma de socialização, mas procedendo como se estivesse fornecendo uma teoria da mente, uma vez que para Freud sua teoria da mente assim como ela é, explica ao mesmo tempo toda forma de socialização humana existente.
Se antepomos a Freud que existem várias formas, não uma só, não podemos ao mesmo tempo conservar sua teoria que é o que é enquanto equacionamento de uma realidade suposta, aquela forma única e universal de socialização. Deleuze-Guattari instalaram assim uma contradição insolúvel na construção mesma do seu aparato teórico.
Minha crítica a Freud é à sua ambição de fornecer uma teoria da mente completa ("aparelho psíquico"/Édipo), de modo que ela abrange a intenção teórica de Deleuze-Guattari ("inconsciente maquínico/desejo esquizofrênico") que tem a mesma ambição, ainda que estes não tenham sido coerentes em princípio.
Não creio, portanto, haver uma forma (total) de socialização, para todas as sociedades, ou formas assim classificando sociedades, nem que seja explicável desde a natureza da psique humana, pois isso seria um paradigma inevitavelmente sociológico - o androcentrismo de Lacan, por exemplo - quando a psicanálise não é, nem pode ser, uma teoria social. Esse paradigma teria que ser examinado dentro da sociologia, e ali descobriríamos que está seriamente contestável hoje em dia.
Assim, Freud também não é coerente de todo, ainda que seja mais sutil a sua contradição. Mas criticar Freud requer que saibamos quais foram as suas categorias próprias, para mostrar o que pode ser dado como inválido. Quanto às de Guattari-Deleuze, minha crítica é que o capitalismo não é uma forma de socialização. Aqui não pretendi ter explicado as suas determinações objetivas (econômicas), apenas notado que aquilo que o capitalismo subentende como geopolítica, são formas de alteridade (negação da alteridade, objetificação do outro, etc.), e é só isso, formas de alterização, que o que Freud chamou complexo de Édipo de fato identifica, tudo o mais necessário para uma teoria da mente completa, não sendo demonstrável senão a partir de uma dose de abstração considerável, a qual, porém, nós podemos ligar a certos pressupostos intematizados vindos de outras áreas do saber - biologia, sociologia, antropologia - que hoje já são manifestamente inaceitáveis não só no seu conteúdo mas principalmente quanto à sua forma.
Além disso, se restringimos o inconsciente como linguagem, só o que estaremos analisando é a linguagem, não há aí necessariamente uma teoria da mente. Em todo caso, como linguagem ou como aparelho pulsional, ou seja, em todo caso mantendo-se a pretensão psicanalítica, esta se invalida se for claro que sua abrangência explicativa é demasiada, injustificada em relação àquilo que supõe poder reduzir. Por exemplo, não se pode explicar a arte como reflexo do impulso anal (Cf. Ch. Brenneer); não se pode justificar como universal da mente, a lógica aristotélica (Cf. Lacan). Essas são formas redutoras de entender a estética e o pensamento, contraditórias com o que decorre de teorias que já são mais aceitas nestas duas áreas, principalmente convergentes com teorias que já não são mais aceitas. Mas do mesmo modo, não se poderia explicar a arte e o pensamento pelo viés da maquínica deleuze-guattariana, trata-se de reducionismo, tanto quanto a sua classificação antropológica está invalídável do ponto de vista da antropologia..
Não pretendo, portanto, que o Édipo exista, nem o desejo maquínico, em consequência. Mas sim que a linguagem coloca o problema da alteridade: as relações de alterização que os vários textos colocam, por exemplo, a metafísica sendo uma relação em que a alteridade é somente suplementar em relação à identidade, enquanto pode-se demonstrar haver textos que estruturam relações irredutíveis a essa; e a problemática inconsciente que a alteridade do signo (enunciado) em relação à sua atuação (enunciação) coloca. Quanto a essa problemática, sua variação só pode se compreender como basilar em relação às condições de alteridade que os textos colocam, não autorizando extrapolações generalizantes do ponto de vista biológico ou mental, etc., a partir daí.
Ora, a esquizoanálise fala em territorialidades ("primitivo"/grupo), em dominação do território ("bárbaro"/déspota) e em franqueamento ilimitado de territórios ("capitalismo/Édipo), mas não fala nunca de uma geopolítica enquanto as relações de alteridade que se instauram em cada plano que consideram legítimo. O capitalismo exporta regimes para fazer correr o fluxo do dinheiro, nos dizem, mas não dizem nada sobre as diferenças de relações alterizantes entre esses regimes, se comporta heterogeneidade pensável como a democracia ou se objetifica o outro por só poder lidar com a identidade do mesmo, como num fascismo; isso é indiferente à explicação da causa profunda do capitalismo e de como/porque ele age como age, no Anti-Édipo.
O inconsciente maquínico é a transparência do signo/mundo, nenhuma alteridade pensável entre a cartografia da memória e o mundo habitado pelo sujeito da cartografia, ainda que esse mundo transparente seja irreconhecível para outros, tanto quanto não comporta nenhuma desconfiança de que o signo não é imediatamente o produto da alma.
Assim, quanto a Deleuze, não sabemos bem se a teoria versa sobre como todos pensam, ou sobre como alguns pensam e como se deve pensar, sendo que ela se estende ainda a como as coisas são. Pois, no Mille plateaux, o pensamento ´"rizomático" se torna, pelo conceito de rizoma, uma teoria geral de todos os fenômenos do mundo (agenciamentos, linhas).
Em todo caso, lançando o conceito de estrutura diferencial, em Diferença e Repetição Deleuze supõe o "pensamento" como uma gênese onde o que se cria é não um termo correlato a uma idéia que seria a identidade de um só conceito, mas uma constelação problemática, uma "idéia" definida como "multiplicidade" com relações intrínsecas de que se deriva, como que num outro nível, as possibilidades de posição dos elementos recognoscíveis. O que compõe a multiplicidade só pode se manter nesse elemento ideal, um diferencial (dx/dy) dos seus elementos, de modo que o pensamento não se põe nem como inato, nem como adquirido, mas fala-se da genitalidade do "ato de pensar", ou seja, de criar ideias genéticas da experiência de mundo possível, isto é, considera-se que ele é engendrado sempre no âmbito ideal, no seu próprio meio inconsciente. Exemplos ou tipos de idéia, nesse sentido de estruturas, seriam o atomismo (idéia física) de Epicuro; o Organismo (idéia biológica) na concepção de Saint Hillaire e o trabalho (idéia social) na teorização de Marx.
Não é que não simpatizamos com a índole libertária e anti-repressiva de Deleue-Gauttari, nem que não apreciamos seu talento literário e sua vasta erudição, mas sim que aquilo que eles objetivaram em termos dessa liberdade, nós precisamos ver se realmente pode ser obtido pelos meios que eles pressupõem serem viáveis, e para isso é preciso antes corroborar as suas premissas sobre o que justifica esses meios, assim como examinar se a índole libertária não chegou somente a uma concepção impossível do que é "ser" livre. Como espero ter ficado claro, não creio que eles tenham fornedido um modelo válido nessa acepção, ainda que tenham iluminado questões reais com suas críticas.
O Devir das ciências humanas, em sua redação original, testemunha da influência do pós-estruturalismo, e particularmente da esquizoanálise, na minha iniciação filosófica, a qual tangencia o percurso uerjiano na década de noventa. Mas um estudo aprofundado das humanities, como este, só pode conduzir à crtítica e reelaboração do pós-estruturalismo, e as que efetivei estão aqui relatadas quanto ao básico. O estudo posterior (Conceito e expressão) me permitiu apreender a importância de Derrida quanto à problemática da alteridade, mas atualmente, na proximidade do estudo sobre o tema literário dos duplos como releitura do Romantismo, parece-me bem claro ser necessário conceituar o pós-modernismo como ruptura em relação ao pós-estruturalismo.
O pós-modernismo teórico não é um novo paradigma, nem é uma época de transição até ocorrer um novo paradigma, mas sim um pensamento que recusa proceder por paradigma. Ele opera a recorrente tematização do seu Intertexto, entendendo-se como produção de linguagem cujo meio são as linguagens em que se constitui. É um permanente questionamento meta-teórico, como pensar a propósito de que teorias e pressupostos estão embutidos em nosso modo de pensar sobre algo específico, por exemplo, o feminismo, a sociedade, a irredutibilidade cultural, etc., cujo horizonte enquanto esse "algo" intercepta nossas práticas em seu devir sócio-histórico.
Krech e Crutchfield notam, porém, que essa polêmica "longa e muitas vezes áspera" que ocorre "no início do século XX", acerca do "pensamento sem imagens" deveu-se mais à posição radical pela qual os partidos combateram.
Por um lado, havia os que afirmavam que todo pensamento deve ser sem imagens, de modo que onde existem imagens, estas não desempenham papel importante, o conteudo do pensamento sendo somente "de pensamentos". Enquanto que os que a isso objetavam preconizavam que a descrição das pessoas que não incluíam as imagens haviam sido feitas inadequadamente, pois havia abundantes estudos sobre o papel da formação de imagens no processo do pensamento, especialmente na pesquisa da compreensão e resolução de problemas. Os autores reportam o testemunho de Galton acerca de um amigo que resolvia mentalmente cálculos por meio da visualização interior de uma régua que lograva "ler" mentalmente.
Krech e Crutchfield consideram que a luta terminou "sem decisão", pois os psicólogos concordaram em que as imagens às vezes estão presentes, ainda que subsistam descrições de outros aspectos "mais tangíveis" no que se designou "comportamento adaptativo", isto é, a conduta de resolução de problemas.
Assim, quando se trata de descrever o conteúdo da experiência interior quando se tenta resolver problemas, os dois autores consideram não haver dúvida sobre o fato de haver dois tipos de objetos possivelmente presentes, exteriores e interiores. Os exteriores são aqueles que vemos objetivamente no espaço à nossa frente como constitutivos do problema (cercas altas, portas trancadas, etc.); os interiores são as imagens que nos vêm à mente enquanto nos concentramos na questão, por exemplo, quando o romancista "vê" o herói do romance que está tentando criar.
Também no tocante à questão dos juízos a posição de Wurzburg desenvolveu-se de modo a inviabilizar a tradição associacionista, pois constatou que, em vez de se reduzir a uma conjunção de conceitos ou idéias, o juízo implica uma adesão ou assentimento do sujeito que o emite ou enuncia, de modo que esse componente interno, a atitude, será relevante como intenção, aderência ou envolvimento daquele que julga com o formulado pelo seu juízo. Há assim um componente de crença, ao mesmo tempo que um fator de prazer no enunciado de juízos. Esse prazer existe mesmo quando o juízo parece conflituoso com o interesse do sujeito que o enuncia.
Quanto à obtenção de conceitos, parece que depende da formulação do problema, posto que na interação do sujeito e do experimentador este pode induzir naquele, por exemplo, por certa pergunta feita em momento adequado, o elemento da resposta que, no entanto, o sujeito não verbaliza, isto é, não apreende como relevante, ao narrar o como do seu processo de resolução do impasse.
Guillaume observa as experiências de Duncker, conservando certos resultados obtidos por Selz, no domínio da pesquisa das formas de invenção utilizando sujeitos que deveriam "pensar em voz alta" enquanto tentavam solucionar problemas sugeridos pelo investigador, por exemplo, como destruir um tumor com raios X sem atingir os tecidos sãos que o circundam. A resposta, que seria concentrar sobre o tumor raios oriundos de vários pontos, vindo de vários lados, mas de fraca intensidade, nunca era imediatamente encontrada pelos sujeitos leigos quanto às técnicas cirúrgicas da época. Ocorre que, assim como já havia se tornado manifesto pelas experiências de Selz, jamais ocorria o que a descrição associacionista previa.
Por essa descrição deveria haver uma produção aleatória, profusa, de associações, ao que seguir-se-ia uma seleção crítica. Os fatos observados mostram, contudo, que não há tateamentos completamente soltos, mas uma evolução contínua do problema, em que cada fase é solução em relação à precedente, os erros mostrando-se como soluções parciais, até que o sujeito realiza o progresso que vai, geralmente, do geral ao especial.
A via ao progresso exibe assim retornos à proposta inicial inviabilizada por um obstáculo, que se torna de novo inviabilizada por que fracassa o outro aporte que se supôs contornar aquele obstáculo, e então se propõe um outro modo de endereçar o problema, que deverá sofrer retornos, assim consecutivamente, até que a solução é encontrada.
Mas Duncker critica Selsz, pois essa sua "tese da ressonância", conforme a terminologia de Duncker, só explica procedimentos que já estão dados na experiência anterior do sujeito, não servindo para explicar o que ocorre no caso da autêntica invenção, que é precisamente o objeto da pesquisa. A questão essencial é então como é que algo pôde ter tomado a característica de meio não por uma experiência cega que somente demonstra que esse meio teve êxito, mas por um processo intelectual que demonstre que o meio deve ter êxito.
Assim, quando Duncker propõe um problema parecido com o dos raios X, isto é, quando a solução é do mesmo tipo (uma multidão se desloca à rua principal da cidade no mesmo momento; que fazer para evitar o congestionamento? Sendo a solução orientar o fluxo aos acessos laterais), os sujeitos resolvem o problema sem pensar no anterior, sem notar qualquer analogia entre ambos, o que só compreendem ocorrer quando o investigador chama a sua atenção para o fato. O momento decisivo da invenção autêntica é assim um fato de pensamento concreto, a dedução sendo inseparável da intuição (Einsicht), conforme nota Guillaume, que exemplifica com Karl Duncker, também integrante do movimento gestaltista, o ponto de vista dessa abordagem.
Creio que isso se pode colocar mostrando que inversamente a inicialmente ser preciso dispor dos fatores do problema, isto é, intuir a posição de seus constituintes, para depois reunir as relações que ele implica, compreendendo então o problema, a sua posição já equivale ao modo mesmo como este é intuído. Compreender o problema é intuir as relações em que são dados os seus fatores. Assim, as formulações e reformulações são as várias tentativas de intuir uma totalidade dada como esse problema, na concepção gestaltista.
Somente quando se logra ter tornado a totalidade manifesta, é possível, conjuntamente, encontrar a sua solução, desde que esta corresponde à intuição do modo como ele se adequa à invenção do meio que o resolve, novo ambiente de totalidade que envolve o problema original como seu fator. A dedução não se põe desde uma estipulação independente de premissas, mas como a reposição, ou novo ato de intuição do problema como um todo, no contexto de sua solução. É interessante notar como se reverte assim a secular oposição filosófica entre o que seria a atividade nobre da alma, a dedução, e o que seria o quinhão da animalidade, a intuição e a percepção dos dados sensíveis.
Seria também interessante notar a contribuição de Ach, no desenvolvimento das pesquisas orientada pela "escola de Wurzburg", mesmo quando seus integrantes já estavam em fases mais avançadas de suas carreiras, nem mesmo ligados profissionalmente à localidade de Wurzburg. As pesquisas de Ach abrangem o domínio da inteligência abstrata e da vontade.
Hyman narra uma experiência de Ach sobre pressões grupais. Trata-se de determinar a constância do comportamento individual frente a uma oposição grupal, ainda que não ocorra qualquer fator que deva induzir o sujeito a mudar o seu ponto de vista. Bem inversamente, nessa experiência, sete pessoas foram instruídas a responderem com uma medida errônea numa tarefa de comparação do comprimento de linhas. Assim, quando a oitava pessoa emitia o juízo sobre qual, dentre outras três linhas, era a que reproduzia a que havia sido adotada como padrão, todas as outras pessoas responderam que seu julgamento estava errado.
Essa pessoa (sujeito crítico), que nada sabia sobre a instrução prévia das outras, não tinha dificuldade alguma em notar qual a linha certa, mas seu resultado sempre se confrontava com a de todos os outros que davam como certa a linha errada. Contudo, o investigador tomou o cuidado de apresentar algumas situações em que o grupo concordava com o sujeito, de modo que, quando a tarefa era especialmente fácil, com resultado praticamente inequívoco, ocorria a discrepância entre sua percepção e a da maioria.
Em 18 situações de prova, 12 eram "críticas", no sentido de que o sujeito seria unanimemente confrontado, na sua evidência, pelo grupo. Em 50 pessoas, 37 cederam à pressão grupal ao cometerem um ou mais erros de julgamento no sentido do consenso do grupo, isto é, ao mudar sua opinião apenas para concordar com a maioria, ainda que nenhuma tenha cedido em todos os 12 testes críticos.
Há também uma pesquisa importante de Ach no domínio da evocação, pois inviabilizou a tese clássica, vinda do associacionismo, sendo conservada pelos behavioristas, de que o reconhecimento de um objeto reapresentado ou a evocação da lembrança do objeto devido a um outro, presente, sempre dependem de que os traços que são selecionados do passado e reintegrados no presente o são, efetivamente, por que foram os mais reforçados. Isto é, a seleção atual deste ou daquele traço que evoca a anterior percepção se faz em favor da recordação que foi mais freqüentemente ou mais recentemente unida ao conteúdo da percepção atual.
A concepção de Ach era inicialmente a de que havia, junto às associações, tendências determinantes das atitudes mentais voluntárias ou involuntárias. Sua experiência se fez no sentido de demonstrar a existência desses dois fatores e comparar sua força respectiva.
Consistiu em promover a memorização de pares de sílabas em duas séries. Na série A as sílabas rimam (dag-bag), na série B a ordem se inverte (dag-gad). Tendo os sujeitos memorizado certos conjuntos de sílabas apresentados separadamente para ser assim associados, cada conjunto a uma das duas séries, a tarefa consistia em responder a outras sílabas, pronunciadas pelo experimentador, com sílabas que pudessem rimar com estas. Mas no decorrer do exercício eram introduzidas entre essas outras sílabas, algumas que faziam parte da série A ou B. A tendência correspondente à prescrição da tarefa, rimar, estaria, ora em acordo, ora em conflito, com as associações que vinham se fazendo normalmente, conforme essas sílabas proviessem das séries A ou B.
O acordo ou conflito corresponderia a uma diminuição ou alongamento do tempo de resposta do sujeito. Também o conflito poderia induzir a erros, quando a tendência gerada pela associação prevalecesse sobre a tendência a obedecer à regra especial do exercício. Ach pensou assim ter demonstrado a irredutibilidade entre esses dois tipos de processamentos, os meramente associativos e os que resultam da intervenção de uma tendência ou atitude assimilada pelo sujeito, no caso, resolver o exercício.
Lewin, porém, retomou esses experimentos, com algumas variações em que séries de pares de sílabas são fixadas por numerosas repetições. Nos experimentos críticos há uma tarefa definida (inverter, rimar, etc.) sendo inseridas, entre sílabas novas, sílabas repetidas das listas antigas. No resultado de Lewin jamais ocorrem erros, nem qualquer diferença no tempo de resposta.
Guillaume descreve as várias composições experimentais efetivadas por Lewin, sempre com o resultado de que a aprendizagem anterior fica sem efeito no contexto de uma tarefa atual. Assim, aquela em que são os sujeitos que criam os pares de sílabas conforme uma tarefa definida, por exemplo, substituir a consoante inicial dura por uma consoante doce (pal-bal). Associações por contigüidade que supostamente deveriam interferir quando esses pares fossem misturados com outros, novos, nunca suscitavam qualquer influência mensurável.
Em outro experimento ele induziu a situação de erro, complicando sobremaneira as tarefas, e o que se pôde apurar foi que o erro se deveu a uma atitude adotada pelo sujeito, inadequada à tarefa atual. Assim, numa série de exercícios que deviam implicar uma atitude a ser reproduzida em todos os casos intercalava-se um par que implicava uma variação dessa atitude conforme uma outra série de exercícios. Nesse caso demonstrava-se que não era a associação que se mantinha conflitante com uma participação voluntária do sujeito, mas sim que o conflito estava entre duas atitudes participativas diversas, isto é, em todo o caso, mesmo nas experiências conduzidas por Ach, ainda que mal interpretadas por ele, só estariam presentes as tendências determinantes.
A interpetração de Lewin acerca da evocação, ainda que por outros meios que Ach, estabeleceu que sua efetivação não depende de uma associação a elementos especialmente reforçados, mas sim de tendências subjetivas determinantes. Mas foi posteriormente criticada, no âmbito mesmo da Gestalt, conforme Pena e também Guillaume, por Koffka. A este pareceu a interpretação do problema por Lewin limitada a processos voluntários e motivacionais, enquanto que seria preciso focalizar o fenômeno da evocação assim como ocorre normalmente, isto é, de modo espontâneo.
Guillaume mostra que Koffka antepôs que só se demonstrou, até aí, que uma tendência pode estar na base de uma evocação , mas não que é condição necessária desta, como também que se duas percepções forem consecutivas, a presença de uma não basta para determinar a evocação da outra.
Köler, Koffka e von Restorff estabeleceram então afirmações mais coerentes com a teoria gestaltista onde, como no caso da percepção, se ressalta a coação do campo sobre a experiência do sujeito. Assim, se uma percepção se impõe independente de ser ou não pretendida, devido à organização figural no espaço, também uma evocação depende da organização fenomênica no tempo e se apresenta independente da participação voluntária do sujeito.
Se, conforme Pena, a importância de uma contribuição científica pode ser aquilatada pelo número de pesquisas ulteriores que motiva, isso sendo aplicado a Lewin que, não obstante as críticas, é o responsável pela ampla recepção do gestaltismo na área da psicologia social, creio que se poderia estender a observação à "escola de Wurzburg". Assim, também o autor registrou que foi justamente em torno da temática suscitada por Ach acerca da tendência determinante que se desencadeou o trabalho revolucionário de Lewin dentro do movimento gestaltista.
Seria interessante introduzir aqui algum lineamento básico dessa viragem, mas o Brasil sofre atualmente de aguda escassez de literatura informativa sobre ciências, assim como os títulos que vimos referenciando; e obviamente as referências estereotipadas de revistas não-especializadas não são utilizáveis. Registro aqui mais uma vez, que o país neoliberal está sob uma intervenção fascista, com censura ostensiva às práticas de produção cultural.
Os incômodos e abusos de que somos objeto quando nos propomos a enfrentar os obstáculos -ridículos ou traumáticos - que se nos antepõem podem ser exemplificados pelas interferências constantes no uso de computadores.
Se o ambiente internacional estiver interessado numa definição do Brasil desde a transição ao terceiro milênio, o mais apropriado seria: "Movido a Morto".
A real oposição à proposta introspeccionista surgiu nos setores da psicologia cujo escopo estava mais balizado pelo modelo das ciências naturais e experimentais. É o caso típico do behaviorismo, principalmente nos seus alvores, mas isso muito relacionado aos avanços no campo do que se convencionou designar reflexologia, isto é, a pesquisa do condicionamento do comportamento, como em Pavlov. Assim, costuma-se referenciar a obra de Watson, o fundador do behaviorismo, conforme os momentos anteriores e posteriores ao seu conhecimento da obra de Pavlov, o que parece permitir supor que a modelagem desse tipo de pesquisa pelo trabalho laboratorial, assim como a recusa da teoria, se deve mais a essa influência.
Assim, inicialmente, para lograr uma boa visibilidade do que contrapõe misticismo e ciência, ele ilumina o fenômeno de autodecepção, onde os sujeitos aceitam que fenômenos místicos estão ocorrendo quando são eles mesmos que contribuem para sua realização, por não possuir retroalimentação adequado acerca do movimento dos seus músculos, por exemplo, inclinando varas de radioestesia, mas pensando que a vara inclinou-se por motu próprio. Induz explicitamente o leitor a rejeitar fontes de observação que se sabem ser altamente falíveis, como a auto-observação.
O que marca a oposição mais completa entre misticismo e ciência psicológica é, então, que aquele precisa manter seus feitos no maior segredo quanto ao modo de proceder para efetivá-los, valorizando ainda o elemento da irrepetibilidade, para induzir a uma crença, na realidade injustificável, num fato cuja recepção observacional é fabricada pelo místico; enquanto esta, inversamente, precisa contar com a maior clareza comunicativa quanto às condições do experimento que, sobretudo, deve poder ser repetido todas as vezes e do mesmo modo, para refutar qualquer índice de desvio quanto às condições em que os fatos têm sua observação conseqüentemente suportada pelo seu desenrolar (no espetáculo do mágico ocorre o inverso, o que vemos não corresponde ao que ocorre). Hyman não estende as implicações do misticismo à canalhice mistificadora do tipo que está corrente nas comunicações de massa atuais, fala apenas do mágico no palco.
Em todo caso, segundo ele, a magia não apenas visa, mas maquina a ilusão; a ciência não apenas procura desfazê-la, ali onde se mostrou induzida artificialmente, mas, notadamente, ali onde se faz lugar comum como crença inadvertida sobre os fenômenos, a ilusão resultando, tantas vezes, da generalização imprudente, descontrolada, de fatos, a contextos onde não se aplicam - que é o procedimento sistemático da mídia. Por aí vemos o quanto a objetividade é básica no enunciado científico, nesse sentido estrito da lisura da pesquisa.
Hyman exemplifica a esse propósito, o anúncio bombástico por parte de um cientista, de raios até aí desconhecidos, que seriam inteiramente novos na história da ciência. Um outro pesquisador deslocou-se do seu país até aquele laboratório, solicitando que as condições da demonstração dos raios fossem repetidas, para que pudesse - como é o requisito fundamental em ciências - refazer toda a experiência em seu próprio laboratório. Mas toda a demonstração provou-se muito mal conduzida, o que o cientista nem fez notar de imediato. Em todo caso, provou-se impossível repetir a experiência em qualquer laboratório que não o do referido cientista que teria descoberto os novos raios - ou seja, os tais não existiam.
Logo depois dessa colocação, Hyman descreve a polêmica entre Titchener e Wundt, por um lado, e a escola de Wurzburg, para então mostrar que essa trajetória se pode recontar tendo como referencial o percurso de Pavlov, o "fundador da psicologia russa".
Aqui, mais duas lições sobre a "natureza da investigação" científica. Inicialmente, há a evidência do Zeitgeist, o clima intelectual do tempo, não como habitualmente se aponta, algo inibidor da novidade, mas como cenário não dispensável na descoberta individual do cientista. Mas também há o fator persistência e autoconfiança, resistência às críticas e incompreensões, para que a descoberta se desenvolva e resulte num quadro coerente acerca do fenômeno.
O elemento inicial se exemplifica pelas inúmeras influências de Pavlov. O apelo reinante do positivismo e do materialismo, como no grupo de Carl Ludwig, com quem estudou Pavlov, cujos integrantes haviam jurado libertar a ciência tanto do subjetivismo quanto das explicações sobrenaturais. A ênfase na pesquisa fisiológica, especialmente o Physiology of Common Life de George Henry Lewes, contendo um desenho do aparelho digestivo assinado por Claude Bernard, obra que parece ter exercido verdadeiro fascínio sobre Pavlov. Também a técnica de Basov que consistia na produção de uma fístula no estômago de animais que habilitava a estudar os processos digestivos à medida que ocorriam.
Especialmente a obra de Sechenov, Reflexos do Cérebro, que sugeria a proposição que se tornou axial em reflexologia, pelo que "todos os atos da vida consciente ou inconsciente são reflexos", conforme a citação de Sechenov por Hyman, ainda que esse livro, lido por Pavlov, possa ter tido um papel marginal, já que ele confessa não ter tido esse lema como guia nas suas pesquisas.
O gênio de Pavlov revela-se por sua aptidão a concatenar inúmeras pistas que até então estavam dispersas no meio cultural, a conceder-llhes uma forma ou interpretação coerente, não como simplesmente ter tido uma idéia que ninguém pensou antes, conforme Hyman.
Assim, temos a exemplificação do requisito que se coaduna com este, pois Hyman mostra como Twitmeyer, estudando o movimento reflexo do joelho, nos Estados Unidos, já havia chegado à conclusão da existência do reflexo condicionado. Ele havia notado, acidentalmente, ao estudar o reflexo do joelho, que por vezes, quando fazia soar uma sineta para advertir da pancada, o joelho do paciente saltava antes do estímulo do martelo o atingir. Twitmeyer compreendeu a importância da observação, publicando uma comunicação à American Psychological Association quando sob a presidência de Willian James, bem no início do século XX. Não recebendo qualquer incentivo, nem maior crédito por suas descobertas, Twitmeyer não prosseguiu nas pesquisas.
Pavlov não foi, portanto, o primeiro a "descobrir" o fenômeno do reflexo. Tampouco deixou de receber inúmeras críticas. Mas, ainda assim, continuou com sua pesquisa, ou, nas palavras de Hyman "ignorou as críticas, convenceu-se de que estava lidando com algo muito importante", e envolveu sua carreira, inteiramente, com a explicação do que havia descoberto. Fundou assim um dos mais importantes ramos da pesquisa psicológica, Hyman aceitando,por exemplo, que "quase certamente" o critério experimental para abordar o comportamento infantil que conduziu a psicologia russa, paralelamente aos trabalhos de Piaget, a uma superação da limitação deste aos métodos diferenciais - e conseqüentemente ao determinismo da idade - veio do acordo desses pesquisadores com a obra de Pavlov.
Ora, inicialmente Pavlov não se propôs totalmente aversivo à interpretação subjetivista. Na verdade, a problematização do condicionamento ocorreu acidentalmente, de modo que ele supôs, de início, estar na presença de resíduos psíquicos ali onde focalizava a relação do sistema nervoso com funcionamentos físicos.
Seu trabalho inicial versava sobre o efeito do sistema nervoso na regulação da atividade do coração, depois, tendo aperfeiçoado a técnica de produção da fístula estomacal, sobre o efeito do sistema nervoso na secreção dos sucos gástricos. Constatar que a estimulação direta do alimento na boca conduzia a uma estimulação não direta do fluxo gástrico-salivar pela vista da comida pareceu ao fisiologista um transtorno de suas premissas, algo que seria preciso explicar. Por isso, designou inicialmente o fenômeno como "secreção psíquica", ou seja, tentou interpretar "psicologicamente" as secreções do cão.
Na condução desse tipo de hipótese Pavlov e colegas tentavam imaginar como seria a situação de acordo com a vida subjetiva do animal. "Mas como estudar isso?" perguntava-se ele, pois logo que se colocavam na via da interpretação subjetiva, pensando na base de termos como "ansear por comer" , "desejar a comida", os pesquisadores do grupo chegavam a opiniões opostas. Poderiam, por décadas, resolver tudo num ou noutro sentido, resultando igualmente na extinção da discussão. Isso, é claro, mostrou que estavam num caminho inviável. Era preciso encontrar outro modo para prosseguir, ainda que isso não parecesse fácil.
A decisão que facultou a reorientação do curso da pesquisa foi a de se proibir - no laboratório foi instaurada uma multa - o uso de termos como "o cão quis", "o cão adivinhou", "desejou", etc. - conforme o trecho de Lectures on Conditioned Reflexes, em que Pavlov narra sua experiência.
A fase da "secreção psíquica" foi a mais crítica, do ponto de vista pessoal. Pavlov foi rejeitado tanto por aqueles que considervam indigno do espírito ser tratado pela ciência, como por aqueles que consideravam inadequado à ciência esse material subjetivo como objeto de pesquisa séria. Mas, com paciência e aplicação, ele e seus colegas exploraram as hipóteses até que mostrassem seus limites intrínsecos, para só então engajar-se na trilha que lhes pareceu restar como viável.
Nota-se como Hyman exemplifica assim, novamente, a inviabilização da introspecção subjetivista, nesse caso a interpretação do comportamento alheio pelo que seria comum ao sujeito de observação, mesmo numa base de inicial aceitação da hipótese.
Mas registra igualmente que quando Watson aproveitou os resultados de Pavlov e inaugurou a pesquisa behaviorista, já havia uma impressão favorável ao princípio de que a psicologia deveria ser o estudo do comportamento, não da "experiência" subjetiva, a introspecção não sendo de modo algum confiável. Aceitava-se já, também, que os comportamentos animal e infantil eram tão legítimos como objeto de pesquisa quanto o dos adultos - a novidade dessa proposição se mostra quando lembramos que os introspeccionistas treinados eram sempre sujeitos adultos, dos mais inteligentes.
Como no caso de Pavlov, Watson já encontra um conjunto de fatores favoráveis ao desenvolvimento de suas descobertas. Hyman ensina assim que a originalidade, na acepção comum, não conduz à revolução científica, mas sim o pendor para recolher os fios da meada, reunir os temas existentes numa forma atrativa e convincente, apresentando-os no momento certo, quando a comunidade científica já está consciente das limitações do paradigma aceito.
"Sobre a Reflexologia" Antonio Pena escreve que pode definir-se como o "estudo da atividade superior do sistema nervoso", algo "mais adequadamente denominado Teoria do Condicionamento", tendo por objeto "a investigação dos processos de formação e inibição de respostas condicionadas".
Pavlov é incontestavelmente o seu criador - "como sistema essencialmetne vinculado à fisiologia.." Esse tipo de estudo fundamentou as teorias do comportamento, os estudos sobre aprendizagem e, mais atualmente, instrumentalizou as assim chamadas "terapias comportamentais" que, inversamente à psicanálise, consideram o distúrbio apresentado no comportamento não como um sintoma, mas como o próprio problema a eliminar. Acerca de Pavlov, Pena apóia-se basicamente nos registros de Eisenck, utilizando também observações de Le Ny.
No entanto, Pena, no texto já citado, considera Descartes como o pioneiro na descrição das "respostas reflexas", o que vemos, com Canguilhem, não ser inteiramente exato, ainda que usual. Roberto Machado (Ciência e Saber, a trajetória da arqueologia de Foucault), esclarece duplamente bem quanto a isso, a nossos propósitos, porque sua apresentação clara do assunto é propedêutica, como instalação do ambiente epistêmico em que a pesquisa de Foucault emergiu.
Assim, ele examina tanto Canguilhem quanto Bachelard como introdutores, junto a Cavailles e Koyré, de uma epistemologia francesa que seria centrada nos discursos, isto é,sendo uma história conceitual intrínseca, ela se pontuaria pelas descontinuidades e cortes espistemológicos que impulsionam a formação da ciência assim como exercício atual. Enquanto que a retomada desse parâmetro por Foucault, na concepção de Machado, já implicaria uma ruptura propriamente "arqueológica" com a epistemologia pura, por alargar a história, do conceitual a algo que mais geralmente propõe-se "como uma crítica da própria ideia de racionalidade".
Mas aqui devemos notar que a concepção de racionalidade como algo não conexo a um senso comum do homem, e sim como o que os estudos demonstram exclusivamente um resultado do fazer da ciência, é o que está implícito já nessa epistemologia em cujo ambiente emerge a obra de Foucault. .
Canguilhem considera, de fato, a perspectiva de Descartes como um verdadeiro obstáculo epistemológico na consecução da descrição mais viável do fenômeno do reflexo. Seria até mesmo espantoso que Descartes pudesse ter lidado com a noção de reflexividade em nível orgânico, algo que se contrapõe frontalmente a todo o seu dualismo mente- matéria.
Além disso, há aqui a notação de que, se desde o século XIX uma "história descritiva", na expressão de Machado, sedimentou a versão de ser Descartes quem formulou o conceito de reflexo, é porque esse tipo de história ignora a dependência entre a "definição e as condições exigidas pelo critério de julgamento que a orienta". Machado cita agora Canguilhem: "O movimento referido como o concebe Willis é realmente a manifestação na periferia, isto é, no músculo, de uma energia transposta ou propagada da periferia, isto é, do órgão do sentido; não o efeito peíférico de um motor central, com comando central acionado da periferia, como em Descartes".
Para Descartes, o movimento que se manifesta na periferia tem origem em um centro, o coração. Para Willis, ainda segundo Canguilhem, já estava assente o que foi definido cientificamente a partir do século XIX: "o essencial do conceito de reflexo não é apenas conter o elemeneto ou o resumo de uma explicação mecânica do movimento muscular, é admitir que parte da periferia do organismo o abalo, qualquer que seja sua natureza, que, depois de reflexão em um centro, retorna para esta mesma periferia".
Conforme o texto de Roberto Machado, Canguilhem considera assim Willis, não Descartes, como o descobridor do conceito de reflexo, e desde aí constroi o percurso das rupturas epistêmicas que constituem a história do conceito até a atualidade, o que se condensa num enunciado de sua definição hoje em curso, citada em Machado: "O movimento reflexo (Willis) é aquele que imediatamente provocado por uma sensação antecedente (Willis) é determinado por leis físicas (Willis, Astruc, Unzer, Prochaska), e em relação com os instintos (Whytt, Prochaska), pela reflexão (Willis, Astruc, Unzer, Prochaka), das impressões nervosas sensitivas em motrizes, no nível da medula espinhal (Whytt, Prochaka, Legallois) com ou sem consciência concomitante" .
Em História das ideias psicológicas, Antonio Pena referencia a relação de Canguilhem com a psicologia. Aqui, a continuidade desde Descartes ao cenário da psicologia atual que a noção comum e básica de reflexo permitiria supor como a posição de Pena que vimos no "Introdução ...", é denegada por este. Insere Pena uma oposição entre duas histórias, de idéias e de ciências, de modo que a periodização de uma história da psicologia enquanto ciência, implica a descontinuidade com o simples relato das ideias psicológicas ("história doxográfica"), e assim como ciência, a psicologia nasce somente na transição ao século XX. Já em "Percepção e realidade", onde estuda apenas a psicologia da atividade perceptiva, não mantém o rigor dessa oposição, tratando por igual as opiniões de filósofos, como Hume a propósito da causalidade, Husserl e Descartes a propósito do tempo, e as experiências e conceitos dos psicólogos já integrados nas práticas laboratorial do século XX.
Com relação à periodização, este é de fato um capítulo muito controverso na condução de uma apreciação dos grandes movimentos da psicologia, primeiro porque, como já vimos, as posições sobre o que tem ou não o status científico são variáveis, mas agora é o momento de salientar que também são variáveis as concepções a propósito de quando começa a psicologia científica. Se no primeiro caso a questão é mais geral, epistemológica, neste segundo caso ela contem um ingrediente de especificidade pois, mesmo que esteja embutida numa problemática conduzida num interesse mais geral - como é o caso em Canguilhem - ela depende já daquilo que se considera o objeto da psicologia enquanto ciência. Deve-se notar, ainda, que o mais geral em Canguilhem é de ordinário restrito ao epistemológico, não ao histórico, que, no entanto, é também o caso quando se trata de psicologia.
Assim é importante salientar, como em Roberto Machado, que essa perspectiva mais geral, histórica, em Canguilhem limitou-se à análise da psicologia: se os textos reservados a esse propósito "mostram a importância conferida por Canguilhem à relação entre os conceitos e as práticas econômicas e sociais, eles não são, entretanto, representativos do conjunto de sua obra; com efeito,mesmo se sua história conceitual não se limita ao interior de uma ciência, ela abandona raramente o nível do discurso" que em Machado significa ater-se ao nível do desenvolvimento da verdade, da objetividade, somente do que é intrínseco à ciência, não à sua inserção propriamente histórica. Assim, Foucault sempre procederia, num momento inicial de sua abordagem, como em História da loucura, do mesmo modo que Canguilhem procedeu somente no caso da psicologia.
O modo como estou aproximando apenas, os autores e movimentos que na literatura especializada mais comumente encontrável se entre-reportam de si mesmos como de fato históricos e decisivos, evita o caráter polêmico dessa controvérsia a propósito da periodização, e conserva o valor de amostragem da mentalidade vigente, que é o que me interessa especialmente. Mas nesse trecho cabe salientar algo da problemáica.
Inicialmente, há a viragem da filosofia moderna, com Descartes, que instaura todo pensamento na região do Cogito - mas não de modo que este instaure uma problemática de si como sujeito. Há depois, uma ruptura notável no começo do século XIX, a qual introduz a psicologia, ainda que introspectiva, que se auto-enuncia uma ciência autônoma. É nessa ruptura epistemológica mais geral, que instaura a problematização do sujeito, que coalescem as humanities como ciências separadas da filosofia. A partir daí, porém, é no começo do século XIX que se instrumentaliza laboratorialmente a pesquisa.
Assim, há três posições mais gerais, quanto ao início da psicologia: a) desde Descartes; b) desde o início do século XIX; c) desde o início do século XX. Isso está, porém, complicado porque essas posições independem da decisão primordial acerca da cientificidade da psicologia.
Paul Fraisse considera o início com Descartes, enquanto a posição de Canguilhem é um tanto mais complicada porque admite um corte epistemológico entre a psicologia moderna e o que seria uma psicologia antiga, mas se ambas são tão radicalmente distinguíveis, é difícil apreender o sentido da manutenção do termo. Mas compreendendo a moderna como ciência da subjetividade, pensa que ela emerge com a fisiologia do século XVII, enquanto até aí a noção aristotélica de "alma"como forma do corpo vivo poria os estudos correspondentes no ramo de uma "física", ciência exclusiva da mnifestação inerente à corporeidade humana. Em todo caso, Canguilhem ataca, como o fará Foucault, a cientificidade da psicologia moderna - o caso é irrelevante para o que seria a antiga, obviamente - enquanto Paul Fraisse a assume sem problemas.
Já Piaget considera que toda a história da psicologia antes do século XX é de uma psicologia "filosófica", isto é, não científica, mas que não poderia, contudo, ter nascido antes do século XIX. Como tal ela surge da cisão pioneira das ciências e da filosofia, que na opinião de Piaget significa a exigência por parte da filosofia, de conteúdos não passíveis de serem fornecidos pela ciência experimental, questão que não tinha sentido até aí, por não haver até então o status totalmente autônomo da ciência experimental. Claro está que Piaget confunde todo o percurso da pscologia do século XIX com o discurso da fenomenologia e hermenêutica do século XX.
Alhures mostrei que para Maine de Biran e outros registros do século XIX, o introspeccionismo era uma ciência, não uma filosofia, portanto, sua concepção era muito irredutível à dos fenomenólogos que surgiram no século XX. Assim, essa é uma questão histórica. Mesmo que a opinião de Piaget se justifique por sua concepção do objeto - ou do estatuto experimental-laboratorial - da psicologia científica, ele não poderia afirmar que todos os psicólogos até aí queriam, como Merleau-Ponty ou mesmo Bergson, reservar problemas humanos como não cientificamente acessíveis.
Inversamente, Biran e outros expressam estar tratando pioneiramente, de forma cientifica, certos problemas que até então eram supostos ser tratáveis dentro de uma teoria geral das ideias - como entre os ideólogos sensualistas do Iluminismo. Isso compromete também a noção geral de que tudo era dualismo no século XIX, mas o fato e que após esse início, o surgimento do positivismo implicou o cenário que vimos dever ser superado na transição ao século XX. É sintomático que o positivismo, como o Realismo, sejam discursos altamente críticos em relação ao Romantismo.
Mas assim o papel da filosofia, na época do Romantismo, e como em Biran e Cousin ou os pós-kantianos alemães, foi reformulado, para se tornar, pioneiramente, aquele de fornecer uma sistematização do Real com base nos novos dados fornecidos pelas ciências, afirmando-se portanto que toda a sistematização conceitual da tradição tornava-se passível de crítica por ignorar os dados das ciências, lembrando que está havendo concomitantemente, a revolução da biologia nascente e da História como ciência social.
Isso é o que Foucault também não apreendeu, confundindo a nova tarefa de sistematização da filosofia como se fosse a mesma tarefa das ciências humanas nascentes, o que não é verdadeiro. .
Além disso, podemos notar que essa concepção de que os dados das ciências autônomas podiam servir a uma posterior elaboração conceitual pela filosofia, e assim a novos sistemas filosóficos, é o que foi se revelando complicado ao longo do século, pela crescente complexidade das ciências, de modo que elas não perfaziam mais, já à época de Cournot, sequer a ideia de serem todas produtos de uma mesma razão, isto é, de algo conceitualmente unificável em termos a priorísticos ou mesmo quanto à finalidade.
Mas que isso significa uma postura universal de abandono da interpretação do resultado das ciências em termos de pensamento ou de visão de mundo, seria falso, pelo que vimos já em Heisemberg e Bohr, e mais recentemente se exemplificaria com o misticismo de Capra, mas por outro lado, e inversamente, pode-se notar que a visão único-objetivista do mundo é partilhada e fomentada como única demonstrável ainda por muitos cientistas da natureza.
O que ocorre é que a filosofia como um todo foi se tornando um domínio separado dessa tarefa de sistematizar os dados das ciências, dada por impossível a ela como esse todo, e a interpretação das ciências ficou reservada, em filosofia, apenas aos ramos específicos da teoria do conhecimento. Por outro lado, onde havia a antiga ontologia, nesse ramo se desenvolveu uma crítica ou recusa das ciências tão radical quanto possa ser a da fenomenologia, hermenêutica, etc., naquela base em que a interceptou criticamente Piaget para obstar que haja verdade "humana" a priori não-científica, estando hoje o cerne da polêmica ainda aceso.
A concepção de Pena implica que tanto Fraisse quanto Canguilhem devem ser criticados, para defender-se essa posição de Piaget, de um início da psicologia científica somente desde a transição ao século XX. Mas o modo como Pena a sustenta é um pouco diferente do próprio Piaget que nem é citado nesse ponto.
Assim vemos ser Fraisse ostensivamente criticado por Pena, devido a ter baseado sua periodização em "uma inadequada referência a uma ciência da psique, dado que, precisamente, o saber que se constitui centrado nesse objeto se revela essencialmetne doxográfico e não científico".
Já a Canguilhem, não há uma crítica ostensiva, pois, após a ressalva de que ele não considera a psicologia científica, não obstante forneceu "um dos mais sofisticados esforços para sistematizar e periodizar a história da psicologia". Ora, quando nos acercamos da exposição centrada agora nessa sistematização, vemos que na verdade Canguilhem está errado quanto a Biran. Ele pensa, nas palavras de Pena, que "tanto Maine de Biran quanto Gall", igualmente supõem que "o homem não é mais uma inteligência, mas uma vontade servida por órgãos." , o que autorizaria classificar o projeto da psicologia do século XIX coimo uma "biologia do comportamento humano".
Já o que vimos em Bréhier ("História da filosofia") sobre isso é que se Biran refutou a definição usual, como ainda professada por Bonald, do homem como uma inteligência servida por um organismo, a sua objeção é que o homem é um ser duplo - espécie biológica e intersubjetividade, mesmo não sendo essa a terminologia própria de Biran. Em todo caso, nem apenas substituindo a inteligência pela vontade para manter o dualismo cartesiano numa interpretação idealista/intelectualista da introspecção, nem pelo contrário, para reduzir a psicologia à psicofisiologia.
O próprio Pena manifesta, mais à frente, uma apreciação mais sutil de Biran, assinalando que "por esforço", Biran entende "a atividade autenticamente humana e mista" pelo que o movimento do corpo implica a potência decisória da vontade. Mas sua exposição está marcada pela centralidade do relato de Piaget a que já nos referimos. Aqui o importante é a opinião de Michote pela qual Biran antecipa Piaget por ser um pensador da ação causativa, e Piaget, não obstante a inscrição distorcida do "espiritualismo", concorda parcialmente, mas para ele é importante notar que se Biran representa a tomada de consciência do nexo intrínseco de causa e efeito, ainda assim ele creditou a auto-concepção a uma noção errada de esforço físico.
Como a maioria das fontes de história da psicologia começam com a superação da "consciência" dos positivistas -associacionistas, na transição ao século XX, aqui não reservei um espaço para a problemática da psicologia no Romantismo, o que creio dever se assinalar por sua peculiar irredutibilidade ao que se segue com o surgimento do positivismo. O blog intitulado "O romantismo, el doble e o fantástico" contém um texto sobre isso e particularmente sobre a psicologia de Biran, que considero da ação, não da causa, assim como toda essa questão da necessidade de releitura do Romantismo pela inserção da temática do duplo está permeando os textos que tenho publicado na Internet, oriundos de elaboração posterior à de O Devir das ciências humanas.
É preciso também registrar que nessa História das ideias psicológicas, Pena está lidando com uma concepção de mentalidade selvagem na base de uma referência antropológica já desusada. É certo que ele referencia a antropologia posterior, mas sempre mantendo-se na premissa inicial de que todos os primitivos tem uma concepção de "alma" como "substância sutil"- por onde questões como a da origem desse universal humano, por exemplo, podendo ser uma generalização do conteúdo dos sonhos, como propuseram ainda Janet e Seailles. Mas podemos contrapor que essa é a posição que implicou a série de erros de Rank a propósito da temática dos "duplos" na literatura romântica, como até mesmo a introdução do seu texto na coleção "Gama de orion" fez notar. Pois, de fato, já está assente que as concepções dos povos não-ocidentais sobre essa problemática são variadíssimas, muitos povos não comportando ideias de antropomorfização, etc.
Sobre a mentalidade selvagem ou primitiva, é importante registrar que já na elaboração de O devir das ciências humanas (2006/08), pude constatar que minha intenção inicial de verificar se poderia ser discernido um "texto" de época ou de tendências - portanto histórico - a partir da tipologia dos "enunciados" que formam os mapas historicamente assinaláveis por reunirem-se em formas definidas de sua enunciação em épocas diferentes (os ramos de filosofia que mudam através dos tempos, ou as disciplinas na atualidade), foi contemplada pelo destacamento nítido da relação entre a cientificização do pensamento humano em princípios do século XIX, e a transformação da imagem do passado da cultura pela inserção da alteridade na mentalidade do homem, isto é, quando os outros povos, não-europeus, começam a ter que ser conceituados como tais pelas ciências humanas assim como põe a evolução a origem do europeu numa outridade em relação à sua atualidade.
A princípio, no entanto, isso só fica incontornável ao olhar justamente nos inícios do século XX, quando a antropologia social se torna, impulsionada pelo neocolonialismo, um trabalho de campo, e a terminologia do "primitivo" vem a ser preponderante como o problema crucial das humanities.
Na elaboração posterior a esse estudo, quando desenvolvi um outro projeto focalizando apenas, com um intuito de mapeamento de enunciados, os dois séculos recentes, o que eu havia sedimentado como os "textos" realmente assinaláveis até aí, tendências mais gerais como aqui já discernimos o formalismo desde os anos trinta, ou regimes de objeto, como o que chamei o "quântico" dessa época e o "sedutor" ou binário-informático da atualidade, revelaram-se apenas transversalidades, inclusive por vezes podendo ser rastreadas a sua auto-comcepção expressa na própria época.
Mas nesse novo projeto, que intitulei "Conceito e expressão, dois séculos de arte e pensamento" (2009), a reaproximação daqueles inícios de século XX tinha agora por condução um exame acurado da revolução modernista em artes, o que implicava o exame da produção nos países "demargens" - como os americano-latinos- que por esse movimento se tornavam produtores estéticos com relevância na história da arte "oficial",lembrando que, conforme Otavio Paz observou, o modernismo penetra na Espanha pela importação do que estava se produzindo aqui, invertendo o sentido costumeiro da assim chamada assimilação cultural.
Nesse projeto houve então uma real ruptura, não por intenção já determinada, mas porque o exame honesto dessas produções, não já marcado por preconceitos, mostra que o que nelas atua como "texto" recuperável de seus "enunciados" é a crítica e transformação de parâmetros epistêmicos arraigados por um etnocentrismo muitas vezes intematizado, como uma regra de construção subjacente à tradição europeia, algo que se comunica da filosofia às ciências humanas, mas que nestas encontra o seu limite por se tratar de uma dupla elaboração, tanto "de campo" e por aí sendo forçada ao confronto da alteridade real, quanto " de sistematização" desses dados, onde se os re-elabora à luz de teorias já dispostas na tradição etnocentrada.
Então o que ocorre no conflito desses dois vetores da pesquisa, é que não há como contornar ao olhar o fato das mudanças de paradigma estarem impulsionadas pelas descobertas de campo que desconcertam o sedimentado pela teoria que orientava a sua própria descrição. Por exemplo, o funcionalismo como uma metodologia mais geral, o que estamos vendo como a tendência formal dos anos trinta, vem intrinsecamente relacionado aos estudos in loco de Malinowski e Radcliffe-Brown que implicam a ruptura para com os esquemas lineares oriundos dos simples arranjos de dados obtidos sem controle, do século XIX.
Nos países de margem, paralelamente, o modernismo relacionado ao novo conceito de "primitivismo", como vimos, estará enveredando pelas vias de pesquisa da própria singularidade de formação e cultura, portanto inviabilizando a reapropriação em nível de sistematização, pelos esquemas tradicionais etnocentrados europeus. Mas assim torna-se inevitável esclarecer também como a sistematização etnocentrada, e já o disponível na tradição que a viabiliza, é uma concepção de alteridade que, distorcida como se comprova, ainda assim é intrínseca à formulação das próprias ciências humanas que portanto, atuam como discursos de auto-constituição para si desse "centro" de Saber universal da identidade (do outro e de si). O nível da minha pesquisa do "texto" encontrou assim um critério firme, autônomo.
A releitura do Romantismo, que desenvolvi em torno do tema dos duplos literários (2010/11), deve-se a que, enquanto cenário da emergência das humanities, ele assinala a origem do que é um erro designar "encontro de culturas" a partir das Grandes Navegações, já que ´desde aí até o início do século XIX, na margem o europeu não discerne "cultura" e sim tão somente "natureza" e o "selvagem" não é um ser cultural, e sim natural. A emergência das humanities deve ser reconceituada assim, de modo a evidenciar o seu nexo intrínseco ao fator "alteridade cultural" que se torna o seu "texto", de modo que podemos afirmar que seus "enunciados"reportam-se a um objeto antropológico por elas produzido, não a um postulado intematizado da generalidade da Representação como o "postulado do Homem" imaginado por Foucault.
Constituí vários aportes teóricos hauridos dessa ruptura, os quais tenho desenvolvido em sua apresentação e implicações nos outros blogs:
a) o nexo de enunciação e tópica (inconsciente-linguagem) da alteridade como algo variável historicamente conforme a visibilidade do outro e as políticas subjacentes (guerras, apropriações, relações legalizadas, colonialismo, etc.), por onde se vê que a explicitação para si de uma alteridade cultural é um acontecimento capital, implicando regimes irredutíveis de enunciação tais que as ciências humanas se tornam possíveis, e em relação a que as possibilidades de redução do outro ao mesmo é uma das variáveis da tópica;
b) a reconceituação do ex-cêntrico (o outro em relação à política e regime de enunciados do "mesmo" etnocentrado) pelo desfazimento do apriori da neutralidade formal da hiância (linguagem), de modo a reinterpretar a tópica como heterogeneidade politica (não mero "suplemento");
c) a releitura do Romantismo como estruturando, desde as humanities nascentes, a formação do ego geopolítico ou auto-compreensão do Ocidente que é restrita a essa regra de construção ainda que o que ela gera são formas de reinterpretação inconsciente do passado (Grécia, Idade Mèdia, etc.)como unidade ou "tradição" de si mesmo. Nessa auto-compreensão, porém, o Ocidente é Centro em relação aos outros povos que foram conceituados como sua Margem, desde as condições do Saber (da tradição filosófica à ciência) do centro em relação a toda margem; mas não havia até então, o conhecimento desses povos, nem sua conceituação como "povos" (cultura/margem).
as releituras dos discursos metafísicos do passado como possibilitados pela ausência/oclusão da visibilidade do outro (paralógica "fundamento-suplemento"); o que implica especialmente a releitura da Sofística como pensamento da alteridade, quando a heterogeneidade grega era politicamente presente (indeslocável), sendo a sofística um pensamento do ex-cêntrico (em relação à nobreza ou mentalidade homérica); e a posição do Barroco/classicismo, como discurso de uma "natureza" que implicava a presença do outro, mas ainda permitindo-se sua redução dualista pela transcendência filosófico/religiosa. A emergência das ciências empíricas pensáveis autônomas pode assim ser relacionada com a visibilidade gradualmente alargada, da alteridade da margem, o que franqueia o limite metafísico que impedia pensar inteligível a visibilidade do devir (alteridade do signo).
d) o critério que permite relacionar a tópica e a efetividade histórica - como a luta de classes grega, as dominações eclesiÁstica e imperial-colonialista subsequentes, até a emergência da ego-logia do Ocidente podendo estruturar a reconceituação do Capitalismo como "assimetria internacional do capital" por onde não se conserva o dualismo de infra e subra estrutura, mas se pensa a estruturação em termos de dominação cultural (linguagem da cultura oficial imposta universalmente junto com as condições de exportação da sociedade industrial/"ocidentalização"/"racionalização"/"cientifização". A regra de construção da assimetria é a História narrativizada desde o Positivismo, em função do Sujeito universal dessa cientificização, o Ocidente (Saber/Poder).
e. 1) a releitura da história das humanities como períodos ou "textos" (tópicas) demarcáveis na sua irredutibilidade, pelas transformações decorrentes das mudanças históricas das condições de visibilidade da margem intrinsecamente relacionadas às transformações da sociedade industrial, ou seja, das formas sucessivas de apropriação imperialista. O inconsciente freudiano não teria fornecido o universal desejo, mas discursivizado o desejo da dominação imperialista ("discurso"), isto é, a Geo-egologia ("Inconsciente Geopolítico").
O Romantismo sendo a formação do ego no Centro, não implica ainda senão a visibilidade da margem como heterogneiedade da livre empresa ("liberalismo econômico"/ independência das ex-colônias) e da cultura (oralidade): o Positivismo não seria uma decorrência universal necessária da oralidade como analidade, mas o anal-positivismo (sadismo sócio-darwinista, imperialismo inglês na América Latina) demarca a preensão propriamente ocidental (geopolítica moderna) do desejo, condicionado internamente pela nuclearização das famílias (formação do "privado") e instrumentação (narrativização) da História pela sociologia determinista (Comte/Marx); a formação fálica é implicada pelo trabalho de campo que assinala o neocolonialismo afro-asiático, inserindo o círculo hermenêutico mas ao mesmo tempo supondo a linguagem o universal do sentido (visão de mundo; totalidade); a descolonização afro-asiática é concomitante e inter-relacionada ao estruturalismo e pós-estruturalismo da era pop, o que corresponderia ao descentramento da maturidade "genital";
Mas o que se segue historicamente é o Recentramento ou Neo-analidade da Globalização ("Império"/Neoliberalismo econõmico/Neobjetivismo informático, etc.). Assim, o inconsciente freudiano ele mesmo é uma interpretação da maturidade como uma identidade universal, mas se o visarmos como "tópica", obviamente "identidade universal" é inevitavelmente a neoanalidade do adulto sujeito da competição/dominação etnocêntrica/capítalista.
Já o inconsciente como conceito, conforme o desenvolviemnto das descobertas em Humanities, especialmente as da ciência humana feita na margem ou pelo "ex-cèntrico", mostram, é a heterogeneidade das linguagens culturais, portanto, do desejo e de inteligibilidades, que só podem ser tematizadas na decorrência do seu estudo específico, e tendo esse estudo um caráter não paradigmático e sim complementar às premissas de suas tematizações ("cult-studies", teoria feminista, "estudos subalternos", "estudos étnicos", etc.). A rubrica epistemológica desse conceito de "estudos" poderia sustentar a legitimidade de uma circunscrição da teoria como "pós-modernismo" em termos de um Ex-centramento. .
E. 2) Os países de margens cooptados pela assimetria internacional do capital não desenvolvem geo-egologias, ~pois suas classes dominantes não são representativas de uma autonomia política (independência econômica nacional), aquilo que o Centro interpreta para si como Identidade (universal).
A dominação cultural que expressa a dependência econômica/política desses países de margem, como o Brasil (terceiro mundo / pós-colonial) implica que suas classes dominantes formam sua tópica como Alter-ego do Centro. O Alter-ego é a identidade referencial do "efeito de demonstração" dos produtos industrais importados ou copiados do Centro, à sua hinterlândia (os grupos e classes não-dominantes, não necessariamente "letradas").
O que ocorre assim é que para-si o Alter-ego se identifica com o ego do Centro, não com a sua hinterlândia. Esta não pode expressar uma subjetividade real na cultura oficial (discurso/Saber importado do Centro), organizada pelas instituições do Alter-ego onde só pode trafegar a cópia do ego. Por outro lado, a cópia não pode se expressar senão como degradação em relação ao modelo. Não há assim um meio - ou mercado - autêntico de Cultura na margem, mas as produções autênticas são marginalizadas e recalcadas, o que não implica que não sejam de algum modo circuladas.
Quando a produção autêntica chega a um patamar de organização política que excede a dominação do Alter ego, no sentido de um projeto de autonomia local sócio-historicamente relevante (" movimentos de libertação", governos autenticamente representativos, socialismo, etc.) o Centro intervém pela força (golpe de estado, guerra, intervencionismo para-legal, etc.), o que configura a assimetria internacional do capital. Em todo caso, a liberação cultural sempre implica produzir-se uma pós-história, a linguagem de uma história local alternativa ao relato da dominação do Centro, que resgata a cultura e iniciativa local. A pós-história não é ausência de história, mas inversamente, a recuperação da História em relação à sua narrativização sócio-evolucionista de fato fantasiosa do "universal". Este tema específico da problemática cultural do terceiro mundo está desenvolvido em meu blog "Pensamento Brasileiro", e vários tópicos tratados nesse trecho encontram-se em blogs que tenho assinado na Internet desde 2011.
Quanto ao Ex-centramento, é cronologicamente coincidente com o Recentramento, mas não deriva de nenhum modo do inconsciente freudiano, e consequentemente é uma deriva antagonizada ou deliberadamente ignorada pelo Recentramento (conceitual/político). O Ex-centramento ou pós-modernismo expressa o desejo heterogêneo nas produções culturais do ex-cêntrico ou de margens, na sua Interlocução (crítica) da cultura oficial (ocidental), por meio da tematização de questões e linguagens culturais não "oficiais", não "tradicionais" e não-majoritária-ocidentais.
O Ex-centramento ou pós-modernismo teórico, especialmente nessa abranência da mnha proposta de liberação cultural desde a compreensão da problemática social como Dominação, pode ser pensado como uma terapêutica, em relação à analidade freudiana e/ou seus efeitos, tais como às vítimas de apart-heids raciais e/ou sociais, mas até agora não desenvolvi categorias especificamente voltadas ao aspecto clínico. Apenas afirmo que o exercício efetivo da democracia - liberdade de expressão, igualdade de direitos, inviolabilidade da pessoa, etc. - forma o ambiente em que a produção cultural do ex-cêntrico se libera, de modo a propiciar também a sua liberação política.
Além disso, enfatizei nos outros escritos que a teoria dos gêneros de linguagem, entre tantas a de Bakhtin sendo bem referencial, é útil na superação do fosso cultural dos sujeitos de proveniência heterogênea, especialmetne os alunos de países com muita desigualdade social, em relação à linguagem da cultura oficial. Esta se torna não um padrão do que é universal, correto ou racional, mas um conjunto de gêneros cultos em que se irá iniciar pessoas ou alunos que já são iniciados em outros gêneros de linguagem, sendo que cada gênero tem seus próprios critérios de aceitabilidade, performance, etc.
O fosso começa a ser transposto desde a possibilidade de expressar nos meios oficiais, outros gêneros - por exemplo, escrever a fala coloquial na redação de crianças - enquanto se compreende que o certo dos gêneros cultos são convenções culturais relativas a eles, não a atuação do que é por natureza diverso. Os parâmetros curriculares nacionais tem utilizado com proveito essa perspectiva, e em pedagogia ela costuma ser extensa ao conceito de "letramento" que opondo-se a que exista analfabetismo como alguém sem alguma iniciação em sistemas de signos, ´transforma vários conceitos de ensino, por exemplo, o da correção em que não se contam "erros" a cada vez que se manifesta um desacordo à norma culta, mas somente se conta um erro a cada forma de desacordo manifesto.
A dialética de Ex-centramento e Recentramento traduz a cartografia geopolítica atual em que o mapa do mundo está dividido em Norte (Ocidente/países ricos/reserva de Sabe tecnológico) e Sul (terceiro mundo/países pobres/economias dependentes) pela assim designada "linha de pobreza".
Essa dialética está aqui proposta em termos da leitura do mapa como indecidível, pois não se pode resolver sobre os dois sentidos conflitantes da leitura: um só mundo globalizado (economia internacional/Recentramento) ou dois mundos dominante e dependente (terceiro mundo/Ex-centramento). O que institui uma condição esquizofrenizante ao discurso geopolítico da Dominação na atualidade ("double bind"/dupla ligação).
Com relação ao que estamos examinando aqui, sendo que como já especifiquei, nos trechos constitutivos dessa publicação trata-se da parte relacionada à psicologia de O devir das ciências humanas, podemos agora aduzir que não seria possível afirmar uma "mentalidade selvagem" única ou sócio-evolutivamente distinta da " civilizada" (ocidental). Mas o importante a ressaltar, é que a tendência formal que já discernimos emergindo junto à estabilização da epistemologia quântica, estando como vimos, relacionada à superação de um quadro ativista e pragmático de inícios de século, pôde com efeito, no "Devir...", ser divisada também tratando-se das demais ciências (antropologia, geografia, sociologia, etc.).
Ora, quanto a esse início de século, como estamos notando agora, ele é referencial à polêmica concernente à periodização não só em psicologia, mas em vários contextos de humanities, e então algumas palavras são necessárias a propósito do porque dele ser visto, numa enformação geral das humanities, como assinalação de sua real irredutibilidade metodológica - ainda que isso já tivesse sido explícito no Romantismo. Isso, mesmo no interesse de esclarecer o que o torna irredutível à tendência formal das décadas seguintes.
Sabe-se bem que a emergência do que chamei a formação fálica como superação do anal-positivismo está relacionada à descoberta das culturas "primitivas" cuja visibilidade é haurida diretamente do trabalho de campo. Trata-se geralmente esse trânsito pela emergência da problemática do "compreender" como requisito metodológico em humanities, contra a universalidade do positivista "explicar" oriundo do paradigma das ciências da natureza. Aqui, então, se instituiu de fato, por vezes, uma reinterpretação do Romantismo como antecipação do "compreender", mas não se fez a partir daí um trabalho de clarificação do que o Romantismo havia sugerido como reserva metodológica das "ciências do espírito".
Os temas da ação social e da totalidade das culturas como visões de mundo (Europa), são assim concomitantes ao ativismo pragmático (Eua) como orientações que em comum tem uma vocação "empírica" fortemente contrastada à "formal" que estamos vendo agora. Mas esse fator comum decorre da universalidade do sentido, que se pensa subjacente à variação das visões totalizantes de mundo. O ativismo anti-racista nos Eua é um exemplo disso, já que pugna por integrar o negro na sociedade industrial, mas assim para fundir as temáticas de fato contraditórias da sua pureza e "originareidade" (na África) à de sua racinalidade e igualdade ao ocidental (nos Eua). Como já se notou, essa luta anti-racial é muito contrastável à dos sixties, onde trata-se, inversamente, das singularidades das linguagens culturais, mas justamente não-totalizantes
Outro exemplo são os nacionalismos xenófobos como discursos conexos ao acirramento da concorrência das potências industriais europeias.Esse é bem importante, porque é o suporte das reaproximações do Romantismo que o pensam, então, como passadismos anti-progressistas do mesmo modo que esses discursos o foram.
Mas é preciso ver que por um lado, esse anti-progressismo do nacionalismo xenófobo totalitário de inícios do século XX, não era senão um suporte para justificar a superioridade da índústria nacinal, portanto, ele só atingia a conexão de modernidade industrial e modernismo (estético/comportamental) para recusar a este e justificar aquele como decorrência natural de sua superioridade racial. Ora, a raça aí - que se deveria traduzir como totalidade da cultura ou visão de mundo - não pode ser como o Romantismo autêntico pensou a cultura, uma formação heterogênea. Pelo contrário, ela deve ser a excelência dentre todos os demais evoluídos desde um gênero primitivo, por exemplo, Ariano, a unidade racial melhor.
A história do Lied, de Schuré (1903) fabrica esse mito do mito único branco (do Sol), isto é, pensa estar antropologicamente embasada ao descrever a unidade da raça ariana ou branca, como tendo uma origem primitiva comum, os povos que tem um mesmo mito de adoração ao Sol, e praticam as mesmas formas culturais, dentre as quais a canção (lied) popular.
Mas quando vemos o que se descreve como a "canção", descobre-se que se trata de uma unidade quanto ao que se entende por desejo "do homem", um ideal do feminino e do amor ideal reservado à juventude; o específico do humano sendo o élan ou passionalidade (ardor sentimental; agressividade instintiva, etc.). Esses traços que estariam expressos invariavelmente na canção popular, se pensa contrastado por mentalidades artificiais, não espontâneas, isto é, não naturalmente derivadas da índole "primitiva" dessa raça - como a canção estudada, fria (racinalista) dos palácios, orientada por ideais não coincidentes com o descrito, de amor ou de virtude; ou ainda a religião luterana que primeiro censura a canção popular, e a parodia, depois, substituindo as letras e temas emblemáticos do que seria o desejo natural branco por mensagens da bíblia.
O importante aqui é notar o quão artificial paracerá a nós, a unidade suposta óbvia daquele desejo, bastante idealizada na verdade. Ora, impossível supor que isso é o Romantismo retomado pelo totalitarismo ariano, já que o próprio Schuré critica asperamente os românticos - Schlegel, Schelling, etc, e precisamente porque segundo estes, não há um desejo natural único reportável da raça branca, ou da raça qualquer.
Assim, para Schuré, o desejo dos românticos é uma monstruosidade, ele usa esse emsmo termo, porque em princípio, é livre em relação ao objeto, que ele cria conforme o que ele então se descobre ser, não está pre-detestinado pela natureza do objeto. A canção dos românticos, que sabemos ser a que se inspira justamente na canção popular, sendo Schubert o que se atribui verdadeiro criador do Lied - que é a canção popular vertida nas formas orquestrais eruditas, não a canção popular tout court como a trata Shurré- para este é aberrante assim como a estética do Ateneu que defende essa liberdade de formas e temas, conforme o desejo livre daquele que se expressa por meio deles.
Quando essa unidade totalizante se torna reconceituada pela pesquisa de campo, num parâmetro estritamente funcional desde a curva aos anos trinta, a solidariedade do primitivo ao natural-espontâneo se perde, enquanto que, do mesmo modo, o ocidente reorganiza o seu discurso da superioridade racional, abalado como estava pelos trabalhos de campo pioneiros coincidentes com as vanguardas que no centro e nas margens, dos primitivos entenderam coisa bem oposta a um mito branco, e pela mecânica quântica ainda não estabilizada. Seria demasiado estender-se aqui a propósito dos fatores que podem exemplificar essa viragem, mas creio que em relação aos propósitos desse escrito, é suficiente o que acrescentei nesse trecho. Mas ambos os momentos são aspectos da ambiguidade fálica frente ao seu próprio discurso da diferença como mera circulação pelas posições distribuídas (pai, mãe, eu) do Mesmo (falo/Poder).
Tornando à "Introdução...", Pena mostra, oportunamente, que a descrição do movimento reflexo suporta os "três grandes sistemas que iniciam o movimento da psicologia contemporânea", de Thorndike, Freud e do próprio Pavlov. Focalizando agora a contribuição deste, esclarece sua oposição conceitual entre os dois tipos de respostas reflexas. As absolutas são inatas, permanentes e invariáveis, "expressivas das atividades dos centros nervosos inferiores (medula, tronco cerebral)", conforme Pena, algo como as reações instintivas, ainda que mais complexas, integrando a programação biogenética do organismo. As condicionadas, Pavlov conceitua como efeitos de aprendizados.
Pavlov relacionou o condicionamento à apresentação de um estímulo neutro (como o som de uma sineta) associada à de estímulos absolutos (como as reações normalmente ligadas à alimentação), aqueles um pouco antes destes. Isso depende de uma certa relação de tempo, pois intervalos muito pequenos ou muito grandes entre esses dois tipos de estímulo tornam ineficaz o processo. Meio segundo é o intervalo ótimo. Há outros elementos a considerar como o estado físico do cão, que deve ser saudável e estar bem desperto, ligeiramente com fome, a não ocorrência de outros estímulos perturbadores e a intensidade moderada do estímulo a considerar, pois se for muito forte ou invulgar se oporá à formação do reflexo.
Hyman descreve o modo de operação laboratorial de Pavlov. O cão era submetido à intervenção cirúrgica que expunha o conduto de uma das glândulas salivares à superfície da face do animal. Após recuperar-se da operação, o cão era treinado para aprender a interagir na situação experimental, mantendo-se quieto no aparelho, uma espécie de arnês no lado inverso do qual o experimentador ocupava a posição de observador, o cão não devendo sair do aparelho até que se realizasse a experiência. Por meio de um mecanismo o investigador fazia funcionar um metrônomo e, alguns segundos depois, fornecia automaticamente comida ao cão. Após algumas sessões, o animal salivava quando o metrônomo começava a funcionar, antes de receber a comida.
Pena observa que um importante contraste entre a resposta reflexa condicionada e a absoluta é que aquela pode ser extinta com o tempo, não esta. No entanto, uma resposta condicionada extinta pode ser reativada se novamente apresentarem-se os estímulos específicos conjugados com o que já se aprendeu.
Hyman registra que, tanto quanto esse fenômeno de extinção, perda de resposta condicionada após manifestações do metrônomo que não foram seguidas por apresentação de comida, Pavlov detectou também o fenômeno da "neurose experimental" que resulta quando se exige do cão que faça distinções excessivamente difíceis entre estímulos condicionados, pelo que o comportamento se torna desordenado.
Conforme Pena, Pavlov postulou dois fenômenos como centrais ao sistema nervoso, a excitação e a inibição. Por excitação compreendeu a atividade que fundamenta as respostas apresentadas por um organismo. Ela seria governada por três leis, a de irradiação, de concentração e de indução, que regem também os processos de inibição. Esta se define como um processo ativo que exerce um efeito oposto ao da excitação, impedindo ou diminuindo a força da resposta.
A inibição pode ser provocada por estímulos externos ou internos. Sua decorrência se tipifica pela excitação de outro centro quando o primeiro estava ativo, no caso da inibição externa; ou se define como o reverso da excitação de acordo com a lei da indução, sendo interna, e este é o caso que mais se aproxima ao fenômeno de extinção descrito por Pavlov, quando não ocorre o estímulo reforçador. A interna também se exemplifica pela assim designada inibição diferencial, implicando comparação de estímulos, rejeitando-se aqueles com características meramente análogas. Pena informa que, ao pesquisar esse tipo de inibição diferencial, é que Pavlov verificou o fenômeno da neurose de laboratório.
Há ainda outros tipos de inibição como a condicionada, de retardo e com reforço. Pavlov também estudou a desinibição. Conceitua-se como uma forma de inibição, mas com efeitos opostos aos que se produzem normalmente na decorrência dos processos inibitórios, atuando sobre a própria condição inibitória que eliminou a resposta que se aprendeu.
Pavlov não generalizou absolutamente as leis do comportamento, preservando as diferenças individuais, mas explicando-as como devidas a variações na relação entre o potencial excitatório e o inibitório. Assim, na maioria dos cães os dois potenciais se equilibram; em alguns, ocorre que a razão da excitação pela inibição é muito alta, sendo então os exemplares fáceis de condicionar mas difíceis de extinguir; em outros, ocorre o inverso, a razão da excitação pela inibição sendo muito pequena, o que dificulta o condicionamento, facilitando a extinção.
Ele propôs que esses dois conceitos poderiam revelar alcance terapêutico. Os processos histéricos seriam basicamente inibitórios, opondo-se aos casos esquizotímicos, excitatórios. Pavlov fez notar que a inibição se associa indubitavelmente aos fenômenos mais comumente associados à histeria, como paralisia (inibição do sistema motor), perturbações de percepção (anestesias, inibição do sistema perceptivo) e de memória (amnésias, inibição de porções do sistema cortical). Os histéricos seriam, portanto, difíceis de condicionar devido ao excesso do potencial inibitório sobre o excitante.
A aplicação da reflexologia permitiria, através de técnicas objetivas, o tratamento dos problemas de adaptação. Vimos a oposição dessa abordagem à indole subjetiva da psicoterapia. No caso do condicionamento propõem-se técnicas objetivas, com base na proposição da ação terapêutica como simplesmente a extinção do sintoma.
Pena mostra a contribuição, na formulação dessas técnicas, de Wolpe, Skinner e do próprio Eysenck. Assim, temos já um parâmetro da extensão da reflexologia ao behaviorismo, este voltado como esteve à orientação objetiva do comportamento. Será agora oportuno focalizar o seu desenvolvimento, inicando-se com Watson.
Ao focalizar o desenvolvimento do Behaviorismo, não se pode deixar de notar a contraposição de dois pontos de vista básicos que se determinam, inicialmente, em torno da obra de Watson e Hull. O pivô aqui torna-se a teoria, sendo, respectivamente, negada ou estabelecida como algo necessário à orientação da pesquisa experimental em psicologia. O desenvolvimento do behaviorismo repetiu, subseqüentemente, essa oposição, agora sendo ilustrada pelas obras de Skinner e Tolman.
Será oportuno observar esses autores conforme essa convergência, inicialmente a continuidade dos motivos de Watson e Skinner, logo depois a ambiência dos trabalhos de Hull e Tolman. Eventualmente pode haver referências a contribuições determinadas de alguns desses autores no contexto do exame da obra que está sendo focalizada.
Ao estabelecer o behaviorismo como psicologia restrita a uma ciência natural, cujo objetivo seria predição e controle do comportamento, conforme Pena, Watson não apenas firmou a oposição que se tornou clássica entre psicologia e fisiologia, mas o fez de modo que ambas se deveriam manter numa mesma perspectiva experimental, positiva e empírica.
Assim, enquanto esta opera com o estudo dos sistemas que compõem o organismo, o que lhe permite estudar as respostas de alguns dos seus segmentos, àquela compete o estudo das respostas do organismo global, isto é, como totalidade. Por esse meio, Watson contribui para a negação radical da psicologia clássica, introspectiva, logrando ainda "uma definição concreta do fato psicológico", conforme a apreciação de Politzer, citada por Cosnier.
Anti-sistemático e anticonstrutivo, assim como naturalista e anti-metafísico, portanto, pretendendo ater-se unicamente ao fato e ao observável, o behaviorismo exibe um inequívoco parentesco com o positivismo, sendo Comte aceito geralmente como influência de Watson.
Quanto a isso, notou Hyman que, de fato, a relevância de um experimento na pesquisa psicológica não parece depender das premissas teóricas adotadas. Contudo, e contrapondo-se explicitamente a Skinner, que repete e aprofunda a orientação positiva de Watson, ele mostra que o inverso não se coloca como verdadeiro. Pois, se a tentativa de imitar certas sistematizações pode resultar na trivialidade, também importantes contribuições podem emergir da aceitação desses mesmos critérios teóricos.
Na verdade, é praticamente impossível não lidar com algum sistema explicativo. Mas isso não implica na aceitação de que o requisito básico da pesquisa deva ser a elaboração de uma teoria formal, algo mais ambicioso, envolvendo uma sistematização dedutiva para todo o comportamento humano. Enquanto Hull se lançou na tentativa de estabelecer um resultado assim, Skinner tipificou a posição oposta, pelo que o comportamento deveria ser explicado na sua relação com certas variáveis que se possam revelar oportunas ao longo dos experimentos.
Nesse enfoque skinneriano, principiar por uma teoria formal esperando que dela se obtivessem as respostas que deveriam ser obtidas pela observação do que ocorre na efetividade, ou a natureza dos experimentos a implementar, seria limitar deliberadamente o campo da pesquisa psicológica.
Quanto a isso, Hyman parece adotar um meio termo. Ele pensa que sistemas explicativos sempre atuam, de certo modo, como teorias orientadoras, já que só há experimentação com base em premissas aceitas sobre o que é ou não relevante. Mas a formalização do que na prática já está se aceitando não implica a cristalização dos rumos da pesquisa.
A teoria deveria ser considerada como uma rota que conduz à supressão de seus próprios pressupostos, logo que revela os limites do que com ela se pode descobrir. Mas esses limites jamais seriam constatáveis sem a teoria. Hyman não deixa de notar, como num capítulo mais inicial, que renunciar a um conjunto de premissas aceitos não parece fácil, não obstante o mito de que o cientista está sempre procurando mudar as perspectivas e regras do jogo.
Assim, Hyman esclarece bem o que vinha sendo observado como consenso acerca do sistema nervoso, à época em que Watson estabelecia a pedra angular da ciência psicológica na posição rigorosamente de tipo E-R, que vimos implicar a negação dos fatores que poderiam se interpor entre estímulo e resposta, tais como o mental, a subjetividade ou a descrição neurológica, isto é, o que pudesse estar como o interior da "caixa preta". Como veremos, à medida que a posição rigorosamente "comportamentista" foi se tornando polêmica, tendeu a se concentrar terminologicamente em torno da sua recusa do "mentalismo" e das posições contrárias a si como "mentalistas".
A relação entre Estímulo e Resposta é, atualmente, do ponto de vista estritamente biológico, conforme Store e Usinger (Zoologia Geral), estipulada do seguinte modo: qualquer alteração física ou química capaz de excitar um organismo ou suas partes é um estímulo. Este pode ser este externo, como umidade, gravidade, contato, pressão, oxigênio, concentração de sais e odores (emanações químicas); ou interno, provindo da quantidade de alimento, água, excretos corporais, fadiga, doenças, etc.
A resposta pode ser local, produzida por um estímulo que age diretamente sobre as células dos tecidos, como na queimadura de sol, mas na maioria dos animais há vários tipos de receptores especializados (órgãos sensitivos) na recepção de estímulos. Alguns destes são graduais, com resposta lenta, como no resfriamento que demora a produzir o espirro, ou abruptos produzindo resposta correlata, como o afastamento brusco qu decorre de uma pressão sobre a pele.
Se a definição da psicologia proposta por Watson envolve o conceito central de comportamento como resposta à estimulação, parece lícito relacionar o contexto da revolução behaviorista àquilo que Hyman mostra ser o modelo de sistema nervoso ainda aceito entre as décadas de 10 e 20, pelo que a célula nervosa só deixa de ser inerte por forças externas. Compreende-se que este modelo se tenha generalizado, conseqüentemente, na orientação da pesquisa acerca da motivação determinante do comportamento.
Também Marx e Hillix, conforme Romeu Gomes, incluíram entre os pressupostos de Watson o postulado pelo qual o comportamento pode ser basicamente reduzido a processos físico-químicos, o que podemos deduzir coerente com o esquema E-R. O comportamento seria composto de elementos de resposta, regido por rigoroso determinismo de causa e efeito. Só assim seu estudo poderia ter valor científico, excluindo-se que isso pudesse abranger a tematização da consciência.
Aproximando a colocação de Hyman, parece que se pode mostrar que, mesmo que Watson tenha recusado a implementação de qualquer modelo teórico de sua concepção motivacional, de fato estava influenciado por aquilo que já se percebe como ultrapassada interpretação do processamento do sistema nervoso. E, de fato, o autor aponta essa colocação como explicitamente atribuível a Skinner, que vimos estar, quanto à recusa da teoria, numa linha de continuidade com Watson.
Hyman nota que somente com base nesse modelo se teria possibilitado a comparação, favorecida pelos sucessos da Revolução Industrial, do organismo com uma máquina que só funciona quando abastecida de energia ou força proveniente de uma fonte externa. Essas fontes puderam ser atribuídas como correlatos de impulsos primários de comportamento, como fome, sexo, sede, dor ou criação da prole. Instigações ulteriores, como ambicionar prestígio, poder, posses, foram consideradas derivadas destas. É bem caracteristicamente a posição do "behaviorismo radical", desde Watson.
Skinner esclarece sobre essa terminologia, contando a história do que Hyman designou a teoria do impulso. Tudo começa com a reversão da concepção secular do ambiente como um meio puramente físico, até a época moderna, especialmente o século XIX, quando o ambiente se tornou conceituável como um fator de estímulo. O que estava mudando agora era a concepção do comportamento, até então visto como independente do meio, então se designando pela reflexologia como inteiramente correlacionável a ele.
Seria esse o contexto de surgência da psicologia de Watson. O termo latino "stimulus" significa "aguilhão", de modo que Watson, de acordo com Pavlov, sustentava que animais e homens desenvolviam novos comportamentos através do condicionamento e continuvam a se comportar enquanto os estímulos apropriados estivessem agindo. A inviabilização progressiva do esquema estímulo-resposta conduziu a revisões. Na prática, parece impossível demonstrar que todos os comportamentos derivam de estímulos.
A terminologia do "impulso" surge para contornar esses obstáculos. Sugeriu-se que se uma situação derivada do ambiente, por exemplo, a escassez do alimento, não poderia ser considerada um estímulo, poder-se-ia imaginar que gerava um "impulso" como estímulo que "aguilhoasse" internamente. Isso teve, segundo Skinner, a vantagem de reduzir os próprios componentes internos ou subjetivos a estímulos, mantendo o viés watsoniano original.
Pena esclarece o que aparentemente é uma contradição. A tese de Watson seria que há certas estruturas constantes nos seres humanos, com pequena margem de variação individual. Ocorre assim uma propensão a responder a certos estímulos de forma determinada, o que implica a formação de um repertório designado como de comportamento não aprendido, de fato sendo derivado de um aprendizado precoce.
Isso se compreende bem, pois já vimos ser relativamente generalizada a concepção de inclinações naturais que, no entanto, só são atualizadas por meios variáveis no tempo e no espaço, estes não podendo assim ser considerados, por si mesmos, inatos. Também é atualmente aceito que o hábito resulta de mudanças mais ou menos duráveis do modo de resposta a um estímulo, derivando de condicionamento.
Atividades rotineiras, reduzindo-se a hábitos, podem ser induzidas por certos estímulos sem a intervenção do controle consciente, como no caso do vestir, inicialmente aprendendo-se conscientemente, depois tornando-se hábito, a pessoa podendo, sem perceber, pegar uma roupa que não corresponde ao que pensou, como exemplificam Storer e Usinger.
Vemos que também Watson estabelece estruturas invariáveis e uma variação de padrões comportamentais efetivamente exibidos. Contudo, se as evidências se acumularam no sentido de inviabilizar a teoria motivacional clássica de impulso, com ela parece-me Watson não ter, de fato, rompido, mesmo que, conforme Pena, possa ser rastreado em sua obra tanto o esquema E-R quanto o E-O-R, sendo "o" alguma variável interveniente admitida entre o estímulo e a resposta, o que não implica a princípio o ultrapassamento da premissa não-"mentalista".
Enquanto "Resposta", ainda que coberta, não explicitada, o pensamento se tornava objetivamente equacionável na pesquisa experimental. Seria, por um lado, registrável através de instrumentos tecnológicos avançados, mas também não se poderia deixar assim de aceitar processos intermediários, relativos ao componente interno, como dados necessários à interpretação do comportamento.
Envolvendo-se com a temática do pensamento Watson precisou retroceder de sua posição estritamente E-R, perifericialista (o fator "interno" é vazio) ou ambientalista (só a relação com o meio circundante conta na interpretação do comportamento) para antecipar o tipo de abordagem E-O-R, mediacional (fatores intervenientes, "internos", devem ser equacionados à interpretação), que se revelaria, desde Hull, um caminho alternativo no desenvolvimento do behaviorismo. Contudo, devemos notar que o objeto da psicologia continuava a ser unicamente "comportamento", não consciência, mente, sujeito, etc. Todos os fatores, como pensamento e linguagem, que se poderiam supor dependente da postulação de alguma realidade dentre estas deveriam, inversamente, ser redutíveis a "comportamento" para poderem, no behaviorismo, serem objeto da psicologia. Isso é bem explícito na leitura dos textos de Skinner, integrantes da coleção Pensadores.
Assim, aquelas realidades como a mente ou o sujeito, etc., seriam meramente idealizações do senso comum, não demosntráveis por si mesmas, e em todo caso, o que elas implicavam seriam da alçada da ciência do cérebro, em vez da psicologia - motivo pelo qual o behaviorismo é considerado uma "revolução". Ainda nos dias de hoje, as relações entre "mente" e "cérebro" se mantém como uma das metas da ciência do cérebro esclarecer, restando muitos enigmas nesse caminho, e dentre eles havendo as posições teóricas correspondentes, por exemplo, fundamentalmente a opção por considerar a mente ou consciência redutível ao cérebro, ou não. Em todo caso, essa continua não sendo a problemática específica da psicologia. Ph. Meyer (O olho e o cérebro) equacionou essa questão de um modo interessante, designando a problemática da mente em termos de "suntuosidade", as performances intelectuais superiores que a neurociência teria que explicar.
Também Pena nota que a adoção do fator intervenicnte não comprometeu a posição comportamentista fundamental, aquela de Watson, enquanto tais processos intermédios puderam ser considerados "fragmentos de respostas" de acordo com um funcionamento seqüenciado de estímulos. Ou seja, seriam relacionados a atos que mais tarde Hull designou "de puro estímulo", tanto quanto a respostas por ele chamadas "antecipatórias da meta".
Haveria assim, entre o estímulo ambiental e a resposta finalmente fornecida, uma série de respostas fragmentadas destinadas a funcionar como estímulos mediacionais para o desencadeamento de outras respostas fragmentárias, numa seqüência que iria conduzir à resposta finalmente fornecida como o atingimento da meta: por exemplo, se a meta é o alimento, o animal começa a mastigar e engolir, mesmo enquanto ainda está correndo no labirinto. Em todo caso o fator interno se organiza em função do determinante do comportamento que permanece no ambiente externo.
A estimulação proveniente dos trajetos sensoriais clássicos dota o organismo com informações específicas e qualitativas, a que vem por essa via cérebro-espinal não fornece qualquer informação, mas tonifica o córtex, para excitá-lo e pô-lo em alerta para a ação. Onde esse caminho se interdita ocorre o estado de coma. Hebb, que conceitualizou essas descobertas na psicologia, polemizando com Skinner, mostrou que há dois efeitos no evento sensorial: a função condutora, ou comportamento orientador; e a função de alerta ou vigilância que é pré-requisito da existência desse funcionamento condutor.
Assim, no momento em que a transformação do modelo de sistema nervoso se impôs, o problema do comportamento deixou de ser explicar a sua dinâmica, para ser explicar a sua orientação. No conceito clássico a fome era considerada o impulso que incita o animal à ação, nessa versão o animal já está ativo, a fome só se torna uma pista que orienta a escolha do comportamento para uma espécie de atividade conforme o momento. A adoção do que os psicólogos designaram um "construto hipotético", uma base teórica que se supõe relacionar-se a estruturas reais e observáveis, em Hebb mostra-se não uma questão de opção, mas algo acarretado pela própria posição do problema considerado.
Houve duas experiências que se complementaram para favorecer a extensão do novo modelo neurológico à interpretação psicológica. Uma, de "estimulação reduzida", registrada tanto por Hyman quanto por Krech e Crutchfield, na Universidade Mac Gill, mostrou-se deveras surpreendente aos pesquisadores. Estudantes eram pagos a 20 dólares por sessão apenas para ficar num pequeno quarto, durante o período diário (24 horas), com excessão dos intervalos de refeição ou de idas ao banheiro. Eles deviam permanecer numa completa inatividade, inclusive sendo munidos de anteparos corporais destinados a inviabilizar ou atenuar estímulos sensoriais como luz ou som.
O resultado foi que nenhum estudante quis repetir a experiência após algumas tentativas, mostrando-se comum a todos o fato de tornarem-se progressivamente mais inquietos e mesmo psicologicamente transtornados após um período de quatro a oito horas. Os pesquisadores ficaram surpresos com a intensidade da rejeição demonstrada pelo homem à inatividade total.
Conforme Hyman, foi o resultado dessa pesquisa que fez Hebb abandonar a teoria da motivação do behaviorismo clássico para reinterpretar o comportamento com base no modelo do cérebro ativo. Este se lhe afigurou como o termo mais satisfatório de uma busca por suporte teórico adequado a esse resultado que não lhe pareceu isolado, mas acumulado a outros dados que pareciam inexplicáveis pela moldura do behaviorismo clássico.
Assim, também Hyman transmite a experiência que fora conduzida por Hebb e até então mantida sem uma coerente integração conceitual. Em uma escola todos os estudantes foram informados de que nenhum trabalho seria exigido e que, sendo assim, deveriam fazer apenas o que quisessem. Mas se prejudicassem com seu comportamento o trabalho de outros alunos, que haviam escolhido fazer alguma coisa ao invés de nada, então apenas seriam convidados a ficar na área exterior à sala de aula, onde poderiam brincar. E aqueles que mostrassem bom comportamento receberiam mais tarefas como prêmio. Todos os alunos preferiram trabalhar, após um breve período de adaptação à experiência, o que resultou num grau maior de aproveitamento nas matérias, conforme Hyman.
Mas, sendo a função de alerta ou excitativa o requisito da função de condução, como no modelo do cérebro ativo assim como interpretado psicológicamente por Hebb, o impulso ou motivação não poderia ser considerado apenas na sua relação ao estímulo externo. Ele propôs então, em vez do impulso, a "função excitativa" como fator desencadeador do comportamento.
Observa-se assim a necessidade de que a interpretação envolva uma compreensão "teórica" do que ocorre, o que abrange o elemento motivacional externo, mas não se limita a ele. Há efetivamente uma relação entre motivação e desempenho, mas não direta, de modo que um impulso, visto sob o aspecto de excitação, tanto pode facilitar quanto obstaculizar a realização.
Os extremos de motivação, pouquíssima ou demasiada, resultam no fraco desempenho ou o inviabilizam. Compreede-se assim que uma excitação demasiada pode tornar impossível qualquer tarefa - até mesmo a intensidade do motivo tão simples do perigo em relação à fuga, pois se parecer demasiado grande poderá induzir, inversamente, à paralisia. Cada tarefa parece ter um nível ótimo de motivação, pelo que, conforme a hipótese da discrepância, o organismo é motivado para procurar o nível ótimo seja qual for a situação.
Muitos fatos observáveis parecem explicáveis assim, já que a expectativa deve ser mantida em certo grau ótimo. O fato da música popular, por exemplo, estar sempre renovando seus números, seria explicável por que se prenchesse completamente a expectativa seria insuportável. Mas um tipo de música como a atonal é, a princípio, rejeitada, o que se torna compreensível, uma vez que se a estimulação for demasiadamente inesperada também não soa de modo cômodo. Se o comum é evitar-se o desvio, também o é procurá-lo com moderação. Creio que isso também esclarece sobre o fato de certos comportamentos parecerem ser procurados apenas por serem proibidos.
Mas, quando se mostrou inviável a previsão da resposta apenas pela sua correlação a um estímulo interno, também o comportamento deixou de ser apenas uma correlação ao fator de estímulo, como sugere a noção de "Resposta". Veremos como Skinner reformulou o esquema behaviorista de modo a contornar a exigência "de apelar para estados ou processos internos hipotéticos". Aqui evidenciamos a contraposição notada por Hyman, pelo que, na concepção de Hebb, já se lida com a teoria do estado de motivo central, o "impulso" ou mais simplesmente, o motivo comportamental sendo devido a uma combinação de influências resultantes de fatores sensoriais, hormonais e neurais.
Hyman exemplifica a importância dessa mudança ao descrever as experiências de Teitelbaum com ratos, as quais não precisamos narrar aqui pois se mostram muito minuciosas, desenvolvendo-se num quadro de reversão teórica tão marcante que desencadeou uma inversão de perspectivas, agora tendo sido a descoberta psicológica que orientou a pesquisa fisiológica.
A contribuição de Teitelbaum ocorre num ambiente de pesquisa intensa acerca da relação entre obesidade e a lesão numa parte do cérebro. Coube a P. E. Smith liquidar com a polêmica que vinha se estabelecendo entre a glândula pituitária ou o hipotálamo, região a que a pituitária está intimamente associada, como local da causa da forma de obesidade devida à lesão. Os estudos de Smith mostraram sem dúvida que se tratava do hipotálamo, mas inovaram decisivamente ao mostrar ser possível produzir essa obesidade no animal, de modo que se tornava viável o seu estudo experimental no laboratório.
No entanto, foram as observações do comportamento do rato hiperfágico, operado para exibir o fenômeno da obesidade hipotalâmica, isto é, quando se reuniu à problematização dos fisiólogos aquela dos psicólogos do comportamento, que se desencadeou a evidenciação de uma série de questões que conduziram à reversão do que até aqui vinha se propondo como explicação suficiente. Com esses resultados, a pesquisa fisiológica se reposicionou para localizar a influência de uma substância humoral no sangue que ativa as células hipotalâmicas associadas à alimentação.
Por uma série de experiências, com resultados por vezes conflitantes ou surpreendentes, Teitelbaum descobriu que o rato regulava o alimento não apenas para atingir um estado subjetivo de saciação (para "encher"), mas para manter um peso constante, maior do que o dos ratos normais. Isso se tornou óbvio quando ele focalizou o problema no fato de que o rato pára de superalimentar-se tão logo o peso atinge um certo nível. Seria preciso então explicar como ocorre essa regulagem do peso, pelo que a hipótese de um controle humoral circulando no fluxo sangüíneo se tornou coerente. Para completar-se a saturação da substância que, atingindo o hipotálamo, iria finalmente inibir o apetite, o rato operado precisa comer muito mais do que o normal, já que o problema interfere com o volume de células que compõe a substância, menor nos doentes.
Quanto à extensão dessas observações à obesidade humana, Kimble referencia Schachter, que constatou haver impressionante semelhança com o comportamento hiperfágico dos ratos. Sugere-se assim a necessidade de pesquisas envolvendo a região do hipotálamo, Schachter propondo que a hiperfagia dos seres humanos obesos deriva de padrões perceptivos que os faz serem mais controlados pela natureza externa dos estímulos do que as pessoas com peso normal.
Hyman mostra que contornar os aspectos conflitivos ou desconcertantes das experiências que evidenciavam o comportamento dos ratos hiperfágicos com a comida - eles páram de comer após atingir um patamar de peso - só se mostrou exequível a Teitelbaum quando ele equacionou fatores de estímulo muito variados, tanto o componente da intervenção neurológica como os dados do paladar dos alimentos, na indução do comportamento a observar. Tornou-se claro que uma teorização na base dos fatores locais não poderia conduzir à evidenciação do que estava em jogo nesse caso. Assim como o psicólogo que precisou lançar mão dos dados neurológicos, os fisiólogos precisavam agora da observação psicológica para incluir dados comportamentais decisivos no equacionamento da questão.
Mostrou-se assim a necessidade da descrição das relações entre várias estruturas intervenientes no comportamento instintivo (hipotálamo), afetivo (rinencéfalo) na atividade cognitiva (neocórtex) e a importância de estruturas de convergência (reticulares do córtex associativo, etc.).
O experimento consistia em observar o comportamento dos gatos enquanto tentavam fugir da caixa. Logo emergiu uma padronização consistente: primeiro o animal tenta tudo, desordenadamente; depois, gradualmente, começa a eliminar os "erros", isto é, as respostas que não o libertam, conservando as respostas eficientes. Revelaram-se assim duas etapas principais no aprender por tentativa e erro: aquela que conduz ao surgimento da resposta correta, e aquela, subseqüente, que conduz ao abandono das respostas incorretas.
Thorndike formulou duas leis gerais do comportamento, a do Exercício e a do Efeito. Inicialmente temos que quando as diferenças em freqüência e proximidade temporal entre a resposta certa e as respostas irrelevantes são suficientemente grandes, a resposta certa será provavelmente provocada pela situação estimuladora. A freqüência compreende-se pelo fato de que em todos os experimentos o investigador permitiu que ocorresse, pelo menos uma vez, a resposta certa (as tentativas continuam até que se realize). Quanto à proximidade temporal, significa que a certa será sempre a resposta mais recentemente realizada, pois o experimento se conduz até que esta se apresente na conduta do animal.
Mas a lei do Exercício só poderia ter sentido se a ela se acrescentasse a lei do Efeito, pelo que a resposta certa só é gravada, o que não ocorre com as respostas incorretas, porque é associada ao bom resultado (as outras o sendo a um mal resultado).
Krech e Crutchifield registram que a simplicidade dessas leis de Thorndike foi o que implicou a sua infiltração tanto no senso comum acerca do aprender, quanto no sistema educacional norte-americano. O "Sr. Fulano" não pode deixar de pensar que, seja o animal adestrado, seja a criança ou o adulto humanos, todos aprendem pela "prática" (lei do Exercício) e por "recompensa e punição" (Lei do Efeito).
Outro aparelhamento do aprender por discriminação foi introduzido por Lashley. O rato fica numa plataforma frente à qual há dois cartões lado a lado, um com listas horizontais, outro com listas verticais. Um deles é inamovível, sempre que o rato salta na direção dele, cai na rede localizada inferiormente aos cartões. O outro se verga e o rato atravessa a caixa, atingindo outra plataforma onde encontra pelotas de alimento. Mas na série de experimentos a localização dos cartões varia, de modo que o rato precisa aprender qual a posição de listas, não qual dos lados, que se identifica ao cartão "certo". A caixa de discriminação e o labirinto forneceram muitos dados na pesquisa do aprender.
No entanto, a prática do ato correto parece ser necessária para que o sujeito grave o ato. Coube a Tolman, no que foi apoiado pelo experimento de Blodgett sobre "aprendizagem latente", formular uma interpretação adequada. O experimento mostrou que, mesmo se num percurso sem recompensa os ratos não mostram sinais de aprendizagem, logo que a recompensa se apresente demonstram progresso surpreendente no desempenho. Isso faculta deduzir que há um aprender latente, oculto até que se torne compensador mostrá-lo.
Tolman sugeriu também que o processo de aprender se estende às conseqüências de cada resposta, envolvendo tanto a descoberta de que a resposta errada conduz ao resultado insatisfatório, quanto que o ato certo conduz ao resultado feliz, o fator decisivo não sendo nem a freqüencia diferencial nem a proximidade temporal da resposta certa, mas a freqüência total das respostas com seus resultados correlatos.
Quanto à lei do efeito, sua problematização se deve a que, a despeito do fato de ser tão popular, provou-se a preminência do reforço parcial no aprender. Assim, se quisermos treinar um animal ou uma pessoa num certo comportamento é melhor recompensá-lo em algumas ocasiões, não todas as vezes.
Isso parece bastante oposto à lei do efeito. Contudo, por sua popularidade, esta parece não dever fundar-se sobre algo totalmente falso, conforme observam Krech e Crutchfield. Ora, o problema parece solucionar-se com base na oposição dos conceitos de aprender e realizar. Assim, o esquema de melhores recompensas, melhor aprendizagem, só conduz a melhores realizações. E, de fato, com melhores recompensas e maior grau de motivação, o sujeito realizará com maior eficiência ou velocidade o que, contudo, já aprendeu. Mas vê-se que o fato de uma resposta ser recompensada e outra ser punida não faz com que uma seja gravada e a outra esquecida. Só faz com que o sujeito aprenda que, numa determinada situação, cada uma das resposta tem por correlato um certo efeito.
Watson definiu três aspectos básicos de emoções, o medo, o ódio e o amor, originalmente associados a um número reduzido de estímulos, invariavelmente ligados à resposta que desencadeam: os estímulos do medo seriam o desequilíbrio súbito, ruídos fortes ou agressões dolorosas; os do ódio, seriam as obstruções ao movimento voluntário da criança; quanto ao amor, vincula-se a excitaçõs suaves realizadas sobre a pele, pequenos embalos como no movimento de ninar, Watson acentuando as excitações nas zonas erógenas e sexuais.
A psicologia da emoção se enriqueceu muito desde então. Krech e Crutchefield registram uma ampla tipologia de cólera, alegria, medo, tristeza e emoções ligadas a estímulo sensorial (dor, repugnância, desprazeres e prazeres, susto). Estas, especialmente, não devem ser identificadas às anteriores, que não derivam diretamente de contato com objetos. Por exemplo, o prazer e a alegria são descritos como emoções irredutíveis uma à outra.
Incluem ainda emoções ligadas à auto-estima (sentimentos de autoconsciência em situações sociais como orgulho ou constrangimento, de êxito ou fracasso, de culpa e remorso); emoções ligadas a outras pessoas (amor, ciúme, inveja, ódio, sentimentos mais gerais, positivos e negativos); emoções de apreciação (humor e riso, sentimentos estéticos como admiração e reverência, experiência religiosa, solidão).
Há também um tipo de estado emocional transitório que se determina como disposições, onde não se apresentam relações explícitas a aspectos concretos da situação. Grosseiramente se propõe uma tabela de disposições conforme sejam agradáveis ou desagradáveis (animado - deprimido, alegre - sombrio, feliz - triste, satisfeito - insatisfeito, calmo - tenso). Mas há inúmeras nuanças e gradações de disposições, assim a tristeza pode tender para a nostalgia, a tensão para a angústia.
Aqui seria interessnte registrar a experiência de Hebb com chipanzés que Krech e Crutchfield transcrevem. O experimentador apresenta ao animal alguns objetos, constatando que existem respostas constantes de medo quando o chipanzé vê animais inertes, como outro chipanzé anestesiado, ou quando vê só uma cabeça, como a de um manequim. A explicação de Hebb envolve o processamento neurológico.
Seria assim que o animal aprende a esperar certos eventos quando estimulado por um objeto, por exemplo, ao ver uma cabeça, espera ver o corpo. Isso corresponde a uma seqüência coordenada de acontecimentos nervosos no cérebro. O medo resulta como perturbação dessa seqüência. Ocorrre uma desorganização profunda dos processos cerebrais se o estímulo do objeto for incompatível com a padronização de atividades já existente, definindo-se o medo.
Os dois autores notam o pequeno número de pesquisas a propósito de condições específicas que determinam disposições, de modo que não se sabe ainda como relacioná-las a contextos situacionais. Mas há um interesse crescente quanto ao estudo do funcionamento da experiência emocional, centrando-se sobre os seguintes temas: quais os determinantes de mudança de estado emocional; como se desencadeam fluxos de idéias relacionadas a emoções; saciedade e controle na experiência emocional; expressões emocionais e efeitos da emoção sobre o comportamento geral, por exemplo, o social; aspectos fisiológicos dos estados emocionais.
A obra de Skinner já se insere num contexto bem mais complexo da ciência psicológica. Seu texto ventila temas que só fizeram proliferar, desde que a área se ampliou sobremaneira em relação ao princípio do século. Afinal, ele escreve num contexto que abrange o "Cinqüentenário do Comportamentalismo". Já está esclarecido que a escolha de tratar a obra de Skinner na seqüência de Watson se deve à continuidade de suas motivações, não tanto ao critério cronológico das obras fundadoras do behaviorismo.
Skinner registra o que de fato implicou a reversão do modelo estímulo-resposta assim como Watson e os behavioristas ortodoxos haviam pensado ser aplicável devido à influência de Pavlov. É somente quando a crítica alcança as noções de condicionamento e reflexo, como estabelecidas por este, que ao esquema E-R se aceita ser preciso acrescentar alguma variável ainda não equacionada. O problema nesse momento se torna determinar qual seria o componente a inserir.
O comprometimento do modelo pavloviano se coloca desde que começa a se indagar sobre o comportamento real, assim como ele se manifesta na experiência comum. Aqui, está claro que não se trata apenas de uma resposta condicionada por um estímulo, mas existe um elemento de contingência. Esse elemento é o resultado da ação, isto é, o retorno que o ambiente contrapõe ao comportamento respondente. O que ocorre após a resposta? Mas, especialmente: como isso influi no comportamento?
Torna-se bem nítido que a problematização pavloviana não permite colocar essas questões que se mostram cruciais. Por elas o comportamento se torna algo mais próximo do que nos parece ser, ocorre sua integração dentro de uma situação e o sentido da relação entre ciência do comportamento e teoria do aprender se torna bem mais claro.
Skinner tratou a contigência em termos de reforço, definindo-se a situação a tratar cientificamente como comportamento operante, algo que sempre se desenvolve numa ambientação com que o sujeito lida global e circunstancialmente. Introduz-se assim a clássica oposição entre a resposta condicionada de Pavlov e a de Skinner, esta "de tipo instrumental", conforme Pena, que esclarece o fato de que dois discípulos de Pavlov, Stefan Miller e Jerzy Konorski, já haviam estudado esse tema na Polônia, na transição à década de trinta.
Nos estados Unidos, porém, creio que seria preciso enfatizar que Skinner não apenas colocou o problema numa perspectiva observacional, mas desenvolveu uma abrangente área de aplicação do que seria a Análise Experimental do Comportamento com base no condicionamento operante, ambicionando com isso prover "tecnologias" aproveitáveis em várias regiões de problematização comportamental humana, como na economia, na educação e na clínica.
Skinner reporta os trabalhos de Miller e Konorski, mostrando que mesmo tendo se ocupado na observação do comportamento operante, não colocaram a questão da contingência, mas apenas se preocuparam com a descrição total da reação ao estímulo para formar um "complexo condicionado" completo. O animal não apenas saliva, mas flexiona a perna para movimentar-se até o alimento. Finalmente, o tom da campainha provoca a flexão.
Mas, assim, eles se limitaram a um tipo de indução comportamental apenas eliciante de comportamento, como quando a mão da criança é movida pelo professor para que forme letras. Não seria o mesmo caso dos estímulos imitativos ou aqueles usados na instrução, quando há um componente global de envolvimento do respondente na situação. No caso de Konorski e Miller ainda se trata de uma resposta reflexa, não uma "resposta operante" real que possa ser utilmente reforçada, como na colocação de Skinner.
Aliás, o mais provável é que se ouvíssimos o que ele tem a dizer sobre isso, o resultado seria uma racionalização de motivos nada confiável, o tipo de "derivações" de Pareto, ou, como no texto de Skinner, "racionalizações" assim como já diagnosticadas por Freud. O que ocorre é que o comportamento operante se desenvolve em um meio de contingência que prevalece no momento da resposta. Observe-se que esta é agora associada ao movimento corporal (músculo-esquelético), necessário ao comportamento observável. "O que" é operante para "qual" reforço, eis o determinante do comportamento. O reforço operante fortalece uma resposta colocando-a, de fato, sob o controle do estímulo.
Romeu Gomes expõe a oposição do seguinte modo. Pavlov lida com o comportamento respondente, que se "traduz pelas respostas, aprendidas ou não, provocadas por estímulos". Skinner lida com o comportamento operante, onde não ocorre um estímulo particular que deva produzir a resposta, mas consiste em respostas emitidas pelo organismo que operam sobre o ambiente, como falar, brincar e caminhar.
A influência dos estímulos nesses exemplos de atividades é parcial, enquanto o comportamento respondente é produto do estímulo. Mas, se um estímulo funciona como reforço para aumentar a probabilidade da resposta, no comportamento operante, quando esta é reforçada tende a ser fixada, quando não, a resposta se extingue. Assim, o reforço se torna o fator central, traduzindo-se por qualquer estímulo, fornecido após a resposta, que aumente a probabilidade de sua freqüência.
É certo que a resposta fica sob o controle do estímulo nessa operação do reforço, mas o estímulo não elicia a resposta como num reflexo. Skinner se opõe à concepção de Pavlov, pelo que entre instinto e reflexo o intervalo seria de complexidade. Trata-se, sim, de ver como divergem as ações eliciadora e liberadora do estímulo, desde que o reforço fixa a ocorrência da resposta. A biiologia, porém, conserva a relação, pelo que define-se o instinto como uma série de reflexos coordenados pela totalidade do organismo, o reflexo definindo-se como a mais simples resposta coordenada invariável de que participa o sistema nervoso (Storer e Usinger).
Torna-se importante assim a noção de "unidade de comportamento", também enfatizada pelos etólogos, particularmente por Lorenz. É preciso que se tenha um referencial, em termos de propriedade definidora da resposta em relação ao estímulo, para o observador identificar as ocorrências relevantes como um comportamento, por exemplo, discriminando freqüências de resposta. Isso demarca uma análise experimental do comportamento frente a meros relatos históricos ou ilustrações de eventos fortuitos.
A novidade aqui é então, inicialmente, compreender a inserção do comportamento nesse meio de contingência, depois, evidenciar os modos de manipular ou criar situações contingentes de algum modo relevantes como contexto de um comportamento que se quer induzir ou mudar, por exemplo, desenvolvendo-se técnicas de "ensino programado", através da estipulação do resforço.
É sintomático que Skinner recupere muito da contribuição de William James, que vimos ter recusado a pesquisa do reflexo, utilizando amiúde referências suas. Utiliza, por vezes, a expressão "behaviorismo radical" para designar a análise experimental do comportamento.
Ele também reporta os posicionamentos de Hull e Tolman, ambos já lidando com os temas da propositividade da ação. O básico é sua crítica ao modo como eles enfrentaram a questão, como definiram o termo a acrescentar ao esquema E-R. Assim, Hull resvalou para "processos centrais", assim como Tolman pensando a variável a introduzir como sendo o organismo. Em todo o caso, a Skinner isso parece menos radical do que parece. Seriam modos de manter o esquema estímulo-resposta desde que não alteraram substancialmente o "velho padrão do arco-reflexo".
A variável que Skinner insere como realmente transformadora do modo de colocar a questão do comportamento, sem falsear a intenção científica que era, afinal, a de Watson, seria a contingência. Todas as outras colocações se limitam à "topografia" do comportamento, algo como a troca de energia no início ou no término do qual há um estímulo, a descrição do conjunto de passos que são observáveis numa correlação respondente.
Mesmo Tolman, que parece ter trocado a "topografia da resposta" pela sua orientação no rumo do objetivo, limitou-se a considerar a interveniência do ponto de vista de uma dinâmica "dentro" do organismo. "Propositividade" pode se tornar um conceito ambíguo, mantendo a impressão de que pertence ao mundo interior do sujeito, se não se especificar sua dependência das variáveis objetivas. Assim, conforme Skinner, em vez da topografia seria preciso considerar a contingência.
O estímulo é parte da ocasião na qual uma resposta é emitida e reforçada. A interpretação do comportamento será, nessa proposta, muito favorecida pela observação do comportamento verbal. Colocar a ênfase na contingência significa observar o sujeito como sempre envolvido num processamento conseqüente das circunstâncias.
Focalizando o desenvolvimento da problemática por meio do confronto com esses outros autores, Skinner estende o panorama da transposição de uma psicologia "de estímulo e resposta" àquela de "contingência de reforço".
Se o gato fosse aclimatado à caixa e seu comportamento de levantar a tranca modelado por reforço, ao invés de que se esperasse vê-lo surgir após tentativas a esmo de que já se fez apressadamente a interpretação do que significam, é praticamente certo que se observaria um aumento substancial e imediato da probabilidade de novos levantamentos da tranca. Referencia-se, a propósito, as famosas caixas de Skinner, planejadas de modo diferente das de Thornkike, em que animais poderiam acionar uma alavanca ou executar algum ato simples a fim de obterem uma recompensa,conforme registra Kimble.
Mas ainda que com isso se lograsse evidenciar a inviabilidade de se tratar a questão na base do trial and error, não parece a Skinner que a própria situação da caixa de Thornkike seja a mais adequada para estudar ou ensinar a resolução de problemas.
Na verdade o que ocorre no aprender é sempre algo como no pensamento produtivo, isto é, uma autêntica resolução de problemas. Estes se definem como "uma questão para a qual não há resposta até o momento". Nesse sentido, o aprender, como a resolução de problemas, envolve a discriminação das variáveis relevantes.
Mas observa-se que uma definição assim abrange praticamente qualquer aspecto comportamental que se torne relevante para a solução. Por isso, estudar a resolução de problemas coincide com o estudo do comportamento como um todo. Ora, a questão do reforçamento torna-se central, pois é o que garante, na sua relação a uma resposta, o aumento da probabilidade de que esta seja repetida na presença dos mesmos estímulos.
O problema se apresenta quando as contingências, isto é, os elementos da situação que induzem à resposta na presença dos estímulos, se tornam complexas. Pode não haver resposta já fixada para um certo conjunto de contingências. Várias respostas podem, inversamente, parecer adequadas, num conflito de alternativas. Alterações emocionais podem intervir na escolha daquela que provavelmente tornaria o reforço contingente, isto é, conseqüente.
Mas, em todo caso, o sujeito não está simplesmente tentando a esmo. Qualquer resposta, por inválida que pareça, está dentro de uma padronização coerente de estímulos e de uma continuidade de respostas que se entre-esclarecem, com seus resultados. Skinner não exclui a terminologia da cibernética de Wiener, e considera adequada a terminologia da "reatroalimentação".
A resolução ocorre quando a coerência envolve a identificação dos estímulos que determinam a solução. Encontrar a solução é construir o Estímulo Discriminativo ("Sd") relevante. Quando se observa o que é relevante para a situação, mas isso não sem estar numa relação determinada com o reforço, isto é, com os resultados das respostas, sendo a "meta" o resultado que se aprendeu como reforçador do comportamento como um todo. O ensino é então definido como a combinação de contingências de reforço que acelera o aprender.
Ele mostra que enquanto o procedimento se limita ao aleatório olhar e desprezar amostras oferecidas a esmo, nada pode ser contado como fator no aprender a resolução desse problema. O tempo, por exemplo, que a pessoa usa para fixar as que já viu e desprezou. O comportamento só se mostra - enquanto behavior conseqüente - quando se tem a idéia de fazer marcas nas malas examinadas, por exemplo, com giz.
Assim, a linguagem se torna uma fixação de fatores discriminativos que se mostram relevantes nas situações humanas, do mesmo modo que as marcas de giz. Esse, o mecanismo da atribuição, que Skinner parece usar como referencial do ser da linguagem. "As maçãs vermelhas são doces" encerra uma variável relevante a um comportamento compensador para qualquer membro da espécie. Na exposição desse tema, a prosa de Skinner lembra, por vezes, os textos de Wittgenstein.
A questão se torna esvaziar o conteúdo aparente das asserções que envolvem estados internos, assim como para Wittgenstein era mostrar a impossibilidade da linguagem transmitir algo efetivamente comum como referência desse tipo de asserção. Aquilo que se "sente", como a dor comunicada pela proposição, não pode ser "sentido" pelo outro, a quem a proposição, no entanto, se dirige. Skinner considera a dor como o "exemplo de experiência imediata" comumente utilizado.
Em ambos os casos, trata-se de esvaziar a categoria do sujeito não lingüístico, o sujeito humano, como aquele que fala na linguagem. Esta "funciona" como um evento independente, com suas leis imanentes, em Wittgenstein, o sujeito da linguagem atuando como um transcendental que possibilita seu exercício; em Skinner a linguagem atua integrando um comportamento ou uma orientação, sendo, como uma parte da ação, uma prática ambiental, social.
Com essa posição, Skinner desloca a análise da linguagem para a descoberta das funções que com ela a comunidade atualiza, isto é, funções que pertencem à comunidade, marcando uma certa distância entre o "lingüístico" e o "verbal". Aquele interessa aos lingüistas, este, somente, ao psicólogo. Com isso Skinner denega, igualmente, que seja preciso atrelar a compreensão da linguagem do ser humano à zoo-semiótica, já que seu comportamento verbal pode ser tratado sem precisar previamente analisar-se o sistema de sinais de outras espécies.
Ora, que o correlato desses nomes, "sentir", "esperar", etc. seja objetivo dentro do sujeito, eis o que nunca se poderia provar, e é isso o que o behaviorismo coloca em questão. O sujeito "sente" raiva ou compaixão, e isso está coerente com as providências que toma com relação ao objeto. Mas por que essas providências são, com tanta segurança, designadas estarem no exterior, enquanto o correlato do discurso de legitimação do sujeito, no interior? Ambos são igualmente relevantes para o comportamento como um todo, na relação que este exibe invariavelmente com o ambiente em que está ocorrendo. Se queremos mudar esse comportamento, o que precisamos é alterar o ambiente - verbal ou não-verbal - não imediatamente os sentimentos do sujeito.
Skinner exemplifica com as guerras, que "nascem primeiro na mente dos homens", conforme o documento da Unesco, que cita. É preciso que eles deixem de pensar na guerra como uma coisa válida. Mas por que eles "pensam" assim? É preciso, então, procurar as variáveis ambientais relacionadas ao presente, onde já existe algo como o behaviorismo, que precisam ser transformadas, os tipos de reforço que precisam ser investidos, para que se evitem guerras "desejadas".
A aplicação terapêutica da Análise Experimental do Comportamento autorizaria apenas a utilização de reforçamentos positivos. Há dois exemplos interessantes no texto de Skinner, como aquele do horário de refeições no hospital de mulheres esquizofrênicas e o que referencia a experiência num reformatório de menores delinqüentes.
O que mudou foram as contingência do reforço. Antes, o que reforçava o comportamento das internas era a atenção que conseguiam angariar dos funcionários, ao mostrar resistência a serem movidas por eles ao refeitório. Agora, o que se tornou reforçador foi a comida institucional. A comida não era reforçadora nas circunstâncias normais, mas mostrou-se assim tão logo as pacientes ficaram famintas. Naturalmente essa experiência fôra rigorosamente controlada, de modo que se ficasse nítido que a mudança não alteraria o comportamento das internas, não se as deixaria chegar à inanição.
Essa aplicação envolveu o tema do controle aversivo socialmente consagrado. Nas sociedades atuais predominam "sistemas coercitivos de controle", conforme a expressão de Pena, algo que Skinner, como Bandura, tematizaram com especial interesse, exemplificando com estruturas fundamentais, a escola, a empresa, e os meios de comunicação.
O apelo seria no sentido de substituir os controles de comportamento, na escola e na empresa, que se apóiam em recursos aversivos e punitivos, pelo planejamento centrado na manipulação de reforçadores positivos. Quanto à comunicação de massa, envolveu um problema comum a propostas psicoterápicas de pessoas agressivas, que ostentam comportamento sádico. Particularmente, o problema foi atacado por Bandura, mas o cerne dessa argumentação pode se estender, a meu ver, à posição de Skinner, ainda que este não insira no tema da prendizagem social uma valorização da imitação, como faz Bandura.
A questão é a contraposição deste ao argumento psicanalítico que vinha propondo um tipo de representação do comportamento agressivo como redutor de sua ocorrência real. Assim, permitir ou conduzir crianças hiperagressivas a participar de atividades recreacionais brutais, que incluíam agredir, ou a ver programas de televisão agressivos, com cenas particularmente violentas, era colocado como forma de catarse, que iria evitar respostas agressivas futuras.
Em contraste, a teoria do aprender social de Bandura, assim como o comportamento contingente de Skinner, iriam prognosticar que expor-se a modelos agressivos e a reforçamento positivo da agressão são procedimentos muito eficazes, sim, mas para aumentar predisposições a respostas agressivas.
Pena ilustra a situação experimental que simula entrevistas psicoterapêuticas nas quais estudantes coléricos expressam diretamente sua hostilidade a um médico "permissivo". O resultado foi um aumento de "agressão pós-experimental", ao invés do decréscimo. A evidência geral decorrente de estudos laboratoriais mostra que esse tipo de estimulação não apenas mantém o comportamento indesejado, como aumenta sua incidência.
A posição da psicanálise se torna assim contrária a essa teoria do aprender social. Conforme enfatizado por Bandura, o paradigma energético da psicanálise - o aparelho psíquico de Freud - assim como qualquer outra derivação desse paradigma, contando com a dinâmica da catarse, orienta pais, educadores e terapeutas no sentido de permitir situações simuladas de reforçamento positivo à agressão. Bandura, inversamente, afirma segundo Pena que "as expressões catárticas são procedimentos altamente eficazes para aumentar predisposições a respostas agressivas". Especialmente ficou demonstrado que a observação de um guia que age agressivamente sendo recompensado induz não só à imitação como acresce, no imitador, seu potencial de conduta agressiva. Em outros termos: os mesmos padrões de agressão transferem-se para o observador e liberam-se generalizações das repostas agressivas primitivas
A meu ver, seria o caso de perguntar, porém, se o problema da violência na linguagem da mídia não resulta de que certos programas são formulados por pessoas, elas mesmas, hiperagressivas ou identificados com capitalistas competitivos, que consagram seu comportamento psicótico como modelo socialmente valorizado, já que qualquer referencial sancionado pela comunicação de massa é recebido como modelar.
Assim, a pessoa que recusa essa linguagem violenta pode ser marginalizada, como alguém que não observa a moda, ou que é ingênuo, apático não-capitalista, etc. Aliás, seria de se notar como a rotulação é relativa, nesse caso.Por apático, geralmente se entende aquele que não é capaz de iniciativas, ou preguiçoso.Inversamente, "apatia" como uma incapacidade de fazer coisas não já ordenadas por uma autoridade, foi característica assinalada de grupos autoritários.
Esses estudos recolocam aquilo que vemos na pesquisa sociológica de B.Wotton e outros autores citados em Bottomore ("Introdução à sociologia"), mostrando como o comportamento agressivo ou deletério não está determinado pela marginalização ou pobreza, mas, bem inversamente, profundamente arraigado na sociedade por integrar o perfil do capitalista competitivo. Os índices do crime na sociedade americana não são majoritariamente provenientes dos guetos, mas das firmas capitalistas.
Um exemplo determinado de agressão tanto pode ser atribuído a um como a outro dessas determinações. O ser humano parece ser o único caso de agressão, particularmente de tendência homicida, aos membros da mesma espécie, de modo tão constante e diversificado. Skinner supõe que isso está relacionado com a história do reforço que esse comportamento têm provido ao longo do tempo. Assim, o problema social da agressão pode ser sanado se for construído um ambiente em que o dano aos outros não tenha valor de sobrevivência, nunca funcionando como um reforço. Inversamente, nesse mundo os comportamentos não agressivos são abundantemente reforçados em esquemas eficazes.
O jogador de beisebol e o comandante de navio estão respondendo à mesma estimulação quando aquele precisa apanhar uma bola no ar, e este, recuperar um satélite. Ambos se posicionam para aparar um objeto cadente no momento de atingir a superfície. Mas o comportamento do jogador é praticamente modelado pelas contingências de reforço, enquanto o comandante está obedencendo regras derivadas da informação disponível e de situações análogas.
O erro consiste na crença de que o comportamento está sempre sob o controle de estímulos anteriores. Isso ocorre geralmente porque é mais fácil observar os estímulos discriminativos controladores de comportamento, como regras, máximas e leis, do que as contingências que especificam uma conduta no momento em que a situação se desenrola.
Assim, torna-se possível definir o cérebro como o órgão que manipula símbolos, transformando tudo o que descobre em regras corretas, por armazenagem de dados. O que se deixa de colocar como necessitando de explicação, assim, é porque o homem deveria obedecer uma máxima, regra, plano ou lei. Nada no cérebro como processador de símbolos o explica.
Em vez disso, Skinner acentua que o papel do cérebro está na mediação de alterações do comportamento resultante de reforço. Como estímulo discriminativo a regra é eficaz como parte de um conjunto de contingências de reforço. Mas a especificação completa do comportamento precisa incluir a avaliação da oportunidade da regra, na contingência atual de sua ocorrência. Pode ser que a situação tenha mudado. A lei continua válida, ou não? A cultura pode precisar de muito tempo para superar o contraste entre o seu repertório de estímulos construídos, o reservatório de conhecimento sobre contingências já observadas na forma de conselhos sancionados por provérbios, sabedoria popular, etc., e o devir humano, social.
Skinner enfatiza a função auto-reguladora exibida pela cultura, inscrita nas formas de proposição como "O que você fez?" "Por quê?", ou descrições de comportamentos que falham em satisfazer contingências, como "eu desisti prematuramente". Chama a isso "comentário corrente" sobre as contingências de reforço. A evolução da cultura encoraja comentários assim, para que se desloque a atenção à eficiência no ato mesmo da resolução de problemas, em vez da fixação no repertório admitido. Culturas com menos capacidade de evoluir colocam muito mais o peso nos acontecimentos interiores, focalizando demasiadamente a observação de prescrições, o que se revela pouco vantajoso aos seus membros.
A comunidade verbal exibe, por meio dessa função do comentário, sua capacidade de ensinar comportamento operante, nesse caso, destinado a superar a sua própria limitação representada pela função mais conspícua de estocagem de informação sancionada como útil.
O menos satisfatório quanto a isso é utilizar as próprias contingências como regras, como nas campanhas contra o fumo que se baseiam na argumentação de suas conseqüências. Espera-se que as pessoas observem uma regra, no sentido de uma injunção (parar de fumar). Apresenta-se então a conseqüência como se fosse associada ao não cumprimento da regra (doença). Mas o comportamento de parar de fumar só pode ser eficaz se houver operadores contingentes que o reforcem de modo a alterar o esquema reforçador do ato de fumar. As pessoas não fumam por uma regra que as induz a fumar, e sim pelo reforço que isso opera.
Mais coerente seria uma lei que pune o hábito de fumar, pois a contingência do reforço muda. No entanto, pelo que podemos deduzir do que Skinner expõe ao longo do texto, os "efeitos colaterais", conseqüências desse reforçamento aversivo não iriam tardar - seria possível prever que, como colegiais que fuman por que seus pais não podem vê-los fumar, muitos iriam procurar o comércio paralelo para continuar fumando, ou para começar a fumar expressando sua revolta ou insatisfação social relacionados a outros motivos.
Esses, logo desenvolveriam o sentimento de ser marginalizados, o que aumentaria sua predisposição para realizar outros atos ilegais e os afastaria dos hábitos comuns, e assim sucessivamente. Seria então necessário investir em programas terapêuticos ao qual as pessoas que quisessem, estando convencidas dos males do tabaco, poderiam se engajar, tratar-se e se curar da compulsão. Mas nem todo hábito desse tipo é compulsivo. Há culturas que utilizam o tabaco sem a característica do "vício". Outrossim, para inviabilizar qualquer comportamento cujo resultado é a injestão de substâncias nocivas, teria que ser proibida, primeiro, a indústria automobilística, até que fossem inventados veículos cuja propulsão não comprometesse o meio ambiente. Em todo caso, o pior é sempre o controle aversivo, pois suas conseqüências sociais se acumulam.
O critério essencial é que as variáveis controladoras do comportamento não são as mesmas. Assim, os dois tipos de comportamento jamais coincidem de todo. Num caso o homem está lembrando o que deve dizer ou obedecendo a uma prescrição, no outro, está deliberadamente propondo uma observação derivada do seu exame do assunto.
Ora, aqui notamos que a argumentação de Skinner tangencia a crítica acerca de sua recusa de teoria, já que se apresenta a estipulação de critérios. Esta se mostra bem nítida na formulação de Hyman. Skinner tem um trabalho bastante volumoso de experimentação com animais, sua programação envolvendo o comportamento de pombos, induzido por reforço. Hyman coloca a questão de que, inicialmente, é complicado não supor que Skinner esteja lidando com algum nível de teorização que orienta o planejamento de suas situações experimentais. Muito mais complicado se torna, já que ele se recusa a "sistematizar", mostrar porque, não aceitando "saltar" do comprotamento do pombo para o cérebro do pombo, aceita fazê-lo do comportamento do pombo para o comportamento do homem. Não me parece que isso não estivesse já aquilatado pelas respostas de Skinner aos seus críticos, mas vemos assim como a recepção do behaviorismo se tornou polemizada pela ambientação de escolas menos "revolucionárias" em psicologia.
A questão que ilustra o problema da teoria é o ritual supersticioso. Skinner construiu uma situação laboratorial em que se apresentava comida a pombos em certos intervalos, independente do que cada pombo estivesse fazendo no interior de sua cela. Sua suposição era que, como "sempre que apresentamos um estado de coisas que sabemos agir como reforço de um determinado impulso, devemos supor que ocorre um condicionamento", conforme a citação de Hyman, ao sentir fome o pombo iria repetir o gesto que, por acaso, estivesse concomitante à apresentação da comida.
Isso é exatamente o que se verifica - um pombo dava voltas em círculos, outro projetava a cabeça para a barra da cela, sempre que sentia vontade de comer, pois estes eram os gestos que faziam ao ser apresentada a comida quando foram introduzidos, semi-famintos, na situação experimental.
Hyman julga que as precisas e detalhadas predições de Skinner acerca dos resultados que se deveriam verificar, conformes a mudanças específicas nas condições da experiência, são, de fato, generalizações no sentido de teorizações. No entanto, como ele não produz uma formalização, supomos que no sentido de uma tentativa para equacionar todas as hipóteses conforme uma ampla gama de interligações fenomênicas designadas na forma de leis e princípios gerais, não fornece a base de apoio de suas generalizações e previsões. Muda as variáveis, mas não consegue explicar as razões de sua escolha. Como poderia então sustentar a generalização mais ampla pela qual se garante a validez do comportamento do pombo como "superstição" em geral?
Ocorre que Skinner conceitua "comportamentalismo" em dois sentidos. Num deles, trata-se da pesquisa experimental e hipóteses correlatas - incluindo a asserção pela qual a psicologia ainda não tem condições para reunir uma teoria geral, assim como já faz a física. Mas no segundo sentido, trata-se de um "ismo", ou seja, uma "filosofia da ciência" cujo objeto é "o tema e métodos da psicologia". A questão é definir o objeto de estudo da psicologia. Logo se têm, como correlatos, os métodos que lhe são adequados.
É devido a essa colocação que o mentalismo precisou se tornar o alvo crítico do behaviorismo. Como disciplina da "vida psíquica", no sentido de "experiência consciente" ou "vida mental", uma metodologia da psicologia seria pouco esperável, pois teria que se desenvolver do nada ou simplesmente continuar a teorização filosófica. Mas, definindo-se como "ciência do comportamento dos organismos humanos ou não", a psicologia seria um ramo da biologia e assim se beneficiaria do sólido edifício epistemológico já construído por esta.
A argumentação se desenvolve então no sentido de inviabilizar a interpretação mentalista dos eventos comportamentais, de que já examinamos as linhas básicas.
Trata-se de mostrar a impropriedade da valorização do que Watson designou "discurso sub-audível", o pensamento ou atividade mental, enquanto aquilo de que o comportamento é explicado. Skinner aceita que a polêmica de Watson não foi devidamente conduzida. Mesmo o pensamento parece à custo ser bem carcterizado como linguagem sub-vocalizada. E ter se confundido "com os pscólogos introspectivos ao negar a existência de imagens" seria desculpável apenas por que, ao que parece, o próprio Watson "não tinha imagens visuais". Mas considera como seu inegável mérito o ter lançado a proposta, ainda que "ruidosa", da psicologia como ciência do comportamento. No essencial, conforme Skinner, Watson estava certo.
A psicanálise já seria algo em apoio da hipótese behaviorista, ao operar com a hipótese de pensamento inconsciente, que ocorre sem o conhecimento do sujeito. Mas o condutismo - como também se designa a tendência behaviorista - inova, ao estender a questão do acesso ao que se habitualmente designa consciência. Ora, deve-se opor à simplificação da proposta behaviorista na base de que sua solução compacta descartar os eventos privados da consideração científica, em prol do que seriam os públicos. Skinner marca, assim, posição frente ao positivismo lógico e ao operacionalismo de Bridgman.
O que ocorre "sob a pele" e que seria o "privado", de fato não se consideram como mediadores fisiológicos ou subjetivos do comportamento, mas sim como partes dele. No entanto, o que significam como "privados", é o que está em questão. Como já assinalamos, o ponto de vista do behaviorismo desfaz a oposição. Não há necessidade de supor que a pele é o limite. O privado e o público estão sendo colocados no mesmo nível físico.
Assim, o importante aqui é manter a equivalência do que habitualmente se considera reservado à experiência do sujeito na ambiência fenomênica passível de descrição biológica. A classe de experiências que se designam habitualmente "privadas", como no exemplo da dor, não dependem da existência de um mundo à parte que seria a interioridade, mas responde ao quadro geral da estimulação, isto é, relaciona-se a receptores físicos, conforme sua especificidade.
Seja o caso da cinestesia, literalmente "sensibilidade ao movimento", correspondendo à percepção pelo sujeito do seu corpo no espaço, que Wallon reporta como tendo sido proposta, após Biran, como compactando numa certa unidade de consciência as sensações derivadas do esforço, dos movimentos e das funções viscerais. Skinner, como na fisiologia atual, a relaciona aos mecanismos de proprioceptividade.
Há assim receptores da cinestesia, os "proprioceptores", células sensoriais localizadas nos músculos, tendões e articulações, que são efetivamente pequeníssimos "órgãos sensitivos" (Storers e Usinger) que tornam possível a percepção dos movimentos dos membros, a contração e relaxação dos músculos. Os receptores cinestésicos apresentam habitualmente a forma de fusos de estrutura variada, que possuem uma pequena fibra motora responsável pelos impulsos que vem do cérebro, e uma grande fibra sensorial responsável pelos impulsos que vão ao cérebro, ambas incluídas numa cápsula de tecido, o fuso imerso em líquido, e o trajeto das fibras já está bem estudado desde o córtex à medula, onde fazem ligações para vários reflexos, aos fusos localizados no corpo - como se pode ver o esquema em Krech e Crutchifield (v. 1).
A memória inconsciente das tensões e deslocamentos dos músculos necessários é o que possibilita o ato simples de tocar certas partes do corpo sem vê-las. O mesmo mecanismo funciona em atos como andar, tocar piano, patinar, etc. (Storer e Usinger). Também é bem descrito o papel do aparelho vestibular, localizado no ouvido interno, quanto ao sentido de estabilidade ou equilíbrio. Skinner mostra ainda o papel dos receptores internos, recebendo estímulos do interior do corpo, na formação do que designamos a experiência subjetiva. Tudo isso, como vimos, não necessita de uma dimensão suplementar ao domínio físico.
Se a proprioceptividade e a interoceptividade não deixam de ser irredutíveis, como experiência, à recepção de estímulos externos, de modo que sentir tontura, orgulho ou pesar não parece com pisar forte, apalpar lixa ou cetim, o que importa é a ordenação metodológica de seu equacionamento como fenômenos de ordem não ulterior a estes outros. A ciência do comportamento não considera os eventos de proprioceptividade e interoceptividade como "mediadores" fisiológicos do comportamento, mas como partes deste.
O deslocamento epistêmico, a meu ver, centra-se na noção de causalidade, não só por que muda o foco do que implica o que, mas principalmente por que instaura menos o funcionamento de uma implicação (monocausalidade) do que a inter-relação de fatores relevantes numa situação complexa. Romeu Gomes nota, a propósito, que se o behaviorismo lida com um determinismo e o homem "está realmente controlado pelo ambiente" - conforme a citação de Skinner - é preciso, contudo "lembrar" que trata-se de um "ambiente constituído", em muito, pelo homem.
O ser humano não se define como autônomo, mas sim pelo controle, no sentido de que "ele controla e é controlado", conforme a expressão de Gomes. Como vimos, não se age a esmo, mas dentro de situações onde o ser humano não se expressa menos como determinante do que as circunstâncias com que ele opera de modo relevante. Creio que essa noção de causalidade desloca, na verdade, o dilema de determinismo e liberdade no sentido de autonomia, pela introdução do conceito também tradutível pela terminologia da "retroalimentação".
Skinner, exemplificando a interpretação do ciúme de Otelo por um viés não-mentalista, mostra que todas as partes do comportamento ciumento narrados pelo personagem - ações passadas, presentes e futuras (intenções), respostas emocionais "públicas" e "privadas", são inter-relacionadas, nenhuma podendo ser apontada como causa de outra.
Mas o pivô do argumento, conforme Skinner, reside na equivocada discrepância entre o interno e o externo pelo que só compreenderíamos o que pudéssemos adentrar - nesse sentido, o cientista nem mesmo "sabe" o conteúdo de um manual de sua competência, pois ali exibem-se quadros e tabelas que ele consulta, mas que não precisou decorar.
Skinner insiste na dependência desse tipo de colocação a uma pretensão copiadora do mundo, pelo que o que "habitamos" na verdade seriam nossas próprias idéias - cópias das coisas, como no platonismo - ainda que este tenha invertido a correspondência ao nomear as idéias como modelos. Nesse modo de ver, é o conhecedor que "invade" ou "possui" ( a metáfora é de natureza sexual) o conhecido, não o inverso.
A posição de Skinner não vai inverter o platonismo para sustentar que tudo é matéria, em vez da mente. Trata-se de se contrapor ao dualismo. O termo do exame experimental do comportamento são variações nas respostas. O problema da psicologia deixa de ser, absolutamente, saber de que o mundo é feito.
Vemos que o mesmo viés sustenta o movimento psicanalítico. De modo algum ocorre que o homem conheça ou compreenda suas experiências subjetivas tão necessária e naturalmente quanto as vivencia. O supersticioso nunca dá as razões de seus rituais. Ninguém compreende totalmente seus próprios sonhos. O problema da formulação fenomenológica é manter a argumentação tendo por referencial não o pensamento consciente, como assevera, mas tomando por este apenas o comportamento cognitivo, como perceber, atribuir, imaginar, lembrar. A meu ver, a fenomenologia, no período contemporâneo, é a formulação que mais se manteve relacionada à representação como uma recusa da ciência, porém, e Foucault pode ter baseado seu equívoco na identificação precipitada de fenomenologia e humanities, numa petição de princípio quanto ao caráter que julgava não- científico destas.
Assim, o termo fenomenologia significa aquela escola de filosofia que odeia as ciências, a não ser que as reduza a "ontologias regionais", o que me parece ofensivo à liberdade do pensamento, pois pode-se ter começado por recusar a ontologia, o que me parece bastante saudável. Não obstante, cumpre notar que o termo também é usado, numa acepção irredutível, como sinônimo da parte meramente descritiva do fenômeno, de uma pesquisa científica.
Já a psicologia está tratando com automatismos, reflexos, comportamentos e demais fenômenos inexplicáveis para o sujeito. Consegue assim evidenciar os limites quando se trata de fenômenos que a este parecem imediatamente acessíveis. Aquilo que Husserl manteve sempre como o mais óbvio, e somente por um viés perverso negável, conteúdo original, imediato, da percepção - o sentimento subjetivo, autoevidência ou autoconsciência de si - já se evidenciou na literatura da ciência psicológica como muitas vezes simplesmente não constando na experiência do sujeito.
Há aí muitos exemplos de relatos em que a consciência "parece" estar no exterior, identificar-se ao objeto ou ao ambiente, em vez de ao sujeito, ainda que isso não corresponda ao que se costuma considerar comum na referência do homem adulto, branco, civilizado, no seu estado habitual desperto, enquanto idealizável conforme os conteúdos de sua tradição de saber. O problema da argumentação fenomenológica, conforme o ponto de vista da ciência psicológica, é que Husserl jamais ouviu ou confrontou as experiências alheias, apenas modelou o que seria "a experiência" conforme o que lhe pareceu ser a sua própria, ainda selecionando-a conforme o seu preconceito intelectualista.
A explicação da "resposta encoberta" que tanto intrigava Watson, na colocação de Skinner, por exemplo, me parece bem aproximável da teoria do signo de Ogden e Richards, como apresentado em O significado de Significado.
O comportamento semiótico que rege os fenômenos ligados ao sentido prescindem agora de um correlato por si existente, como um cópia da coisa, uma essência ou forma, um "significado" ou "conceito" nessa acepção - uma idéia platônica seja com morada na mente / alma ou com subsistência lógica. Trata-se de um ato integrando uma situação de comportamento que ocorre, na conceituação do famoso triângulo de Ogden e Richards, como referência, o que aqui não pode ser transposto, por se tratar de uma figura.
A linha pontilhada na base do triângulo, nestando um vértice o signo, no outro o referente, chama atenção para o fato de que a relação do signo com a coisa não é direta. O que não está pontilhado são as duas linhas quede cada vértice se litam no ponto acima, onde é o lugar da referência, o ato mental efetivo.
Assim, tampouco essa relação direta precisa ser teorizada conforme sua atualização na mente, uma vez que inexiste no sentido de algo dado anterior ao ato, conforme Ogden e Richards. O que ocorre é uma atuação real do signo como a referência atual que o está, nesse momento, relacionando-o ao refererente. Quanto a este, é mais como o resultado dessa relação do que a coisa no mundo, mas esse resultado não deixa de ser a coisa no sentido de que está objetivamente dentro da situação global na qual ocorre a referência.
Além disso, o behaviorismo cabe bem na concepção científica de mundo que anima o neopositivismo, nos seus desdobramentos políticos de valorização do socialismo dentro da moldura democrática. Assim como Bottomore evidenciou em sociologia, não há qualquer condição prévia da consciência au da pessoa, como pertença a raça, sexo ou casta, que impeça que a boa allimentação, boa educação, saneamento e higiene, etc,, implique em performances comportamentais iguais, no sentido de estarem no mesmo nível de excelência, às dos sujeitos atribuídos como "superiores" por condições assim.
Quanto à "resposta encoberta", correlato do que seria a introspecção, pode ser convenientemente tratada como comportamento, isto é, na correlação às variáveis relevantes da experiência, enquanto sua "explicação" não precisa de mais do que já se enraizou como fenômenos de proprioceptividade e interoceptividade, como vimos. O behaviorismo não destrói, nem ignora, o fenômeno associado à introspecção ou às formas de auto-observação, apenas as coloca de outro modo, isto é, como variáveis controladoras do comportamento determinado, ao qual se relacionam.
Ambos os contextos, tanto de Ogden e Richards, quanto de Skinner, citam Malinowski. Aqueles, centrando na sua teoria da linguagem como prática, fundamentalmente compreensível apenas relacionada ao Contexto de Situação. Transcrevem um texto de Malinowski elogioso a propósito dos resultados apresentados em O Significado de Significado ( "O problema do significado em linguagens primitivas"). Assim, define-se a linguagem como "modo de ação", apenas num uso posterior, civilizado, podendo surgir suas funções intelectualizadas, com seu enraizamento pragmático não diretamente inferível. Skinner, reinterpretando o funcionalismo de Malinowski para remodelar o conceito de cultura.
A cultura deixa de ser um objeto, um fundo de totalidade, supomos, contra o qual se põem as ações das pessoas. A cultura é a ação das pessoas, "as contingências do reforço social que geram e mantêm o seu comportamento".
Skinner supõe que é isso que Malinowski quis enunciar ao propor que os costumes são observados por causa de suas conseqüências. Registrar o que as pessoas fazem é importante, mas apenas como preliminar para descobrir por que o fazem. Isso não pode ser representado como resultado de uma introspecção dos membros da cultura. As regras que eles podem enunciar em sã consciência "representam apenas as contingências mais óbvias".
Skinner critica assim não somente o que seria um funcionalismo ingênuo, que quisesse apenas traçar uma totalidade observável como que a olho nú, mas o que se designou "comportamentalismo" em ciências políticas, o mero registro de aspectos topográficos do comportamento político. A crítica, porém, não seria que se deve incluir a explicação mentalista, mas sim que se requer mais do que simples descrição, a compreensão das contingências de reforço, algo não óbvio à simples observação até por que pode estar relacionada a fenômenos de latência.
É interessante notar que é com o conceito de latência que Robert Merton flexibilizou o funcionalismo, não só permitindo que lidassse com a mudança social, como mantendo-o numa pespectiva menos fechada que a de Talcott Parsons. Na elaboraçaõ de O devir das Ciências Humanas, observei que na transição ao parâmetro formal desde os anos trinta, o conceito de latência mostra-se transversal às áreas de humanities, como se pode ver pela sua importância em psicanálise.
Skinner enfatiza a noção de função, mas num viés contraposto ao tipo de funcionalismo sistematizante de Parsons, que iria implicar um determinismo do todo como explicação do comportamento local ao modo de parte, sendo parte, assim, qualquer relação socialmente relevante desde a família. Inversamente, é a correlação funcional dos fenômenos localizáveis que permite configurar o presente da cultura sempre em devir, na acepção de Skinner. Sua posição epistemológica me parece bem próxima daquela que designei, no panorama de evolução da sociologia, como sendo de Simmel e Weber antes de serem reconceituados por Talcott Parsons.
Skinner mesmo criticou a "extrapolação de uma espécie para outra" como procedimento generalizado, suportado, por exemplo, pela proximidade das espécies. Exemplificou com o trabalho de Harlow com filhotes de macacos, considerado significativo para o comportamento humano, por serem primatas. Mas, argumenta que no que concerne ao repertório comportamental a criança está mais próxima do filhote do cão ou do gato do que do macaco que vive em árvores. São as contingências da sobrevivência que enunciam um "parentesco", nesse sentido comportamental, ao invés da linha de descendência.
Creio que se poderia notar, a propósito da superstição, que Skinner enunciou uma característica do objeto comportamento em geral na sua relação essencial com a contingência do reforço, o que se mantém coerente com a epistemologia relacionada a esse objeto, e o que a seu ver autoriza as interpretações localizadas que formulou.
Creio que seria proveitoso notar que essa perspectiva, ainda que molar, se torna agora menos limitadora em relação às possibilidades de convergência de pesquisas psicológica e fisiológica. Se a observação psicológica não precisa de outro procedimento que não seja localizar a relação da conduta com o impulso que se destina a reduzir, a noção mesma de drive é menos contingente do que a construção de estímulos discriminativos num meio de multiplicidade de fatores. Assim, desloca o foco da questão, da relação do organismo com o exterior para uma sua necessidade ou razão de ser "interior".
E de fato, o desenvolvimento das pesquisas em fisiologia parece iluminar fenômenos que são ao mesmo tempo comportamentais e dependentes somente do que pertence a essa razão. Na perspectiva de Skinner uma situação assim poderia ser somente descrita, não explicada. É certo que ele incluiu o fator fisiológico como parte da contingência, mas nesse caso este é o determinante do comportamento como um todo.
Uma das áreas que mais contribuíram para a emergência de uma psicologia fisiológica foi a pesquisa do Aprender, agora, geralmente, incluído nos processos de mudança do cérebro. Estes se tornaram um tema importante desde que a antiga noção de que os organismos nascem com um estoque definitivo de neurônios foi ultrapassada, tendo-se demonstrado que ocorre formação de novos neurônios após o nascimento. Assim, conforme Kimble, "os cientistas do cérebro" são praticamente "unânimes em concordar na existência provável de mudanças na microestrutura de alguns neurônios durante a aprendizagem", ainda que "a identificação de tais mudanças ainda não foi conseguida". A esse título, seria oportuno ajuntar a referência à obra atual de Changeaux, à exemplo de Matéria e Pensamento.
Nessa área, os condicionamentos de Pavlov e Skinner deixaram de ser associados como norteadores de dois modos diferentes de aprendizagem. Contudo, inversamente ao viés epistemológico pelo qual eles puderam ter sido assim considerados na Reflexologia e na Análise Experimental do Comportamento, nota-se agora que uma definição satisfatória do Aprender é algo muito complexo, devido a numerosos fatores, um deles sendo a existência de grande número de fenômenos que podem ser arrolados sob a mesma noção.
O Imprinting ou "Estampagem", pelo qual animais de algumas espécies seguem o primeiro grande objeto em movimento que virem, ao nascer; o desenvolvimento da fala pela criança; o decréscimo da resposta de fechamento pela anêmona-do-mar quando repetidamente tocada; todos seriam arrolados como correlatos do Aprender.
Quanto ao imprinting ou Prägung, por alguns traduzido como "cunho", é interessante registrar, conforme Cosnier, a descoberta de Lorenz na década de trinta, pelo que a fixação dos patinhos à mãe pata, é algo que decorre ao mesmo tempo de uma resposta hereditária e de um aprender. A fixação é inata, mas o objeto, não. Assim, qualquer coisa móvel com tamanho compatível visto no período sensível (36 h.) se torna objeto de fixação irreversível. Esse período varia conforme as numerosas espécies que apresentam fenômenos de cunho. Animais que se fixam em objetos não correspondentes ao específico podem recusar os seus parceiros normais no momento da reprodução, tentando acasalar-se com animais ou objetos que copiam a configuração fixada. Esse comportamento de imprinting não se verifica no ser humano.
O resultado de pesquisas acerca desse tópico - inicialmente "etológicas", isto é, derivando de observações no meio natural, mas depois em laboratório - mostrou que a aptidão do jovem animal para fixar-se no objeto móvel soma-se a uma motivação muito forte para constituir a base precoce da aptidão ao aprender operante, conforme Cosnier. Existe algo como a "fome de estímulos" a que se integra a força dessa motivação.
Os organismos têm necessidade tanto de um meio físico conveniente e de alimentação, quanto de informações. E isso tanto quantitativa quanto qualitativamente, pois não apenas necessitam, para o crescimento e a estabilidade emocional, de numerosas reações de adaptação, mas também de estímulos de uma certa qualidade em momentos precisos da ontogênese, para que a organização comportamental ocorra normalmente.
Também se revela importante o estudo da capacidade de algumas pessoas para produzir "imagens eidéticas" que resultam como que de um processo de fotografar mentalmente: é preciso olhar a imagem, depois olhar para uma superfície "limpa", i.e., sem imagens, para ver nesta superfície a imagem fixada repetir-se parecendo-se com o negativo de uma foto. O exemplo em Krech e Crutchfield é a figura de um garotinho acorrendo aos galhos de uma árvore postada à margem de um rio, para subir, fugindo de um jacaré situado no rio. Geralmente o resultado é "ver-se" a imagem na superfície, ainda que se saiba a superfície estar "limpa", não conter de fato a imagem. Nesta experiência, uma mulher até mesmo contou o número correto de dentes "na mandíbula inferior do jacaré", 18, na imagem resultante.
Contudo, como assinala Daniel Kimble, é evidente que todas essas situações se relacionam a mecanismos biológicos bastante irredutíveis. A complexidade parece ter sido contornada pela colocação de dois níveis que supõem-se reunir todas as questões procedentes.
Um deles é o que abrange as questões moleculares, onde a pergunta básica é sobre se há uma mudança conspícua no sistema nervoso que possa ser idoneamente relacionada ao aprender de uma resposta pelo organismo observado. Isso, à época de publicação do livro de Kimble, ainda não pudera ser demonstrado, ainda que fatos sugestivos houvessem sido apontados. Por exemplo, colocando como objeto da investigação a atividade sináptica, aquela dos neurônios, procurou-se saber se o ritmo de aceleração ou desaceleração destes se altera em correlação com um estímulo condicionado (o tom), o que foi afirmativamente verificado (Olds & outros, Universidade da Califórnia, 1972).
Procurou-se também demonstrar mudanças no mecanismo metabólico das células cerebrais, por exemplo, se são produzidas moléculas de ARN ou protéicas de certas características em decorrência de aprendizagem. A experiência de Hydén e Lange, com ratos, na Universidade de Gotemburg, Suécia, demonstraram a importância da proteína S100 no aprender do comportamento da preferência do uso de uma das patas; Beach & outros (1969) encontraram provas do aumento na produção de ARN e de metabolismo protéico no hipocampo do rato durante o aprender de uma resposta de evitação (como quando o animal desenvolve uma atividade para evitar um choque).
Resta o nível das questões organizacionais. Quais seriam os menores fragmentos de tecido nervoso sobre que se poderia mostrar que produzem mudanças sistemáticas como exemplos de Aprender simples? Como o cérebro dos mamíferos é muito complexo, essa indagação compacta a possibilidade de orientação da pesquisa a um pequeno pedaço de tecido, de modo que o que pudesse ser demonstrado nesse nível seria mais facilmente objeto das técnicas e intrumentos atuais.
Para contornar a objeção de que esse controle poderia ser indireto, derivando de respostas na verdade múlculo-esqueletais, já sabidamente sob controle voluntário, que iriam subseqüente e automaticamente interferir com o involuntário, Miller usou curare, sendo notório que este paraliza qualquer atividade sob controle voluntário. Mantendo artificialmente a respiração dos sujeitos, sua consciência do ambiente se mantém igualmente intacta durante o efeito do curare. Ratos exibiram respostas conspícuas no ritmo da pulsação cardíaca, num empreendimento de evitação, ainda nessas condições.
Quanto a isso, como assinala Miller, o mais provável é que os seres humanos sejam "tão espertos quanto os ratos", na expressão de Kimble, podendo controlar respostas corporais tão importantes quanto a batida do coração, as contrações intestinais e o fluxo sangüíneo. Investigadores conseguiram, efetivamente, adestrar pacientes com arritmias cardíacas a melhorar parcialmente sua anormalidade de ritmo. Permanece esse resultado um tanto prematuro para resolver se essa terapias do aprender seriam regularmente integráveis no tratamento médico, mas o alcance das descobertas permanece amplo, sem dúvida.
Os resultados referentes às experiências do Lashley III foram severamente contrastados por Cecile Finley. Ela intentou demostrar que estas haviam sido incorretamente orientadas, de modo que seriam áreas determinadas do córtex, objetos de lesões a implementar para demonstração, o importante nessa situação de hábito que deveria ser definida como resultante da estimulação visual.
Mas Lashley repetiu alguns dos experimentos, sofisticando seu aparelhamento e inserindo os dados focalizados por Finley especialmente relacionados ao papel do córtex visual primário. Logrou assim contornar formalmente as objeções de Finley, de modo que, até o momento de publicação do volume de Kimble, nada havia de fato refutado suas deduções. Contudo, ele mesmo não chegou a afirmar ter encontrado o "engrama", o que permaneceu como uma hipótese válida dentro de um quadro coerente de argumentação.
O problema aqui é basicamente técnico, sendo impossível remover partes substanciais do córtex sem danificar áreas adjacentes. Assim, as pesquisas de Lashley não revelaram o locus ou natureza do engrama do hábito do labirinto, mas constituem a base mais substancial de resultados experimentais nessa área, o que inviabiliza prévias teorias do funcionamento cerebral. Mostraram, por exemplo, que os neurônios daquela área do córtex são responsáveis por mais do que a "mera análise da alimentação visual".
Mas não seria apenas nessa área do Aprender, tão dramaticamente envolvida com o que vinha ocorrendo paralelamente na psicologia do comportamento, que este parece ser substancialmente relacionado ao funcionamento orgânico. Até mesmo o contraste entre comportamento estereotipado ou flexível parece depender de uma compreensão do que ocorre nesse nível, pois o grau de liberdade revelado em nível ontogenético, relativamente à filogênese, já se considera, sem dúvida, em função da complexidade cerebral.
Se os fatores ambientes estão obviamente relacionados a mudanças no comportamento, especialmente de mamíferos, não exercem seus efeitos sobre uma tábula rasa. Mas, ainda que o organismo em desenvolvimento já esteja geneticamente predisposto a comportar-se em geral como os outros membros da espécie, quanto mais complexo for o cérebro, mais variações individuais em curso no sistema nervoso podemos prever.
Igualmente, a pesquisa na área da sexualidade é importante, quanto a isso, pois envolve não somente a relação entre produção de substâncias e preferência sexual, o que está na base da questão da homossexualidade, mas também comportamentos aparentemente muito enraizados como devidos à interação instintiva com o meio.
Quanto à psicossexualidade, parece cada vez mais claro que seu desenvolvimento é distorcido em relação à variável da presença de androgênios durante períodos embrionário e fetal, de modo que as forças sociais (família, sociedade, igreja) que pretensamente moldam esse comportamento desempenham papel bem pequeno na história.
Quando da publicação do livro de Kimble, a orientação geral proveniente dos resultados da pesquisa experimental mostra que a natureza se inclina à produção de fêmeas, sendo preciso algo mais (os androgênios) para produzir o macho. Mas a "síndrome de insensibilidade aos androgênios" em indivíduos feminilizados não faz com que sejam biologicamente "fêmeas", e sim psicossexualmente. Eles não desenvolvem úteros, mas apresentam acentuado grau de maternalismo. O mesmo se observa no pseudo-hermafroditismo feminino, quando a presença anormal de androgênios ou compostos afins nas fêmeas genéticas acarreta desenvolvimento psicossexual masculinizado. O sujeito nasce com características externas masculinas, mas na puberdade exibe características femininas, como o desenvolvimento mamário e a menstruação. Geralmente o sujeito se define, psicossexualmente, como masculino.
O papel da pesquisa do cérebro se demonstra na sua importância, quanto a isso, quando se pôde demonstrar que o sexo, macho ou fêmea, é uma característica cerebral. Assim, implantando-se a glândula pituitária masculina no hipotálamo de uma rata, verificou-se que a glândula produzia as substâncias relacionadas à eclosão do cio, dois no lobo anterior e dois nos ovários, à maneira feminina típica, não no ritmo do macho. Na rata normal, o cio ocorre ciclicamente, a cada quatro ou cinco dias, mantendo-se pelo período de 24 h. correspondente, enquanto no macho o ritmo de produção das substâncias associadas é constante, mas inferior.
É flagrante a irredutibilidade comportamental da rata no cio, em relação ao macho. Ela se torna agressiva logo após a cessação do período (mostra os dentes, atitude de hostilidade conspícua nessa espécie animal, e se o macho insiste, escoicea ou tenta mordê-lo), relativamente ao mesmo indivíduo ao qual demonstrou os sintomas do comportamento sexual (corridas provocantes, abanar de orelhas, posição de "lordose", com a barriga arqueada e a cauda lateralizada).
Exemplo interessante, quanto ao outro aspecto mencionado, é o que relaciona o "recolher" na rata. Entre os comportamentos maternais inter-relacionados nessa espécie há o amamentar, limpar, defender os filhotes e o "recolher", que consiste em correr até os filhotes colocados a alguns centímetros no exterior do ninho, a fim de trazê-los para o interior do mesmo.
A resposta de recolher não se enfraquece com o aumento do número de filhotes: uma rata-mãe recolheu 58 filhotes em sete minutos, na experiência de Sheard e Wiesner (1933). No entanto, decresce com o tempo. O decisivo não reside no período, desde o nascimento, mas sim na aparência dos filhotes que se tornam mais velhos. Os filhotes maduros não são estímulos adequados ao comportamento de recolher da mãe. Inversamente, oferecendo-se continuamente filhotes, portanto apresentando estímulos adequados, o comportamento parece perdurar quase que indefinidamente ainda que o afastamento temporal do nascimento aumente muito.
A experiência constava da injeção de certos hormônios para constatar a dependência do comportamento a esse fator interno. Foi demonstrado que fêmeas virgens, que normalmente não recolhem filhotes, e até mesmo machos, recolherão filhotes quando recebem hormônios maternais. Se a injeção de hormônios amplia-se muito, também objetos que possam ser tidos como semelhantes a filhotes serão recolhidos, como pedaços de pano movidos de forma saltitante, cobaias e camundongos.
Conforme Krech e Crutchfield, que referenciam essa experiência, constata-se pois uma demonstração cabal da interação entre instigadores internos e externos dos assim designados "estados de motivação". Nota-se também que aquilo que consideramos habitualmente um "instinto" pode ser experimentalmente examinado em função de seus determinantes sistemáticos. Como na experiência de Richter (1932), em que se mostrou a relação entre o aumento de nível da atividade geral e o período de cio da rata, de modo que há um ciclo de atividade bem nítido no comportamento dessa espécie, o que se prova é que há estados de motivação na realidade instigados por condições internas.
Ora, essas condições podem ser traduzidas, no sistema comportamental visto da perspectiva do psicólogo, a impulsos, drives cuja redução é o que importa ao organismo conseguir por meio da atividade na qual se empenha. Isso, facilitando assim o alisamento, por assim expressar, do campo no interesse da especificação dessa perspectiva, inversamente a forçar a inclusão da descrição dos fatores fisiológicos, ora podendo ser considerados extrínsecos ao campo de interesse. Se essa solução parece, atualmente, algo provisória, deve ter surgido como bastante apropriada na época, a Hull, seu defensor.
Parece notável que a perspectiva de Hull, ainda que se caracterizando pela opção da teoria, tendo publicado na década de trinta um trabalho sobre construção teórica em psicologia que se tornou clássico, tenha se aproximado do Círculo de Viena, quando este se tipificava pela posição verificacionista de M. Schlick.
Conhece-se bem a história desse impasse que envolveu, tangencialmente, todo o percurso wittgensteiniano. O neopositivismo desaguou numa teorização semiótica completa, após as aventuras do formalismo sintático, que ambicionava traduzir toda "linguagem observacional" em "linguagem teórica" através de símbolos algébricos (Carnap), de modo que não houvesse o teórico não suportado pela observação; e da semântica lógica (Tarski-Carnap), que almejava construir quaisquer linguagens com adequado aparelhamento formal. Aportou assim, num resultado inteiramente contrário às premissas iniciais, à pragmática (Morris) incluindo necessariamente o sujeito da linguagem na teorização do sentido.Isso, tão logo os integrantes do Círculo foram recebidos nos EUA, emigrados devido à guerra nazista. Atualmente, a escola que continua parâmetros neopositivistas agrupa-se sob o rótulo de "filosofia analítica".
A liderança de M. Schlick caracteriza o momento inicial, quando Carnap se esforçava por reduzir toda possibilidade proposicional ao observacional, o que se revelou impossível. Seu Der logische Aufbau der Welt (A construção lógica do mundo) foi tido por "quase todo mundo" como o pior das publicações nesse âmbito, algo como uma "abominação filosófica", conforme Bouveresse, que repete o pronunciamento de Goodman, mas mantém reservas quanto a essa crítica.
Contudo, o autor não se desencorajou, revelando uma capacidade surpreendente de incorporar as críticas em novos empreendimentos teóricos destinados a superar os problemas assim revelados pelas propostas anteriores. A obra de Carnap é de fato significativa do movimento neopositivista, que parece ter se cristalizado, finalmente, como uma teoria da ciência de importância fundamental no cenário contemporâneo, na formulação de Karl Popper. Este permitiu superar o verificacionismo, mantendo-se a premissa anti-metafísica da escola, ao conceituar o critério de "falseabilidade".
O verificacionismo havia sido uma derivação da proposição de Wittgenstein pela qual o sentido de uma proposição é nada mais que o meio de saber se é verdadeira. Assim, se não há meio algum além do que ela mesma afirma, não há sentido na proposição - por exemplo, "Deus existe".´Essa proposiçaõ se reduz ao significado de cada um dos seus termos. Pensamos que tem sentido, mas de fato, pela definição acima, não.
Mas isso conduziu às aporias já apontadas, pois a própria proposição é inverificável no plano dos fatos. Popper mostrou que mais geralmente, o problema era de que a proposição de Wittgenstein sugere que toda a questão do sentido se mantém no plano das asserções, não se eleva ao plano da teoria, até mesmo impede que se instale esse plano na pesquisa como legítimo, não metafísico.
Ora, a questão do sentido de fato é relativa à possibilidade da validação, não ao plano de enunciação. Assim, eleva-se ao plano da teoria a problemática, ao constatar que o científico é a teoria, contanto que aquilo que ela produza sejam enunciados falseáveis, isto é, que admitem refutação factual. "Deus existe" não é falseável, assim como o plano do qual essa asserção deriva não é científico. Mas a teoria da relatividade é científica porque ela almeja produzir enunciados tais como se certos fenômenos podem ou não ocorrer. Uma teoria é válida apenas enquanto suas previsões não forem contraditadas no plano dos fatos.
Ela é científica porque espera confirmação ou refutação no plano factual, e inclusive deve estar sempre testando-se para obter uma coisa ou outra. Relatos não científicos, inversamente, não podem ser refutados no plano factual, nem confirmados, não admitindo, tampouco, testes com valor de universalidade quanto aos modos de sua aplicação. Ora, sendo assim uma teoria não deixa de ser "científica" se for falseada, posto que é por emitir enunciados falseáveis que ela era científica, não imediatamente por ser válida. Não existe, pois, o critério do verdadeiro, em ciências, somente os de falseabilidade e validez. O verdadeiro é um falso problema, não poderia ser uma pretensão do conhecimento humano.
Quanto a Hull, assinala-se coerente sua ênfase na teoria, como suporte lógico-formal, e sua perspectiva mediacional, que concede o devido peso às verificações empíricas, uma vez que não necessita manter a recusa da motivação orgânica na compreensão do comportamento. Mas Hull promoveu a concepção da psicologia como ciência natural.
Isso afetou sobremodo a concepção behaviorista do aprender. Hull o definiu como reforçamento de conexões recepto-efetoras inatas. Aqui sua influência é de Thorndike. Mas, também, aprender poderia incluir a criação de conexões recepto-efetoras novas, o que mantém sua posição dependente da reflexologia de Pavlov.
Uma vez os corolários e teoremas tendo sido demonstrados experimentalmente, os postulados estariam reforçados. Mas o impasse em nível de teorema conduziria à revisão em nível de postulados, seja para substituir, corrigir, ou agregar algum postulado novo.
Quanto a isso, é também oportuno mostrar que a inteligência, como objeto de intensa polêmica acerca de uma satisfatória definição, foi o tópico que mais comprometeu a aplicação de "métodos hipotético-dedutivos rigorosos" com intuito de "desenvolver um conjunto geral de axiomas e relações previsíveis" , assim como exemplificado especialmente por Hull, conforme Butcher. Mesmo na "área mais desenvolvida da psicologia experimental", isto é, no estudo de formas simples do aprender, onde a referência a Hull se torna relevante.
Com efeito, Butcher mostra que não se obteve qualquer consenso acerca dessa definição, mas de um modo muito mais exagerado do que nos desvios comuns de focalização dos temas em psicologia. Em particular salienta-se que não se chega a um acordo sobre quais capacidades são definidoras, no conjunto, da inteligência. As discrepâncias de opinião são gritantes.
Ora, ainda assim, pode ser evidenciado, quanto às pesquisas nesse campo, que aquilo que poderia ser desejável a longo prazo não se revela como "o melhor programa imediato". As definições operacionais que não são suportadas pela observação de regularidades demonstráveis se comprovaram limitadas e arbitrárias. Contudo, esse julgamento só parece caber num quadro geral de expectativas após um período em que a opinião inversa era ainda muito geralmente aceita. Á época de Hull, perseguir uma generalidade capaz de orientar um programa parecia não somente algo muito preciso, mas também algo inovador em relação aos inícios mais empíricos do behaviorismo ortodoxo.
Pena informa que o mais característico da obra de Hull está nos volumes publicados entre as décadas de 40 e 50, envolvendo os "Princípios", os "Fundamentos" e o "Sistema do Behaviorismo". Basicamente, podem ser designados alguns construtos como relevantes de sua contribuição.
Já se mencionou o construto de drive. A este associa-se o de incentivo. Reúnem-se como os dois fatores determinantes na formação de hábitos. O impulso é visado como resultante de privações biológicas ou estimulação intensa, aspecto este que será enfatizado por Dollard e Miller. Se o organismo só se comporta a fim de, direta ou indiretamente, reduzir drives, a efetuação desse objetivo aumenta a probabilidade de emissão da resposta, definindo-se como um reforço. Portanto, constitui condição para a ocorrência do Aprender.
Pena acentua a irredutibilidade da posição de Hull com relação a Skinner. Este define reforçamento apenas como o aumento da probabilidade de emissão de uma resposta, enquanto Hull inclui a característica de ser redutor de algum impulso.
Novamente incide a oposição entre primário e secundário no que se relaciona ao impulso. Cinco ou seis drives primários, de natureza biológica, não poderiam ser bastantes para abarcar toda a gama de condutas, pelo que impõe-se a referência a drives secundários. Pena chama a atenção para o fato de Miller, assim como Mowrer, ter incluído a ansiedade como drive vinculável a aprendizados.
Importante é a formulação do construto de família de hábitos. Hull pôde por esse meio contornar a simplicidade do sistema de Thorndike. As "tentativas" iniciais do animal não seriam inteiramente casuais, de tipo acidental ou imprevisível, mas revelam de uma probabilidade relativa ao já consolidado repertório de respostas do animal, em função do reforçamento de que anteriormente se beneficiou. A história do reforçamento, o mais importante para compreender o desenvolvimento comportamental na perspectiva de Skinner, é também aqui decisiva.
Mas Skinner pensava que enfatizar a "história do reforçamento" era algo oposto da análise do que seria um "sistema de reforço", isto é, um conjunto de ações já prescritas numa formulação de regras. Onde houvesse um sistema assim, sem dúvida a observação se tornava mais fácil do que quando se precisava reconstruir a história. No entanto, como vimos, os dois modos eram opostos assim como as duas definições de comportamento, o modelado por contingências e o derivado do cumprimento de regras.
Essa oposição é axial em Lewin, como dois conceitos de causação que se opõe em psicologia, o histórico e o sistemático. São duas formas de entender a pergunta "por que". Uma causação sistemática responde a por que uma dada situação tem um certo evento como resultado, e a resposta é satisfatória se desdobrimos a lei tradutível por uma função matemática, que é válida para estruturar a situação. Mas uma causação histórica responde a por que essa situação é aquela da qual se trata, em vez de outra. A resposta envolve não uma função ou lei, mas um encadeamento de fatores e pontos de convergência desses encadeamentos.
Conforme Lewin, opor essas duas ordens de causalição é um dos requisitos para transigir do antigo modo de pensar, "aristotélico" e não científico, ao modo de pensar "galileano" e científico. Além disso, o pensar galileano científico implica a recusa da derivação de um acontecimento da natureza de um objeto singular, em prol da afirmação da validade geral da tese segundo a qual "um evento é sempre o resultado da interação de numerosos fatos".
Lewin, contudo, observa que há uma preminência da causação sistemática sobre a histórica, ainda que isso não implique não haver formalmente duas, não só uma, ordens. Hull reduz, de certo modo, a história ao sistema, desde que há uma espécie de regra geral de todo comportamento.
Mas assim, no que se relaciona ao trial and error, Hull não eliminou a imprevisibilidade constante no esquema de Thorndike, apenas inverteu a sua localização. Inicialmente ocorre previsibilidade máxima, se conhecemos a história de reforçamento, isto é, sabendo as respostas reforçadas do animal nas mesmas condições, prevemos o tipo de coisa que ele irá "tentar" tão logo se veja numa situação que lhe pareça semelhante à que já experimentou.
Visualizando o desempenho numa figura piramidal, essa resposta inicial previsível estaria no ápice, enquanto, progresivamente, no sentido da base, cresce a imprevisibilidade das respostas, assim como o empenho da criatividade do animal, já que o conhecido vai se revelando, paulatinamente, sempre mais ineficaz. Mas a progressão também é hierárquica. As respostas conhecidas são eliminadas conforme a ordem da apresentação que situa sempre, primeiro, a que mais "parece" com a situação anteriormente experimentada. Ora, na base reencontrar-se-á o acaso, conforme a situação típica do "trial and error".
Creio que, quanto a isso, demonstra-se o maior alcance da posição de Skinner, pois é difícil supor um organismo, com a coerência que o caracteriza, realmente se pondo a fazer qualquer coisa totalmente a esmo. Contudo, Pena registra que o construto da hierarquia de família de hábitos, de Hull, foi posteriormente desenvolvido por I. Maltzmann, objetivando alcançar maior grau de eficiência no processamento de respostas para solução de problemas.
Pena identifica o construto de "gradiente de meta" (goal-gradient), pelo que Hull pretendeu existir uma relação logarítmica entre a distância da meta e o nível de excitabilidade revelado pelo animal em relação a ela. Quanto mais longe, menor a excitação, e inversamente, em função da aproximação da meta, aceleram-se os movimentos produzidos pelo sujeito.
Pena registra que Osgood enunciou alguns corolários dessa proposição: numa situação de impasse, os animais sempre escolherão o caminho mais curto na direção da meta; quanto mais próximos desta, e quanto mais forte a motivação, tanto menor será a possibilidade de escolher o caminho mais longo; a probabilidade da escolha de um trajeto que se revele como contorno ou rodeio dos obstáculos que impedem o caminho mais curto variará inversamente em relação ao ângulo entre os trajetos mais curtos e os trajetos de contorno.
David Krech, na Universidade de Chicago, durante a década de trinta, desenvolveu um método para mensurar, no rato, a força da motivação dirigida para um objetivo ("Measurement of tension. Paper read at Symposium on Topological Psychology"). Ele o referencia no volume publicado juntamente com Crutchfield, aqui abundantmente citado.
O "gradiente do objetivo" no rato foi objeto desse experimento em que o animal corria do compartimento de entrada para a caixa de comida, usando um arreio, ao qual estava preso um cordão que o refreava. O cordão se desenvolvia numa velocidade lenta e constante, de modo que o rato só poderia avançar conforme o ritmo do desenvolvimento do cordão. Este estava ligado a mecanismos que permitiam registrar, continuamente, num rolo de papel encerado, a quantidade de força feita pelo rato a cada momento em que corria em direção à comida, tentando puxar o arreio e forçando assim
o avanço.
Parece ter-se comprovado que a tensão decresce à medida que o rato penetra na caixa do alimento, mesmo antes de obtê-lo. Observando-se os gráficosmostrados por Krech e Crutchifield, obtidos dos registros, algumas observações puderam ser deduzidas.
No gráfico I vemos uma depressão no meio da linha. Não significa qualquer obstáculo para o animal, nem diminuição de motivação. Mas sim, que, aparentemente, em meio ao caminho ocorre um "marco" perceptual e funcional, de certo modo como um "objetivo secundário" cujo atingimento é marcado por um afrouxamento temporário da tensão, que logo é retomada com o mesmo vigor.
No gráfico II vemos o resultado de uma comparação entre tentativas consecutivas, com três minutos de alimentação na caixa após cada tentativa. A linha superior (tentativa I) é contrastada com a linha referente à tentativa 6. Nota-se que o animal puxa com muito mais força se estiver menos saciado. Porém, o aumento gradativo da tensão conforme a aproximação do objetivo se mantém nitidamente visível, mesmo na tentativa 6. Krech deduz assim que "a atração da comida, mesmo para um animal saciado, aumenta à medida que se aproxima dela".
Hull apresentou ainda outro construto relacionado a este. Trata-se das respostas fracionárias antecipatórias da meta, a que já houve menção, devido a estar de certo modo antecipado pelo conceito de pensamento como linguagem sub-vocalizada, de Watson. O construto de Hull destina-se a responder à questão sobre como compreender que determinadas respostas que conduzem, em seqüência determinada, ao objetivo, se encontrem também beneficiadas pelo reforçamento.
Vimos que esse tipo de resposta fracionária, na verdade recompensada como se reproduzisse o que deve ocorrer como atingimento da meta, vincula-se ao "ato de puro estímulo". Hull utiliza essa expressão para designar uma hipótese mediacional, pelo que esses atos desencadeiam estímulos orgânicos, necessários ao desenvolvimento de respostas fragmentárias numa seqüência coerente, apta à conduzir ao objetivo. Esses dois construtos inter-conectados foram utilizados por Hull para explicar os "comportamentos propositivos", orientados no sentido de um resultado objetivado previamente.
Pena reporta a refutação de Glanzer ao construto de inibição reativa de Hull, pelo que o fenômeno corresponderia efetivamente à saciação. A oposição reside muito naquilo que determinará a eclosão do que Dember designou como o new look in motivation. A convergência nesse sentido abrange a controvérsia acerca do aprender, tipificando-se nas posições de Hull e Tolman, seja, respectivamente, como referente a respostas (mecanicismo), seja como referente a sinais, direções ou mapas (cognitivismo). Faz-se entre o behaviorismo propositivista de Tolman, a Gestalt, o inatismo de Chomski, a importância da observação da regra na formulação de Lashley e a influência da fenomenologia. Em todos esses âmbitos, o enfoque centra-se na relevância dos processos da percepção.
Parece ser o conceito de finalidade o determinante, quanto a isso. Pois, devido à predominância behaviorista ortodoxa, ainda que a tendência do desenvolvimento das pesquisas se mostrasse francamente favorável à sua afirmação, hesitava-se em expressá-la como fait accomplie teórico. Mas assim já se torna oportuno aproximar a obra de Tolman.
Mas deve-se lembrar que Hull influenciou decisivamente a emergência da "teoria do aprender social", sobre que já vimos as linhas gerais, tanto pela sua própria teoria da aprendizagem, quanto pelos seminários realizados sob sua inspiração que procuravam incorporar os temas psicanalíticos.
Essa "teoria", que se desdobra em dois momentos caracteristicamente marcados pela proeminência respectiva de Miller - Dollard e Bandura - Walters, focalizou eminentemente os temas da agressão e da imitação, como observamos no contexto do pragmatismo. Aqui seria oportuno examinar as importantes contribuições que lançou no domínio da linguagem.
Tipifica-se pela polêmica entre Bandura e Skinner acerca da importância da modelação, ou seja, o aprender pela imitação do guia. Pena registra as objeções de Skinner como sendo que a rapidez do processo impede que se mostre adequado à teorização do comportamento em geral e que, no que abrange a aprendizagem verbal, se mostra limitada aos seres humanos. Vimos que a mais séria objeção de Skinner se deveu à sua concepção de que a imitação sempre se desenvolvia na proximidade de incorporação de regras, o que considerava como apenas um componente provável numa conduta fundamentalmente devida à contingências do reforço.
Bandura ironiza, conforme Pena, as objeções de Skinner, não considerando-as relevantes e propondo, em contraposição, que se comparem os tempos de aprendizagem de uma criança em dar laços num par de sapatos, pela contingência reforçadora ou pela intervenção de um modelo ou guia.
Ora, esse conceito de modelo foi ampliado por Bandura, para incluir não somente a presença de um membro da espécie apto a desempenhar uma atividade na presença de outros, mas ainda as formas pictórica e verbal. Uma figura ou um filme, assim como a palavra, revelam-se adequados meios à modelação de comportamentos.
Particularmente a contribuição verbal se combina com os outros dois meios, no caso do ser humano. A pessoa a quem se imita ou o filme a que se assiste podem veicular não somente jestos, mas também palavras. A clareza aumenta e o processo de assimilação pela imitação do guia se intensifica. O recurso à palavra na modelação tende a ser tanto mais aplicável quanto o sujeito aumenta o seu domínio lingüístico.
Luria, especialmente, preserva essa posição, e no processo da modelação verbal identifica duas fases: a externa organiza o comportamento pelas recomendações verbais do adulto, mais comumente a mãe; a interna, quando absorve ou introjeta o modelo materno. Ele também opôs a modelação positiva e a restritiva, esta mais lenta e difícil.
Um sintoma desse novo trend parece-me rastreável na visita de Heisemberg aos EUA. Ele narra uma conversa com Barton, um físico de Chicago, no já citado A Parte e o Todo. O tema, inicialmente, versava sobre a facilidade com que o mundo acadêmico norte-americano recebeu a abordagem quântica, algo que na Europa, como vimos, havia enfrentado tantas objeções.
Contudo, o motivo revelado por Barton pareceu a Heisemberg inadequado aos seus propósitos epistemológicos. O problema se evidenciou nessa conversa como irredutibilidade entre a perspectiva pragmática e aquela que Heisemberg estava procurando formular como mais relacionada ao surpreendente quadro que emerge do formalismo quântico.
Barton expõe o modo como a epistemologia inspirada no pragmatismo lidava então com a complementaridade. Não cultivando-se qualquer preconcepção acerca de como as coisas são, o caráter inesperado da duplicidade de descrições possíveis, se não deixou de exercer o seu efeito de surpresa, tampouco mostrou-se como algo inviabilizador de suposições aceitas. Nesse enfoque, isso devia apenas induzir a criar novos termos conceituais. Barton sugere "ondículas" para designar essas coisas que parecem, alternativamente, ondas e partículas.
A objeção de Heisemberg enfatiza, porém, a característica mais geral que a teoria quântica estava implicando. Tratava-se, na complementaridade, não de uma propriedade particular dos átomos, mas de um aspecto fundamental a todo o mundo material. Os aspectos estatísticos das leis naturais haviam se revelado universais, no sentido de que se aplicavam a todo o campo da natureza em geral.
O básico da conduta pragmática, pelo que se interditava a enunciação de princípios para reservar-se a formulação aos fatos só parcialmente acessíveis, se tornava um obstáculo para compreender a índole revolucionária da física. Barton não aceitava que o formalismo quântico encerrasse mais do que alterações nas leis de Newton e Maxwell.
Como Heisemberg objetou, de modo algum se tratava de um aperfeiçoamento, a teoria newtoniana não podendo "ser aperfeiçoada sob nenhum aspecto", pois sua adequação ao nível de descrição proposto não havia sido contrastado, e sim a sua impossibilidade de enunciar qualquer coisa sobre o nível somente alcançável pela descrição quântica. O que me parece decisivo aqui é que a mecânica quântica, na perspectiva de Heisemberg, lida com características intrínsecas da natureza. Esta não pode ser ignorada como um "ser" com modalidades "internas", por assim expressar, de existência.
Não se trata, por exemplo, na transição da física clássica à quântica, de algo como mudanças que um engenheiro precisa introduzir para lidar com um mesmo mecanismo, resistente às técnicas usuais. Não se trata de uma intervenção puramente operatória, mas de uma enunciação sobre algo dotado de independência em relação às suas partes constitutivas, algo que de modo regular e uniforme, as integra. A descontinuidade epistemológica se poderia enunciar em termos da importância do formalismo.
Se os domínios sistemáticos "fechados" que compactam a contemporânea inteligibilidade da natureza, a mecânica de Newton, a temodinâmica estatística, a teoria da relatividade restrita e a eletrodinâmica de Maxwell, finalmente, a mecânica quântica, podem agora ser, ao mesmo tempo, afirmados com todo rigor, mas posicionados como campos irredutíveis uns aos outros, assim como os conjuntos numéricos na formulação matemática, isso se deve a que cada um deles se formula através de conjuntos axiomáticos precisos e altamente coerentes, "regendo os conceitos e relações lógicas internas ao sistema".
O caráter mais importante aqui é o da simplicidade de cada um desses todos, algo que no domínio epistêmico está reproduzindo o que se observa no domínio atômico. Essa "extrema simplicidade de todas as leis físicas", porém, jamais se poderia compreender, conforme Heisemberg, na abordagem pragmática. Pois por tal meio somente seria possível agregar campos parciais experimentalmente acessíveis que deveriam subseqüentemente, tentar "representar os fenômenos" através de "aproximações".
Somente o formalismo axiomático autoriza, na posição de Heisemberg, a falar em "leis da física", isto é, leis que se relacionam a realidades objetivas "exatas". A conseqüência ulterior seria o ultrapassamento do "estágio de descrição fenomenológica", pelo que é preciso incorporar as relações decorrentes desse nível de pura observação - ele utiliza o termo "representação" - ao sistema axiomático. Ora, nesse momento surgem relações que, "evidentemente", não foram inventadas por nós, nem por qualquer outra pessoa, relações que fornecem o conteúdo mais autêntico da ciência física.
Ao mesmo tempo exibindo um caráter objetivo e uma caraterística formalizável, nem puramente fenomenológica, nem apenas pragmática, a física parece induzir a considerar o sistema e seu equacionamento epistêmico como realidade independente, auto-regulada, do mesmo modo que os organismos dotados de propositividade, no sentido da psicologia.
Basicamente a oposição mais notável é aquela entre Heisemberb e Dirac. Este nem mesmo se havia mostrado inteiramente surpreso com a ampla aceitação da física quântica em ambiente pragmático. Pensava, como os teóricos norte-americanos, que a ciência é um processo contínuo e infindável de adaptação do pensamento aos conhecimentos experimentais, conforme a expressão de Heisemberg. Este, inversamente, sustentava que "as mesmas forças organizadoras" que haviam modelado a todas as formas da natureza também deviam ser "responsáveis pela estrutura de nossa mente e de nossas faculdades intelectuais".
O que se descobre nesse trecho é então que "a parte e o todo" não são apenas inter-relacionados de modo a superar o elementar, devido à ênfase epistemológica na coerção do todo sobre a parte, isto é, não se mostra apenas como a palavra de ordem da metodologia quântica. Mas também se mostram como duas epistemologias em confronto, conforme o exemplificado nesse paralelo de Heisemberg e Paul Dirac. Este, tipificando a perpectiva do montanhista que só se preocupa com os próximos três metros a cobrir. Heisemberg, sempre preservando a visão da totalidade, a cada passo da jornada.
Creio que isso ilustra do modo mais completo a situação intelectual desse momento particularmente favorável ao ponto de vista do funcionalismo, o que estamos designando a tendência formal. Assim, o que a metáfora do montanhismo significa, é a opção que já vimos opor as perspectivas de Skinner e Hull. Ou se espera que o verdadeiro problema só se manifeste quando se chegar "às saliências mais difíceis", ou se trata de, inicialmente, tomar a decisão quanto "à escalada" como um todo, isto é, ter-se o roteiro traçado conforme um problema definido. Ou se lida com um problema por vez, ou se supõe que "nunca se pode superar uma dificuldade isolada, devendo-se sempre ultrapassar várias delas ao mesmo tempo".
Werner Heisembeg não julgava que a solução autêntica de um problema fosse separável do vislumbre do contexto mais amplo, de modo a capacitar a eliminação de todas as dificuldades possivelmente localizáveis nesse campo - já conhecidas ou nem sequer imaginadas. Contudo, a enunciação do confronto epistemológico no seu título não se lhe afigurava como algo dogmaticamente resolúvel. Ele estava consciente da natureza conflitiva do que assim enunciava, o que ilustra com a frase de Niels Bohr, a qual lhe parecia a mais adequada na situação: "O oposto de uma afirmação correta é uma afirmação falsa. Mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda".
Contudo, o ambiente parecia agora bem mais favorável a essa impressão de que em cada domínio do saber havia um conjunto de leis simples, apto a descrever uma interação finita, no sentido de inteiramente estabelecida, expressa, contudo, em termos de uma ampla variação fenomênica. Assim, por exemplo, a premissa gerativa da gramática de Chomski, ou a noção de Forma na Gestalt, e mesmo, ainda, o esquema de Parsons pretensamente totalizante da "ação social".
Aprender torna-se referente "ao que está em questão", não apenas ser capaz de reproduzir uma resposta. Isso implica, por exemplo, que o aprender pode ter ocorrido sem que se possa demonstrar o que na perspectiva anterior seria o seu correlato, ou seja, a repetição da resposta. Já tendo bem sabido o lugar de um restaurante, podemos caminhar até ele, num outro momento, vindo, no entanto, de um outro ponto da cidade, que não aquele pelo que iniciamos o caminho que nos conduziu à descoberta do restaurante, como no exemplo de Broadbent citado por Pena. Mostra-se assim o aprender como a aptidão a realizar uma ação que nunca havia sido anteriormente produzida.
Particularmente essa característica do novo ressoa a colocação de Chomski. Sua contribuição se tornou extremamente importante na psicologia, ainda que se tenha implementado na área da lingüística, pois parece ter desencadeado o movimento da Psicolingüística, definida por Mehler como "disciplina que combina a psicologia e a lingüística para estudar o emprego da linguagem e, em particular, os processos psicológicos subentendidos na produção, compreensão, memorização e reconhecimento do material lingüístico", conforme a citação de Cosnier.
O que me parece importante é a convergência em torno de posições gerais que se observa entre "escolas" que se mantém, ainda assim, com sua feição particular. O behaviorismo nesse visual novo não parece com o empreendimento empírico que caracterizou o seu ímpeto inicial. Ele exemplifica assim, como outros cenários de humanities, o que estamos enfatizando como a transição da tendência empirista de inícios de século à tendência funcionalista que vai se afirmando desde os anos trinta. Entre os anos cinquenta e os sixties, ocorre, inversamente, o rise dos estruturalismo estrito.
Instala-se aí um cenário complexo, porque a importância estruturalista está concomitante a um novo desdobramento, existencialista, do funcionalismo. Em psicologia é o caso da concomitância entre Piaget (estruturalismo) e a psicologia humanista como a de Laing, Rogers e Rollo May.
O pós-estruturalismo (Foucault, Deleuze, Derrida) não é realmente uma ruptura com o estruturalismo, mas um aprofundamento dele, inclusive suas produções clássicas sendo produzidas concomitantemente a atuação de Lacan, nos sixties.
Atualmente, o que se chama pós-modernidade assiste ao que já designei recentramento, fazendo apelo aos funcionalismos (gestalt.hermenêutica) para reinstalar aquela universalidade obtida nos anos de após guerra. O qual está contrastado pelo ex-centramento como, inversamente, a mistura de motivos não-ocidentais na produção cultural, a que geralmente associam-se temas e críticas ligadas ao pós-estruturalismo.
Quanto à transição que estamos estudando agora, é importante notar que a etabilidade que o funcionalismo usufruiu antes da preponderância de Levi-Strauss, Althusser e Lacan, está muito relacionada à aliança que firmou com a fenomenologia, o que permite afirmar que a psicologia humanista dos sixties é uma continuidade dessa tendência. Mas essa aliança não foi um mero transporte do sedimentado filosófico, o que se pode exemplificar pelo gestaltismo.
Pena, na "Introdução...", acentua bem o nexo dos gestaltistas com a fenomenologia, mas o resultado é bem oposto à postulação anti-científica e "compreensiva" que geralmente se associa a um nexo assim. Inversamente, serviu aos gestaltistas para, desfazendo a fronteira de psicologia e física, defender que as leis da forma nesta descritas teriam validez para a física, como na proposta de Köhler.
Além disso, Köhler desfez a oposição do "compreender" e do "explicar", na base de que, se significado e valor são categorias adequadas tanto a nível psicológico, quanto físico e biológico, ambos seriam idênticos. Mas que esse foi um modo precário de re-estabelecer em novas bases a antiga pretensão positivista de uma ciência unificada, se mostra pelo fato de que já Merleau-Ponty, no cenário de predominância existencialista, não só tornava a acentuar a incompatibilidade de fenomenologia e do compreender frente ao explicar das ciências, quanto ainda operava, erradamente sem dúvida, na base de uma crítica da gestalt como "empirista".
Como o espaço do Blog tem oferecido dificuldades para textos muito extensos, se bem que quando comecei a colocar estudos em blogs isto não tivesse ocorrido, o que dificulta supor que trata-se de problema técnico, neste documento tratarei apenas do behaviorismo e possivelmente da Gestalt. Se não ficar muito obstaculizada a postagem, incluirei aqui a psicologia humanista, se não, utilizarei um espaço específico para essa escola. É importante o seu estudo, não só porque permanece atuante, especialmente no Brasil, como porque dele se podem rastrear temas conexos aos que serão ventilados, com outro tratamento, no pós-estruturalismo. A transcrição do estudo de Piaget, de O devir das ciências humanas, será em todo caso tratado num blog somente focalizado nele, intitulado "PIaget e o construtivismo".
Não penso, por agora, transcrever os estudos de psicanálise, que então poderiam ser complementados, num só documento, pela esquizoanálise pós-estruturalista. Esses são temas conspícuos da elaboração dos blogs sob variados assuntos - especialmente teoria literária ("textos escolhidos"). São objeto das minhas críticas atuais, que não implicam recusa do "inconsciente" e sim a necessidade de reconceituá-lo à luz do Ex-centramento, como também examinar o movimento recentrante que essas démarche de fato exibem desde os sixties até suas formas recentes, objetivando apreender o nexo dessa consequência com as premissas aparentemente descentrantes de seus inícios.
O estatuto da psicologia oscila historicamente, do ponto de vistra intrínseco à sua elaboração múltipla, mas as posições várias interceptam tendências metodológicas mais gerais. Enquanto o behaviorismo e a gestalt pretenderam fazer dela uma ciência natural, os humanistas objetivam que ela não seja uma ciência para poder ser uma compreensão real do homem. Em todo caso, ela não tem o estatuto legal de ser uma medicina. Como ciência humana tem sido aceita, de um modo mais costumeiro.
Cosnier supõe o afirmado pela proposição citada de Chomski como "perfeitamente falso". Parece-lhe "evidente" que se somos "capazes de compreender um número indefinido de frases inéditas", não somos capazes de "emitir um número indefinido delas, pois cada um de nós tem o seu estilo e o seu repertório e um estudo estatístico permite caracterizá-los", o que, aliás, é o que torna a psicologia possível, assim como nosso conhecimento do outro.
Essa posição de Cosnier obtem reforço, inclusive, nos estudos estatísticos da linguagem, de que se podem haurir "leis do acaso", ou seja, frequências recorrentes da constância preferencial de certos fornemas numa linguagem considerada, conforme Abbagnano (Dicionário de filosofia). Já a observação como a dos glotólogos, de uma comunidade linguística, ou seja, mesmo não usando métodos estatísticos, pode descrever as tendências limitantes dos empregos linguísticos, tendo sido deste modo que Lutoslawski logrou colocar sobre base mais confiável a cronologia dos escritos platônicos.
No entanto, conforme Cosnier, há várias categorias em que a contribuição de Chomski se mostra importante, como na compreensão da "língua" e na ampliação dos conceitos de "competência cognitiva". Quanto à "competência idiossincrática", o papel de Chomski parece ter sido de instigar estudos num aspecto por ele manifestamente negligenciado, assim como ocorre com o "desempenho".
Cosnier mostra que a ampliação do conhecimento sobre a "competência cognitiva" marcou a limitação do behaviorismo quanto a isso, pois seu trabalho não focalizou o aspecto da performance com que muitos lingüistas e psicólogos se tornaram conscientes da necessidade de operar. É precisamente esse aspecto da universalidade, no exemplo lingüístico, a "competência", o foco dessa mudança na curva dos anos trinta aos cinqüenta que parece também ter impulsionado a obra de Chomski. Aqui é oportuno registrar sobre o "gerativismo" de Chomski, que ele não é sinônimo de "estruturalismo".
Um behaviorismo Cognitivo
A contribuição de Tolman não caracteriza uma volta ao fenomênico, no sentido da evidência imediata. Pena destaca, quanto a isso, o paralelismo de sua posição, em psicologia, com a física. A verificabilidade, no entanto, é agora colocada em termos de replicação.
Seria salientável aqui, também, as reflexoes epistemológicas de Einstein, opondo-se ao empirismo puro de Mach, em prol da base teórica e matemática que lastreia a produção na própria ciência física. Einstein as desenvolve particularmente em seu Como vejo o mundo.
A importância atribuída aos fatores ou variáveis intervenientes, na perspectiva mediacional de Tolman, implica a condição de serem objetivamente definidas. Assim, há três tipos de variáveis: as dependentes, as independentes e as intervenientes.
Quanto às independentes, são arroladas em dois grupos. No grupo SP, as Releasing variables (detonadoras) são aquelas que determinam o início do comportamento. No grupo HTA, Governing variables são as três que orientam a sua processualidade, definindo-se como hereditariedade, treinamento prévio e maturidade. Quanto às intervenientes, como "processos mentais", também se colocam conforme dois grupos. Eventos mentais e traços ou capacidades mentais. Traços ou capacidades são produtos de HTA. Os eventos o são de SP em combinação com os traços. Pena menciona ainda, a título de exemplo de variáveis intervenientes, as necesidades, as manipulandas, os meios-fins.
Uma característica notável na obra de Tolman é a manifestação recorrente da preocupação com fatores que se revelarão determinantes no desenvolvimento da psicologia, assim como ela veio a se tornar "uma ciência multiforme e ricamente ramificada", conforme a expressão de Kurt Müller (Psicologia aplicada à educação).
O que vimos quanto ao agrupamento de variáveis efetivado por Tolman expressa a partição mais atual de tarefas entre "psicologia da cognição" e "psicologia da motivação". Müller o ilustra com o que se requer para o funcionamento de um navio, tanto um sistema de direção quanto o sistema de propulsão. Assim, a psicologia da cognição ocupa-se das condições da direção do comportamento, como a percepção, o pensamento e a memória, enquanto a psicologia da motivação vai se ocupar com as condições que detonam e mantém o comportamento. Mas, inversamente ao que ocorre com o navio, os dois sistemas se influenciam mutuamente no caso do ser humano.
Geralmente consideram-se tropismos como algo restrito ao movimento de encurvamento das plantas. O que seria correspondente, no animal, é designado como taxia. Trata-se de um tipo de resposta invariável, no qual um animal orienta-se rumo a determinado estímulo ou dele se afasta. Um peixe que se coloca contra a corrente para que ambos os lados do corpo sejam igualmente estimulados pela água (reotaxia positiva), um inseto que sobe em oposição à força da gravidade (geotaxia negativa), a mariposa que voa para a luz (fototaxia positiva) e o inseto que dela foge (fototaxia negativa), o inseto que encontra o parceiro devido ao odor emitido, para acasalar, são exemplos desse tipo de resposta que dependem de reflexos (Storer e Usinger).
Vimos que Skinner tentava também estabelecer meios para lidar com a variação no grau de complexidade dos comportamentos, por exemplo, tentando deslocar a determinação do comportamento, desde sua conceituação pela dependência ao reflexo ou ao instinto, pela relativa autonomia da interação do organismo conforme a especificidade de sua relação com o meio. Contudo, o essencial é que mantinha a orientação behaviorista ortodoxa, pois "de uma maneira ou de outra, o meio forçava o organismo a se comportar", como pareciam demonstrar os fenômenos de tropismo e taxia. Skinner nota que até mesmo Hull manteve essa posição científica, pois o que ele teria feito seria apenas o equivalente a desenvolvê-la "sistematicamente".
Tolman, porém, já implementa a corrente que afinal problematizará a continuidade entre comportamento humano e processos biológicos gerais descritos nos termos da dependência ao meio. Mas ainda procede a definição da conduta em termos de generalidade. Toda conduta é propositiva, isto é, visa a um objetivo; é seletiva, persistente e dócil, subordinável a mudanças sob a pressão do aprender. Não obstante, apresenta já uma tipologia de aprendizados, conforme o aprender é de catexias (aprende-se a preferir objetos redutores de estímulos), de expectativas de campo (direções) e de padrões motores (habilidades não intelectuais).
Vimos ser no sentido do aprender que a irredutibilidade de Tolman ao behaviorismo clássico se manifesta mais plenamente, devido à ênfase no mapa cognitivo, pelo que se torna "uma aquisição de regras em função das quais vários tipos de respostas poderão ser produzidas", conforme a expressão de Pena. A teorização de Tolman se encaminhou até mesmo no sentido de aceitar a designação "sign-gestalt".
Tolman inclui o conceito, que se mostrou operatório em vários outros setores, de latência. O aprender pode não ser imediatamente constatável, dependendo de fatores que desencadeam a exibição da resposta ou a aceleração de sua aquisição. Mas assim, fatores internos, não observáveis, tornam-se relevantes ao processo. A variável importante é motivacional, pois é o que determina a latência ou explicitação da aquisição. No entanto, como vimos, a motivação não é determinante do aprendizado, e sim do desempenho (realização).
É à Teoria da Aprendizagem Social, principalmente devido à preocupação de Bandura e Walters com a linguagem, que já vimos quanto ao problema da agressividade, que cabe a ilustração da situação do movimento behaviorista no panorama geral de desenvolvimento da psicologia. Cosnier assinala, a propósito, o impasse a que chegava a tendência.
Outra crítica recorrente é a desumanização ou objetificação do ser humano, como algo inerente ao enfoque behaviorista. A isso se associa o que seria a sua inadequação para cobrir comportamentos lógicos, especificos do homem. Outras objeções, a meu ver menos procedentes, como a de Lorenz pelo que o behaviorismo negligencia o aspecto da cultura na conduta humana, parecem correlatas.
Ora, como Cosnier mostrou, Politzer sintetizou a limitação prática do behaviorismo a essa altura dos acontecimentos, em que a psicanálise revelava todo um alcance clínico como suporte do exercício concreto da psicologia. O behaviorismo acumulava uma grande soma de trabalho, mas não parecia localizar nenhum campo de aplicação objetiva para eles. Eis o que estava na raiz de sua limitação, pois essa busca demasiado teórica dos "mecanismos 'fundamentais'" impediam que se aproximassem de um comportamento humano efetivo. O apogeu da psicologia estímulo-resposta, a que se costuma reduzir todo o behaviorismo, apesar de termos visto que isso não é exato, marca, de fato, o máximo "hiato existente entre a teoria e a prática".
É interessante como essa situação é a mesma a que chegou a psicometria, conforme Cosnier. Pois a medida comparativa de eficiência, conforme uma escala de aptidões, ou tem aplicação demasiado limitada a um interesse comprometido, a que o esclarecimento do que está em questão pouco interessa, ou, inversamente, mostra-se redundante. O bom clínico não precisa do teste para identificar aquilo que este, com tanto trabalho e custo de tempo, fornece em termos de pistas sobre características de personalidade e tendências gerais do sujeito. O clínico o faz sem mais demora e no curso de uma interação bem mais proveitosa, bem menos constrangedora para o sujeito.
A formação pessoal ou experiência do psicólogo, com as técnicas que o contato real lhe sugere, chega assim a ter bem pouco que ver com o aparato, conhecimentos psicofisiológicos e corpo de teorias gerais concomitantemente produzidas na área. Ao psicanalista, por exemplo, pode nem importar ser a sua formação em psicologia ou psiquiatria.
Foram duas as vias encontradas pela ciência da psicologia para contornar o impasse. Por um lado, optou pelo alinhamento com a biologia, desenvolvendo-se teorias informadas pela genética e pela etologia. Mas a lingüística, é que se mostrou a "grande fornecedora de modelos", permitindo que problemas de especial interesse psicológico fossem reformulados e equacionados com clareza e aplicação máxima, na visão de Cosnier.
Os dois aspectos estão intimamente relacionados. O modelo da teoria da comunicação, que integra a linguística, interessa tanto ao etólogo quanto ao psicolingüista que se debruça sobre o tema da relação simbólica do humano. Também na "epistemologia genética" de Piaget o problema da linguagem será especialmente relevante. É importante salientar que não obstante a terminologia usada por Piaget, na verdade a sua é uma gnoseologia que explica como sabemos, não uma epistemologia que é uma teoria sobre o que é o saber. Além disso, a gnoseologia torna parte da psicologia apenas por seus meios serem laboratoriais e por isso subsiste a problemática acerca do estatuto da psicologia, se ela é ou não ciência, etc., problemática esta que Piaget de fato não resolve, não obstante a sua crença de que o fez cabalmente.
Ora, para Cosnier, trata-se de objetivar áreas exclusivas de problematização, pois ainda que o modelo linguístico possa abranger todos esses terrenos de interesse, o que demonstra é a especificidade dos fenômenos que pertencem a cada um deles. O que ensejou desenvolvimentos surpreendentes, inclusive naquelas áreas que pareciam estagnadas, como a psicometria. O resultado foi um novo tipo de inter-relação proveitosa entre vários setores das ciências do humano. A esse esquema poderão ser agregados, então, tópicos referentes à contribuição de Piaget e ao desenvolvimento da psicometria.
Será necessário, aqui, observar algo do desenvolvimento dessas áreas, a etologia e a lingüística. Mas o que ocorre na exposição dos temas asociados envolve a emergência do estruturalismo e sua influência. Assim, o ponto de vista cronológico, quanto a isso, repõe algo da apreciação da evolução conceitual.
No entanto, com isso podemos demarcar aqui uma crítica à generalidade com que Cosnier tratou o assunto, já que a associação entre teoria da comunicação e línguística precisa ser muito cuidadosamente posicionada.
No Brasil, atualmente, estão usando uma dicotomia de "formalismo" que significaria "estruturalismo", e "funcionalismo", de modo tal que Foucault, enquanto inserido na tendência da "análise do discurso" seria funcionalista, o que é manifesto absurdo.
Recentemente asisti numa faculdade, a uma aula de linguística na qual se ensinava essa dicotomia, e quando interroguei a professora sobre como Foucault, que é manifestamente estrutural, poderia ser dado como funcionalista, a resposta foi que todas as tendências que definem linguagem como comunicação podiam ser arroladas "funcionalistas". Ora, nesse caso especialmente, Foucault jamais poderia ser suposto definir linguagem como comunicação, ou num parâmetro único qualquer.
Por outro lado, também comunicação e linguística se interceptam justamente por meio de uma teoria da comunicação que é estrutural, não "fenomenológica". Assim, "comunicacional" tanto pode significar a hermenêutica transformada, como de Habbermas, Apel e os psicólogos humanistas quanto, inversamente, as pesquisas que prolongam o formalismo russo e interceptam a cibernética e a teoria da informação, como as dos estruturalistas, mas entre estes não ocorre a redução da linguagem a esse fator. Inversamente, o que é assim haurido é utilizado para finalidades variadas, com especial relevância à teoria do inconsciente.
Como já se observou, uma abordagem mais voltada aos trabalhos de autores do que a tendências gerais, sem dúvida, pode esclarecer bem mais sobre o que ocorre na metade inicial do século XX. Ainda assim, a utilização de rótulos não se mostra totalmente sem utilidade.
Em história das ciências, esses rótulos orientam não só especificidades de escolas, mas de metodologias que as podem enfeixar em tendências específicas. Mas a polissemia costuma ser incontornável na recuperação dos documentos, sendo necessário minucioso exame para saber o que está sendo falado em cada caso.
Além disso, os rótulos na sua abranência metodológica mostram-se úteis para conceituar derivas dentro de uma mesma escola. Assim, por exemplo, o livro de Ch. Brenner, "Noções básicas de psicanálise", esclarece as noções fundamentais da psicanálise funcionalista, como ele mesmo salientou, mas pelo que se pode haurir da leitura, isso corresponde ao que o autor pressupõe ser o genuíno do pensamento freudiano e das contribuições que se seguem a ele, mantendo-se porém na mesma linha assim inaugurada. Não se fala aí de Lacan. Quanto a este, manifesta sem dúvida que operou um tratamento estruturalista sobre o material oriundo do pensamento freudiano, o que lhe permitiu ao mesmo tempo que manter orientações gerais deste, impulsionar o movimento psicanalítico a partir de propostas especificamente suas.
Entre funcionalismo e estruturalismo, a irredutibilidade básica está em que para os funcionalistas há um todo, que corresponde ao fenômeno estudado, o qual subsume aquilo que aparece como partes suas. O estruturalismo, inversamente, estuda sistemas, que seriam as partes na interpretação funcional, como autônomas, de modo que o todo é apenas um efeito, de certo modo uma ilusão, oriundo da concomitância desses sistemas autônomos. Ambos se contrapõem ao empirismo como à premissa de um acesso das partes assim como elas se mostram a nós, isto é, não como sistemas articulados internamente, e independentes do todo.
Quanto à ilustração desse movimento de flexibilização da psicologia estímulo-resposta, correspondendo ao neobehaviorismo, ele focaliza, na Rússia, os trabalhos de Luria e Vinogradova, descrevendo o estabelecimento de ligações semânticas através de processos de condicionamento. Há também a pesquisa referente às diferenças entre crianças mais jovens e mais velhas na importância relativa de mediação verbal. Nas crianças mais velhas ocorrem respostas verbais internas, não enunciadas, enquanto que nas mais jovens se mostra adequada a explicação na base dos princípios simples do condicionamento.
Nos EUA também as análises experimentais e teóricas se focalizam sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, como no trabalho de Kendler, semelhante ao dos russos. Verifica-se aqui, igualmente, que a flexibilização do behaviorismo se faz muito em função dos fenômenos observados no comportamento verbal.
Butcher considera que esse é, de fato, o tema mais inviabilizador do esquema estímulo-resposta ortodoxo, que exemplifica com a teoria da linguagem de Skinner, a qual considera incompatível com os dados da pesquisa mais atual. Contudo, creio ser preciso notar que a polêmica das duas posições conflitivas sobre a linguagem, de Skinner e Chomski, na época de maior predominância do comportamentismo, não está totalmente resolvida. Bem inversamente, a ênfase no fator cultural, ambiental, social, do comportamento lingüístico, como em Labov, continua se constrastando à solução inatista, formal, gerativa, de Chomski. Assim também em geral o pós-estruturalismo é incompatível com o gerativismo universalista. No entanto, sem dúvida a resistência ao inatismo precisa agora equacionar dados que Skinner, recusando toda perspectiva mediacional, não focalizou.
Observa Müller, com especial relevância ao seu assunto, que a educação é basicamente "psicologia aplicada" enquanto ciência do comportamento humano e de suas origens, o que conserva o enfoque behaviorista. Com efeito, educar significa "influenciar planejadamente o comportamento" do ser humano. Vemos que a especificação das áreas conforme o desenvolvimento histórico da psicologia não deixou de implementar a superação do hiato entre teoria e prática no que se relaciona ao behaviorismo, ao menos naquilo que incorporou à compreensão da psicologia como ciência.
Contudo, algo que introduz eficazmente o que deveremos observar como tendência a acentuar-se no desenvolvimento da psicologia, desde aqui, é a evidenciação da problemática metodológica das ciências do humano, enquanto o panorama comportamentista se baseia na premissa tranqüila da assimilação epistemológica às ciências exatas e da natureza. Müller enfatiza que a oposição no interior da psicologia entre essas duas abordagens continua existindo.
Registra assim, por um lado, o fato de que geralmente "ganham maior significado os métodos de trabalho das ciências exatas", o que faz com que o psicólogo deva se posicionar acerca de "métodos da matemática, da estatística e dominar a técnica experimental". Mas também exibe-se a característica circular típica do conhecimento "especulativo", isto é, aquele que se beneficia do repositório teórico e filosófico, o que é exemplificado ao tratar-se do fator religião, atinente à psicologia da criança.
Müller mostra a pesquisa psicológica comparada, dos povos e das religiões, evidenciando que povos que concebem seus deuses como poderes predominantemente vingativos, raivosos e punitivos, tendem a educar os seus filhos de modo rígido e inflexível. Exemplifica com duas citações da Bíblia, o fragmento de um salmo ensinando a reverenciar a Deus com "temor e tremor" e um dos provérbios em que se aconselha a não "poupar a vara" na educação dos filhos, como prova mesma de amá-los.
A questão é então por que determinados povos temem seus deuses enquanto outros os concebem como poderes benéficos. Ora, essas configurações básicas podem ter surgido através da educação. Mas são também o que explica as várias atitudes educacionais. Se incluíssemos o fator "traços de caráter" para explicar a variedade de posições religiosas que é característica dos povos em questão, o círculo seria um pouco ampliado, mas permaneceria círculo, já que os traços também poderiam ser reconduzidos, finalmente, às variáveis educacionais.
No entanto, nada inviabiliza a cientificidade desses novos ramos de conhecimento humano, já que o interesse da inteligibilidade pode estar tanto na apresentação de resultados objetivos quanto na problematização daquilo que se tem por certo.
Assim, que a "professora" - infeliz no casamento, cujos alunos descrevem como rude, amargurada, sem afeto; o "casal de aposentados" - o homem é porteiro, o casal não tem filhos, as crianças do prédio os temem; o "senhor" - que ocupa elevada posição econômica, exige aplicação, produtividade, pontualidade e ordem do filho a quem se apresenta por todos como pai modelo e que costuma ter pouca motivação, medo, dificuldades escolares, possam ser vistos respectivamente como "extraordinária" e "benemérita"- numa escola autoritariamente dirigida num país ditatorial; merecedores de reforçamento - numa sociedade que impõe às crianças o dever da obediência cega aos adultos; pai responsável e bom - numa sociedade de produção, eis o que deixa de ser dado como algo natural, "universal". Deixa de ser considerado conforme o ponto de vista dessas sociedades ditatoriais. Torna-se o que se precisa, devidamente, equacionar em termos da implicação recíproca entre vivências pessoais e comportamento dos educadores, estilo de educação e sociedade.
Ainda assim, mostra Müller, isso não conduz a que se identifique a conduta "má" - agressiva, repressora, etc. - apenas como não "cientificamente" educada. As mães simples e ingênuas são muito freqüentemente boas mães. Tampouco se deve antepor que palavras usadas na linguagem comum como "sentir", ou "querer", por sua pouca precisão, são destituídas de sentido operatório para aqueles que as utiliza, contrastando com os neologismos técnicos criados pela ciência. Seu uso envolve, de fato, sentido, e a tarefa da psicologia é compreender esse uso, não destorcê-lo para caber num molde preconcebido, conforme Müller.
Tudo contribui para aceitar-se que o escopo da psicologia não deve ser, como pensava Skinner, na concepção de Müller, o controle direto da sociedade pela ciência, mas sim o engajamento na compreensão daquilo que tematiza, não sem a esperança de que sua aplicação se revele útil aos propósitos de melhoria, pessoal e social. Mas podemos ver que se da compreensão o que se deduz é essa expectativa, há algo em comum entre os propósitos de Skinner e Müller acerca da psicologia como fator de reforma social objetiva, a mais do que um papel terapêutico subjetivo.
A ênfase na "compreensão", porém, já implica o cenário familiar ao de prevalência da "psicologia humanista", o que certamente destoa profundamente, pela influência que sofre da fenomenologia-hermenêutica ("existencialismo"), das intenções empíreo-científicas do behaviorismo, como daquele ambiente de surgência da psicologia do século XX.
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22 / 05/ 2012
Se a gênese do conceito fosse argumentação, o que a resolução dialética da aporia ideológica requer, como é o caso de Apel, todo o processo seria sempre uma reação. O que é ativo no conceito seria impensável. Esse enfoque nietzcheano se prolonga em O que é a Filosofia, de Guattari-Deleuze, quando se trata de recuperar sua endoconsistência, sua autopoiese. Por isso é importante diferenciar conceito filosófico e função científica. Somente a função científica tem uma exoreferência.
Em As três Ecologias Guattari também procurará deslocar o positivismo por uma instrumentalização filosófica da ciência. Mas ele começa por sustentar que o sujeito só se torna a reificação de si mesmo quando o pensamento se obstina na autoapreensão. Fora isso há inúmeras maneiras de existir que se instauram fora da consciência e é por isso que é melhor usar a expressão componentes de subjetivação, que são visados na independência de qualquer eixo ou horizonte de sua totalização, do que simplesmente “sujeito”. É preciso separar os conceitos de indivíduo e subjetividade e pensar a subjetivação tanto individual quanto coletivamente.
Mas essa proposta, que encontra ressonância no próprio campo científico, à exemplo de Prigogine e Stenghers, já está numa via de superação e crítica do parâmetro científico da psicologia, desenvolvendo-se num novo sentido, pois é o próprio conceito de cientificidade que está sendo reformulado, para se propor numa abrangência ético-estética, em todo caso reservando-se expressamente às condições de sua produção.
Aqui a coerência da ambientação epistêmica do século XX, "experimental" e laboratorial, é o que parece estar se questionando, naquilo que pode suscitar uma terminologia de "pós-modernidade". Por outro lado, já se deixa apreciar assim, a posição da fenomenologia quando, via existencialismo, veio a se tornar uma influência nas humanities engajadas numa crítica à razão técnica. A psicologia humanista (Laing, Cooper, Bateson), não é uma forma de renovação ou transformação da episteme, mas uma recusa desta como "Anti-psiquiatria". Assim, Guattari em Caosmose registrou que não obstante ter havido uma ambientação comum nos sixties, de crítica do vínculo saber-poder, nessa área isso se expressando como comum recusa da autoridade do "avental branco", da "psiquiatria de setor", etc., ele mesmo não se considerou um "anti-psiquiatra".
A propósito do estatuto das humanities nesse cenário mais atual, cabe registrar como importante o fato de que se o pós-estruturalismo manteve geralmente a recusa foucaultiana desse estatuto em termos de cientificidade, sem que isso implicasse recusa da cientificidade em geral - como se pode ver pelo esquema de as palavras e as coisas - talvez a partição de endoconsistência e exoreferência de O que é a filosofia, mostre em que o pós-estruturalismo realmente pode ser criticado quanto a isso.
Como assinalei, entre ambos não se trata de uma variação dentro de um mesmo campo que seria o saber, mas dois campos irredutíveis. A exoreferência da função instaura o campo científico, a endoreferência do conceito instaura o campo filosófico. Mas "função" aí significa o f(x) matemático, que possivelmente conceitua a inteligibilidade das ciências da natureza modernas. Seria complicado pensar f(x) como universal da pesquisa em humanities. Mas isso por que um dos requisitos metodológicos das ciências humanas que mais tem sido enfatizado, não cabe em nenhum desses dois processos supostos básicos e entre-excludentes, da intelecção ("pensamento").
Se por um lado as humanities não devem certamente produzir uma noção auto-construída como um "conceito", se elas se relacionam ao que apresentam como uma realidade exterior, por outro lado elas não o fazem de modo tal que essa realidade possa, para elas, ser considerada "dado" assim como a montanha para o geólogo, o que se vê no microscópio para o biólogo, ou o que é inferido de reações imediatamente verificáveis pelo físico. Em ciências humanas, sabemos bem que só temos acesso ao que julgamos uma realidade, por exemplo sociológica ou psicológica - a luta de classes ou o ideal-tipo; o self ou o isolável comportamento operante, etc. - por meio da teoria em que essa realidade é justificada como pensável estar na exterioridade fenomêmica correspondente.
A teoria é armada em torno do pressuposto de já se estar na posse do observável -o grupo social, as taxas de ocorrências, a situação de laboratório - mas, de fato, o observável está de modo intrínseco condicionado por um fator textual que orienta a teoria em que ele se apreende como tal. Pode-se contrapor que como vimos, o que opõe experiência empírica ou sensível, e experiência científica é que somente esta é controlada, mas não se segue que nas ciências da natureza se tenha a priori, para todos os campos, a afirmação de uma dependência textual (textualizável e a textualizar necessariamente) da existência objeto. Assim vemos que é um erro supor que o objeto de uma ciência humana seja a coisa dada ao senso comum como "a sociedade" para a sociologia, pois cabe a esta, justamente, nos dizer o que é a sociedade.
O interessante quanto a isso, é notar que estudar a história da psicologia acresce à epistemologia um interesse a mais, porque se para a sociologia ou a antropologia, assim como para a teoria literária, sempre pareceria contraponível que a produção estética com seu fenômeno de recepção, e as coletividades humanas, estão sempre "lá" de qualquer maneira, poderíamos indagar ao objtor o que está "lá" como o objeto da psicologia, antes dela o definir. Se dissermos que é o homem na sua existência física, ele seria o objeto da biologia e da medicina; mas se dissermos que é alma, ou eu, ou personalidade, ou reflexo da realidade social, ou inconsciente, ou meramente natureza, do comportamento ou inversamente, mental, etc., esses são conceitos imediatamente apreensíveis como psicológicos, secundários em relação a crenças cotidianas quase infinitamente variadas, que elas mesmas precisam ser explicadas, nada explicam. E o mais importante: seja qual for a teoria escolhida, ela não se reduz a uma definição conceitual do objeto; é apenas o protocolo da pesquisa, implicando se cabe ou não a matematização de dados, quais são os limites de generalização, etc.
Entre exoreferência e endoconsistência, portanto, há bem mais que uma bifurcação irredutível. Mas isso implica também questionar a unidade do apriori histórico foucaultiano, não só no que ele diz explicitamente, pois está claro que o paradigma da Representação não é compartilhado por muitos ramos da pesquisa em humanities. Mas também no que está implícito, a saber, que necessariamente as humanities implicam uma reduplicação da science em termos do que se arroga justificá-las como produções do Homem. Não há o universal Homem estruturando o discurso das humanities, pois também se pode negar haver um discurso que possa unificar como algum a priori, todas as teorias se elas variam inclusive como decisões quanto ao próprio caráter da universalidade do objeto, que algumas "culturalistas" negam, implicando nessa negação a sua reserva metodológica em relação à science. Já a epistemologia não é uma ciência humana, é um dos ramos da filosofia.
Coube a Bakhtin destacar esse componente textual como constituindo o horizonte da pesquisa em humanities, como aquilo com que elas dialogam na sua construção ela mesma texto-teórica, nesse diálogo baseando o seu exercício. Isso, inversamente à science que tem seu horizonte na objetividade, isto é, no que pode ter um caráter imediato de dado independente.
É necessário ainda, não obstante o nosso foco ser mais a história da psicologia, registrar a reserva terminológica de "ciência", quando se trata de postular uma metodologia autônoma às humanities, enquanto que, por outro lado, há cientistas desta área que compartilham a opinião dos positivistas, pela qual toda ciência é a mesma coisa. Aqui a natureza da pesquisa é o importante, pois mesmo os que defendem a reserva do método ou autonomia das humanities frente às ciências da natureza podem objetar que dadas as premissas que já ventilamos, ainda assim pode-se falsear. Como se sabe, que o enunciado seja falseável é o requisito de Popper para a ciência em geral, num parâmetro positivista.
Por exemplo, Apple realizou uma pesquisa numa escola para testar a validez do que deveria ser esperável desde a formulação teórica dos "aparelhos ideológicos de Estado", de Althusser. Apple concluiu, podendo demonstrar pelos dados da pesquisa, que não se verificavam vários aspectos daquela formulação, de modo que possivelmente uma escola não se descreve bem como um "aparelho" assim. Pode ser que mais pesquisas, realizadas com propósito de testagem da contra-hipótese, etc., devessem ser realizadas,mas nada impede que seja esse enfoque "empírico" da ciência normal o que se realiza em pesquisas na área de humanities,não obstante a questão metodológica.
Mapeamos aqui as posições relativas à problemática epistemológica das humanities, conforme as posições encontráveis:
a) recusa do caráter científico das humanities, variando essa recusa como defesa (hermenêutica) ou como ataque a elas (Foucault); b) aceitação do caráter científico das humanities, variando essa aceitação como conexa a uma reserva de autonomia metodológica frente às ciências naturais (numerosos exemplos, ainda com variantes internas) ou como afirmação da comunidade das áreas num mesmo parâmetro metodológico de ciências (positivistas).
Os exemplos entre parêntesis não implicam que todos os que manifestam opiniões pertinentes a cada uma das posições, devem ser reduzidos a estes rótulos ou dados como seguidores d eum autor, mas são apenas registros de mais conspícuos casos de adesão à posição em tela. A mim parece que a aceitação do caráter científico das humanities, com autonomia metodológica, é em geral a posição mais consequente.
3 ) A psicologia do século XX
Cosnier, no já referenciado Chaves da Psicologia, ao debruçar-se sobre a ascensão do Behaviorismo, sente-se impelido a relacionar o salto da psicologia, agora no seu segundo período – vimos sua caracterização do momento inicial, com Fechner – e o “o clima social do início do século”, ou seja, com “o capitalismo florescente nos Estados unidos e o socialismo nascente na U.R.S.S.”. Agora, a negação de que é a consciência o objeto da investigação psicológica está na base da asserção pela qual “nada deve escapar à investigação científica”.
Assim Cosnier localizou bastante bem, a meu ver, a transição em termos de “Revolução”, mas penso que ele limitou indevidamente o seu alcance ao qualificá-la apenas como “Behaviorista”. Na verdade, seu epíteto seria mais adequadamente transposto como “Contemporânea”, onde o enfoque epistemológico é o que logra desdobrar as implicações reais da ruptura. Nesse projeto de apreendere "o devir das ciências humanas", como espero estar claro, "epistemologia" não se limita a um parâmetro formal da inteligibilidade, mas estende-se como pesquisa histórica ao campo dos enunciados. Ocorre também que ele relaciona muito esse novo objetivismo cientificista com a adoção da perspectiva materialista dialética, na base de que esta é o que, concomitantemente, estava contraditando “com ardor a consciência e seus eflúvios idealistas”.
Algo que me parece vago é a equiparação que Cosnier propõe, baseando-se em Zazzo, entre a recusa da consciência na psicologia e o que ocorre na filosofia fenomenológica de Husserl, para mostrar como essa crítica é, nesse momento, geral. Contudo, o que parece estar em jogo na fenomenologia é a sustentação de premissas opostas ao que compacta o salto na teoria psicológica, e isso porque a teorização do Ego transcendental se propõe no caminho mesmo de uma “investigação da consciência”, assim como reza o roteiro das Meditações Cartesianas de Husserl.
Ora, o pragmatismo surge assim, ao que me parece, numa vertente bem mais adequadamente aproximada do período em questão na história da psicologia, do que o pensamento dialético, descartando-se de vez que isso esteja numa qualquer confluência com a fenomenologia, senão por uma via inteiramente negativa da recusa da ciência por essa corrente filosófica.
Ambas as transições, na filosofia pragmática e na ciência psicológica, configuram o mesmo salto epistemológico que parece compactar a transformação histórica da contemporaneidade. Logo, será preciso estabelecer adequadamente as relações entre esses dois campos e o pensamento social, o que se logra através da observação do que ocorre no âmbito do movimento pragmático. Vislumbra-se uma espécie de campo da cientificidade do humano, em que suas problematizações específicas se mantém fortemente interligadas.
A superação da “escolástica” - a que se reduziu tudo que precede o pragmatismo - parece-me adequadamente formulada pela afirmação de que nele o conteúdo das palavras que antes designavam a realidade pura desapareceu, nesse mundo em que os termos só nomeiam experiências, não possíveis, mas efetivas. Se tais expressões resistem por seu encanto, elas são designadas poesia. Não seria o surrealismo uma aceitação-celebração de que o lugar da poesia é o vazio do significado em prol do livre jogo significante?
Ora, a conexão entre pragmatismo e psicologia está bem documentada em James – Cosnier utiliza uma citação sua como ilustrativa do trend desse segundo período: “Parece-me chegado o momento de negar, franca e publicamente, a consciência.” Contudo, o que me parece ter encaminhado a revolução do simbólico é a transposição da problemática do pensamento – por conseguinte, da lógica e da verdade, ao campo da linguagem, o que se operou com Peirce.
É assim que a tentativa do neokantismo no sentido de liberar uma – a meu ver – metafísica do símbolo pode ser adequadamente confrontada a esse viés pragmático de Peirce, unicamente de que se alimentaram as ciências do humano desde aí, naquilo que caracterizou o seu afã teórico por meios de compreensão das práticas, não por formas de explicação generalizantes de atributos.
Contudo, não se pode deixar de notar que os outros movimentos, como o idealismo e o materialismo, constituíram caminhos historicamente válidos nessa área. Ocorre que em seu desenvolvimento não deixaram de incorporar como puderam o viés simbólico que é subversivo de suas intenções originais, enquanto que é nele que se institui a movimentação mesma do pragmatismo nascente.
A psicologia intercepta o viés pragmático no momento em que desloca sua atenção às práticas, condutas, conforme a expressão de Wallon a propósito do “cambio de frente que se há operado em el estudio de la vida psíquica” , em seu texto "La Consciencia y La Vida Subconsciente”, publicado numa coleção bastante representativa de textos organizada por Georges Dumas, designada “Nuevo Tratado de Psicologia” . Assim, conforme Wallon explica a inovação de Janet, não se pode explicar tal mudança melhor do que pela focalização dessa “sustituición de las sensaciones y las imágenes, por las conductas como elementos de la actividad mental”.
Retornando sobre os escritos de Peirce e James, respectivamente os Escritos Publicados e os Princípios de Psicologia, temos ali como sua enunciação inovadora que a apreciação filosófica habitual desses tópicos – sensações, emoções, imagens, conceitos – no que deveria ser uma teoria do conhecimento, deve substituir as asserções tradicionais básicas de que, como Descartes pressupôs, tudo se equivale como pensamento frente à materialidade das coisas, e pelo que tais realidades subsistem como unidades simples, fatores discretos cuja associação deveria compor a tessitura da consciência.
Por essa via o que deveria restar a explicar é o como da composição e sua relação com a realidade subsistente na exterioridade. Mas agora o que se propõe é que cada uma dessas entidades têm uma dinâmica própria, sendo que só poderíamos englobá-las na base de que, longe de serem reflexões em níveis diversos de uma atividade constante de representação das coisas ou ideativa, elas correspondem a movimentos corporais, ações cerebrais em um meio orgânico, a comportamentos.
Ademais, não ocorrem jamais como unidades discretas. Conforme Wallon observou, não existem sensações brutas, como dados simples, ou, colocando nas palavras de Peirce, do mesmo modo que com a razão filosófica, não se deveria conceber o fluxo da vida psíquica como “corrente de elos igualmente sólidos” e sim “como uma corda, mesmo deslgada, mas cujos fios são numerosos e bem entrelaçados”.
O essencial aí é que essa continuidade não se propõe como um todo homogêneo, dado como a consciência ou síntese da representação. Nenhum estado de consciência possui existência absoluta, definitiva, imutável, como Wallon observa, e James o reafirma quando, na sua refutação do atomismo mental, mostra que jamais obtemos sensações corporais exatamente iguais, pois para uma sensação idêntica ocorrer novamente, seria preciso que o cérebro fosse imutável, enquanto ele é concebido como um complexo de processos em ato.
Assim, “uma idéia ou 'Vorstellung' permanentemente existente que faz seu aparecimento no palco da consciência em intervalos periódicos, é uma entidade tão mitológica quanto o Valete de Espadas”, conforme a expressão de James, criticando a perspectiva de Locke. Tratar os fatos mentais de modo atomista, e os estados de consciência superiores como se fossem todos construídos a partir de idéias simples e imutáveis, não resta mais do que uma aproximação, assim como “tratar as curvas como se fossem compostas de pequenas linhas retas”.
Seria então o momento de inserir a problemática do signo. O que Peirce focalizou foi esse meio contínuo que é o pensamento, de modo que sua abordagem de conceituação da fluidez ou caráter intrínseco desse fluxo consistiu numa definição do pensamento como a interpretação ou representação de alguma coisa por outra coisa, isto é, cada pensamento ou “idéia” age como signo em relação ao seguinte.
Cosnier, como é usual quando se trata de historiar a psicologia, situa a interseção dessa ciência com a problemática da linguagem somente num momento posterior, e isso por meio da Teoria da Comunicação. Mas nesse tipo de enquadramento a psicanálise costuma ser tratada num capítulo separado, de modo que a sua interdependência com a temática do signo e da linguagem, já desde a viragem do século, permanece como que à margem da corrente principal na narrativa do desenvolvimento dos métodos e escolas.
O texto de Wallon insere de modo mais harmonioso a psicanálise no curso da ruptura com a perspectiva “metafísica” que ainda se inseria no associacionismo pelo que “la vida psíquica” é “hecha y compuesta de elementos tomados em sí mismos, definidos de una vez por todas”. Aqui podemos apreciar como os dois momentos de teorização de Freud progridem. Inicialmente, uma teoria funcional que lida com relações entre estruturas, inconsciente, pré-consciente e consciente; e então a transposição para uma teoria interacional que lida com relações entre fatores, o id, o super-ego e o Ego. Ora, o simbólico vai ter aqui um papel de extrema importância, mas naquilo em que a linguagem não desempenha uma simples função a se explicar, e sim, como produção de símbolos, atua entre sistemas cujas correntes, ou lógicas, podem ser antagônicas, como aquela que se destina a reprimir conteúdos e aquela que força por fazer o reprimido ser liberado em algum estado consciente.
Quanto a Peirce, muito inversamente a que essa relação entre uma teoria do pensamento e a introdução da realidade do signo, logo entre teoria do conhecimento, lógica simbólica e psicologia, seria uma apropriação linguageira do apriorismo kantisno, sua mera posição deveria conduzir à constatação de a que se deve. Onde notamos que vem da recusa de qualquer conteúdo representativo-ideativo permanente como informação subjacente ao que se manifesta em termos de consciência. Ou seja, deriva da visualização do que ocorre como práticas, atuações, movimentos num fluxo interativo perene.
A liberação do simbólico sobre esse fundo de atividades depende então, exatamente como notou Wallon a propósito de Freud, de que “en los hechos complejos de la vida mental, el criterio de veracidad no puede ser sino múltiple”, fundando-se “en numerosas comparaciones, em las que se confronten no sólo casos muy diversos, sino también resultados obtenidos acerca del mismo, partiendo de puntos de vista muy diferentes”.
Numa perspectiva algo conservadora, Wallon constata que isso compromete a viabilidade plena da psiquiatria clínica, pois a cura iria estar assim conexa a mecanismos demasiado numerosos e polivalentes para poderem ser suportados pela prova científica. Contudo, sem precipitar o andamento dessa questão por agora, o muito amplo desenvolvimento da teoria psicanalítica, até naquilo pelo que recusou a limitação “psi” da psicologia, parece-me mostrar mais o que é fecundo nessa via do que uma sua qualquer impossibilidade de base.
A convergência epistemológica que considero haver entre os teóricos do pragmatismo e a psicanálise de Freud reside nisso pelo que, quando o cerne da indagação conduz à região do simbólico, o que se superou foi aquele tipo de busca que tinha na Representação a sua palavra chave, isto é, todo o panorama da modernidade na acepção de Foucault. Agora, a representação se torna algo outro.
Não mais a apreensão intelectiva do Real que se supõe “estar lá”, na natureza ou na mente de Deus, mas sim o tipo de relação que um signo mantém com uma referência, pelo que um interpretante, que tem que ser ainda outro signo, fecha o circuito semiótico. Por aí vemos que um signo – ou pensamento, na concepção de Peirce – jamais tem seu conteúdo em si mesmo, mas sempre em outro signo, que tem seu conteúdo em outro signo, e assim ininterruptamente, formando-se o continuun pensável.
É assim que o vínculo da corrente contínua ou fluxo consciente é sempre o mais extremamente pessoal ou acidental, pois as chaves de interpretações dos signos, ou formações de hipótese sobre eles, dependem de signos que derivam eles mesmos de conexões contingentes que se formam ao acaso dos encontros de uma “experiência” - essa coloração de folha nesse tom suscitado por uma certa posição do observador em certo momento de incidência da luz do sol evoca a ele a recordação de um objeto que por acaso viu ontem num passeio, etc. Nesse novo sentido, a Representação deixa de ser identificada à consciência mesma.
Enquanto que interpretar a emergência do simbólico como transposição à linguagem do mesmo a priorismo de Kant seria supor que a transição epistemológica com que estamos lidando resume-se a um progresso no sentido de melhor captar o esquematismo da “Representação” naquele sentido “moderno”. Mas, se assim fosse, o símbolo seria o veículo da forma “verdadeira”, única para nós, o que viria definitivamente estancar qualquer ponto de vista nominalista como meramente sofístico no sentido usual pejorativo desse termo. E ele poderia, já num momento pós - gerativo dessa interpretação, ser reposto numa sintaxe de interações remetendo às possibilidades da interlocução, o que iria redundar numa ética lógico-discursiva, ao modo “pragmático” de Apel e Habermas.
Contudo, o ponto de vista peirceano-pragmático que encaminhou a real revolução epistemológica do simbólico, a meu ver, só pode ser adequadamente visada se deslocamos definitivamente a concepção pela qual o que está em jogo se limita ao tipo de indagação cujo móvel foi sempre a problemática do sentido assim como metafisicamente posicionada, isto é, na base de que existem termos últimos – o sistema de imagens e conceitos perfeitamente claros, como situou criticamente Wallon – que respondem na sua formalização pelo que se considera a experiência do verdadeiro, os quais derivam de uma conformação que é a do Real.
O salto poderia começar a ser apreciado pela constatação de que esse eixo epistemológico simbólico, irredutível como é ao eixo tradicional da representação, não se desenvolve pela via da descrição ou da observação da consciência normal, mas sim pelo acompanhamento e compreensão do que ocorre nos seus estados patológicos, hipnagógicos, crepusculares, ou na infância. Logo, desvanece-se a via introspectiva de acesso aos fenômenos psíquicos, tornando-se os fatos somente objetos de uma questão cuja ordenação é experimental.
Como notou Wallon, isso conduziu também a uma recusa da “ilusión de que no hay consciencia posible sin un sujeto que se percibe a sí mimo primero y siempre, al mismo tiempo que el contenido móvil de su consciencia”.
Podemos lembrar aqui que a afirmação dessa proposição constituía o essencial do pensamento pós-kantiano, desde Fichte, e creio que o essencial da contraposição entre a psicologia científica e a fenomenologia está nisso, pois que há uma noção egóica como o dado primitivo de qualquer realidade “dada” é o que Wallon mostra ser agora considerado irreal na teoria psicológica. Essa noção, com efeito, não ocorre “en muchos estadios de la evolución pssíquica, y después de su tardía aparición, guarda uma manifiesta facilidad para alterarse y desvanecerse”.
Wallon chega a registrar que foi da introspecção como forma inicial da observação psicológica que resultou essa noção inadequada que toma o pensamento reflexivo como arquétipo de todo estado de consciência, de modo que assim se assinala o caráter de ruptura desse momento, em relação ao que vinha se propondo como “psicologia”.
O que se abandonou foi a ficção da consciência como, ela mesma, algo de uno e de dado. A pesquisa em ciência psicológica desenvolve-se agora apenas na base da observação de ocorrências, procura-se caracteriza-las no seu vir a ser, para somente depois iniciar o trabalho de compreender como se inter-relacionam essas atividades – e eis aí especificamente o método pragmático.
Mesmo podendo ser considerado apenas tangencial à história da psicologia, creio ser oportuno deter-se mais na apreensão do rise pragmático.
Peirce e James
A revolução do empirismo na época moderna se apresentou de modo a deslocar o suporte da regularidade. Não que desde os newtonianos, Berckeley, Locke e Hume, se tenha ousado romper com a impressão de que experiência e natureza são irredutivelmente opostos, assim como o intelecto (espírito) e o mundo da materialidade. Mas desde que Hume precisou adequadamente o ponto de vista empírico, tornou-se mais exequível, a meu ver, atingir o locus desse deslocamento que assinala a real importância da ruptura epistemológica moderna.
Relembrando o que estudamos anteriormente, vimos que Hume pensava as sensações, logo, as idéias que eram suas fixações no espírito, como algo absolutamente simples, como se a “experiência” sensível fosse, naquilo pelo que ela está vinculada ao real, um acúmulo descontínuo de flashes sem conexão aparente. Aquilo em que o empirismo se impossibilita como um via a priorística está, então, nesse deslocamento, pois o que designamos relações, para indagar de sua conexão com os termos que ligam, são ordens interpostas pela reflexão aos modos como esses flashes se recebem e se acumulam para constituir o material sobre o qual ela se elabora. As relações são essas ordens. Há assim ao mesmo tempo uma extrema independência das relações aos seus termos e – o que costuma ser negligenciado quanto ao empirismo – uma vinculação entre o espírito e a “natureza”. Ou deveríamos colocar, entre o espírito e os dados que ele ordena, não na sua atomicidade, mas na sua ordem de entrada, por assim expressar. Por outro lado, pode-se interpretar isso mais como se a vinculação fosse entre o primitivamente acumulado e o secundariamente organizado. Esse modo de ver ou de acentuar explica aquela negligência.
Compreender o aporte simbólico, que nega essa atomicidade primitiva do dado, requer, contudo, que tenhamos sob a vista esse deslocamento, pois é algo de mesma índole que se propõe estar operando, só que, agora, não sobre o acúmulo dos dados brutos, e sim sobre um tipo de ocorrência paralela ao que habitualmente designaríamos “consciência” ou experiência sensível.
Notamos já que isso era o que estava sendo ultrapassado igualmente pelos pensadores pragmáticos e pelos psicólogos profissionais. Creio ter ficado claro que o objeto dessa recusa foi a consciência naquilo pelo que sempre vinha sendo visada como uma substância. Era nada menos do que o dualismo natureza e experiência intelectiva o que se estava negando, como se essas duas coisas fossem os atributos, as Res cartesianas. Ora, aquilo de que as ciências do humano dependeram para sua emergência foi a reversão desse paradigma, quando a animalidade do homem-expécie tornou evidente a vinculação orgânica com o meio físico como algo não simplesmente redutível ao mecanicismo da res extensa, da materialidade, mas em termos evolutivos, como chave de compreensão da existência no humano do que até então era considerado como prerrogativas do espírito, a destreza manual, a linguagem, o pensamento lógico.
Uma vez que as indagações acerca dessas prerrogativas se voltaram à psique, já se encontrando impossibilitada a abordagem substancial da consciência, ainda assim continuou-se, a princípio, a operar como se o fenômeno dessas atribuições pudesse ser descritos pertencentes a um reino particular, subjetivo, intelectivo. Continuou-se, como vimos, no quartel inicial do século XIX, a operar sobre uma vinculação da fisiologia com um objeto a descrever que seria esse reino, daí os historiadores da ciência psicológica reportarem-se a esse período inicial como “cartesiano”, isto é, dualista.
O pragmatismo emerge, pois, quando é o prosseguimento mesmo das pesquisas que invibializam esse aporte. Pois torna-se claro que um dos métodos mais profícuos para compreender o funcionamento do cérebro é a obliteração de certos constituintes normais, de modo a observar de que depende a normalidade. Numa via semelhante, ocorre a pesquisa de funcionamentos que são coextensivos aos animais e aos seres humanos.
A experiência consciente revela-se então não mais algo de algum modo uno, compacto, e sim fragmentário, composto de intervalos e orlas. Os intervalos assinalam sua descontinuidade, como o sono, o hipnotismo, os estados mórbidos – nessa época há uma intensa pesquisa do fenômeno da personalidade múltipla, assim como das anestesias histéricas. As orlas seriam aquilo de que dependem desempenhos que `a consciência surgem como seus, mas que ela mesma não pode explicar-se no ato de desempenhá-los.
O artista treinado só executa seu instrumento ou número se mantiver a consciência como que suspensa na expectação do que faz. Uma vez que o músico, como no exemplo de Wallon, se torna “consciente” do movimento das mãos, o risco de comprometer a fluidez da execução é grande. James designa por esse termo, “orla”, a margem quase-inconsciente que circunda o uso dos termos numa proposição, de modo que a expectativa de suas ligações uns aos outros está como que de antemão garantida, ainda que não se “saiba” como, no momento em que se o vivencia: o leitor em voz alta, perante um texto nunca lido anteriormente, inflexiona a voz de modo totalmente adequado a cada termo que expressa.
Assim, entre os fenômenos de obliteração dos constituintes “normais” do funcionamento consciente, estão agora esses “automatismos”, até então considerados tão integrados à Res congitans como a expressão de uma injunção muito claramente intencionada e objetivada.
Ora, o que unifica tudo isso é a noção de sistema nervoso em meio orgânico e ambiental, de onde se originam atividades mentais. Isso é agora o absolutamente contínuo, de que a experiência consciente será exemplo. O estado consciente se descreve assim como esse fluxo de sensações, impressões e concepções cujos objetos não são simplesmente o exterior, mas também o que vem de nós mesmos, em termos de atividades, reações a estímulos, sentimentos, etc. que não são “voluntários” ou autônomos, isto é, cujas leis não seriam a clareza e a distinção.
A lei de Fechner-Weber mostrava já que os estímulos só fazem sentido dentro de certos limiares de apreensão e de variação. Agora, como Wallon observa, nota-se que o fluxo sensível da consciência pode induzir o sujeito a constatar que, entre duas variáveis onde tecnicamente não pode haver constatação de resposta, há efetivamente algo que destoa, ainda que não possa explicar o quê. Ou como no exemplo de James, aquilo que parece intensamente branco num quadro onde surge circundado por objetos sombrios, numa cena ao luar pintada, permanece, na verdade, milhares de vezes menos branco, mais sombrio ou cinzento, do que uma superfície dessa cor, naturalmente iluminada pelo sol. A expressão pode parecer algo inconsistente, mas creio que traduz bem o que James quer expressar: uma cor não seria o objeto de experiência como um dado constante, definitivo, mas ocorre como o branco que é sempre o que parecer mais claro numa série de nuances de clareza.
O fluxo da consciência sensível é unificante como a atividade cerebral, mas ao mesmo tempo ele é vinculatório, induz o que somente por abstração se poderiam designar as suas “partes” ou “termos” a uma entre-expectação de sentido. Assim, a novidade é que o pragmatismo vai sustentar que as relações são tanto objetos de sensação quanto seus termos, mas que nem estes nem aquelas são dados redutíveis ao status de partes atômicas, e sim que são vivenciadas na sua conjunção contínua.
Nesse momento a enunciação de James se aproxima de modo curioso daquela de Bergson, ele também envolvido numa intensa polêmica contra o associacionismo. James libera uma notação para a visualização dessa vinculação em que consiste a experiência. Os termos que se relacionam não são dados consecutivamente como a, b, c, mas no momento em que a ocorre, ele repercute em b assim como a junção a-b irá influir no modo como expectamos e recebemos c, de modo que a notação correta seria a forma da potenciação com base em a, b e c como potências de potência. Quanto a Begson, tornou-se célebre a sua figura em cone, pelo que a ponta representando o presente, sempre traz implicado o restante da figura desde a base, como seu passado. A figura representa assim o movimento do tempo “anímico”, intenso (oposto a extenso ou físico).
Nessa pressuposição pragmática, porém, é simplesmente todo o aporte tradicional do problema do significado que teve que ser deixado de lado, pois, conforme Dewey enfatizou, ele vinha dependendo da impressão completamente falaciosa de que existe algo, no indivíduo “auto-suficiente”, capaz de apreender “observações e idéias que possuem uma existência prévia”, como que independentes.
O discurso seria, assim, apenas um meio na emissão desses elementos “percepções, sentimentos e pensamentos que são totalmente anteriores à linguagem”. O significado seria esse resíduo lógico do que no real permanece único, autônomo, independente, imutável. O solilóquio está, nesse modelo tradicional de pensar, posto como a realidade primitiva do espírito, sobre o que se tem apenas que mostrar como se apresenta e se relaciona com o real.
O que já Peirce havia demonstrado ser falacioso, ao notar que o que se desempenha na comunicação é linguagem, uma ordenação de signos com estrutura autônoma, um sistema ou automatismo, poderíamos colocar. A intensa penetração do pensamento de Peirce se deve a que ele mostrou que essa ordenação pode ser tão regular quanto é automática. Ela se constitui tendo como objeto as possibilidades de operação semiótica, assim como no empirismo primitivo ocorria com a elaboração reflexiva sobre o acúmulo de dados fixados no espírito. Após esse período inicial, a psicologia se esforçará para superar a atração do automatismo, como veremos.
Mas permanecendo no parâmetro considerado, de emergência do pragmatismo, enquanto nesse aporte primitivo o acúmulo dos dados mostrava ao espírito que eles eram sempre recebidos conforme uma ordenação relativa, por exemplo, contíguos ou não, sempre contíguos ou apenas por vezes, agora é o funcionamento sígnico, na sua autonomia, que aparece sempre conforme certas possibilidades: os signos podem ser expressivos de qualidades puras, ou estar unidos por uma vinculação relacional, ou então ser expressivos de um modo de vinculação invariável. Respectivamente teríamos o que Peirce designou as categorias semióticas de primeiridade, secundidade, terceiridade.
A primeiridade veicula o signo “puro”, assim como tradicionalmente se considerou o “significado” ou “essência”, agora manifestamente uma abstração do ponto de vista da experiência, mas o elemento operativo, do ponto de vista estrito do sistema semiótico. Corresponde, portanto, ao que se designa habitualmente o sentimento ou a sensação. A secundidade já correponderia, assim, ao fato, pois este articula uma ação ou resistência entre os elementos que conjuga. Na terceiridade encontramos as leis, como as formas de relação constantes que se deduzem dos fatos enquanto possibilidades de conjugação de elementos. Na fisiologia as três categorias corresponderiam à excitação da célula, à emissão do impulso nervoso e ao hábito.
É importante notar que não ocorre consideração da experiência consciente como simples epifenômeno do funcionamento fisiológico, pois, em termos de conteúdo, aquela não se explica por este. James utiliza as expressões “psicose” e “neurose” para denotar o ato expressivo da consciência e o ato fisiológico do cérebro. Mas que a relação entre ambos não se reduz ao epifenomênico não significa que não seja algo básico daquilo que designamos vida psíquica.
A regularidade da linguagem é, assim, agora, aquela que Peirce logrou definir de um funcionamento, de modo algum da experiência no sentido da Razão. Podemos notar que sua “faneroscopia” tem, como Bogomólov assinalou, “impressionante semelhança com a idéia básica da fenomenologia de Husserl”, mas é preciso salientar não somente que lhe é precedente como também que “Husserl não teve conhecimento dela”. Ora, a meu ver, a irredutibilidade se revela bem maior quando lembramos que Husserl pretendeu estar descrevendo, com as leis do fenômeno, ao mesmo tempo, as leis da consciência como do Real.
Nesse sentido ele fica bem dentro da tradição do racionalismo clássico, apenas tendo tido o cuidado de solver as Res numa só continuidade transcendental. É certo que as essências que se atingem por meio da redução do que há de fortuito ou empírico na vivência do fenômeno não são independentes do ato da consciência pelo que ela constitui significado, e assim poderíamos ter a impressão de que é a “experiência” mesma que se atingiu com o transcendental, mas a questão é que esse ato está muito longe da prática assim como a compreende o pragmatismo.
Esta integra o corpo e esses automatismos, esses funcionamentos independentes que, no entanto, vão envolver o ambiente e a interação em sociedade. Mas, principalmente, integra a multiplicidade ou Caosmos, enquanto a fenomenologia, mesmo quando, bem depois de Husserl, pretendeu localizar os a priori de corpo e linguagem, lida sempre com a essência. Ora, a prática não resulta, no aporte pragmático, como uma limitação da multiplicidade que seria, enquanto limite, o finalmente uno. Ela é o que está Entre, não “sobre”. Assim a prática abole o “sujeito”, como o “objeto”, mas também o “significado” puro, para poder se endereçar à compreensão na sua complexidade.
Mas desse modo, como não cessa de acentuar James, a coerência é um requisito da experiência, pois as idéias, na sua entrevinculação, exibem absoluta necessidade de ancorar sua aceitação à acomodação com o que já se acolheu, de modo que ou a idéia muda pressupostos na base de que estes não estavam solidamente unidos, e assim opera na seleção daquilo a que se deve renunciar e do que se deve então afirmar, ou não se pode convir no seu conteúdo.
Contudo, talvez se pudesse recobrar algo do sentido que Zazzo, assim como colocou Cosnier, pretendeu iluminar ao situar historicamente a fenomenologia na tendência geral desse segundo período do desenvolvimento da psicologia. Pois, em todo caso, trata-se de tentar ultrapassar o dualismo pela conceituação da experiência como algo vinculatório e pessoal. Assim, não obstante haver no pragmatismo, como na psicologia experimental, como vimos, a impugnação da legitimidade de se considerar o ego como algo básico ou dado primitivo, condição de qualquer estado de consciência, James não deixa de notar que onde a consciência se faz como experiência contínua ela tende a apresentar um caráter pessoal.
Mas ocorre então que, não obstante essa localização na tendência geral, a fenomenologia tomou por básico, como notou Wallon, algo já bem dependente de fatores ulteriores como a estabilidade do fenômeno consciente ou a existência de uma relação de comunicação com outrem, para retornar a um modelo epistemológico que é o que no pragmatismo e na psicanálise está em vias de superação.
Creio ser importante notar isso porque não é somente na filosofia e na teoria do conhecimento que essa volta foi tentada, o que se exemplifica ao observar o modo como Wallon reporta o desacordo de Jung com Freud. Ora, Jung novamente desenvolve uma estratificação da psique nos termos do que seriam estágios últimos, constantes, que iriam traduzir na formação do inconsciente individual o percurso filogenético evolutivo. Epistemologicamente torna-se assim a lidar com significados bem separáveis e definíveis, quando o que agora se mostra como inovação é a aptidão a compreender interações, contínuos, práticas que conjugam sistemas muito variados na sua autonomia. Se os sistemas são autônomos, “inconscientes”, a experiência é sempre plural, no sentido de agenciar relações entre eles, não podendo se compreender o que ocorre na base de uma descrição pontual de cada “significação” a qual ela iria estar atualizando. Mas ocorre então que, não obstante essa localização na tendência geral, a fenomenologia tomou por básico, como notou Wallon, algo já bem dependente de fatores ulteriores como a estabilidade do fenômeno consciente ou a existência de uma relação de comunicação com outrem, para retornar a um modelo epistemológico que é o que no pragmatismo e na psicanálise está em vias de superação.
Parece-me que, de modo geral, todo o período de proximidade da guerra nazista foi marcado por um viés um tanto formal, desenvolvendo-se como uma reificação sobre os ares aventurosos que impulsionam as descobertas desde a transição ao novo século até o contexto da década de vinte.
Ainda nesse contexto de transição, após o deslocamento do campo de descrição das regularidades, operado por Peirce, James ampliou sobremaneira o alcance do pragmatismo, mostrando a extensão de suas conseqüências.Nesse cenário a polêmica mais representativa fica sendo a que se contrasta ao idealismo absoluto de Bradley. Este negava qualquer critério de objetividade dos juízos formulados pelo intelecto humano, como a interação prática com o real de que resulta a utilidade dos pragmáticos, ou a invariabilidade da experiência dos empiristas.
O idealismo atribui ao conhecimento “discursivo” apenas um saber relativo à aparência, de modo que Bradley chega a negar, ao modo dos antigos megáricos, a possibilidade da predicação que envolve sempre alguma relação postulável como real. Conforme James reporta, ele argumentava na base de que “o livro está sobre a cadeira” e “o livro está na estante” não poderia ser sustentado do mesmo livro, o que repõe a antiga polêmica acerca da mesmidade ou não de Sócrates e Sócrates sentado.
O que o idealismo pretendeu com essa crítica dos conceitos foi uma revalorização do Absoluto, pelo que, conforme Duchesnau “o despedaçamento da verdadeira realidade em realidades finitas, unidas por relações, só é uma visão ilusória”, o Real efetivamente sendo apenas o Absoluto que “integra a totalidade de suas aparências e reabsorve as contradições internas” que surgem quando pensamos por meio desses conceitos fragmentados. Assim, só o Absoluto poderia ser “intrinsecamente verdadeiro”.
James contra-argumenta a Bradley mostrando que o critério de verdadeiro precisa ser definido de um modo aceitável na prática, já que a argumentação idealista parece ignorá-la como se isso fosse um procedimento que, uma vez aceito, facultasse o prosseguimento da argumentação. Contudo, qualquer teorização do real deve mostrar a validez das práticas que nele se exercem, o que o idealismo simplesmente, após ignorar, nega na sua verdade de aplicação. Como se, para evitar o trabalho de compreender algo, apenas precisássemos etiquetá-lo como aparente, não obstante sua persistência e plena vigência inclusive como uma prática daquele mesmo que o ignora e nega. A polêmica, quanto a James, se desenvolve porém mais no sentido de uma oportunidade para explicitar a doutrina pragmática das relações como sendo elas mesmas objetos de sensação.
Os textos de James são particularmente instrutivos quanto à penetração das ciências do humano na reflexão filosófica, o que se pode verificar por sua proximidade com a psicologia. Com Dewey, porém, ocorre uma aplicação epistemológica bastante ampla, cuja pertinência ao pensamento social se tornará um ponto importante de apreciação.
Dewey e Mead
I -
Entre os anos vinte e trinta ocorre uma reorientação dessa tendência que vimos ter surgido de modo a reverter o paradigma positivista cuja ambiência a estética parnasiana caracteriza tão bem. Já notamos que essa reversão não abrange apenas, como de costume, aquilo que recusa como o trend que lhe é imediatamente anterior e com o que permanece mais ou menos relacionada. Trata-se de uma mudança histórica considerável, pois assinala o que efetivamente se coloca, em termos de pensamento humano, como irredutível à epistemologia da representação que vinha sendo determinante na totalidade da época moderna.
Contudo, nesse momento que estamos considerando, a epistemologia do simbólico envereda pelos novos caminhos do social. Podemos observar essa transição, por exemplo, na psicologia. Lembrando que Cosnier havia selecionado o epíteto “revolução” ao behaviorismo, focalizamos a convergência de sua motivação teórica ao pragmatismo. Tratava-se de ultrapassar a noção substancialista da consciência. Mas isso era feito no behaviorismo de modo que todos os influxos que pudessem ser dados numa base de interioridade, de subjetividade, se subsumiam em prol do observável. Se Cosnier enfatizou a necessidade de se relacionar essa revolução na teoria psicológica com a evolução concomitante em ciência, filosofia e sociedade ocidental, Ray Hyman ("Natureza da investigação psicológica") descreveu a emergência da teorização de Watson, nos EUA, não apenas como uma ruptura com os métodos de introspecção praticados até então, mas como se a psicologia houvesse incorporado um “programa militante”, pelo que se tornava “uma ciência natural”, e isso na exata medida em que não se ocuparia da experiência subjetiva e particular. Mas, sim, “focalizaria apenas o que pudesse ser observado enquanto os organismos se empenham em resolver problemas, dominar quebra-cabeças e reagir a estímulos”. O “comportamento” seria então “coisas como as reações glandulares e musculares a estímulos externos”. A incorporação das experiências de Pavlov à pesquisa behaviorista seria bastante esperável.
Freqüentemente isso é descrito pelos historiadores da psicologia do seguinte modo: os dados subjetivos foram reduzidos pelo behaviorismo a uma caixa preta interposta entre o estímulo e a resposta, estes, somente, observáveis.
Em cibernética a caixa preta é aquele construto que o engenheiro precisa descrever no seu funcionamento, porém sem que lhe seja facultado observar o interior. Nessas condições, tudo o que o profissional pode empreender são recursos que ele faz intervir para descrever o comportamento que então se efetiva. Conforme Ross Ashby ("Cibernética"):
“O Problema da Caixa Preta surgiu na eletrotécnica. É dado ao engenheiro uma caixa lacrada com terminais de entrada, aos quais pode aplicar quaisquer voltagens, choques ou outras pertubações que quiser, e terminais de saída, a partir dos quais pode observar o que puder. O engenheiro deve deduzir o que puder do seu conteúdo”.
O behaviorismo, implementando-se na obra de Watson, desde a década de 10, dado o seu comprometimento com a psicologia animal, foi também designada “psicologia ER”, de estímulo-reação, que se costuma esquematizar do seguinte modo:
( O espaço do blog não comporta a imagem correspondente, que se compõe de uma seta simbolizando os dados de "Estímulo", um quadrado representando a caixa preta que simboliza o "organismo", e uma seta subsequente simbolizando os dados de "Resposta").
Assim, organismo e interioridade são para Watson, conforme Cosnier, do domínio da biologia, lembrando que até então a consciência era tratada pela psicologia como função da pesquisa fisiológica. Somente se reservam agora à competência do estudo psicológico as reações orgânicas numa certa situação. A finalidade do psicólogo behaviorista seria descrever as leis que ligam essa situação às reações, construindo eventualmente modelos, preferencialmente matemáticos.
O desenvolvimento do “behaviorismo”, teorização exclusiva do comportamento, se implementou inicialmente no sentido de uma reincorporação controlada dos componentes “interiores”, como informações referentes ao domínio orgânico na sua relação com o meio, o que se pode exemplificar com o conceito de propositividade de Tolman, onde se procurou conceituar a conduta pressupondo que ela sempre se relaciona a algum objetivo. Ou seja, tudo o que fosse dominio mental ou subjetivo, estava descartado, com somenta o observável sendo equacionado pertinente à psicologia. Gradualmente, a redução do organismo e interioridade ao observável foi se mostrando problemática ao objetivo de manter a definição do behaviorismo na base única de estímulo e resposta.
Essa viragem de Tolman pode ser adequadamente visada na moldura mais geral da época, por exemplo, quando constatamos que o próprio neopositivismo do círculo de Viena estava tendo que evoluir de uma posição estritamente objetivista como a de Schlick, onde o único critério de sentido era a verificação experimental, para uma problematização mais abrangente do que pode sustentar o conceito de verificabilidade. Ela também está bem ambientada num circuito filosófico que abrange, como deveremos constatar, a polêmica do pragmatismo com o neo-realismo e o realismo crítico, onde a noção de organismo se torna central.
Mas a ruptura mais decisiva se encontra subseqüentemente, quando o objetivismo behaviorista, até aqui de um modo ou outro garantido na base do observacional, intercepta a temática da abrangência social do comportamento. Entre os anos 30 e 40 surge a Teoria da Aprendizagem Social.
Conforme Antonio Pena (Introdução à História da Psicologia Contemporânea) a "Teoria" se demarca sob inflência de Clarck Hull, cuja contribuição, subseqüente ao impacto causado pelo trabalho – e pela personalidade, conforme Cosnier – de Watson, enfatizou as possibilidades de convergência da pesquisa comportamental com a focalização psicanalítica. Mas também haveria o influxo da antropologia cultural, o que mostra que a essa altura o behaviorismo já havia renunciado a uma atribuição exclusivamente “natural”, recolocando-se na sua vocação ao “humano”.
Surge assim, conforme Pena, no contexto mesmo do movimento behaviorista essa “Teoria" que teria, de Miller a Dollar, e depois, de Bandura a Walters, colocado como central o tema que vinha sendo por excelência objeto da psicologia social como na abordagem de Mc Dougall, o da imitação. Enquanto que a vinculação dessa corrente à problematização psicanalítica é sugerida pela ênfase no outro tema que caracteriza o novo aporte de aproximação comportamental, aquele da agressividade.
O que demarca a apropriação psicológica desses tópicos é a abordagem experimental, onde as decisões teóricas precisam ser suportadas pela evidência induzida. Por exemplo, a questão de saber se a tendência à imitação é algo inato ou adquirido foi atrelada à programação do labirinto, onde um modelo ou guia era treinado no sentido da escolha de uma das pistas, outros animais sendo introduzidos então para ver se a tendência a reproduzir o comportamento do guia era geral ou não. Ou, quando a questão era resolver o que é que o rato aprende, reações musculares, como acreditava Watson, ou o “lugar” do labirinto onde estava a comida, como pensava Tolman, e o procedimento se tornou a alteração fisiológica dos animais observados na situação experimental.
Se bem que o modo como tais questões foram colocadas nesse momento inicial pareceu, depois, a razão de ser desses dilemas, que num outro aporte aproximativo envolvendo programação experimental e abordagens teóricas mais adequadas puderam se provar não adequadamente orientadas, o que importa por ora é notar a imitação e a agressão como temas da Teoria da Aprendizagem Social que trouxe à focalização o problema da linguagem e se desenvolveu quando a pesquisa behaviorista se voltou em nível humano.
Seria bom apenas colocar, quanto à questão da imitação, que o desenvolvimento das pesquisas conduziu a ver a relação entre o inato e o adquirido de modo não tão simplesmente opositivo. Hyman registra que, posteriormente a essas aproximações iniciais, as pesquisas de Restle parecem ter sido conclusivas quanto ao fato de que os ratos não aprendem, somente, nem o lugar, nem a resposta muscular, mas sim todas as pistas relevantes, de modo que é a capacidade de saber o que é relevante ou não o que se torna o real teor de sua aquisição.
A problemática assim destinada em termos de linguagem, se tornou decisiva, por exemplo, na teorização de Wigotsky e Luria, como sublinhou Pena, de modo que se pode compreender como sua abrangência penetrou o mais amplamente, desde que evolui a problemátia da cognição e do comportamento na perspectiva social.
A apresentação desses temas que marcam o desenvolvimento da psicologia no início do século XX está aqui somente delineada, sendo necessário uma aproximação bem mais minuciosa, que espero apresentar mais à frente, para estender uma compreensão adequada do se propõe na sua abrangência. A colocação nesse momento, porém, se revela útil para mostrar como o instrumentalismo de Dewey, que veremos estender-se desde uma circunscrição mais epistemológica a amplas conseqüências em ética e política, só poderá ser devidamente conceituado na vizinhança dessa temática.
II -
O modo como Dewey faz derivar o eixo de argumentação pragmático a uma ênfase social pode ser visado no seu texto “Natureza, comunicação e significado” (Experiência e Natureza, cap. V). Aqui ele mostra como a linguagem se revelou até então pouco atrativa como tópico do pensamento filosófico, ao tempo em que são “os antropólogos, filólogos e psicólogos” os que mais têm o que apresentar com relação ao tema. Ele se propõe aprofundar a perspectiva da importância da linguagem, ao deslocar a sua caracterização, como o que diferencia animalidade e humanidade, desde a que designou externa àquela que considera interna.
A caracterização externa teria sido a que esses cientistas do humano puderam se ater. Aqui, como na conduta do cesto enunciada por Janet enquanto uma aptidão da criança que jamais o animal apresenta, pela qual coisas desordenadas podem ser reunidas em um recipiente, citada por Bachelard em outro contexto, Dewey exemplifica os dois traços essenciais humanos notados por Franz Boas: ele tem “fala organizada e articulada”, ele utiliza “utensílios de variada aplicação”. Contudo, o que seria uma caracterização interna deveria abranger a “conexão íntima” entre esses dois traços externos e prerrogativas intrínsecas como a arte e a ciência, a religião e a indústria, etc. Ora, o que poderia articular a linguagem com essas notas da prática humana, já que os utensílios são facilmente acomodados na abrangência de tudo o que é utilitário, como a arte, o conhecimento sobre o mundo e a ciência, seria então mostrar que tudo o mais, incluindo as utilizações possíveis, está vinculado a sugestões, registros e direcionamentos “tornados possíveis pelo falar”.
Dewey se põe a descrever a imagem que se tem habitualmente da linguagem, na sua dependência ao significado suposto uno, prévio, para mostrar que desse modo não se poderia estabelecer a conexão almejada. Assim, o que se compreende é que esses supostos resíduos essenciais, simples ou primitivos da corrente da experiência, o que até aqui vinha sendo de um modo ou de outro considerado o real com que lidamos, são eles mesmos dependentes do modo como a linguagem se organiza em torno de substantivos, verbos, partículas de ligação. Não são “as” realidades do pensamento que traduziriam a verdade das coisas, mas resultam da maneira como a linguagem se articula.
A grande ilusão aqui, isso desde os gregos, foi ter tomado a estrutura do discurso como um decalque da estrutura das coisas. Se bem que Dewey não reporta a singularidade do pensamento sofístico e retórico, quanto a isso, creio que sua proposição capta bem o que ocorre. A novidade é que o suposto como o significado, e que está na corrente de uma prática comunicativa, resulta de agenciamentos sociais, não pontuais, mas como termos de “uma história complexa”. Em vez de um mundo “separado e privado feito de sensações, imagens, sentimentos”, conforme a perspectiva habitual dos modernos, mas também em vez do decalque neutro das coisas pelo discurso, conforme o vezo grego, teríamos que lidar com o sentido assim como com “uma obra de arte social”.
Conforme ele registra, “a significação das essências lógicas e racionais é a conseqüência nas interações sociais, no convívio”, de modo que jamais ocorre que a correspondência entre coisas e significados possa ser anterior à linguagem e ao intercurso social. Nosso uso particular da linguagem, por exemplo, no solilóquio, nós o aprendemos com os outros. Não subsiste qualquer primeiro instante de introdução no social, mas estamos sempre em um meio de interações e comunicações, onde não cessam de proliferar relações de todo tipo. As palavras são como moedas, enquanto que os valores socialmente mediados são como o dinheiro, na metáfora de Dewey.
Lembramos aqui a definição do não-senso, que James observou também. Uma vez que o falante se abandona ao livre curso das palavras, como se valessem por si, não por seus valores, surge o não-sentido – James exemplifica com certas construções demasiado complexas de Hegel, ou, alhures, com as discussões acerca de temas cuja decisão nada altera no plano dos fatos. Algo exemplificado por Russel, ainda que sua abordagem não coincida com os pragmatistas, e sim mais com os positivistas lógicos: se alguém realmente acreditasse no livre arbítrio, tanto quanto costuma defendê-lo ardorosamente, jamais iria postar uma carta, pois o carteiro poderia ou não querer comparecer ao emprego amanhã, nem contar com serviços públicos, pois ninguém têm garantias quanto ao cumprimento do dever cotidiano por parte dos outros, etc.
O conhecimento, nessa perpectiva pragmática, seria então mediado. Nessa época, assim como o próprio Dewey nota no texto que estamos considerando, onde reporta sua polêmica com “o neo-realista inglês, com seus dados atômicos elementares” e com “o neo-realista americano, com suas essências pré-fabricadas”, esse ponto era objeto de intensa controvérsia. Focalizando-o, temos como posicionar a confrontação teórica enfrentada por Dewey, como vimos ser o caso de James com relação ao idealismo absoluto.
Temos portanto que no contexto deweyano o pragmatismo se opõe a esses dois movimentos importantes, o neo-realismo de Perry, Montague, e, eminentemente, Whitehead, por um lado; e o realismo crítico de Lovejoy, Pratt, Santayana, Sellars e Strong, por outro. Assim como Dewey, o realismo crítico aceita a mediação do conhecimento real, enquanto que o neo-realismo o nega. Mas essa aceitação pelos realistas críticos envolve uma recusa do pragmatismo, por seus adeptos acusado de ser um simples subjetivismo.
O neo-realismo postulou, como Perry, a “imanência do independente”, isto é, a autonomia do objeto do conhecimento em relação à consciência, mas essse objeto seria imediatamente cognoscível por ser ele mesmo idéia. Nessa tendência platônica há um intuito recorrente no sentido de se por de um modo sintetizante todos os influxos teóricos do passado, fazê-los coincidentes com uma filosofia inovadora somente ela adequada ao contexto científico contemporâneo, assim como expressou enfaticamente Whitehead. Essa seria a filosofia do organismo.
O Real é postulado como algo que possui estrutura, dinamismo, coerência, mutabilidade essencial interna, isto é, como o organismo. Assim, tudo na realidade se processa como nas sínteses orgânicas, onde o que resulta é sempre algo mais do que a simples soma das partes. Ao uno e múltiplo da tradição, é preciso acrescentar o Novo, ou Criativo, processo da junção do múltiplo no uno criando esse algo novo, irredutível às partes componentes.A filosofia especulativa se torna então uma cosmologia, abrangendo o sistema necessário de idéias comuns apto a interpretar cada elemento da experiência, onde a constante é a compertinência de dois aspectos, o racional (coerência, lógica) e o empírico (aplicabilidade, adequabilidade). A unidade desses aspectos seria garantida por certa essência universal, como a necessidade lógica da universalidade empírica. Whitehead distingue duas categorias existenciais, a Essência Real e os Objetos Eternos. Aquela seria o domínio das coisas, da experiência e das funções, esta abrange os universais, como a brancura, a humanidade, etc, e as variáveis, seja de natureza matemática ou lógica.
Os objetos eternos ingressam na realidade por sua entrada na respectiva essência real. Esse princípio ontológico reza que a essência real determina o fundamento da coisa. Deus, fundamentando o absoluto, certas essências temporais o fazem com relação a certos fatos particulares. Assim, nas categorias existenciais incluem-se agora as captações , os nexos, as formas subjetivas, as proposições, as diversidades e os contrastes, como tantos modos de envolvimento das essências. Torna-se bem nítido o quanto essa perspectiva se afasta da contextualização pragmática que nada conserva que seja dado no sentido de eternidade, mas considera a significação algo sempre em mudança, em devir, pois socialmente produzida.
Quanto ao realismo crítico, apesar da proeminência de que usufrui a obra de Santayana, atenho-me à contextualização de Roy Sellars que considero especialmente representativa do movimento como um todo. A polêmica com os neo-realistas surge desde que a noção de conhecimento imediato parece contraditada pela diversidade de experiências e irredutibilidade da experiência pessoal à de outrem. Ora, é agora a abrangência epistemológica no domínio orgânico mesmo que se volta contra a teorização imediatista, já que, como os realistas críticos antepõem, a natureza da percepção é ser transmitida como energia a certa velocidade do objeto ao sujeito. Como as estrelas, ela não pode ser considerada imediatamente apreendida.
Assim, o realismo crítico solve a antiga noção de idéia para ater-se à percepção e seu correlato cognitivo, o objeto. A essência somente seria algo imediato como inexistencial, frente ao objeto e o conteúdo do conhecimento, existenciais. Ora, a essência é produzida como signo, na relação imanente do conhecimento. Portanto, se ela retém alguma realidade ontológica, esta deve ser portada pelo evento psíquico. O subjetivismo é negado, ao mesmo tempo em que, conforme Sellars, não persiste qualquer redução do real ao sensível. O processo gnoseológico seria então:
. objeto físico → percepção consciente → relação entre ambos (interligação de conteúdo da
consciência e objeto).
= Estimulação do sn pelo objeto
percepção =
= Resposta do sn: formação das sensações e correlação inversa destas com o objeto
= Resposta do sn: formação das sensações e correlação inversa destas com o objeto
A negação do fenomenalismo e do idealismo procede de que a percepção controlada pelo objeto através da sensação o reflete, o caracteriza ao dotá-lo de qualidades e o simboliza, mas as sensações não “pertencem” ao objeto. Quanto ao dualismo e ao behaviorismo, Sellars também os denega, agora com base na afirmação do cérebro como órgão da consciência, abrigando em seus centros a sensação e a percepção, traços ou funções do processo cerebral. Nesse ponto, ele concede “absoluta razão” a “Engels e Lenin”, naquilo pelo que consideraram “que as sensações são, em certo sentido, reflexo das coisas”.
A reflexão perceptiva não se limita a algo passivo, Sellars abrangendo a prática como instância de produção do que se coloca em termos de verdade, naquilo pelo que se agenciam as respostas possíveis do esquema perceptivo.Bogomólov, que a princípio objeta a Sellars a inadequação de sua teoria à instância prática, precisa estender a crítica no sentido de que esta só seria considerada adequada à perspectiva revolucionária se fosse definida como adesão ao processo do desenvolvimento do materialismo, de modo que qualquer teorização da cognição deveria suportar uma instância de sua correspondência à contestação da sociedade de classes capitalista. Asim, “conceber a prática à maneira marxista significa aderir à concepção integral do mundo do materialismo marxista”.
Creio que esse pressuposto da ortodoxia leninista se mostra demasiadamente vinculado a uma concepção do real que nunca pôde ser suficientemente demonstrada. Contudo, o que Bogomólov conclui, acertadamente, acerca de Sellars, é que sua teorização se encaminhou no sentido de um “naturalismo”, onde somente a natureza é considerada como o Real todo-abrangente.
Sellars conceituou, porém, o seu naturalismo como sendo irredutível ao materialismo, devido a que este seria apenas um oposto à concepção idealista, sustentação da matéria versus afirmação do espírito, quando o que ele mesmo supõe é a realidade única da natureza. Bogomólov salientou que esse materialismo recusado não é sinônimo do materialismo per se, mas apenas a ideologia científica do século XIX, que Sellars confutou como mecanicista e pré-evolucionista. Assim, a despeito do que ele considerava estar negando, sua perspectiva se manteve materialista, ainda que não dialética ou estritamente marxista. A inadequação de Sellars em lidar com esses rótulos teria sido, portanto, total. Por um lado, pensou-se marxista, onde não havia sido, por outro, recusou o materialismo, ali onde jamais rompeu com seus pressupostos.
Bogomólov tenta mostrar, ao mesmo tempo, que a doutrinação revolucionária ortodoxa do marxismo não corresponde ao conteúdo criticado por Sellars, e que este, tampouco, atingiu verdadeiramente as suas conseqüencias, de modo que jamais apreendeu o nexo entre os materialismos histórico e dialético, limitando-se a ver o processo evolutivo como dinamismo ou “emergência”, recusando a lei da transformação da mudanças quantitativas em qualitativas como algo restrito ao hegelianismo. No conjunto, creio que a preciosa contribuição de Bogomólov à apreciação da história do pensamento está mais nas exposições que fornece do que nos julgamentos ortodoxosa que submete os autores que apresenta.
Assim, vemos que ele nota com muita oportunidade que o naturalismo foi considerado por vezes como fluxo único do pensamento americano, abrangendo, desde Dewey e o neo-realismo, até os teístas que afirmariam a naturalidade do sobrenatural como Frederic Woodbridge e o neopositivismo remanescente nos sixties, como em Nagel, mas que isso precisa ser adequadamente revisto, não se mostrando exato.
Ora, essa questão irá interceptar a problemática social, uma vez que o que se incluiu nesse naturalismo alargado foi nada menos do que o assim designado movimento democrático que erigiu uma espécie de socialismo americano, o que compacta uma evidente confluência com perspectivas políticas aparentemente comuns a Sellars como a Dewey.
Na verdade o que ocorre na metade inicial do século nos EUA é uma movimentação social de aspecto tão amplo que pretender unificá-la como subsumida a uma determinada tendência filosófica ou escola seria induzir a erros. O que se deve é mostrar como as variadas matizes de pensamento a ela aderiram, evidenciando-se em que um encaminhamento mais geral da vida política nesse país influenciou a obra de autores pelo modo como isso aflorou conceitualmente nessas perspectivas restritas.
Quanto a Sellars, sua teorização incluiu os valores na incorporação do objeto ao sistema humano, de modo que eles aparecem na relação percepção-juízo. A sociedade inclui algo como o “salto emergente” , desde a natureza, sempre conservando a causalidade como movimento progressivo de sistemas físicos.
Sua concepção política propugnou o socialismo democrático que deveria ampliar as oportunidades pessoais de modo a impossibilitar, progressivamente, os privilégios injustos de certos indivíduos, ao mesmo tempo em que seria esse o caminho para garantir “uma organização econômica da sociedade” que concedesse “o máximo de justiça e liberdade possíveis em qualquer tempo”, conforme Bogomólov cita do livro de Sellars “O passo seguinte da democracia”, onde se revela a influência dos Webb.
O essencial desse pensamento social que Sellars designou “humanismo naturalista” é a negação de qualquer ímpeto de transformação súbita: “A evolução racional é sempre melhor que a perturbação do proceso vital e a revolução”. Assim, parece-me claro que ele compreendeu bem o limites de sua adesão à teoria do reflexo, limitando-se ao epistemológico, enquanto recusava com clareza as implicações ontológicas e sociais na perspectiva do marxismo ortodoxo. A abrangência do seu naturalismo seria assim um meio de evitar as delimitações demasiado pressupostas dessa doutrinação dialética. Ora, deveremos observar como a prática mais abrangente da esquerda nos EUA dessa época confrontou exatamente o mesmo problema, pelo que deveria conciliar a crítica social e o ativismo com a recusa da implicação da ditadura do proletariado.
Quanto à irredutibilidade do realismo crítico ao pragmatismo deweyano, isso fica mais claro quando notamos que há uma tendência a objetivar a relação de conhecimento, o que o pragmatismo iria recusar. Não obstante a vinculação prática dessa tendência crítica, ela não resta menos “realista”, pelo que o critério pragmático muito amplo de “utilidade”, que estende não apenas o comportamento adaptativo no sentido de uma limitação à objetividade da reação, mas comporta a criatividade ou a incrível variedade do que pode se revelar usufruível do ponto de vista humano, não seria assim considerada pelo viés de uma cognição, mas tão somente de contingências vivenciais fortuitas, prazeres, fantasias, etc.
Conforme Sellars, reportando-se a Dewey, que já nessa época se tentava rotular como naturalista, o pragmatismo conserva-se apenas “uma visão pseudonaturalista que conservou demasiado do idealismo”.
Vimos que o simbólico, enquanto o elemento da linguagem, se coloca, na perspectiva de Dewey, não mais com uma possibilidade de fornecer o cálculo dos significados últimos que perfazem o mundo, e sim como o meio social de sentido. O valor não poderia ser adequadamente teorizado conforme o esquema perceptivo, que se limita à relação objeto-indivíduo, mas precisa estar numa abrangência de linguagem, portanto sempre coletiva. Ele se preocupa então, inicialmente, com a possibilidade de fornecer uma epistemologia que inclui essa pertinência ao social. Contudo, como nota Bogomólov, progressivamente Dewey se afasta dessa preocupação para favorecer exclusivamente o desenvolvimento de uma lógica da pesquisa, algo como uma lógica experimental.
O “instrumentalismo” que resultou desse intuito, evoluiu, portanto, desde um aporte mais biológico, tentando localizar a abrangência do social no intervalo adaptativo entre organismo e meio, a uma perspectiva propensa a construir uma teorização lógica completa. Dewey propõe haver, por um lado, a unidade orgânica em sua relação com o ambiente. Logo o conhecimento e seu processo se apresentam como uma tríade ativa: perturbação dessa unidade, movimento de procura do restabelecimento (pesquisa) e satisfação ou restabelecimento como resultado (verdade).
Mais geralmente o processo cognitivo se comprime na movimentação da pesquisa, como a transformação controlada de uma situação indefinida em situação definida, onde os elementos originais se reúnem e unificam. Ora, Dewey encontra na unicidade e singularidade da situação o limite da aplicação lógica. No entanto, esta é manifestamente um instrumento na pesquisa e, desde aí, ele tentará resolver o problema de postular e formular uma lógica da ciência.
Consoante sua teorização pragmática do significado, que o define em termos de “comunidade de participação” numa trama de conseqüências aceitas, não poderia haver um objeto de ciência independente, de modo que ele aceita a proposição pela qual o conhecimento cria objetos de ciência na experiência. Assim como Bentley, Dewey pensa que sujeito e objeto só existem como aspectos de uma trans-ação, não como termos independentes de um interação possível, e sim constituindo-se relacionalmente na trans-ação. Moore ilustra essa idéia mostrando que conforme Bentley e Dewey, o comedor e a comida só existem pelo ato de comer, como dois aspecto desse ato, o processo de alimentar-se.
Para contornar a irredutibilidade do singular de situação, Dewey identifica as formas relacionais das proposições da lógica aristotélica clássica a estágios específicos e sucessivos do progresso da pesquisa. É assim da perspectiva da pesquisa que se situa o experimento, em oposição à lógica-matemática e ao formalismo que iriam sustentar o inverso. O esquema seria:
= Asserções contrárias – (todo X é Y, nenhum X é Y) – servem para limitar o campo da pesquisa.
= Subcontrárias – (alguns X são Y, alguns X não são Y) – interessam porque aumentam a definição do campo já limitado pelas contrárias.
= Subalternativas (todo X é Y, alguns X são Y) – são triviais se consideradas do subordinante ao subordinado, mas são muito importantes se consideradas do subordinado ao subordinante, como quando temos que “alguns tripulantes foram salvos” e nos sentimos impelidos a investigar quantos se salvaram.
= Contraditórias (todo X é Y, alguns X não são Y) – são importantes porque seu estabelecimento é um degrau na continuidade da pesquisa no sentido do juízo definitivo.
Conforme Dewey “a inferência definitiva deve reexaminar a generalização obtida nas pesquisas primiciais. Por meio dessa modificação, a generalização se torna aplicável tanto ao velho material concreto que a confirma como ao novo, que contradiz as generalizações primiciais”.
A questão da aproximação dessa lógica experimental à dialética de Hegel, naquilo em que esta procurou captar o movimento do pensamento contra o intuito formal de fixar suas partes, tornou-se bem ventilada na época, como Bogomólov mostrou, exemplificando com a crítica de Russel e a observação de Passmore. Aqui é o caráter orgânico, englobante, da operação lógica que se torna objeto de uma crítica que pretende localizar nos tipos de generalidades o cerne das possibilidades de suas relações.
Contudo, a Bogomólov interessa mais mostrar o que separa Dewey e Hegel, já que para ele o não dialético dessa doutrina é que se torna criticável. Conforme a aproximação que o materialismo ortodoxo engendra do nexo dialético, trata-se de preservar a relação do individual, do particular e do universal, como o movimento entre o abstrato e o concreto, de modo que nenhum desses aspectos é negado em detrimento do outro. Bogomólov mostra assim que o problema das doutrinas que ele considera igualmente “idealistas” é que lidam ou com o individual ou com o universal, enquanto é preciso mostrar em que se interpenetram, onde a prática desempenha não menor papel. Mas como vimos, isso não deixa de estar, de início, supondo uma universalidade para a qual o individual vai desempenhar a função de abstrato. Ora, a meu ver, esse é o cerne do idealismo dialético que o materialismo ortodoxo jamais confronta, até porque isso comprometeria sua visão evolucionista do processo histórico que supõe pré-determinado pela produção.
O pragmatismo penetra nesse ponto para indagar não sobre qualquer universal, que se supõe ilusório ao modo de um significado stacato, mas para compreender as ligações que suscitam a univocidade do sentido aí onde - e de que modos - ele se produz.
O instrumentalismo deweyano, como vimos, define o conhecimento como um processo de reestabelecimento do equilíbrio, de modo que “podemos encontrar nos atos mais corriqueiros o protótipo do ato experimental”, conforme a expressão de Bogomólov. O caráter científico da experiência só se evidencia porque nela reforçamos os atos habituais pelos quais interagimos com o objeto, como iluminá-lo, pressioná-lo, etc., com recursos instrumentais, adaptações e aparelhos, usando mensuração precisa e outros recursos.
Conforme registra Bogomólov, essa lógica pragmaticista integra uma vasta corrente que se colocou em oposição ao desenvolvimento vertiginoso da lógica matemática no século XX e do qual Russel, como os neopositivistas do círculo de Viena, é um expoente. Tratava-se no pragmatismo, e isso cada vez mais enquanto o panorama das duas guerras se descortinava, de captar a experiência precisamente naquilo em que ela é irredutível às operações lógico-formais. Mas nessa via, já num momento mais tardio de sua carreira, Dewey problematizou amplamente temas filosóficos que ele considerava ainda irresolvidos, mais estritamente a problemática social.
Vimos que no início de sua teorização epistemológica ele havia tentado interpenetrar o social numa teoria da cognição, o que se verificou através da compreensão da linguagem como meio de sentido. Mas agora tratava-se de uma ambiciosa centragem no instrumentalismo como uma teoria ampla, apta a fornecer contextualizações adequadas não somente do ponto de vista epistêmico. Assim, deveria ser exeqüível também uma ética e uma religião “instrumentais”. Mas aqui o desenvolvimento da obra de Dewey não poderia ser adequadamente visado sem que se observasse concomitantemente, tanto quanto o tópico da influência de Mead, a sua participação no cenário social norte-americano.
III -
Ao apresentar a guinada de Dewey à problematização social, Bogomólov detecta o que designa como a “função ideológica”, algo que seria comum aos pensadores burgueses, no seu idealismo, e que se pode conceituar como aquela relação que sentem ser preciso estabelecer entre um credo político e o que seria a verdadeira natureza do humano.
Mesmo que a dificuldade de atribuir a Dewey a intenção de atingir qualquer coisa como uma “natureza” no sentido de uma essência possa ser colocado como real obstáculo a esse tipo redutor de contextualização da teorização social do pragmatismo nessa época, resta que a alternativa que Bogomólov apresenta não me parece, paradoxalmente, menos “idealista”. Ele afirma assim que, devido à evidente fraqueza dessa colocação, já que embutidos na verdadeira natureza do humano sempre estão os preconceitos classistas do teórico, o marxismo ortodoxo resolveu o assunto liquidando com a questão do caráter fundamental do humano para postular apenas o andamento material que interliga natureza e história por via da dialética e mostrando que essa pretensa natureza resulta do conjunto de relações sociais que se formam historicamente.Ora, por esse meio, uma vez que a dialética não pode ser comprovada cientificamente, ainda que isso figure como o pressuposto básico da ortodoxia, a prática política se vê atrelada a um determinismo ainda mais preocupante do que os meros preconceitos acerca do que é o homem. Aqui ainda há espaço para que se ventilem atribuições e aspirações não meramente designáveis pela lógica da classe, o pensador estando, como geralmente é o caso, interessado em abranger algo como uma generalidade que deve assim ultrapassar o seu próprio circuito de status. Mas sem dúvida seria mais proveitoso abandonar uma tal perspectiva da “natureza”, humana ou dialética, para localizar a problematização social na sua efetividade histórica, nas práticas que se revelam atuantes.
Mas isso corresponde ao que o pragmatismo pretendeu. Bogomólov, após notar que Dewey se opôs explicitamente a desenvolver o tema partindo do ponto de vista de uma qualquer “imutabilidade” que seria da natureza do humano, considerando-a uma invenção destinada a atribuir ao “caduco Adão” - conforme a expressão de Dewey - a responsabilidade pelo conservadorismo das instituições, pensa que, ainda assim, seria possível rastrear nele a intenção de enunciar o que seria a “natureza primitiva do homem”.
A contradição que Bogomólov destaca dos escritos deweyanos – alhures ele se expressa em termos de que não considera “que as necessidades inatas dos homens tenham mudado desde que o homem tornou-se homem” – me parece esclarecer-se, se focalizarmos os dois sentidos pelo que se pode utilizar o termo “natureza” na contextualização humana.
Num caso podemos supô-la como uma tendência a ser efetivada desde que determinados atributos possam ser definidos de antemão. Nessa linha raciocinava o positivismo evolucionista do século XIX. Mas no outro trata-se de procurar o que é inato e o que é adquirido para estipular exatamente o salto entre “as formas sociais entrelaçadas no material da atividade instintiva do homem”, na expressão de Dewey. Essa atividade é invariável, mas aquelas formas, não. Creio que essa contextualização de seu pensamento social está bem historicamente amalgamada ao que vimos estar se desenvolvendo, concomitantemente, nas ciências do humano.
Ao colocar desse modo a tarefa de compreender a problemática social, o tema se torna o comportamento agressivo e sua relação com a guerra. Esta seria inconcebível sem aquele, mas não pré-determinada por ele, pois “a ira, a disposição de luta, a concorrência, a vontade de exibir-se e outras tendências hostis” podem – e devem, no vir a ser indeterminado das sociedades – veicular-se por inúmeros outros modos. Outro questionamento, que não seria preciso colocar agora, seria referente a até que ponto essa partição do inato e do adquirido permanece legítima.
Bogomólov nota com clareza, porém, a que essa conceitualização pretende conduzir. Há assim as oposições entre o que é inato ao homem e o que é formalizado pelo social. Ora, no intervalo do que se opõe resta o espaço de manobra para intervir eficazmente no vir a ser comunitário. Ele ironiza. O “parteiro” instrumentalista desse novo mundo humano “esquece inteiramente que os partos são sempre uma comoção”. Com efeito, conforme a citação de Dewey, o novo estado de coisas deve se produzir “com o mínimo de comoções e desordens”.
Logo, o que deverá fazer intervir a mudança é a transformação do particular, da pessoa, pela educação e desenvolvimento da personalidade. Nessa via coloca-se a necessidade de ampliar o questionamento das relações entre o homem e a sociedade, pois se compreendemos o que os opõe, devemos agora localizar a sua interconexão, já que é o humano enquanto pessoa, o “indivíduo isolado”, que deve conduzir a modulação do social. E aquui Bogomólov encontra a influência de Mead sobre o pensamento de Dewey.
Vemos que Mead também faz intervir a linguagem como fator crucial no endereçamento dessa questão. Mas isso poderia ser atribuído igualmente a Dewey, ou mesmo ter vindo de Peirce. O que me parece original em Mead é que, não obstante a diferenciação que lançou sobre a teoria do sujeito poder ser abundantemente rastreada na contextualização da época, por exemplo nas “Duas fontes da moral e da religião” de Bergson ou no “paradoxo fundamental” da consciência tematizado por Royce, sua colocação se posiciona de modo inovador no campo do problema da imitação que estava concomitantemente se colocando na psicologia, notadamente a social.
Assim, se o que Mead afirma é que para si mesmo o ser humano não se concebe como um “Eu propriamente dito”, mas tão somente como um "Eu objetado”, conforme enuncia Bogomólov, o elemento chave aqui é a Reflexão, intervindo na dinâmica da formação do Self mas de modo que é o Socius que se interpõe como fator desencadeador do processo. A imitação se desloca na simplicidade do seu posicionamento behaviorista, onde se lidava apenas com uma fonte de estímulo, o guia, e uma fonte de resposta, o indivíduo que o segue ou não. Pela época da influência de Mead, já estava em curso mesmo no behaviorismo a noção dos fatores intervenientes, de Tolman, como fatores cognitivos, afetivos ou emocionais, e Cosnier designa mesmo sua teorização como um “operacionismo”. Aqui não são apenas as variáveis independentes controladas pelo experimentador (situação ou estímulo) e dependentes (reações ou respostas) que devem entrar na formulação do comportamente, mas também as intervenientes (organismo, sujeito, personalidade).
É forçoso, para compreender o processo de constituição de uma consciência social ao modo de Mead, fazer intervir uma interligação reflexiva entre ambos os fatores a que na problematização da imitação se havia limitado a observação, o guia e os (re ?)-produtores da ação. É isso que permite recuperar a forma de inter-ação, de Simmel, ou a tendência ideal-típica de Weber, mas ao mesmo tempo, o aspecto da crítica social, pelo que a intervenção do Me (eu social, objetado) na autoconcepção do I (o eu autêntico) recobre as ambigüidades da conservação: necessária e “inestimável” por garantir “integração e estabilidade”, conforme Mead, mas podendo veicular no Self a convencionalidade objetificadora do Socius numa limitação de si mesmo ao domínio do não-autêntico, na sua identificação pelo passado dos papéis atribuídos por tradições obsoletas.
Na conexão da psicologia social aos estudos sociológicos, como vemos com Marsal (Enciclopédia Salvat:"sociologia" ) a pragmática de Mead se apreende como "interacinaismo simbólico", o I é visado como o lado ativo que decide sobre modelos de ação, sendo o Me o lado passivo que assimila esses modelos a partir da imitação dos exemplos revestidos de pertinência, como a criança imita os comportamentos dos pais e professores.
Na psicologia social de Gabriel Tarde, localizando-se no contexto positivista do século XIX, a imitação ainda se coloca como o fator preponderante da socialização. Se bem que a conceituação de imitação de Tarde não seja de natureza simples nem mecânica, sua teorização sendo recuperada por Deleuze como tendo já incluído a interconexão de diferença e repetição, inclusive sendo Tarde identificado como o momento da conversão da pesquisa social no sentido de uma microsociologia – ele abandona o dilema entre a sociedade ou a imitação dos grandes homens como causas das similitudes observadas nas práticas sociais, pela colocação das pequenas idéias dos pequenos homens que são objeto de repetição, isto é, interferem no que seriam as correntes imitativas.
A repetição seria assim sempre criativa, pois soma pequenas variações que deslocam o processo imitativo da dualidade do modelo e do reprodutor para a observação do deslocamento infinitesimal do que é assimilado pelo sujeito. Não obstante Deleuze visar em Tarde nada menos que a criação dos conceitos de diferença e repetição como categorias da Natureza e do Espírito, creio que o salto desse contexto epistemológico ainda na inerência dessa temática de natural e espiritual que se ambicionava, como Kierkegaard, furtar ao domínio do hegelianismo, é essencial.
A novidade agora, com Mead, é a intervenção do elemento da Reflexão, mas ao mesmo tempo, o idealismo da “reflexão” se conjura desde que esta se propõe no elemento simbólico, pelo que o tipo de generalização que intervém no Me, exercendo-se sobre os pressupostos que o indivíduo pensa que os outros atribuem a ele mesmo, não reflete formas definitivas que seriam “ideais”, que poderiam caracterizar o humano na sua “natureza”, mas constituem sistemas de valores que atuam como que objetivamente, assim como na linguagem se atribuem os lugares e as posições de interlocução, ainda que nenhum desses fatores deva ser considerado como naturalmente reveladores do que cada um é.
Esse implemento da reflexão se conserva na sociológica teorização mais atual de Giddens, que em Constituição da Sociedade a reposiciona em termos de “monitoramento”. Assim, surge o conceito de atividades humanas Recursivas: não são criadas pelos atores sociais mas recriadas continuamente por eles através dos meios pelos quais se expressam como atores, numa reprodução contínua da possibilidade das atividades. Ora, nessa abordagem a reflexividade definida como “caráter monitorado", no sentido exclusivo de auto-monitorado, "no fluxo contínuo da vida social” , é o fundamento das práticas recursivas, pelo que os atores estão sempre se re-asenhorando de sua atividade, podendo reconceituá-las algo livremente, conforme o devir social é também algo que se pode pensar na abrangência da mudança contínua.
A situação de linguagem propícia à compreensão dessa teorização de Mead seria, como notou Habermas ("pensamento pós-metafisico") escrevendo sobre ele, não o diálogo, nem o monólogo, mas a conversa que têm lugar em um grupo de pessoas, caso em que se configura um complexo de interlocução que parece anteceder a fala de cada pessoa particularmente considerada.
Mas vemos que isso não implica na formalização desse complexo como o recurso mais adequado às intenções teóricas do pragmatismo nessa acepção. Bem inversamente, o que parece original e interessante aqui é que se estabelece aquela interface entre o automatismo e a deliberação consciente que faz dos usos não casos de performance, e sim algo como uma “variação contínua”, conforme a expressão de Deleuze.
O signo, como a cor branca, não tem um denominador comum, uma média referencial, mas é, sim, uma possibilidade de variação conforme uma situação de vizinhança, como já proposto no exemplo de James. Nesse ponto exato podemos aquilatar o que há de irredutível entre a aproximação natural e das ciências humanas, pois se faz sentido estabelecer uma escala de freqüência física da recepção das cores, compreende-se por que que não se deve estender esse modo de inteligibilidade ao fenômeno psicológico de constituição da experiência da cor pelo ser humano.
Ora, a conceituação proposta engendra uma interconexão da sociedade com o indivíduo sui generis. Ao mesmo tempo que a forma lhe pré-configura papéis e até mesmo auto-compreensão, ela sempre é uma forma de abertura para a sua própria exterioridade. Por isso seria melhor utilizar a trama conceitual pela qual Deleuze captou bem o que se põe em jogo. Em vez de “forma”, que é algo fechado, concreto na sua determinação, é mais adequada a terminologia da “linha abstrata”.
Bogomólov mostra que a teoria de Mead, designada “behaviorismo social” , determina o conceito de “ato social” constituído por três fatores: a percepção, a manipulação e a consumação. O ato move-se dos objetos físicos a uma certa consumação onde “obtém-se imediatamente todos os atributos do valor”, conforme Mead, de modo que uma vez que se tem um objeto, ele nunca pode ser neutro: é sempre horroroso ou belo, atraente ou repulsivo, mau ou bom ou inerte, enquanto “nas coisas físicas essas propriedades existem apenas em forma mediada”.
É inevitável relacionar aqui Melanie Klein, que nessa época estava desenvolvendo uma aproximação psicanalítica extremamente dependente da noção de “objeto parcial”. Como Wallon mostra já ter sido colocado por Freud, justamente ao procurar conceituar o simbólico, os automatismos podem constituir sistemas parciais. Nesse enfoque, ele mostrou que a consciência possui uma tendência incontornável de simbolização que se traduz pela forma narrativa, de modo que não se trata de uma recordação substituída por uma ficção, mas sim de uma (re) encenação aceitável do desejo, como no sonho. O fato objetivo fortuito não desempenha papel preponderante agora, mas sim o modo como a vocação inata ao símbolo precisa ser reconduzida a fim de coadunar-se com as conveniências e convenções do meio social. A redução do que não pode exibir essa conformação faculta a formação de sistemas parciais, como despossessões do consciente, correndo soltos, por assim expressar, à sua margem, manifestando-se porém nos sintomas cujo controle a pessoa não possui.
Assim, Melanie Klein talvez tivesse mais razão do que se supõe, ao afirmar que havia permanecido na linha de pensamento de Freud. Apenas, em vez da regressão de Jung a um paradigma epistemológico superado, ela fez avançar as possibilidades desse enfoque, estendendo a teorização ao processo de interconexão sujeito-objeto, eu-outro, incluindo agora a contingência dos sistemas parciais que se mostram decisivos no resgate desses dinamismos constitutivos da atuação psíquica. Creio que o “avanço” se revela mormente no sentido da amplicação do espaço de intervenção clínica, o que tem ainda o mérito de reposicionar a polêmica acerca do alcance terapêutico da análise.
Já o que notamos peculiar na teorização de Mead permitiu a convergência que pareceu tão oportuna e consoante os fatos entre o pragmatismo e o pensamento político norte-americano dessa época, centrado no ufanismo democrático do Mundo Novo, que os indivíduos todos juntos poderiam e deveriam produzir.
O que se focaliza é a interconexão, não como pré-estabelecida, mas na sua constituição como prática do mundo, entre o sujeito naquilo que é sua realidade autêntica, o que está sempre em devir e cuja vocação é somente o novo, pois esse sujeito (I) é mais como o fluxo de subjetividade na interconexão ativa com o futuro, o que está vindo a ser no caráter mesmo da experiência mais comezinha; e o sujeito (Me) naquilo em que já se constituiu nessa mesma experiência, onde o mundo se introduziu mas não podendo ser compreendido como uma realidade física totalmente independente, irredutível ao que o sujeito “compreendeu” na sua prática – não apenas nos termos da consciência, mas de modo integral, onde a resposta muscular, como lembramos, é tão importante quanto a personalidade e os fatores ambientais.
Na proximidade desse momento, por exemplo, havia a alternativa Wigotsky – Piaget acerca de como se constituía a chamada Linguagem Egocêntrica, da criança, este conceituando-a como monólogo, aquele como diálogo. Ora, tal camada de expressão já seria anteposta a uma Linguagem Interna e a uma Linguagem Externa, como algo apto a interligar a ambas. Sendo funcionalmente a linguagem do falante, ela se recolhe no íntimo, não sendo muito de si comunicável eficazmente aos outros, mas está profundamente arraigada no comportamento da criança, que assim pode acomodar os impulsos de sua expressão interna e a regularidade, o caráter coercitivo e legal, da linguagem externa – como demonstram Sebastian e Herma Goeppert em seu extremamente útil volume Linguagem e Psicanálise.
Num aporte mais social, como em Mead, ou mais voltado à prática da criança que é o brincar, em Klein, essas noções de mundo interior e objetificação da experiência são interligados não mais na perspectiva de um processo pessoal. Assim, o aspecto externo que é o do mundo, deixa de se restringir a uma colocação teórica na qual só pode figurar como a coerção de um sistema de regras a internalizar de algum modo. Ele já está desde sempre na atividade constitutiva do Eu, já que esta não se põe como um procedimento “signitivo”, de constituição “racional” ou “apodítico” de significados, conforme pretendeu o neocartesianismo fenomenológico, mas como prática incessante do mundo, fluxo da experiência ao qual somente através da maior abstração, ou vacuidade do pensar, pode o sujeito pretender furtar-se - onde o corpo e o desejo são inalienáveis à compreensão do que se desenvolve.
O que se antepõe naturalmente ao pesquisador parece ser o corolário pelo qual, nesse entremeio de constituição da experiência, que nunca pode ser “impessoal”, a Intervenção é algo já localizado na sua possibilidade clínica, desde que a prática interativa será, sem qualquer dúvida, fator determinante na experiência dos sujeitos que assim se envolvem. Um aspecto notável aqui seria a aproximação de Mead ao existencialismo, conforme sublinhado por Bogomólov, pelo que podemos notar a preocupação clínica sociológica se estendendo a um crítica bem fundada, como vimos, das possibilidades reificantes da subjetividade por processos sociais doentios – ainda que isso não seja o que Bogomólov propõe, já que para ele a preocupação existencialista ou pragmática não têm viabilidade prática, restando como meio aparente de contornar o problema real que é o modo de produção capitalista.
A compreensão da abrangência do pragmatismo no pensamento e na ação social intercepta justamente o tema da acomodação da sociedade ocidental à ambientação do imperialismo na era do capital monopolista. Assim, isso veio ao encontro do que nos Estados Unidos se revelava como algo típico de sua constituição como nação independente. O volume de Rorty sobre “O Pensamento de esquerda nos éculo XX na América”, como reza o subtítulo de Achieving our Coutry, cobre esse tema no interesse da atualidade do pragmatismo como escola nos EUA, mas sendo a exposição mais histórico-social, manter a focalização nesse espaço do Blog se torna mais favorecido pela simples referência ao título.
Aqui devemos salientar somente o grande equívoco político dessa esquerda, no momeneto em que considerou o stalinismo como suficiente motivo para fomentar intervenções internacionais do governo americano, o que ainda não aparece correlato a uma auto-crítica nesse referencial rortyano.
Para efeitos de composição da perspectiva, iremos agora observar como o pragmatismo que salientei conexo ao ativismo social de grande envergadura das duas décadas iniciais do século XX nos Eua, se tornou objeto de crítica ou de reapropriação no contexto das décadas subsequentes que assinalam a viragem mais formal e acadêmica decorrente de uma estabilização no campo epistêmico, que podemos compreender um tanto convulsionado não só pela transição radical nas humanities após o positivismo, como pela mecânica quântica ainda na sua época polêmica.
Teremos por esse meio um quadro abrangente do movimento de consolidação da psicologia, após o abandono da perspectiva dualista, da "consciência", correlata aos parâmetros fisiologistas do positivismo.
Após o que, podemos desenvolver uma apreciação contínua, mais minuciosa, da evolução do behaviorismo, a qual ilustra do mesmo modo a mudança que estaremos agora interceptando. É da consolidação de uma boa base acerca da história desses movimentos que poderemos examinar as escolas que surgem propriamente já dentro do parâmetro que estaremos designando formal, como o gestaltismo,mas que é geralmente arrolado como "funcionalismo".
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Vimos com Wallon que Janet havia mantido a transformação nitidamente observável no curso dos estudos psicológicos na base de uma “sustituición de las sensaciones y las imágenes, por las conductas como elementos de la actividad mental”. Isso acarretou uma mudança mais notável, aquela que inviabilizou limitar essas condutas a associações de elementos discretos, onde ao pensamento e à consciência, definidos como atividades de representação, se reservava um papel subordinado, esmaecido, em relação à vivacidade e imediatez do dado isolado.
Vemos essa inviabilização se tornar cada vez mais pronunciada até que, desde a década de trinta, favorece sobremaneira o formalismo funcionalista e os tratamentos sistêmicos dos fenômenos humanos, como se observa na sociologia e poderemos constatar na psicologia. A polissemia desses termos "funcional" e "formal" é notável como geralmente ocorre em humanities, mas aqui estão designando ambos uma exigência de método que se opõe à imediatez do dado que tanto interessa aos ativismos em política, e à observação empírica em sociologia, como ao pragmatismo em psicologia e espistemologia.
O que se substitui ao associacionismo, que parece ter tido o seu último grande representante com Stuart Mill, vimos ter sido, já com William James e o pragmatismo, a noção de que a consciência é fluxo, unidade, não somação de dados autônomos. Essa concepção se torna fortalecida quando se principia a formar uma noção mais precisa do que efetivamente ocorre em termos de vida psíquica, isto é, quando se começa a isolar os seus fatos constitutivos, as suas funções, por assim expressar, e procurar o como da sua efetivação.
Agora a separação entre sensação, percepção, pensamento, torna-se muito importante pois somente assim se pode fundamentar, se isso se mostra possível, a tentativa de investir experimentalmente cada um desses constituintes da vida psíquica. São dois, portanto, os núcleos dessa viragem: as noções de ato e comportamento, aquele podendo ser constitutivo deste. O ato, como uma percepção ou um juízo, não pode ser concebido como uma síntese, e sim como algo original, uma atitude. O comportamento é um conjunto de atos específicos de modo que o estudo não poderia ser sobre "a" consciência ou "o" espírito, mas sobre o aprender, o perceber, o compreender, etc.
Ora, vemos que é o conceito mesmo de subjetividade que se transforma assim. Focalizando a ambiência do associacionismo: ele provém do contexto clássico do século XVII, onde nasceu na polêmica entre Descartes e Locke. Tornou-se fundamentado na sua contextualização mais corrente com Hume, no século XVIII e se instrumentalizou na tendência mais geral de fornecer um quadro de referência às ciências do humano assim como as concebeu o positivismo, no século XIX, com Stuart Mill. Creio que não seria inadequado ligar o associacionismo com aquele fundamento barroco de um mundo que se supõe dobrado nas duas metades de pensamento e extensão.
A novidade do sujeito nesse contexto é imensa, principalmente se a visarmos pelo aspecto empirista. É certo que Descartes o havia introduzido na consciência filosófica por meio do Cogito. Desde esse ponto é possível a idéia de um "espaço" que seria do espírito, onde se ama e detesta, onde se pensa nas palavras de um poema ou se concebe um algorritmo matemático. Esse espaço de idéias não pode ser o mesmo daquele espaço "exterior", onde evoluem as coisas, os objetos, que se quebram ou se constróem, que comunicam seus impulsos e provocam dinamismos, lá onde repousa a máquina. Mas é com o empirismo, especialmente Hume, que esse espaço se anima com uma atividade própria. São suas as leis que permitem lidar com esses mesmos objetos. Sem essas leis os objetos jamais se poderiam formar para uma consciência na comunicação de tantos influxos que constituem uma experiência.
É assim que Deleuze reservou o termo subjetividade para esse espírito que ordena os dados impondo a estes as suas relações. Sobretudo, esse espírito cujas "leis" não são apenas as de uma imaginação, de um intelecto, mas também de paixões que envolvem o que nele há de especialmente humano.
Não resta menos que essa subjetividade do empirismo permanece como um bloco talhado por sua irredutibilidade ao outro mundo das puros dados, fluxo eterno de traços sem concatenação de direito, intrínseca. Esse bloco, mesmo ali onde se faz paixão, funciona de um modo que o torna mais privilegiadamente o objeto de descrição de uma lógica do que daquilo que hoje designamos psicologia - não obstante não ser fácil definir esse termo.
Trata-se de um puro Cogitans, enunciável como conjunto de leis, desde que seus constituintes são relações de tipo lógico, como contigüidade e semelhança, simpatia e preminência, que devem explicar como os traços são unidos na experiência sempre possivelmente, portanto, tratada na iminência de um relato.
Não se deixou de observar a proximidade entre essa "psicologia" em sentido lato, e a física newtoniana. Sua novidade reside no fato de ter ajustado o fundamento da causalidade ao fenômeno relatável, deixando de concebê-la como uma dependência da parte ao todo. Uma causalidade fenomênica intrínseca que poderia explicar uma instituição local pelos leis da paixão assim como o sistema solar pela lei da gravidade, mas não menos uma relação causal rigorosa, ainda que nem precisasse ser creditada às coisas elas mesmas. A revolução de Kant não tardou e seus efeitos perduraram. O neokantismo está em plena atividade ainda na transição ao século XX e a polêmica contra o associacionismo ainda está acesa na época de produção de Bergson e dos gestaltistas.
Ora, por outro lado, não há como não notar que a quebra da Mathesis, ali onde a concatenação universal de idéias não mais viabilizava a captura das relações subjacentes às coisas, deveria acarretar uma concepção de subjetividade irredutível àquela que se delineava no quadro desse dualismo fundamental. Não obstante, a física de Newton é sem dúvida adequável à continuidade da orientação associacionista, ambas originadas no ambiente de transformações em relação ao Renascimento que impõe o Saber clássico,.
Mas, por volta dos anos vinte, as coisas não puderam se manter nessa contextualização. A mecânica quântica deparou com um território ao mesmo tempo fenomênico e não regido pelas leis da causalidade que designarei "narrativa". Impôs-se um domínio de fatos cuja característica era a descontinuidade e cuja inteligibilidade se manteve, não obstante, ainda que com base num tratamento estatístico e probabilístico.
É curioso como a problemática do Compreender pode ser adequadamente utilizada tanto para introduzir o desenvolvimento das ciências sociais do século XX, especialmente da sociologia, quanto aquele da psicologia. No entanto, enquanto naquele quadro neokantiano o objeto problemático do compreender havia se tornado a cultura naquilo pelo que se havia insinuado o elemento da alteridade, da irredutibilidade social entre os povos e etnias, aqui ele se propôs no elemento da interioridade da própria cultura ocidental, no seu cerne inteligível. Heisemberg o expressa convenientemente ao relatar uma conversa com Wolfgang Pauli e Otto Laporte, entre 1920-22. Ele registra essa acalorada polêmica entre amigos, então estudantes da Universidade de Munique, sob o título "o conceito de 'compreensão' na física moderna", inserido no volume autobiográfico "A Parte e o Todo".
Aqui o problema do "compreender" se coloca perante um conceito de tempo como o einsteiniano, da relatividade, não intuitivamente acessível. Heisemberg propõe a questão de se o seu conhecimento da teoria de Einstein, sua competência comprovada na manipulação dos elementos e cálculos dela constituintes, o habilita efetivamente para testemunhar uma "compreensão" da relatividade. Pois esse termo envolve habitualmente um acesso intuitivo que o contorno epistêmico do novo conceitual da física não fornece. Assim, a questão de Heisemberg coloca mais geralmente, nesse início histórico de sua carreira como das transformações que informam a ciência atual, o problema epistemológico que esta acarretou. Será que, de fato, se pode aceitar que a Relatividade fornece uma "compreensão" sobre o tempo? Obviamente a dúvida não se refere à sua exatidão quanto à previsão.
Wolfgang Pauli, defensor da plena viabilidade epistemológica da física atual, argumenta que Einstein utilizou o pressuposto corriqueiro de que "o tempo é aquilo que se lê num relógio". Quanto a Heisemberg, suas reservas permanecem sobre a estimativa de que desde que o conceito ingênuo do tempo não serve mais na ambiência da relatividade, a linguagem e o pensamento tornam-se, eles mesmos, suspeitos.
A leitura desse texto mostra que o conceito ingênuo do tempo nunca foi o puramente observável no mostrador dos aparelhos de mensuração, mas sim aquilo com que Kant trafegou, ou seja, algo que possui uma essência, algo absoluto, ainda que Kant o tenha conceituado como transcendental. Mantendo-se na estrita abrangência do observável ou mensurável, Einstein inviabilizou a conservação de um referente objetivo, existencial, do tempo, para utilizar somente comportamentos descritíveis e previsíveis.
Exemplificou-se por tantos modos a acentuação cada vez mais pronunciada desse intervalo entre teoria física e intuição que o tema se tornou corriqueiro. O irônico no texto de Heisemberg é que ele começa com a colocação do problema como algo exterior ao seu próprio desempenho, como algo vindo de Einstein, mas no percurso de sua carreira ele se envolve radicalmente com esse quadro de impossibilitação do compreender numa via intuitiva, de modo que no decorrer da narrativa assiste-se como que à sua conversão a um novo modelo epistemológico que ele não tem como recusar, já que sua imposição se torna implicada por contribuição própria.
A questão se equacionou em torno de um novo consenso epistêmico baseado nas noções de simplicidade e totalidade. A unidade teórica se torna agora veículo de uma compreensão autêntica apenas no sentido pelo que resume o princípio comum ao qual se pode reduzir uma multiplicidade fenomênica. Esse princípio seria assim a relação ou o conjunto de relações que expressam a interligação de fenômenos observáveis em um fato enunciável. "Compreender a natureza", conforme Pauli, é o mesmo que examinar minuciosamente suas conexões e estar certo acerca do seu funcionamento interno, de modo que ese conhecimento pode ser reclamado sobre um fenômeno isolado ou um grupo de fenômenos.
É de um modo muito aproximado que Paul Guillaume, escrevendo sobre a "Psicologia da forma", estabelece o quadro mais abrangente em que se estavam definindo as pesquisas nessa área não somente nessa orientação, mas de modo geral: a psicologia, ele afirma, "não tem que criar entidades para explicar fatos, mas sim descrever estes e determinar as condições que permitem sua previsão".
Quanto mais ricos e complexos são os fenômenos e quanto mais simples é o princípio comum a que todos podem ser reduzidos, tanto menor é o risco de cometer erros, o que se propõe também como aptidão praticamente ilimitada da teoria a ampliar o número de ligações equacionáveis, observa Pauli. Enquanto que o conhecimento de tipo filosófico versava sobre a qüididade ou a essência - a "entidade", na expressão de Guillaume, isto é, não os traços do fenômeno como um comportamento observável mas um objeto ou coisa supostamente existente por si mesmo. Por isso, conforme a intervenção jocosa de Pauli no volume de Heisemberg, a filosofia se vota à definição de ser "utilização inadequada, de forma sistemática", de uma terminologia inventada para esse fim.
A interligação básica inter-fenomênica depende, portanto, não de uma explicação causal da natureza íntima do todo ao qual pertencem, a Physis grega ou o Deus cristão, mas sim do todo conceituado como o observável em termos do fato simples que se pode enunciar como o ambiente que envolve todos os fenômenos múltiplos e inter-relacionados nele e por ele. Compreender se torna possuir representações e conceitos necessários tão somente para verificar que uma multidão de fenômenos múltiplos integra um todo coerente.
Entre Pauli e Otto Laporte eclode então a polêmica sobre o status desse novo conceito de totalidade. Numa hipótese tratar-se-ia apenas da representação matemática que explica adequadamente o que nos é fornecido pela percepção sensorial. Mas Pauli interessa-se pela realidade factual da interligação fenomênica teoricamente enunciada.
A questão se torna ainda mais emblemática no quadro das ciências do humano, especialmente a psicologia, quando a inacesibilidade do dado à intuição se transporta para a mecânica quântica, onde o problema não é mais a inexistência de um substrato intuitivo àquilo que é mensurado, no caso o tempo, mas, inversamente do ponto de vista da apreensão subjetiva, da existência de um referente que não pode ser "adequadamente" mensurado.
Isto é, a mensuração desse referente não pode ser feita num padrão causal que, por um lado, iria permitir que se o lesse na relação biunívoca de uma quantidade, mas por outro iria estar dentro do esquema intuitivo pelo que um fenômeno é causado por aquele que lhe precede, não podendo haver algo "solto", sem relação com algo que o impele a ser. Assim, uma quantidade se predica de um referente desde que alguma outra quantidade precedente sofreu uma determinação, igualmente equacionável, que implicou o novo valor numérico observável. Nada ocorre desse modo na ambiência teórica de Niels Bohr. A questão aqui é a dos saltos quânticos.
Heisemberg descreveu com muita aqüdade o desempenho de Bohr, envolvido com o problema de ter que enfrentar uma comunidade acadêmica extremamente relutante em aceitar uma formulação tão extravagante. Todos sabem sobre a contraposição a ela vinda do próprio Einstein: Deus não joga dados - isso incluindo a referência mordaz à natureza probabilística do tipo de mensuração que havia restado ao novo sistema. Ao que seus defensores procuravam fazer ver que não se deve prescrever a Deus como é que ele precisa agir para criar o mundo.
O que se torna muito interessante na perspectiva da apreciação do desenvolvimento epistemológico são certos pronunciamentos de Bohr, reportados por Heisemberg ainda nesse mesmo trecho, pois são especialmente marcados por uma preocupação consciente com esse aspecto de transformação epistêmica em jogo. Bohr enuncia o problema que o conduziu à formulação da mecânica quântica como tendo por objeto a estabilidade da matéria. Isso ocorre por ocasião do Festival Bohr de Göttingen, no verão de 1922, realizado com o intuito de fornecer a este a oportunidade para esclarecer questões que a essa altura inflamavam acirradas polêmicas pelo mundo inteiro, e que resultou na aproximação pessoal de Heisemberg e Bohr.
O que Bohr coloca com bastante oportunidade do ponto de vista epistemológico é que esse problema não podia ser sequer visto na perspectiva da física de Newton. Nos limites da mecânica clássica seria impossível formular aquilo que Bohr chega a expressar em termos do "milagre da estabilidade da matéria".
Mas desde que o acúmulo de informações sobre o comportamento dos átomos, como aquelas que vieram das experiências de Planck e Rutheford, mostrou que suas alterações energéticas implicavam estados estacionários, relações quantificáveis entre um e outro estado sem implicar que um fosse causa do outro, a estabilidade da matéria se tornava um enigma. Enquanto que no ambiente da física newtoniana, onde nada ocorre sem causação suficiente, essa estabilidade parecia por si só garantida pelas leis adequadamente mensuráveis que regiam o comportamento dos corpos.
O que se designou "salto quântico", essa alteração do estado energético do elétron, implica que, enquanto permanece estacionário em sua órbita, ele não absorve nem emite energia, mas que ao saltar para outra órbita o elétron emite ou absorve uma quantidade bem definida (quantum) de energia, as órbitas e as possibilidades de tráfego do elétron entre elas também sendo estritamente definíveis. Ora, o problema aqui é que nas palavras de Bohr, se "os conceitos intuitivos com que descrevemos os acontecimentos da vida cotidiada e os experimentos da física clássica são inadequados à descrição dos saltos quânticos" , isto se deve a que não ocorre pré-determinação desse salto do elétron. Ocorre uma verdadeira descontinuidade, não podendo de modo algum descrever-se o que se observa em termos de um "processo" no tempo e no espaço.
Num outro trecho do livro de Heisemberg, que reporto a título de ilustração desse ponto, narra-se a contraposição de uma estudante de filosofia kantiana à viabilidade epistêmica da mecânica quântica. Von Weizsäcker, que desempenha o papel de defensor da teoria física, mostra que os fatos com que lida esta são de um tipo inviabilizador da premissa kantiana pelo que todo o observável deve estar suportado pela relação de causalidade. Não se tem como explicar por que um determinado átomo se desintegra num dado momento, não no seguinte, ou o que o faz emitir um elétron numa direção, não na outra.
Sempre mantendo que a condição de objetividade depende dessa causalidade ser recuperável, a kantiana Grete Hermann argumenta, como outras pessoas o fizeram, que isso significa ou que a teoria é lacunar e precisa ser completada com novos dados, ou que ela é inviável do ponto de vista do conhecimento. Von Weizäcker esclarece então o que pareceu tão desconcertante naquela época: não se poderia considerar do ponto de vista da física o conhecimento objetido como incompleto. Ou seja, não havia nenhum determinante ulterior ao que já havia sido estabelecido, de modo que seria preciso aceitar a descontinuidade e o acaso como fatores do próprio conhecimento.
Em outros termos, poder-se-ia afirmar que os átomos não são Gegenstände (coisas, objetos) de experiência cotidiana, são, nas palavras de Weizäcker, precisamente, "partes de situações observacionais, partes que têm um alto valor explicativo na análise física dos fenômenos". Novamente temos, após Cournot, a crítica ao kantismo motivada pelo avanço das ciências. Em nível molar, as coisas não podem deixar de ser causadas ou implicadas, os fenômenos não podem ser, por si, inexplicáveis. Mas, em nível subatômico, os a priori que se conservam na ambientação comum não são aplicáveis, sem que, com isso, a inteligibilidade se inviabilize.
Muito da narrativa de Heisemberg, em A parte e o todo, se demora na focalização das tentativas que se fizeram para derrubar essas colocações, especialmente a descontinuidade. Ele mesmo chegou a propor, numa conversa com Einstein, a analogia com o tipo de mudança que se vê no cinema, onde os fade-outs mostram uma imagem esmaecendo gradativamente enquanto outra imagem entra em foco, por alguns instantes as duas ficando confusas, sem que se possam discerní-las. Uma das tentativas mais persistentes para refutar a descontinuidade foi a de Shrödinger, que também ostentou uma das mais veementes recusas da posição de Bohr. Heisemberg reporta um encontro entre Shrödinger e Bohr onde se desenrola uma polêmica interminável. Aquele procurou reduzir todos os fenômenos sub-atômicos à descrição ondulatória, contra a complementaridade que Bohr já havia estabelecido, princípio que demonstra o outro aspecto desconcertante da teoria física e pelo qual os fenômenos sub-atômicos tanto implicam descrições em termos de corpúsculos quanto em termos de ondas. Ainda que o tratamento matemático com base na teoria ondulatória que Shrödinger forneceu tenha se revelado útil a certas aplicações, a denegação da complementaridade não pôde ser feita.
No momento do encontro narrado por Heisemberg, porém, a posição de Shrödinger estava sendo aceita como exeqüível, na base de que a maioria dos físicos se sentia muito desconfortável com os aspectos não diretamente intuíveis da mecânica quântica. Ele lançou a Bohr a acusação de ter formulado uma idéia francamente "absurda", de modo algum aceitando que os saltos quânticos pudessem ter validade epistemológica, enquanto que este aceitava suas colocações quanto à bizarra formulação conceitual e louvava suas contribuições matemáticas, mas sem abrir mão da existência dos saltos quânticos que hoje são ensinados nas escolas já em nível de segundo grau.
O conceito que Bohr utiliza para viabilizar epistemologicamente a mecânica quântica, uma vez que estava plenamente convencido de sua aplicabilidade na física, foi o de Forma, definida de um modo que veremos ser retomado com a maior fidelidade na psicologia. É nesse ponto que nos conscientizamos do sentido do título do livro de Heisemberg, A Parte e o Todo, pois Forma aqui designa o Todo definido como uma realidade pré-existente às suas partes, sobre elas exercendo uma coerção organizadora, uma ação de estruturação que as define como partes.
Paul Guillaume em "Psicologia da Forma" expressou o mesmo conceito ao escrever sobre a psicologia gestaltista que se implementa desde, aproximadamente, 1912. Seria oportuno, a meu ver, registrar que a Gestalt mantem boa penetração na psicologia atual, especialmente no Brasil, onde os ônibus do Rio de Janeiro tem ostentado a propaganda de um instituto de psicologia gestaltista.
Guillaume irá definir uma Forma (Gestalt) por contraposição ao que designa um "grupamento aditivo". A forma não resulta como uma somação dos elementos que existiriam antes dela. A forma é o que faz com que posteriormente à sua percepção, possamos identificar o que se apresentam como sendo os seus elementos, numa reversão completa da psicologia associacionista,mas por outros pincípios que não os do pragmatismo, lembrando que para James, de fato este poderia ser considerado um "empirismo radical" que superava o associacionismo para melhor preservar a orientação da ausência de princípios totalizantes à experiência. .
Seria importante notar que Guillaume registra o aporte que os gestaltistas mantém desse conceito de forma pelo que seu alcance não se limita ao psicológico, identificando-se a figuras, melodias e relações lógicas, mas se inspira principalmente na física, onde somente um número muito reduzido de fatos pode se conformar ao paradigma dos conjuntos aditivos, o que não ocorre desde que se implemente a pesquisa no campo da eletricidade, onde a estrutura das cargas das partículas e do campo onde se estruturam conjuntamente induz necessariamente à concepção de Forma como totalidade que subsume as partes.
Assim, na ambiência da física quântica, a estabilidade da matéria depende das relações quantificáveis entre os estados estacionários dos elétrons sem implicar que uns são causas dos outros. A descontinuidade que se verifica no âmbito da parte se torna "compreensível" pela inter-relação constituída pela coerção do todo sobre as partes. A estabilidade da matéria não pode ser explicada pela natureza de cada parte elementar cuja somação seria causa do que se iria designar como a abstração do Todo. Bohr, conforme Heisemberg, reporta que foram essas Formas, definidas como Totalidades - ele utiliza aqui o mesmo termo que Guillaume, Ganzheit - que se colocaram a ele como os meios mesmos de expressão do problema da estabilidade da matéria. Ele não o teria formulado raciocinando na base do átomo como um sistema planetário de proporções extremamente reduzidas. Assim, por "estabilidade", seu conceito básico, ele compreendeu o fato das mesmas substâncias terem sempre as mesmas propriedades. Um átomo de ferro, como um organismo vivo, são totalidades pois apresentam essa mesma característica de se repor, ainda que perturbadas por fatores extrínsecos, na sua configuração comum. Essa Ganzheit, como Bohr define numa ocasião ulterior de convívio com Heisemberg, não poderia se colocar como um "sistema composto por uma multiplicidade de tijolos atômicos". A totalidade aqui se designa como "estrutura global" , podendo-se comparar as que se observam na física atômica (átomos, moléculas, cristais) com aquelas que se vêem na biologia (os organismos), isto é, como Formas.
Na conversa entre Jean-Pierre Changeaux e Alain Connes, registrada no volume Matéria e Pensamento, a conexão epistemológica dessa concepção a várias áreas científicas que o livro de Heisemberg sinalizou por muitos meios como um novo modelo ou situação no campo do conhecimento se torna bem notada por sua "gritante analogia" com o funcionalismo. Aqui, porém, a concepção que A Parte e o Todo estende como paradigma comum aos introdutores da mecânica quântica , é visada apenas na perspectiva da teoria da matriz S de Heisemberg - não importa o que ocorre no momento do choque entre as partículas, conta apenas a matriz que descreve a transformação do estado inicial ao estado final.
Trata-se, novamente, de uma aproximação entre a psicologia e a epistemologia da física, o funcionalismo sendo especificado por Changeaux como a doutrina "muito estimada pelos psicólogos cognitivos como Johnson-Laird" pelo que a psicologia se reduz ao estudo dos programas, sendo independente da neurofisiologia. Os sistemas descritos seriam independentes do seu substrato material consistir em proteínas ou silicone, como do número ou da natureza dos neurônios. Veremos que o gestaltismo depende muito da independência entre fato psicológico e substrato fisiológico, sendo aí que se impõe a reinterpretação da lei de Fechner- Weber sobre os limiares de sensação, ao mesmo tempo que mantém a autonomia das leis que regem a composição de Formas independentes do reino onde estas se constituem, psicológico, biológico ou físico.
Assim como "compreender a matriz S" não significa afirmar que compreendemos o que ocorre, mas apenas que temos um modelo apto a fornecer resultados adequados à realidade experimental, os funcionalistas se interessam pelo cérebro como se as interações ocorressem na "caixa preta", só sendo analisáveis "os seus produtos, seus comportamentos", na expressão de Connes. Uma função cerebral seria identificável a um algorritmo matemático.
É certo que observa-se aí como esse desenvolvimento da obra de Heisemberg parece retroceder em relação à perspectiva da teoria dos campos, onde não se privilegiam as partículas isoladas, mas campos que dependem de uma infinidade de variáveis, o que, pelo que se pode deduzir, implica de modo mais proeminente a perspectiva do todo. Contudo, veremos que o envolvimento com o modelo da Forma se torna imbricado à conduta da caixa preta, de modo que Gestalt e Behaviorismo, a princípio movimentos opostos, não cessaram de se interpenetrar ao longo do seu desenvolvimento.
Changeaux-Connes aceitam plenamente as limitações do funcionalismo quando se trata de "compreender" o pensamento, mas não o descartam completamente: "Ele pode ser útil para precisar as quantidades que é bom estudar. Avaliar uma teoria em termos funcionais pode ser interessante", ainda que não seja possível, hoje, "nos contentar com um procedimento funcionalista", conforme a expressão de Connes.
Creio que é a percepção das descontinuidades que se torna algo importante na observação do que ocorre na psicologia, logo que a perpsectiva associacionista se mostra inviável. Vimos já alguns aportes acerca desse tema com Wallon, onde os automatismos se insinuam de modo a colocar a natureza ativa do psiquismo. O que devemos conduzir agora é o desenvolvimento das pesquisas e das irredutibilidades teóricas que se apresentaram até que, com a Gestalt, temos uma conceituação bem nítida do novo território da subjetividade, colocado desde então, inequivocamente, a meu ver, como o objeto da psicologia em termos de Self.
4 ) Reflexologia, Behaviorismo e Gestalt
Wallon reporta o tipo de evidência que conduziu ao consenso na recusa do associacionismo. Trata-se da ilusão pelo que duas linhas iguais parecem uma menor do que a outra conforme nas suas extremidades justapomos traços convergentes ou divergentes (como se fossem setas).Essa é a designada ilusão de Muller-Lyer. Mostra-se assim, através do estudo das ilusões visuais, que não ocorrem sensações brutas, mas sempre conjuntos que afetam cada detalhe de um signo em relação com eles.
Em Psicologia da Forma Guillaume considera que o experimento crucial, quanto a isso, é o estudo de Wertheimer, publicado em 1912, sobre o movimento estroboscópico. Também Antonio Pena mostra considerar-se habitualmente que a publicação de seu "Experimentelle Studien", onde esse tema é investigado, marca a emergência da Escola de Berlim ou gestaltista. Está aceite como demonstrado que o movimento esroboscópico não pode ser uma soma ou síntese de sensações, mas é, sim, uma percepção original.O experimento de Wertheimer consistiu na projeção sucessiva, em dois pontos de uma tela, da imagem de um mesmo objeto, por exemplo, um círculo luminoso. Constatou-se que dependendo de certas colocações de duração e distância das projeções, vê-se um círculo que se move da posição inicial à posição seguinte. Esse movimento aparente não se distingue do movimento real.
Observou-se nesse resultado não somente a refutação da tese associacionista, pelo que o que se vê teria que parecer uma reminiscência dos movimentos reais, mas também da assim designada "tese da constância" que se relaciona à concepção de uma veiculação determinista dos fenômenos psicológicos aos mecanismos fisiológicos. A tese afirmava uma relação constante entre a excitação local e a sensação. Mas essa percepão do moviemnto aparente, como das imagens ilusivas em geral, não se explica pelas excitações retinianas locais. A simples adição de circuitos cinestésicos, de movimentos dos olhos, aos circuitos de origem retiniana, não sendo suficientes aqui.
Notou-se igualmente que a imagem retiniana não apresenta as deformações percebidas no tipo de ilusão que perfaz figuras ambíguas, aquelas que podem ser vistas de um modo ou de outro, como no exemplo de Wittgenstein onde tanto se pode vislumbrar um pato quanto um coelho. Na literatura psicológica utiliza-se para exemplificar esse tipo de figura, a imagem publicada por Boring, chamada da mulher e da sogra. É uma mesma figura, um desenho, que pode ser percebida como a de uma jovem ou como a de uma mulher idosa.
Observe que nesses exemplos de configuração ilusória, podemos ver as coisas de um modo ou de outro, mas não ambos ao mesmo tempo.Tornou-se inevitável propor a noção de "campo", que já examinamos estar comum à epistemologia quântica - se pudermos nos expressar assim. A noção de campo institui uma referência em que as tensões produzidas pelos contrastes na organização de uma forma são sempre resolvidas a um valor mínimo, a forma percebida sendo sempre a "boa forma", nesse sentido de que é aquela que logra o maior alcance nessa redução da tensão na configuração dos elementos.
É forçoso reinterpretar assim a lei de Fechner-Weber, pois os limiares de sensação só são constitutivos da percepção enquanto integrantes da organização desta, não sendo de modo algum determinantes elementares do modo de sua realização.
A comparação de pesos, por exemplo, não poderia ser um ato acrescentado a percepções de cada experiência de objeto pesado, mas é a forma da organização da percepção, na qual as partes dependem do todo, que orienta no sentido de atribuir valores. Constatou-se que numa série de comparações os sujeitos "acertam", numa proporção não redutível à coincidência, os valores de mais ou menos pesado que são apresentados, propositadamente, "entre" os limiares.
Nesses exemplos de figuras ambíguas e comparação de pesos, como na percepção do movimento estroboscópico, se nota que há coerção estrutural da forma, independente da vontade e do saber, como da significação, o elemento local sendo então dependente da função que desempenha na estrutura (= forma).
Nessa via, acumulando-se as demonstrações, chegou-se à sugestão da existência de um "espaço hodológico", conforme Lewin, espaço geométrico, mas que não seria aquele da pura extensão, exterior ao sujeito, da geometria comum. Seria o espaço no qual se move a atividade do sujeito, fenomênico, ocupado por objetos assim como se apresentam na percepção do ser vivo, com seus valores negativos e positivos, seus focos de repulsão e atração, obstáculos e barreiras. Nessa proposição, a geometria comum seria apenas um caso dentro das possibilidades do espaço geométrico hodológico.
K. Lewin ("Princípios de psicologia topolótica") não considera, portanto, estar propondo uma noção não-matemática de espaço. Para tanto, seria necessário apresentar conceitos que extrapolassem a definição matemática, válida independente da teoria específica - como tridimensional, n-dimensional, euclideano, curvo, métrico ou não-métrico. Mas a definição mais geral implica apenas que "Não importa" se concebemos "a natureza das coisas cujo sistema constitui um espaço matemático" qualquer dentre os exemplificados, seja "como objetos físicos, temperaturas, números, cores, eventos ou qualquer outra coisa.Somente certas relações e a possibilidade de certas operações são relevantes". Assim, "no que diz respeito à matemáticanão existe, portanto, qualquer objeção fundamental para que se aplique o conceito matemático de espaço aos fatos psicológicos". "A relação parte-todo" é usada, então, "como básica" à construção em matemática, do espaço topológico que pode ser extenso à psicologia, como faz Lewin, enquanto característica do "espaço vital" (EV), ou propriamente "espaço psicológico". Não estensível assim à psicologia, o "espaço métrico" matemático: "De momento, não há, certamente, determinações métricas respeitantes ao espaço vital psicológico".
Além disso, o espaço do mundo físico é único, mas um espaço psicológico é singular a cada sujeito. O EV de cada um de nós é inteiramente separado dos demais, e assim, contrastando com a unidade ou singularidade do mundo físico, podemos sustentar a "pluraridade dos mundos psicológicos".
Como estudaremos em psicologia animal, esse tipo de distinção é importante também nesse campo de investigações, o animal não partilhando o mesmo mundo dos de outras espécies. Mas o que torna único o espaço psicológico humano não implica apenas fatores instintivos, o que podemos notar como complica a noção de "humano", pois na verdade justamente o que distingue o espaço psicológico é que ele é subjetivo, formalmente diferenciável de pessoa a pessoa, não um espaço de espécie (universal). .
Aqui Lewin distingue também a psicologia da sociologia, pois esta não está obrigada a considerar a mesma espacialidade subjetiva: "a dinâmica de um grupo de pessoas pode representar um único sistema para a sociologia". Mas quanto ao EV da psicologia, ele se desenha como se desenha um conjunto em matemáticas, cuja linha de demarcação é decorrente dos pontos fronteiriços fora da qual está a "carcaça" não-psicológica, onde se posicionam os "fatos não governados por leis psicológicas", mas por outras leis; e dentro do qual está o EV em si do sujeito "x", como o de cada um de nós. As relações variáveis entre a carcaça - o padrão de acontecimentos que afetam de fora - e o EV, torna-se o objeto da descrição do psicólogo a fim de apreender os acontecimentos relevantes no seu interior.
Como observou Garcia-Roza ("Psicologia estrutural"), Lewin se utilizou dos conceitos ".matemáticos relativos ao "espaço topológico" para tratar problemas atinentes à "estrutura e dimensão do campo psicológico", considerando assim que "a topologia nos permite determinar quais os eventos possíveis ou não num dado espaço de vida", aqui sendo importante as noções de região e suas variantes (ponto, conexa, fechada, aberta, limitada, de conexão simples, de conexão múltipla), caminho (path), interseção, etc; que resultam nos conceitos psicológicos de região e os casos de sua variação, locomoção, fronteira e suas variações tais como obstáculos, superposições, etc.
Mas Lewin conceituou outro tipo de problemas, os chamados "vetoriais, atinentes a "tensões e campos induzidos" que nos permitem determinar, "dentre os eventos possíveis, qual o que poderá ocorrer num caso específico". Ora, da topologia à hodologia, conforme Garzia-Roza, o trânsito é o seguinte. Através da topologia determina-se quais os pontos do campo psicológico são ligados pelos vários caminhos e que regiões esses caminhos atravessam. Mas esse espaço é muito geral para problemas que incluem conceitos de direção, distância ou força - como tamanho, intensidade, etc . - , isto é, não só determinantes dos caminhos possíveis, mas dos deslocamentos capazes de produzir num determinado momento. O conceito de força está ligado causativamente ao comportamento, e "as forças psicológicas seriam, portanto, de natureza vetorial". A hodologia é uma geometria construída por Lewin, não para substituir a topologia, mas para completá-la.
Simondon, conforme Deleuze, criticou a noção de espaço hodológico pela concepção de profundidade, de modo que não seria numa via de formalização espacial geométrica, isto é, extensa, mas sim intensa, que se iria lograr compreender os potenciais perceptivo-afetivos do ser vivo. Mais uma vez podemos notar como as dicotomias deleuzianas são um tanto redutoras, porque o que há de "psicológico" no espaço vital subjetivo é justamente ser uma extensão de intensidades, não apenas uma percepção intelectual. Nós não lidamos com uma barreira psicológica ao nosso movimento, como um simples registro do dado obstáculo material no caminho.
Também Deleuze utiliza essa noção de profundidade a que designa Spatium, ainda que com certas reservas com relação à tese de Simondon. Assim, em Deleuze a descrição da formação figural não se separa do elemento do tempo em que surge a imagem do ponto de vista de sua composição na experiência subjetiva. Compreende-se por que, não obstante, na Psicologia da Forma Guillaume considera o "curioso" conceito de Lewin bem favoravelmente, já que na Gestalt a descrição da formação figural é também apenas considerada do ponto de vista da extensão espacial. Na verdade, os trabalhos de Lewin foram incorporados de modo meio complexo ao movimento gestaltista, ainda que, atualmente, pareça não haver dúvidas quanto à conveniência dessa atribuição. Krech e Crutchfield adotam uma conceituação espacial de Lewin já ampliada, apresentando-a em termos de uma definição do que seria o espaço psicológico mesmo, algo que ele teria designado como o "espaço da vida" e que seria, conforme os autores, "a concepção total que o indivíduo tem dos mundos em que existe e se comporta" incluindo os seus perceptos (imagens das coisas exteriores), mas também as coisas abstratas e irreais que ele concebe, seu conhecimento e suas crenças, suas perspectivas do tempo. Qualquer atividade potencial em que a pessoa pode conceber a sua particição constituiria assim uma região no "espaço da vida".
Creio importante notar que aquilo que poderíamos identificar como a motivação básica da psicologia espacial de Lewin, mantem-se firmemente num plano mais geral da problematização do sujeito. Assim, na psicanálsie lacaniana, que no entanto insiste na determinação de não ser uma psicologia, vemos Lacan afirmar que "canalhice é querer ser o Outro de alguém", sendo Outro algo que é o oposto de "outro" como apenas outras pessoas em relação a nós. Se bem que um conceito complexo, o Outro lacaniano pode ser razoavelmente posicionado como a realidade em que cada um de nós nos apreendemos, separadamente.
Em todo caso, o que se precisa, desde o início do século XX, é lidar com essa irredutibilidade do campo, essa estruturação da experiência que impede as concepções associacionistas e projeta a subjetividade numa enformação muito mais conexa à noção desse sujeito aqui, singular, impossível de se definir na base da completa generalidade que seria a do "espírito", "consciência", problematizando também a utilidade da concepção unitária de Self. .
Ora, descartado o associacionismo, restou o problema psicológico de compreender a vida psíquica, por um lado, e por outro a recolocação do problema do significado. O dualismo cartesiano com a perspectiva de tratar a consciência numa independência completa, no caso o jogo de associações regidos pela reflexão e pelas leis lógicas, havia se tornado também inviabilizado como acesso da pesquisa psicológica. Vimos como a psicologia do século XIX o havia mantido. No limiar do século XX tudo parecia comprometer a compreensão da universalidade assim como o período "moderno" em sentido estrito - entre os séculos XVII e XIX - o havia instituído. Podemos recolocar o que se verifica nessa transição do seguinte modo. Pela quebra da Mathêsis o universal já não se põe como o laço das idéias que assegura a conexão das coisas. Estas exibem seus funcionamentos parciais, não dependem de que se recupere a compreensão da inteligibilidade humana para que se possa esclarecer a sua manutenção enquanto sistemas - orgânicos, lingüísticos, produtivos, como mostrou Foucault. Mas assim a universalidade tampouco se põe como "o" objeto de pesquisa sobre o que seja a vida psíquica, inversamente ao que Foucault sugeriu. Em si o universal tornou-se objeto ambíguo que pode ser relativizado. Mas com relação ao sujeito, tornou-se o correlato de processos também autônomos que é preciso esclarecer sem, para isso, fazer apelo ao modo de ser das coisas.
O método da psicologia associacionista era o da introspecção. Isso não acarretava problemas ao quadro de fortalecimento da pesquisa fisiológica no século XIX, já que aquilo que pudesse não ser equacionado como domínio do Cogitans, os processos de associação e formação de significados e relações inteligíveis, isto é, o que se relaciona ao pensamento, deveria estar sob o domínio da res extensa, isto é, da matéria, e poderia ser dado como reações orgânicas que acompanhavam os procedimentos de representação a que se reduzia a consciência enquanto seus elementos.
Quanto a isso, Wallon localiza o que ocorre no momento em que o associacionismo, com toda a perspectiva da consciência como sede da representação, desmorona. Sobe à cena o inconsciente, a princípio "sub-consciente" como os processos subjacentes à vida psíquica, sendo inconsciente mais precisamente o conceito de Freud que entre os demais conceitos apresentados, tentava apreender a relação de sub-consciente e experiência do sujeito normal em vigília.Como já repeti algumas vezes, enquanto durou o associacionismo e todo o quadro "moderno", a consciência pôde ser inicialmente colocada como um epifenômeno. À fisiologia caberia o domínio das causas, portanto, enquanto que à psicologia só restava assinalar os seus pálidos reflexos.
Mas nessa mesma via, e enquanto a recusa do dualismo pareceu ao mesmo tempo implicada e contornável, o próprio domínio "epifenomênico" desses reflexos mostrou-se descontínuo, já que nos atos da consciência intervém agora fatores que não são percebidos atualmente pelo sujeito da experiência consciente, como vimos com Guillaume e mais geralmente no estudo das ilusões. Variedade dos estados de consciência e unidade da consciência, eis dois termos que se tornaram "obligadamente complementarios" conforme a expressão de Wallon.
Ao mesmo tempo que os estados de consciência implicam a irredutibilidade de seus processos, a consciência sempre se mantém na experiência subjetiva como um fluxo contínuo, ininterrupto. Eis por que nesse início do século a patologia da personalidade múltipla suscitou tanto interesse. Nesse caso a tendência à unidade se conserva ainda que para cada personalidade "particular", abrigada na individualidade ou personalidade referencial do sujeito, isto é, aquela que responde pelo nome e pelas experiências que socialmente lhe são atribuídas.
Como compreender a complementaridade entre o uno e o múltiplo, a tendência à unidade e a irredutibilidade dos estados psíquicos tornou-se o problema mais importante no sentido de que dele iria depender a definição do complexo consciente, isto é, a compreensão da vida psíquica.
Guillaume observa, também Wallon, como foram suscitadas propostas que tentavam preservar algo do associacionismo ao mesmo tempo equacionando as objeções já feitas a ele. É o caso de Paulhan e Janet, que fazem intervir as concepções, respectivamente, de finalidade e de síntese mental.
Se, conforme Wallon, como notou Ribot, as manifestações patológicas da vida subconsciente, como da personalidade, mostraram que o sentimento simples e aparentemente primordial da identidade pessoal resulta de estados muito complexos e não totalizáveis no seu funcionamento, Janet propôs que a consciência resulta como uma síntese ativa, sempre em vias de realizar-se. A consciência seria a atividade incessante de grupamento de sensações, recordações e idéias que se tornam por esse meio percepções. Paul Guillaume mostra que essa concepção supõe dois níveis do pensamento na análise psicológica. Um deles é o inferior, do mecanismo puro, regido pelas leis da associação, onde não ocorre ainda o pensamento, mas esses processos descontínuos de fuga das idéias como no devaneio ou no sonho, nas estereotipias ou nas distrações. O nível superior seria o da síntese mental, onde o pensamento é produtivo e inteligente.
Guillaume nota como aqui já se insinuam as necessárias oposições de nuances e planos no que antes era o quadro sem matizes do associacionismo. Mas, como Wallon, registra que ainda resta muito de atomismo psíquico nessas idéias, tais como exemplificadas pela lei geral, que Paulham queria identificar à finalidade, enquanto algo que poderia unificar os processos da consciência - "atomismo" aqui é o oposto do quântico sub-atômico, assim como a aparência do uno é oposto ao realmente múltiplo.
Em qualquer desses casos constatou-se que ora se precisava ajuntar graus entre o inferior e o superior, de modo que o limite se tornava fictício, ora se devia ajuntar uma série de hipóteses particulares, jamais formuladas de modo convenientemente explícito, para manter a determinação da lei geral.
Logo, torna-se claro que é preciso observar como se desenvolvem teorizações mais engajadas na via das conseqüências da inviabilização de considerar que o básico da vida mental consiste em elementos ou partes ainda não sistematizadas numa organização coerente. Nessa progressão encontra-se, ainda que não diretamente relacionado ao escopo desses dois autores, Guilheume e Wallon, a concatenação entre a fundação do pioneiro laboratório de psicologia em Leipzig, por Wilhelm Wundt, e o desenvolvimento das pesquisas em Wurtzburg.
O período de transição, em que se tenta preservar elementos da psicologia da consciência do século XIX, mas já na presença de fatores críticos que desembocam na psicologia do século XX, é tradicionalmente referenciado pelo fracasso da escola introspeccionista, acontecimento espetacular que demonstrou a impossibilidade da concepção prévia.
Contudo, Wundt não estendeu essa possibilidade ao pensamento, limitando-o, conforme Antonio Pena (op. cit.), ao "simples e puro controle de variáveis fisiológicas". Hymann o estabelece do mesmo modo. A fonte dessa psicologia experimental seriam "as observações efetuadas por introspeccionistas treinados sobre o conteúdo de suas próprias consciências", mas por esse termo, experiências, entendendo-se apenas as receppções sensoriais, isto é, pensava-se que dois observadores poderiam descrever o mesmo estímulo, usando uma terminologia sensorial semelhante.
Aqui, conforme Pena, a concepção sintética do pensamento aceita por Wundt, era o que inviabilizava, na sua perspectiva, que este pudesse ser acessível ao método experimental, pois essas produções sintéticas que estariam caracterizando o nível do pensamento não poderiam de modo algum ser explicadas na base de elementos representativos que dele participam. Também aqui já intervém a recusa de que os processos intelectuais possam ser definidos como isomorfos aos processos neurofisiológicos que ocorrem concomitantemente a eles.
Ainda que a literatura desses protocolos de pesquisa tenham se revelado uma "leitura monótona", conforme Hymann, os resultados pareciam confirmadores da viabilidade de conservar a introspecção como método, desde que mantida numa enformação observacional, pois não se discutia a convicção de que esses protocolos representavam um conjunto de observações científicas.
O professor Romeu Gomes, numa monografia destinada aos seus alunos, intitulada "A Psicologia Contemporânea", registra que a iniciativa de Wundt se mantém conceituada como na abordagem estruturalista em psicologia, considerando-se que ele é o seu iniciador. Assim, a limitação das observações sobre a consciência a aspectos de sensação e percepção estaria lastreada na concepção pela qual com a introspecção poder-se-ia "identificar a estrutura da mente, através da identificação dos aspectos fundamentais da experiência mental".
O Léxico de Psicologia de Claude Goulet, veiculado na Internet, esclarece que a atribuição de iniciador da abordagem estruturalista a Wundt foi contestada por alguns que consideram ser isso mais adequadamente expresso de Titchener, aluno de Wundt. Assim, usa-se por vezes o rótulo de elementarismo para traduzir o que é próprio da concepção introduzida por este. Obviamente, não se trata do movimento "estruturalista" como uma tendência geral em ciências humanas, uma metodologia, o que só se pode afirmar desde Levi-Strauss, Althusser e Lacan, movimento que tem sido variamente interpretado, para alguns podendo ser atribuído, como ao seu pioneiro, ao tratamento de Hegel por Kojéve. Omais comum é propor-se que se tratou da aplicação da linguística de Saussure aos problemas de áreas específicas em humanities.
Romeu Gomes nota que um dos experimentos mais famosos de Wundt foi o estudo para mensurar o tempo decorrido entre a apresentação de um estímulo e a reação do sujeito frente a ele. Gomes assinala a impressão de Reuchlin pelo que a importância de Wundt não se limitou aos resultados de suas observações, mas abrange as polêmicas que suscitou e as reações a aspectos de sua concepção que parecem ter alimentado as correntes da psicologia "experimental" (laboratorial) inicial.
A problematização da introspecção como método privilegiado da ciência psicológica ocorre no momento em que pesquisadores de Wurzburg decidem estender sua aplicação experimental ao domínio do pensamento, especialmente Külpe, Karl Büller e Selz, a quem N. Ach, A. Messer, H.J.Watt e K. Marbe se unem na aceitação de que há outro modo de abordar as atividades produtivas do pensamento além do método proposto por Wundt, de resídios históricos, pelo que somente as produções culturais poderiam ser fontes nesse tipo de pesquisa. Esse enfoque caracteriza assim as pesquisas que se enfeixam sob a rubrica da "escola de Wurzburg".
Aqui sugere-se a não concomitância de sujeito e experimentador no processo introspectivo. O experimentador controla o sujeito a quem cabe a tarefa de resolver os problemas apresentados por ele, descrevendo posteriormente as tentativas e estratégias que utilizou na consecução da tarefa. Claparéde, em 1936, adaptou ligeiramente essa técnica, de modo que o sujeito iria narrar suas estratégias ao mesmo tempo em que as utilizava, pensando em voz alta, por assim expressar, conforme nota Antonio Pena.
Um dos maiores críticos da "escola de Wurzburg" foi o próprio Wundt. Na formulação de suas objeções, lançada em 1907, ele produziu um verdadeiro tratado sobre o que deveria ser o método experimental, para então observar que nada se processava conforme o devido na "escola", a que foi contraposto, contudo, que o rigor preconizado por Wundt não se verificava na prática nem nos experimentos de ciências físicas.
O que determinou a ruptura mais fundamental entre Wundt e os pesquisadores de Wurzburg, porém, foi a questão do pensamento sem imagens. Pena apresenta essa tese da escola de Wurzburg com base em que ela deriva da influência da psicologia do ato de Brentano. Este autor é importantíssimo para compreender muito do que ocorre na viragem do século, de fato sendo reclamado como influência determinante de tendências tão contrastantes quanto a dos neopositivistas do Círculo de Viena e da fenomenologia de Husserl. Sua colocação é baseada numa oposição entre ato e conteúdo. Os conteúdos não seriam psíquicos, mas físicos, enquanto que os atos ou funções seriam o essencial da vida psíquica.
Observa-se assim uma reversão não mais apenas do associacionismo, mas também do elementarismo de Wundt e do tipo de abordagem intermediária, como de Janet e Paulham. Nesse viés lidava-se apenas com conteúdos, isto é, representações e imagens, em termos de materiais recolhidos pelos sentidos, para então postular uma posterior unidade que seria da consciência. É nítido que Brentano inverteu o esquema, mostrando então que a psicologia não mais deveria se preocupar com representações, mas com o ato de representar, nem com a imagem, mas com o ato de imaginar, menos ainda com o juízo, mas com o ato de emiti-lo ou enunciá-lo, conforme Pena, que atribui a essa colocação de Brentano o situamento da escola de Wurzburg como uma autêntica "psicologia estrutural e centrada no sujeito", inversamente ao trend do século anterior.
Hyman conta numa perspectiva mais prosaica a história do "golpe mais devastador" que minou a "confiança nos dados introspectivos". Assim, teria havido comunicações, reportadas pelos observadores treinados na introspecção, que mostravam elementos que não correspondiam ao esquema clássico de sensação, imagem e sentimento simples, até aqui considerado como as unidades básicas da consciência. Esses "novos e indescritíveis elementos conscientes" foram então designados "pensamentos sem imagens".
Titchener surge como "o principal expoente da psicologia wundtiana" que, nos Estados Unidos, se pôs a atacar a tese de Wurzburg, assim como Wundt. Eles insistiam em que tratava-se de um equívoco, essa tese do pensamento sem imagens reportando-se a um fato meramente suposto, devido à deficiência do manejo da técnica de introspecção. Mas na colocação de Hyman, a controvérsia sinalizou ao mundo acadêmico que a introspecção não poderia ser um instrumento confiável na obtenção de dados científicos. O que resultava como relato poderia tanto ser produto do treino e do laboratório onde este ocorria, quanto observação de dados objetivos.
Pena observa, contudo, que a sorte da teoria tão atacada por Wundt foi amplamente aceita por várias correntes, cujos experimentos "confirmaram a existência de um pensamento sem imagens". Isto seria apoiado por Deleuze, que considera o pensamento numa base irredutível aos processos de "recognição", isto é, de assimilação de dados exteriores onde o "erro" seria do tipo reportado por Platão, onde se diz "bom dia Teodoro" quando é com Teeteto que casualmente encontramos.
Mas de fato, o pensamento sem imagens descoberto em inícios do século XX, não é apenas o correlato do conceito filosófico ou de uma capacidade artística . Esse, aliás, me parece um ponto obscuro em Deleuze, pois Diferença e Repetição nos mostra a "recognição" como referencial de uma série de teorias clássicas cujo erro deriva de que ignoram o "pensamento", mas por outro lado parece estar preservando essa dicotomia que criou entre o que não existe e o que existe, como se fosse entre duas ordens de existência.
Os exemplos do pensamento real, que ilustrariam sua teoria de como pensamos, logo, exemplos que mostrariam como o pensamento não é recognição, nunca são possíveis se não a partir de textos ou experiências de esquizofrênicos, ou artistas ou filósofos engajados em formas de estranhamento das práticas comuns de expressão ou da linha tradicional da "história da filosofia", assim como entende Deleuze essa deriva paralela da "história". Estes filósofos e artistas são mostrados sempre como serem em conflito com os medíocres, a maioria, os que pensam - ou pensam que pensam? E por que? Isso não se explica - recognitivamente.
Esse vício de argumentação fica ainda mais complicado no Anti-édipo. Ali o Édipo freudiano fica reservado a uma forma de socialização, entre as demais formas, e todas elas sendo irredutíveis ao "esquizofrênico" que cria sua própria forma. Mas ou existe o Édipo freudiano, ou existe o esquizofrênico deleuziano, posto que o Édipo freudiano não é apenas o "papai-mamãe-e-eu" mas sobretudo as formas de derivação patológicas que podem ocorrer desde esse esquema primordial, o que inclui o esquizofrênico como uma delas.
Seria como supor que a física de Newton poderia ser parte da física de Einstein. Assim como estas são duas teorias físicas completas, portanto entre-excludentes, as teorias de Deleuze e Freud são teorias da mente completas, portanto incompatíveis. Ora, é preciso saber que é que estamos criticando em Freud. Não podemos como Deleuze afirmar que o criticamos porque ele forneceu uma forma de socialização, mas procedendo como se estivesse fornecendo uma teoria da mente, uma vez que para Freud sua teoria da mente assim como ela é, explica ao mesmo tempo toda forma de socialização humana existente.
Se antepomos a Freud que existem várias formas, não uma só, não podemos ao mesmo tempo conservar sua teoria que é o que é enquanto equacionamento de uma realidade suposta, aquela forma única e universal de socialização. Deleuze-Guattari instalaram assim uma contradição insolúvel na construção mesma do seu aparato teórico.
Minha crítica a Freud é à sua ambição de fornecer uma teoria da mente completa ("aparelho psíquico"/Édipo), de modo que ela abrange a intenção teórica de Deleuze-Guattari ("inconsciente maquínico/desejo esquizofrênico") que tem a mesma ambição, ainda que estes não tenham sido coerentes em princípio.
Não creio, portanto, haver uma forma (total) de socialização, para todas as sociedades, ou formas assim classificando sociedades, nem que seja explicável desde a natureza da psique humana, pois isso seria um paradigma inevitavelmente sociológico - o androcentrismo de Lacan, por exemplo - quando a psicanálise não é, nem pode ser, uma teoria social. Esse paradigma teria que ser examinado dentro da sociologia, e ali descobriríamos que está seriamente contestável hoje em dia.
Assim, Freud também não é coerente de todo, ainda que seja mais sutil a sua contradição. Mas criticar Freud requer que saibamos quais foram as suas categorias próprias, para mostrar o que pode ser dado como inválido. Quanto às de Guattari-Deleuze, minha crítica é que o capitalismo não é uma forma de socialização. Aqui não pretendi ter explicado as suas determinações objetivas (econômicas), apenas notado que aquilo que o capitalismo subentende como geopolítica, são formas de alteridade (negação da alteridade, objetificação do outro, etc.), e é só isso, formas de alterização, que o que Freud chamou complexo de Édipo de fato identifica, tudo o mais necessário para uma teoria da mente completa, não sendo demonstrável senão a partir de uma dose de abstração considerável, a qual, porém, nós podemos ligar a certos pressupostos intematizados vindos de outras áreas do saber - biologia, sociologia, antropologia - que hoje já são manifestamente inaceitáveis não só no seu conteúdo mas principalmente quanto à sua forma.
Além disso, se restringimos o inconsciente como linguagem, só o que estaremos analisando é a linguagem, não há aí necessariamente uma teoria da mente. Em todo caso, como linguagem ou como aparelho pulsional, ou seja, em todo caso mantendo-se a pretensão psicanalítica, esta se invalida se for claro que sua abrangência explicativa é demasiada, injustificada em relação àquilo que supõe poder reduzir. Por exemplo, não se pode explicar a arte como reflexo do impulso anal (Cf. Ch. Brenneer); não se pode justificar como universal da mente, a lógica aristotélica (Cf. Lacan). Essas são formas redutoras de entender a estética e o pensamento, contraditórias com o que decorre de teorias que já são mais aceitas nestas duas áreas, principalmente convergentes com teorias que já não são mais aceitas. Mas do mesmo modo, não se poderia explicar a arte e o pensamento pelo viés da maquínica deleuze-guattariana, trata-se de reducionismo, tanto quanto a sua classificação antropológica está invalídável do ponto de vista da antropologia..
Não pretendo, portanto, que o Édipo exista, nem o desejo maquínico, em consequência. Mas sim que a linguagem coloca o problema da alteridade: as relações de alterização que os vários textos colocam, por exemplo, a metafísica sendo uma relação em que a alteridade é somente suplementar em relação à identidade, enquanto pode-se demonstrar haver textos que estruturam relações irredutíveis a essa; e a problemática inconsciente que a alteridade do signo (enunciado) em relação à sua atuação (enunciação) coloca. Quanto a essa problemática, sua variação só pode se compreender como basilar em relação às condições de alteridade que os textos colocam, não autorizando extrapolações generalizantes do ponto de vista biológico ou mental, etc., a partir daí.
Ora, a esquizoanálise fala em territorialidades ("primitivo"/grupo), em dominação do território ("bárbaro"/déspota) e em franqueamento ilimitado de territórios ("capitalismo/Édipo), mas não fala nunca de uma geopolítica enquanto as relações de alteridade que se instauram em cada plano que consideram legítimo. O capitalismo exporta regimes para fazer correr o fluxo do dinheiro, nos dizem, mas não dizem nada sobre as diferenças de relações alterizantes entre esses regimes, se comporta heterogeneidade pensável como a democracia ou se objetifica o outro por só poder lidar com a identidade do mesmo, como num fascismo; isso é indiferente à explicação da causa profunda do capitalismo e de como/porque ele age como age, no Anti-Édipo.
O inconsciente maquínico é a transparência do signo/mundo, nenhuma alteridade pensável entre a cartografia da memória e o mundo habitado pelo sujeito da cartografia, ainda que esse mundo transparente seja irreconhecível para outros, tanto quanto não comporta nenhuma desconfiança de que o signo não é imediatamente o produto da alma.
Assim, quanto a Deleuze, não sabemos bem se a teoria versa sobre como todos pensam, ou sobre como alguns pensam e como se deve pensar, sendo que ela se estende ainda a como as coisas são. Pois, no Mille plateaux, o pensamento ´"rizomático" se torna, pelo conceito de rizoma, uma teoria geral de todos os fenômenos do mundo (agenciamentos, linhas).
Em todo caso, lançando o conceito de estrutura diferencial, em Diferença e Repetição Deleuze supõe o "pensamento" como uma gênese onde o que se cria é não um termo correlato a uma idéia que seria a identidade de um só conceito, mas uma constelação problemática, uma "idéia" definida como "multiplicidade" com relações intrínsecas de que se deriva, como que num outro nível, as possibilidades de posição dos elementos recognoscíveis. O que compõe a multiplicidade só pode se manter nesse elemento ideal, um diferencial (dx/dy) dos seus elementos, de modo que o pensamento não se põe nem como inato, nem como adquirido, mas fala-se da genitalidade do "ato de pensar", ou seja, de criar ideias genéticas da experiência de mundo possível, isto é, considera-se que ele é engendrado sempre no âmbito ideal, no seu próprio meio inconsciente. Exemplos ou tipos de idéia, nesse sentido de estruturas, seriam o atomismo (idéia física) de Epicuro; o Organismo (idéia biológica) na concepção de Saint Hillaire e o trabalho (idéia social) na teorização de Marx.
Não é que não simpatizamos com a índole libertária e anti-repressiva de Deleue-Gauttari, nem que não apreciamos seu talento literário e sua vasta erudição, mas sim que aquilo que eles objetivaram em termos dessa liberdade, nós precisamos ver se realmente pode ser obtido pelos meios que eles pressupõem serem viáveis, e para isso é preciso antes corroborar as suas premissas sobre o que justifica esses meios, assim como examinar se a índole libertária não chegou somente a uma concepção impossível do que é "ser" livre. Como espero ter ficado claro, não creio que eles tenham fornedido um modelo válido nessa acepção, ainda que tenham iluminado questões reais com suas críticas.
O Devir das ciências humanas, em sua redação original, testemunha da influência do pós-estruturalismo, e particularmente da esquizoanálise, na minha iniciação filosófica, a qual tangencia o percurso uerjiano na década de noventa. Mas um estudo aprofundado das humanities, como este, só pode conduzir à crtítica e reelaboração do pós-estruturalismo, e as que efetivei estão aqui relatadas quanto ao básico. O estudo posterior (Conceito e expressão) me permitiu apreender a importância de Derrida quanto à problemática da alteridade, mas atualmente, na proximidade do estudo sobre o tema literário dos duplos como releitura do Romantismo, parece-me bem claro ser necessário conceituar o pós-modernismo como ruptura em relação ao pós-estruturalismo.
O pós-modernismo teórico não é um novo paradigma, nem é uma época de transição até ocorrer um novo paradigma, mas sim um pensamento que recusa proceder por paradigma. Ele opera a recorrente tematização do seu Intertexto, entendendo-se como produção de linguagem cujo meio são as linguagens em que se constitui. É um permanente questionamento meta-teórico, como pensar a propósito de que teorias e pressupostos estão embutidos em nosso modo de pensar sobre algo específico, por exemplo, o feminismo, a sociedade, a irredutibilidade cultural, etc., cujo horizonte enquanto esse "algo" intercepta nossas práticas em seu devir sócio-histórico.
Krech e Crutchfield notam, porém, que essa polêmica "longa e muitas vezes áspera" que ocorre "no início do século XX", acerca do "pensamento sem imagens" deveu-se mais à posição radical pela qual os partidos combateram.
Por um lado, havia os que afirmavam que todo pensamento deve ser sem imagens, de modo que onde existem imagens, estas não desempenham papel importante, o conteudo do pensamento sendo somente "de pensamentos". Enquanto que os que a isso objetavam preconizavam que a descrição das pessoas que não incluíam as imagens haviam sido feitas inadequadamente, pois havia abundantes estudos sobre o papel da formação de imagens no processo do pensamento, especialmente na pesquisa da compreensão e resolução de problemas. Os autores reportam o testemunho de Galton acerca de um amigo que resolvia mentalmente cálculos por meio da visualização interior de uma régua que lograva "ler" mentalmente.
Krech e Crutchfield consideram que a luta terminou "sem decisão", pois os psicólogos concordaram em que as imagens às vezes estão presentes, ainda que subsistam descrições de outros aspectos "mais tangíveis" no que se designou "comportamento adaptativo", isto é, a conduta de resolução de problemas.
Assim, quando se trata de descrever o conteúdo da experiência interior quando se tenta resolver problemas, os dois autores consideram não haver dúvida sobre o fato de haver dois tipos de objetos possivelmente presentes, exteriores e interiores. Os exteriores são aqueles que vemos objetivamente no espaço à nossa frente como constitutivos do problema (cercas altas, portas trancadas, etc.); os interiores são as imagens que nos vêm à mente enquanto nos concentramos na questão, por exemplo, quando o romancista "vê" o herói do romance que está tentando criar.
Também no tocante à questão dos juízos a posição de Wurzburg desenvolveu-se de modo a inviabilizar a tradição associacionista, pois constatou que, em vez de se reduzir a uma conjunção de conceitos ou idéias, o juízo implica uma adesão ou assentimento do sujeito que o emite ou enuncia, de modo que esse componente interno, a atitude, será relevante como intenção, aderência ou envolvimento daquele que julga com o formulado pelo seu juízo. Há assim um componente de crença, ao mesmo tempo que um fator de prazer no enunciado de juízos. Esse prazer existe mesmo quando o juízo parece conflituoso com o interesse do sujeito que o enuncia.
Quanto à obtenção de conceitos, parece que depende da formulação do problema, posto que na interação do sujeito e do experimentador este pode induzir naquele, por exemplo, por certa pergunta feita em momento adequado, o elemento da resposta que, no entanto, o sujeito não verbaliza, isto é, não apreende como relevante, ao narrar o como do seu processo de resolução do impasse.
Guillaume observa as experiências de Duncker, conservando certos resultados obtidos por Selz, no domínio da pesquisa das formas de invenção utilizando sujeitos que deveriam "pensar em voz alta" enquanto tentavam solucionar problemas sugeridos pelo investigador, por exemplo, como destruir um tumor com raios X sem atingir os tecidos sãos que o circundam. A resposta, que seria concentrar sobre o tumor raios oriundos de vários pontos, vindo de vários lados, mas de fraca intensidade, nunca era imediatamente encontrada pelos sujeitos leigos quanto às técnicas cirúrgicas da época. Ocorre que, assim como já havia se tornado manifesto pelas experiências de Selz, jamais ocorria o que a descrição associacionista previa.
Por essa descrição deveria haver uma produção aleatória, profusa, de associações, ao que seguir-se-ia uma seleção crítica. Os fatos observados mostram, contudo, que não há tateamentos completamente soltos, mas uma evolução contínua do problema, em que cada fase é solução em relação à precedente, os erros mostrando-se como soluções parciais, até que o sujeito realiza o progresso que vai, geralmente, do geral ao especial.
A via ao progresso exibe assim retornos à proposta inicial inviabilizada por um obstáculo, que se torna de novo inviabilizada por que fracassa o outro aporte que se supôs contornar aquele obstáculo, e então se propõe um outro modo de endereçar o problema, que deverá sofrer retornos, assim consecutivamente, até que a solução é encontrada.
Não ocorre o tryal and error desordenado, mas seja numa só ou em várias direções, o pensamento se conduz em seu progresso sempre conforme as mesmas etapas: consciência e delimitação do conflito e de sua causa; determinação funcional da solução; resolução prática.
Essa conclusão de Duncker parece harmonizar-se com o que havia sido proposto por Selz que libertou-se do associacionismo ao aceitar que havia relações intrínsicas dos pensamentos sucessivos basicamente moduladas pela repetição ou semelhança entre certos eventos e certos efeitos anteriormente experimentados pelo sujeito. Conforme Selz, um meio ou procedência de eventos apresenta-se num problema atual porque já foi experimentado numa circunstância parecida, na qual tomou a qualidade de meio específico desse problema. Mas Duncker critica Selsz, pois essa sua "tese da ressonância", conforme a terminologia de Duncker, só explica procedimentos que já estão dados na experiência anterior do sujeito, não servindo para explicar o que ocorre no caso da autêntica invenção, que é precisamente o objeto da pesquisa. A questão essencial é então como é que algo pôde ter tomado a característica de meio não por uma experiência cega que somente demonstra que esse meio teve êxito, mas por um processo intelectual que demonstre que o meio deve ter êxito.
A crítica mais importante aos trabalhos de Selz se baseiam no fato de que seus procedimentos de teste, por exemplo, encontrar o nome do todo já tendo o nome de uma parte, achar um gênero cooordenado ou subordinado a um gênero dado, podem ter por resultado, especialmente se o sujeito da experiência é um espírito cultivado, que se invente antes o esquema do que a imagem, o princípio do que a realização prática, as então designadas qualidades gerais antes de suas qualidades especiais.
No entanto, essa conclusão não parece se não parcialmente aplicável quando se trata de problemas novos, quando a descoberta parece implicar elementos conceituais que se poderiam sugerir soltos ou não imediatamente ligados ao problema concreto que anteriormente formou a relação entre o meio e sua solução.Assim, quando Duncker propõe um problema parecido com o dos raios X, isto é, quando a solução é do mesmo tipo (uma multidão se desloca à rua principal da cidade no mesmo momento; que fazer para evitar o congestionamento? Sendo a solução orientar o fluxo aos acessos laterais), os sujeitos resolvem o problema sem pensar no anterior, sem notar qualquer analogia entre ambos, o que só compreendem ocorrer quando o investigador chama a sua atenção para o fato. O momento decisivo da invenção autêntica é assim um fato de pensamento concreto, a dedução sendo inseparável da intuição (Einsicht), conforme nota Guillaume, que exemplifica com Karl Duncker, também integrante do movimento gestaltista, o ponto de vista dessa abordagem.
Creio que isso se pode colocar mostrando que inversamente a inicialmente ser preciso dispor dos fatores do problema, isto é, intuir a posição de seus constituintes, para depois reunir as relações que ele implica, compreendendo então o problema, a sua posição já equivale ao modo mesmo como este é intuído. Compreender o problema é intuir as relações em que são dados os seus fatores. Assim, as formulações e reformulações são as várias tentativas de intuir uma totalidade dada como esse problema, na concepção gestaltista.
Somente quando se logra ter tornado a totalidade manifesta, é possível, conjuntamente, encontrar a sua solução, desde que esta corresponde à intuição do modo como ele se adequa à invenção do meio que o resolve, novo ambiente de totalidade que envolve o problema original como seu fator. A dedução não se põe desde uma estipulação independente de premissas, mas como a reposição, ou novo ato de intuição do problema como um todo, no contexto de sua solução. É interessante notar como se reverte assim a secular oposição filosófica entre o que seria a atividade nobre da alma, a dedução, e o que seria o quinhão da animalidade, a intuição e a percepção dos dados sensíveis.
Krech e Krutchfielt mencionam a "experiência do Ah!" (Aha- Erlebnis), designação pelo que os psicólogos gestaltistas formulam a conceituação do que ocorre no momento exato em que se encontra a solução do problema, acentuando assim a "compreensão brusca" na descrição da solução.
Os dois autores colocam essa descrição na base de uma experiência "brusca, completa e intensa", manifestamente contrastante com "a maioria das outras experiências". Sua descrição do processo de resolução, anterior à solução, mantém as referências já implementadas por Guillaume da perspectiva de Duncker, isto é, envolvem a não diferenciação entre o modo como o problema é percebido (corrente de percepção onde as impressões sobre o problema mudam continuamente, descontínua, pois ocorrem lapsos em que "não se pensa" na questão) e o modo como ele é solucionado. Assim, a solução sempre implica uma mudança na percepção das imagens associadas (ex: um ramo de árvore de repente é visto como um rodo). Seria também interessante notar a contribuição de Ach, no desenvolvimento das pesquisas orientada pela "escola de Wurzburg", mesmo quando seus integrantes já estavam em fases mais avançadas de suas carreiras, nem mesmo ligados profissionalmente à localidade de Wurzburg. As pesquisas de Ach abrangem o domínio da inteligência abstrata e da vontade.
Hyman narra uma experiência de Ach sobre pressões grupais. Trata-se de determinar a constância do comportamento individual frente a uma oposição grupal, ainda que não ocorra qualquer fator que deva induzir o sujeito a mudar o seu ponto de vista. Bem inversamente, nessa experiência, sete pessoas foram instruídas a responderem com uma medida errônea numa tarefa de comparação do comprimento de linhas. Assim, quando a oitava pessoa emitia o juízo sobre qual, dentre outras três linhas, era a que reproduzia a que havia sido adotada como padrão, todas as outras pessoas responderam que seu julgamento estava errado.
Essa pessoa (sujeito crítico), que nada sabia sobre a instrução prévia das outras, não tinha dificuldade alguma em notar qual a linha certa, mas seu resultado sempre se confrontava com a de todos os outros que davam como certa a linha errada. Contudo, o investigador tomou o cuidado de apresentar algumas situações em que o grupo concordava com o sujeito, de modo que, quando a tarefa era especialmente fácil, com resultado praticamente inequívoco, ocorria a discrepância entre sua percepção e a da maioria.
Em 18 situações de prova, 12 eram "críticas", no sentido de que o sujeito seria unanimemente confrontado, na sua evidência, pelo grupo. Em 50 pessoas, 37 cederam à pressão grupal ao cometerem um ou mais erros de julgamento no sentido do consenso do grupo, isto é, ao mudar sua opinião apenas para concordar com a maioria, ainda que nenhuma tenha cedido em todos os 12 testes críticos.
Ach conduziu então uma série de entrevistas em que os sujeitos críticos eram inicialmente tranqüilizados quanto à normalidade de suas observações contrastantes com as do grupo, para depois ser solicitados a verbalizar ora os motivos que conduziram à sua aderência, ora que conduziram a não ceder. Nesse caso alguns manifestaram confiança na própria observação, enquanto alguns apenas não queriam parecer iguais aos outros, havendo ainda os que suspeitaram ser isso mesmo o que queria o investigador.
Quanto aos que aderiram à posição do grupo, nunca suspeitaram de que havia algo errado com a situação; alguns chegaram a relatar que realmente foram conduzidos a supor que estavam "vendo" aquilo que os outros afirmavam ser o certo; alguns mantiveram a consciência do que viam como sendo oposto ao que os outros afirmavam, mas não quiseram manifestar sua opinião, pois não conservaram a confiança na sua suposição e pensaram que a maioria devia estava correta. Há também uma pesquisa importante de Ach no domínio da evocação, pois inviabilizou a tese clássica, vinda do associacionismo, sendo conservada pelos behavioristas, de que o reconhecimento de um objeto reapresentado ou a evocação da lembrança do objeto devido a um outro, presente, sempre dependem de que os traços que são selecionados do passado e reintegrados no presente o são, efetivamente, por que foram os mais reforçados. Isto é, a seleção atual deste ou daquele traço que evoca a anterior percepção se faz em favor da recordação que foi mais freqüentemente ou mais recentemente unida ao conteúdo da percepção atual.
A concepção de Ach era inicialmente a de que havia, junto às associações, tendências determinantes das atitudes mentais voluntárias ou involuntárias. Sua experiência se fez no sentido de demonstrar a existência desses dois fatores e comparar sua força respectiva.
Consistiu em promover a memorização de pares de sílabas em duas séries. Na série A as sílabas rimam (dag-bag), na série B a ordem se inverte (dag-gad). Tendo os sujeitos memorizado certos conjuntos de sílabas apresentados separadamente para ser assim associados, cada conjunto a uma das duas séries, a tarefa consistia em responder a outras sílabas, pronunciadas pelo experimentador, com sílabas que pudessem rimar com estas. Mas no decorrer do exercício eram introduzidas entre essas outras sílabas, algumas que faziam parte da série A ou B. A tendência correspondente à prescrição da tarefa, rimar, estaria, ora em acordo, ora em conflito, com as associações que vinham se fazendo normalmente, conforme essas sílabas proviessem das séries A ou B.
O acordo ou conflito corresponderia a uma diminuição ou alongamento do tempo de resposta do sujeito. Também o conflito poderia induzir a erros, quando a tendência gerada pela associação prevalecesse sobre a tendência a obedecer à regra especial do exercício. Ach pensou assim ter demonstrado a irredutibilidade entre esses dois tipos de processamentos, os meramente associativos e os que resultam da intervenção de uma tendência ou atitude assimilada pelo sujeito, no caso, resolver o exercício.
Lewin, porém, retomou esses experimentos, com algumas variações em que séries de pares de sílabas são fixadas por numerosas repetições. Nos experimentos críticos há uma tarefa definida (inverter, rimar, etc.) sendo inseridas, entre sílabas novas, sílabas repetidas das listas antigas. No resultado de Lewin jamais ocorrem erros, nem qualquer diferença no tempo de resposta.
Guillaume descreve as várias composições experimentais efetivadas por Lewin, sempre com o resultado de que a aprendizagem anterior fica sem efeito no contexto de uma tarefa atual. Assim, aquela em que são os sujeitos que criam os pares de sílabas conforme uma tarefa definida, por exemplo, substituir a consoante inicial dura por uma consoante doce (pal-bal). Associações por contigüidade que supostamente deveriam interferir quando esses pares fossem misturados com outros, novos, nunca suscitavam qualquer influência mensurável.
Em outro experimento ele induziu a situação de erro, complicando sobremaneira as tarefas, e o que se pôde apurar foi que o erro se deveu a uma atitude adotada pelo sujeito, inadequada à tarefa atual. Assim, numa série de exercícios que deviam implicar uma atitude a ser reproduzida em todos os casos intercalava-se um par que implicava uma variação dessa atitude conforme uma outra série de exercícios. Nesse caso demonstrava-se que não era a associação que se mantinha conflitante com uma participação voluntária do sujeito, mas sim que o conflito estava entre duas atitudes participativas diversas, isto é, em todo o caso, mesmo nas experiências conduzidas por Ach, ainda que mal interpretadas por ele, só estariam presentes as tendências determinantes.
A interpetração de Lewin acerca da evocação, ainda que por outros meios que Ach, estabeleceu que sua efetivação não depende de uma associação a elementos especialmente reforçados, mas sim de tendências subjetivas determinantes. Mas foi posteriormente criticada, no âmbito mesmo da Gestalt, conforme Pena e também Guillaume, por Koffka. A este pareceu a interpretação do problema por Lewin limitada a processos voluntários e motivacionais, enquanto que seria preciso focalizar o fenômeno da evocação assim como ocorre normalmente, isto é, de modo espontâneo.
Guillaume mostra que Koffka antepôs que só se demonstrou, até aí, que uma tendência pode estar na base de uma evocação , mas não que é condição necessária desta, como também que se duas percepções forem consecutivas, a presença de uma não basta para determinar a evocação da outra.
Köler, Koffka e von Restorff estabeleceram então afirmações mais coerentes com a teoria gestaltista onde, como no caso da percepção, se ressalta a coação do campo sobre a experiência do sujeito. Assim, se uma percepção se impõe independente de ser ou não pretendida, devido à organização figural no espaço, também uma evocação depende da organização fenomênica no tempo e se apresenta independente da participação voluntária do sujeito.
Se, conforme Pena, a importância de uma contribuição científica pode ser aquilatada pelo número de pesquisas ulteriores que motiva, isso sendo aplicado a Lewin que, não obstante as críticas, é o responsável pela ampla recepção do gestaltismo na área da psicologia social, creio que se poderia estender a observação à "escola de Wurzburg". Assim, também o autor registrou que foi justamente em torno da temática suscitada por Ach acerca da tendência determinante que se desencadeou o trabalho revolucionário de Lewin dentro do movimento gestaltista.
Ainda nos anos trinta a introspecção experimental se praticava correntemente, como se nota pelo experimento de Helen Durkin da Universidade Columbia (1937) em que sujeitos engajados na composição de puzzles eram convidados a "pensar em voz alta" durante a resolução do problema. Procurava-se assim o relato do sujeito sobre sua experiência no momento exato da brusca reorganização de suas percepções, isto é, da experiência do Ah!, geralmente precedendo por alguns instantes o ajuste material das peças do puzzle.
Vemos, portanto, por essa exemplificação utilizada por Krech e Crutchifield, ao expor a temática do comportamento adaptativo, como também na experiência de Duncker, que a técnica introduzida pelos pesquisadores de Wurzburg revelou-se aproveitável em vários setores da pesquisa psicológica, como na ambiência da Gestalt, não tendo sido restrita apenas aos propósitos da "escola". Não obstante, não se pode afirmar que o introspeccionismo é um deriva conservada na evolução da psicologia como um todo. Já a viragem "pós-moderna" que implica a inserção da informática na assim chamada "analogia" dos processos psíquicos com sistemas computacionais, não me parece relança-la, mas coloco o "observacional" em novos limiares de instrumentação. Seria interessante introduzir aqui algum lineamento básico dessa viragem, mas o Brasil sofre atualmente de aguda escassez de literatura informativa sobre ciências, assim como os títulos que vimos referenciando; e obviamente as referências estereotipadas de revistas não-especializadas não são utilizáveis. Registro aqui mais uma vez, que o país neoliberal está sob uma intervenção fascista, com censura ostensiva às práticas de produção cultural.
Os incômodos e abusos de que somos objeto quando nos propomos a enfrentar os obstáculos -ridículos ou traumáticos - que se nos antepõem podem ser exemplificados pelas interferências constantes no uso de computadores.
Se o ambiente internacional estiver interessado numa definição do Brasil desde a transição ao terceiro milênio, o mais apropriado seria: "Movido a Morto".
II -
A real oposição à proposta introspeccionista surgiu nos setores da psicologia cujo escopo estava mais balizado pelo modelo das ciências naturais e experimentais. É o caso típico do behaviorismo, principalmente nos seus alvores, mas isso muito relacionado aos avanços no campo do que se convencionou designar reflexologia, isto é, a pesquisa do condicionamento do comportamento, como em Pavlov. Assim, costuma-se referenciar a obra de Watson, o fundador do behaviorismo, conforme os momentos anteriores e posteriores ao seu conhecimento da obra de Pavlov, o que parece permitir supor que a modelagem desse tipo de pesquisa pelo trabalho laboratorial, assim como a recusa da teoria, se deve mais a essa influência.
Ray Hyman, insistindo na inviabilização da introspecção, relaciona explicitamente esse resultado com as pesquisas de Pavlov. Considera que não somente a introspecção, mas com ela também a abordagem psicológica estruturalista - elementarista - , foram completamente ultrapassados pela "revolução" que derrubou a tese clássica de sensações, imagens e sensações simples como unidades básicas da consciência.
Ele utiliza esse exemplo para mostrar como, na pesquisa científica, não se deve supor como norma começar por tentar contrafazer a ordem estabelecida. Os pesquisadores de Wurzburg não tiveram essa intenção, bem inversamente, haviam pensado confirmar, com a extensão do experimento introspectivo ao campo do pensamento, a crença aceita acerca do seu fundamento. Tal não ocorreu, porém, de modo que, conforme Hyman, o que os cientistas de Wurzburg constataram, afinal, foi que tinham contribuído para solapar as bases daquilo mesmo que havia sido o seu credo, aplainado o caminho para a psicologia gestaltista, na Europa, e para o behaviorismo, nos Estados Unidos. Assim, inicialmente, para lograr uma boa visibilidade do que contrapõe misticismo e ciência, ele ilumina o fenômeno de autodecepção, onde os sujeitos aceitam que fenômenos místicos estão ocorrendo quando são eles mesmos que contribuem para sua realização, por não possuir retroalimentação adequado acerca do movimento dos seus músculos, por exemplo, inclinando varas de radioestesia, mas pensando que a vara inclinou-se por motu próprio. Induz explicitamente o leitor a rejeitar fontes de observação que se sabem ser altamente falíveis, como a auto-observação.
O que marca a oposição mais completa entre misticismo e ciência psicológica é, então, que aquele precisa manter seus feitos no maior segredo quanto ao modo de proceder para efetivá-los, valorizando ainda o elemento da irrepetibilidade, para induzir a uma crença, na realidade injustificável, num fato cuja recepção observacional é fabricada pelo místico; enquanto esta, inversamente, precisa contar com a maior clareza comunicativa quanto às condições do experimento que, sobretudo, deve poder ser repetido todas as vezes e do mesmo modo, para refutar qualquer índice de desvio quanto às condições em que os fatos têm sua observação conseqüentemente suportada pelo seu desenrolar (no espetáculo do mágico ocorre o inverso, o que vemos não corresponde ao que ocorre). Hyman não estende as implicações do misticismo à canalhice mistificadora do tipo que está corrente nas comunicações de massa atuais, fala apenas do mágico no palco.
Em todo caso, segundo ele, a magia não apenas visa, mas maquina a ilusão; a ciência não apenas procura desfazê-la, ali onde se mostrou induzida artificialmente, mas, notadamente, ali onde se faz lugar comum como crença inadvertida sobre os fenômenos, a ilusão resultando, tantas vezes, da generalização imprudente, descontrolada, de fatos, a contextos onde não se aplicam - que é o procedimento sistemático da mídia. Por aí vemos o quanto a objetividade é básica no enunciado científico, nesse sentido estrito da lisura da pesquisa.
Hyman exemplifica a esse propósito, o anúncio bombástico por parte de um cientista, de raios até aí desconhecidos, que seriam inteiramente novos na história da ciência. Um outro pesquisador deslocou-se do seu país até aquele laboratório, solicitando que as condições da demonstração dos raios fossem repetidas, para que pudesse - como é o requisito fundamental em ciências - refazer toda a experiência em seu próprio laboratório. Mas toda a demonstração provou-se muito mal conduzida, o que o cientista nem fez notar de imediato. Em todo caso, provou-se impossível repetir a experiência em qualquer laboratório que não o do referido cientista que teria descoberto os novos raios - ou seja, os tais não existiam.
Logo depois dessa colocação, Hyman descreve a polêmica entre Titchener e Wundt, por um lado, e a escola de Wurzburg, para então mostrar que essa trajetória se pode recontar tendo como referencial o percurso de Pavlov, o "fundador da psicologia russa".
Aqui, mais duas lições sobre a "natureza da investigação" científica. Inicialmente, há a evidência do Zeitgeist, o clima intelectual do tempo, não como habitualmente se aponta, algo inibidor da novidade, mas como cenário não dispensável na descoberta individual do cientista. Mas também há o fator persistência e autoconfiança, resistência às críticas e incompreensões, para que a descoberta se desenvolva e resulte num quadro coerente acerca do fenômeno.
O elemento inicial se exemplifica pelas inúmeras influências de Pavlov. O apelo reinante do positivismo e do materialismo, como no grupo de Carl Ludwig, com quem estudou Pavlov, cujos integrantes haviam jurado libertar a ciência tanto do subjetivismo quanto das explicações sobrenaturais. A ênfase na pesquisa fisiológica, especialmente o Physiology of Common Life de George Henry Lewes, contendo um desenho do aparelho digestivo assinado por Claude Bernard, obra que parece ter exercido verdadeiro fascínio sobre Pavlov. Também a técnica de Basov que consistia na produção de uma fístula no estômago de animais que habilitava a estudar os processos digestivos à medida que ocorriam.
Especialmente a obra de Sechenov, Reflexos do Cérebro, que sugeria a proposição que se tornou axial em reflexologia, pelo que "todos os atos da vida consciente ou inconsciente são reflexos", conforme a citação de Sechenov por Hyman, ainda que esse livro, lido por Pavlov, possa ter tido um papel marginal, já que ele confessa não ter tido esse lema como guia nas suas pesquisas.
O gênio de Pavlov revela-se por sua aptidão a concatenar inúmeras pistas que até então estavam dispersas no meio cultural, a conceder-llhes uma forma ou interpretação coerente, não como simplesmente ter tido uma idéia que ninguém pensou antes, conforme Hyman.
Assim, temos a exemplificação do requisito que se coaduna com este, pois Hyman mostra como Twitmeyer, estudando o movimento reflexo do joelho, nos Estados Unidos, já havia chegado à conclusão da existência do reflexo condicionado. Ele havia notado, acidentalmente, ao estudar o reflexo do joelho, que por vezes, quando fazia soar uma sineta para advertir da pancada, o joelho do paciente saltava antes do estímulo do martelo o atingir. Twitmeyer compreendeu a importância da observação, publicando uma comunicação à American Psychological Association quando sob a presidência de Willian James, bem no início do século XX. Não recebendo qualquer incentivo, nem maior crédito por suas descobertas, Twitmeyer não prosseguiu nas pesquisas.
Pavlov não foi, portanto, o primeiro a "descobrir" o fenômeno do reflexo. Tampouco deixou de receber inúmeras críticas. Mas, ainda assim, continuou com sua pesquisa, ou, nas palavras de Hyman "ignorou as críticas, convenceu-se de que estava lidando com algo muito importante", e envolveu sua carreira, inteiramente, com a explicação do que havia descoberto. Fundou assim um dos mais importantes ramos da pesquisa psicológica, Hyman aceitando,por exemplo, que "quase certamente" o critério experimental para abordar o comportamento infantil que conduziu a psicologia russa, paralelamente aos trabalhos de Piaget, a uma superação da limitação deste aos métodos diferenciais - e conseqüentemente ao determinismo da idade - veio do acordo desses pesquisadores com a obra de Pavlov.
Ora, inicialmente Pavlov não se propôs totalmente aversivo à interpretação subjetivista. Na verdade, a problematização do condicionamento ocorreu acidentalmente, de modo que ele supôs, de início, estar na presença de resíduos psíquicos ali onde focalizava a relação do sistema nervoso com funcionamentos físicos.
Seu trabalho inicial versava sobre o efeito do sistema nervoso na regulação da atividade do coração, depois, tendo aperfeiçoado a técnica de produção da fístula estomacal, sobre o efeito do sistema nervoso na secreção dos sucos gástricos. Constatar que a estimulação direta do alimento na boca conduzia a uma estimulação não direta do fluxo gástrico-salivar pela vista da comida pareceu ao fisiologista um transtorno de suas premissas, algo que seria preciso explicar. Por isso, designou inicialmente o fenômeno como "secreção psíquica", ou seja, tentou interpretar "psicologicamente" as secreções do cão.
Na condução desse tipo de hipótese Pavlov e colegas tentavam imaginar como seria a situação de acordo com a vida subjetiva do animal. "Mas como estudar isso?" perguntava-se ele, pois logo que se colocavam na via da interpretação subjetiva, pensando na base de termos como "ansear por comer" , "desejar a comida", os pesquisadores do grupo chegavam a opiniões opostas. Poderiam, por décadas, resolver tudo num ou noutro sentido, resultando igualmente na extinção da discussão. Isso, é claro, mostrou que estavam num caminho inviável. Era preciso encontrar outro modo para prosseguir, ainda que isso não parecesse fácil.
A decisão que facultou a reorientação do curso da pesquisa foi a de se proibir - no laboratório foi instaurada uma multa - o uso de termos como "o cão quis", "o cão adivinhou", "desejou", etc. - conforme o trecho de Lectures on Conditioned Reflexes, em que Pavlov narra sua experiência.
A fase da "secreção psíquica" foi a mais crítica, do ponto de vista pessoal. Pavlov foi rejeitado tanto por aqueles que considervam indigno do espírito ser tratado pela ciência, como por aqueles que consideravam inadequado à ciência esse material subjetivo como objeto de pesquisa séria. Mas, com paciência e aplicação, ele e seus colegas exploraram as hipóteses até que mostrassem seus limites intrínsecos, para só então engajar-se na trilha que lhes pareceu restar como viável.
Nota-se como Hyman exemplifica assim, novamente, a inviabilização da introspecção subjetivista, nesse caso a interpretação do comportamento alheio pelo que seria comum ao sujeito de observação, mesmo numa base de inicial aceitação da hipótese.
Mas registra igualmente que quando Watson aproveitou os resultados de Pavlov e inaugurou a pesquisa behaviorista, já havia uma impressão favorável ao princípio de que a psicologia deveria ser o estudo do comportamento, não da "experiência" subjetiva, a introspecção não sendo de modo algum confiável. Aceitava-se já, também, que os comportamentos animal e infantil eram tão legítimos como objeto de pesquisa quanto o dos adultos - a novidade dessa proposição se mostra quando lembramos que os introspeccionistas treinados eram sempre sujeitos adultos, dos mais inteligentes.
Como no caso de Pavlov, Watson já encontra um conjunto de fatores favoráveis ao desenvolvimento de suas descobertas. Hyman ensina assim que a originalidade, na acepção comum, não conduz à revolução científica, mas sim o pendor para recolher os fios da meada, reunir os temas existentes numa forma atrativa e convincente, apresentando-os no momento certo, quando a comunidade científica já está consciente das limitações do paradigma aceito.
"Sobre a Reflexologia" Antonio Pena escreve que pode definir-se como o "estudo da atividade superior do sistema nervoso", algo "mais adequadamente denominado Teoria do Condicionamento", tendo por objeto "a investigação dos processos de formação e inibição de respostas condicionadas".
Pavlov é incontestavelmente o seu criador - "como sistema essencialmetne vinculado à fisiologia.." Esse tipo de estudo fundamentou as teorias do comportamento, os estudos sobre aprendizagem e, mais atualmente, instrumentalizou as assim chamadas "terapias comportamentais" que, inversamente à psicanálise, consideram o distúrbio apresentado no comportamento não como um sintoma, mas como o próprio problema a eliminar. Acerca de Pavlov, Pena apóia-se basicamente nos registros de Eisenck, utilizando também observações de Le Ny.
No entanto, Pena, no texto já citado, considera Descartes como o pioneiro na descrição das "respostas reflexas", o que vemos, com Canguilhem, não ser inteiramente exato, ainda que usual. Roberto Machado (Ciência e Saber, a trajetória da arqueologia de Foucault), esclarece duplamente bem quanto a isso, a nossos propósitos, porque sua apresentação clara do assunto é propedêutica, como instalação do ambiente epistêmico em que a pesquisa de Foucault emergiu.
Assim, ele examina tanto Canguilhem quanto Bachelard como introdutores, junto a Cavailles e Koyré, de uma epistemologia francesa que seria centrada nos discursos, isto é,sendo uma história conceitual intrínseca, ela se pontuaria pelas descontinuidades e cortes espistemológicos que impulsionam a formação da ciência assim como exercício atual. Enquanto que a retomada desse parâmetro por Foucault, na concepção de Machado, já implicaria uma ruptura propriamente "arqueológica" com a epistemologia pura, por alargar a história, do conceitual a algo que mais geralmente propõe-se "como uma crítica da própria ideia de racionalidade".
Mas aqui devemos notar que a concepção de racionalidade como algo não conexo a um senso comum do homem, e sim como o que os estudos demonstram exclusivamente um resultado do fazer da ciência, é o que está implícito já nessa epistemologia em cujo ambiente emerge a obra de Foucault. .
Canguilhem considera, de fato, a perspectiva de Descartes como um verdadeiro obstáculo epistemológico na consecução da descrição mais viável do fenômeno do reflexo. Seria até mesmo espantoso que Descartes pudesse ter lidado com a noção de reflexividade em nível orgânico, algo que se contrapõe frontalmente a todo o seu dualismo mente- matéria.
Além disso, há aqui a notação de que, se desde o século XIX uma "história descritiva", na expressão de Machado, sedimentou a versão de ser Descartes quem formulou o conceito de reflexo, é porque esse tipo de história ignora a dependência entre a "definição e as condições exigidas pelo critério de julgamento que a orienta". Machado cita agora Canguilhem: "O movimento referido como o concebe Willis é realmente a manifestação na periferia, isto é, no músculo, de uma energia transposta ou propagada da periferia, isto é, do órgão do sentido; não o efeito peíférico de um motor central, com comando central acionado da periferia, como em Descartes".
Para Descartes, o movimento que se manifesta na periferia tem origem em um centro, o coração. Para Willis, ainda segundo Canguilhem, já estava assente o que foi definido cientificamente a partir do século XIX: "o essencial do conceito de reflexo não é apenas conter o elemeneto ou o resumo de uma explicação mecânica do movimento muscular, é admitir que parte da periferia do organismo o abalo, qualquer que seja sua natureza, que, depois de reflexão em um centro, retorna para esta mesma periferia".
Conforme o texto de Roberto Machado, Canguilhem considera assim Willis, não Descartes, como o descobridor do conceito de reflexo, e desde aí constroi o percurso das rupturas epistêmicas que constituem a história do conceito até a atualidade, o que se condensa num enunciado de sua definição hoje em curso, citada em Machado: "O movimento reflexo (Willis) é aquele que imediatamente provocado por uma sensação antecedente (Willis) é determinado por leis físicas (Willis, Astruc, Unzer, Prochaska), e em relação com os instintos (Whytt, Prochaska), pela reflexão (Willis, Astruc, Unzer, Prochaka), das impressões nervosas sensitivas em motrizes, no nível da medula espinhal (Whytt, Prochaka, Legallois) com ou sem consciência concomitante" .
Em História das ideias psicológicas, Antonio Pena referencia a relação de Canguilhem com a psicologia. Aqui, a continuidade desde Descartes ao cenário da psicologia atual que a noção comum e básica de reflexo permitiria supor como a posição de Pena que vimos no "Introdução ...", é denegada por este. Insere Pena uma oposição entre duas histórias, de idéias e de ciências, de modo que a periodização de uma história da psicologia enquanto ciência, implica a descontinuidade com o simples relato das ideias psicológicas ("história doxográfica"), e assim como ciência, a psicologia nasce somente na transição ao século XX. Já em "Percepção e realidade", onde estuda apenas a psicologia da atividade perceptiva, não mantém o rigor dessa oposição, tratando por igual as opiniões de filósofos, como Hume a propósito da causalidade, Husserl e Descartes a propósito do tempo, e as experiências e conceitos dos psicólogos já integrados nas práticas laboratorial do século XX.
Com relação à periodização, este é de fato um capítulo muito controverso na condução de uma apreciação dos grandes movimentos da psicologia, primeiro porque, como já vimos, as posições sobre o que tem ou não o status científico são variáveis, mas agora é o momento de salientar que também são variáveis as concepções a propósito de quando começa a psicologia científica. Se no primeiro caso a questão é mais geral, epistemológica, neste segundo caso ela contem um ingrediente de especificidade pois, mesmo que esteja embutida numa problemática conduzida num interesse mais geral - como é o caso em Canguilhem - ela depende já daquilo que se considera o objeto da psicologia enquanto ciência. Deve-se notar, ainda, que o mais geral em Canguilhem é de ordinário restrito ao epistemológico, não ao histórico, que, no entanto, é também o caso quando se trata de psicologia.
Assim é importante salientar, como em Roberto Machado, que essa perspectiva mais geral, histórica, em Canguilhem limitou-se à análise da psicologia: se os textos reservados a esse propósito "mostram a importância conferida por Canguilhem à relação entre os conceitos e as práticas econômicas e sociais, eles não são, entretanto, representativos do conjunto de sua obra; com efeito,mesmo se sua história conceitual não se limita ao interior de uma ciência, ela abandona raramente o nível do discurso" que em Machado significa ater-se ao nível do desenvolvimento da verdade, da objetividade, somente do que é intrínseco à ciência, não à sua inserção propriamente histórica. Assim, Foucault sempre procederia, num momento inicial de sua abordagem, como em História da loucura, do mesmo modo que Canguilhem procedeu somente no caso da psicologia.
O modo como estou aproximando apenas, os autores e movimentos que na literatura especializada mais comumente encontrável se entre-reportam de si mesmos como de fato históricos e decisivos, evita o caráter polêmico dessa controvérsia a propósito da periodização, e conserva o valor de amostragem da mentalidade vigente, que é o que me interessa especialmente. Mas nesse trecho cabe salientar algo da problemáica.
Inicialmente, há a viragem da filosofia moderna, com Descartes, que instaura todo pensamento na região do Cogito - mas não de modo que este instaure uma problemática de si como sujeito. Há depois, uma ruptura notável no começo do século XIX, a qual introduz a psicologia, ainda que introspectiva, que se auto-enuncia uma ciência autônoma. É nessa ruptura epistemológica mais geral, que instaura a problematização do sujeito, que coalescem as humanities como ciências separadas da filosofia. A partir daí, porém, é no começo do século XIX que se instrumentaliza laboratorialmente a pesquisa.
Assim, há três posições mais gerais, quanto ao início da psicologia: a) desde Descartes; b) desde o início do século XIX; c) desde o início do século XX. Isso está, porém, complicado porque essas posições independem da decisão primordial acerca da cientificidade da psicologia.
Paul Fraisse considera o início com Descartes, enquanto a posição de Canguilhem é um tanto mais complicada porque admite um corte epistemológico entre a psicologia moderna e o que seria uma psicologia antiga, mas se ambas são tão radicalmente distinguíveis, é difícil apreender o sentido da manutenção do termo. Mas compreendendo a moderna como ciência da subjetividade, pensa que ela emerge com a fisiologia do século XVII, enquanto até aí a noção aristotélica de "alma"como forma do corpo vivo poria os estudos correspondentes no ramo de uma "física", ciência exclusiva da mnifestação inerente à corporeidade humana. Em todo caso, Canguilhem ataca, como o fará Foucault, a cientificidade da psicologia moderna - o caso é irrelevante para o que seria a antiga, obviamente - enquanto Paul Fraisse a assume sem problemas.
Já Piaget considera que toda a história da psicologia antes do século XX é de uma psicologia "filosófica", isto é, não científica, mas que não poderia, contudo, ter nascido antes do século XIX. Como tal ela surge da cisão pioneira das ciências e da filosofia, que na opinião de Piaget significa a exigência por parte da filosofia, de conteúdos não passíveis de serem fornecidos pela ciência experimental, questão que não tinha sentido até aí, por não haver até então o status totalmente autônomo da ciência experimental. Claro está que Piaget confunde todo o percurso da pscologia do século XIX com o discurso da fenomenologia e hermenêutica do século XX.
Alhures mostrei que para Maine de Biran e outros registros do século XIX, o introspeccionismo era uma ciência, não uma filosofia, portanto, sua concepção era muito irredutível à dos fenomenólogos que surgiram no século XX. Assim, essa é uma questão histórica. Mesmo que a opinião de Piaget se justifique por sua concepção do objeto - ou do estatuto experimental-laboratorial - da psicologia científica, ele não poderia afirmar que todos os psicólogos até aí queriam, como Merleau-Ponty ou mesmo Bergson, reservar problemas humanos como não cientificamente acessíveis.
Inversamente, Biran e outros expressam estar tratando pioneiramente, de forma cientifica, certos problemas que até então eram supostos ser tratáveis dentro de uma teoria geral das ideias - como entre os ideólogos sensualistas do Iluminismo. Isso compromete também a noção geral de que tudo era dualismo no século XIX, mas o fato e que após esse início, o surgimento do positivismo implicou o cenário que vimos dever ser superado na transição ao século XX. É sintomático que o positivismo, como o Realismo, sejam discursos altamente críticos em relação ao Romantismo.
Mas assim o papel da filosofia, na época do Romantismo, e como em Biran e Cousin ou os pós-kantianos alemães, foi reformulado, para se tornar, pioneiramente, aquele de fornecer uma sistematização do Real com base nos novos dados fornecidos pelas ciências, afirmando-se portanto que toda a sistematização conceitual da tradição tornava-se passível de crítica por ignorar os dados das ciências, lembrando que está havendo concomitantemente, a revolução da biologia nascente e da História como ciência social.
Isso é o que Foucault também não apreendeu, confundindo a nova tarefa de sistematização da filosofia como se fosse a mesma tarefa das ciências humanas nascentes, o que não é verdadeiro. .
Além disso, podemos notar que essa concepção de que os dados das ciências autônomas podiam servir a uma posterior elaboração conceitual pela filosofia, e assim a novos sistemas filosóficos, é o que foi se revelando complicado ao longo do século, pela crescente complexidade das ciências, de modo que elas não perfaziam mais, já à época de Cournot, sequer a ideia de serem todas produtos de uma mesma razão, isto é, de algo conceitualmente unificável em termos a priorísticos ou mesmo quanto à finalidade.
Mas que isso significa uma postura universal de abandono da interpretação do resultado das ciências em termos de pensamento ou de visão de mundo, seria falso, pelo que vimos já em Heisemberg e Bohr, e mais recentemente se exemplificaria com o misticismo de Capra, mas por outro lado, e inversamente, pode-se notar que a visão único-objetivista do mundo é partilhada e fomentada como única demonstrável ainda por muitos cientistas da natureza.
O que ocorre é que a filosofia como um todo foi se tornando um domínio separado dessa tarefa de sistematizar os dados das ciências, dada por impossível a ela como esse todo, e a interpretação das ciências ficou reservada, em filosofia, apenas aos ramos específicos da teoria do conhecimento. Por outro lado, onde havia a antiga ontologia, nesse ramo se desenvolveu uma crítica ou recusa das ciências tão radical quanto possa ser a da fenomenologia, hermenêutica, etc., naquela base em que a interceptou criticamente Piaget para obstar que haja verdade "humana" a priori não-científica, estando hoje o cerne da polêmica ainda aceso.
A concepção de Pena implica que tanto Fraisse quanto Canguilhem devem ser criticados, para defender-se essa posição de Piaget, de um início da psicologia científica somente desde a transição ao século XX. Mas o modo como Pena a sustenta é um pouco diferente do próprio Piaget que nem é citado nesse ponto.
Assim vemos ser Fraisse ostensivamente criticado por Pena, devido a ter baseado sua periodização em "uma inadequada referência a uma ciência da psique, dado que, precisamente, o saber que se constitui centrado nesse objeto se revela essencialmetne doxográfico e não científico".
Já a Canguilhem, não há uma crítica ostensiva, pois, após a ressalva de que ele não considera a psicologia científica, não obstante forneceu "um dos mais sofisticados esforços para sistematizar e periodizar a história da psicologia". Ora, quando nos acercamos da exposição centrada agora nessa sistematização, vemos que na verdade Canguilhem está errado quanto a Biran. Ele pensa, nas palavras de Pena, que "tanto Maine de Biran quanto Gall", igualmente supõem que "o homem não é mais uma inteligência, mas uma vontade servida por órgãos." , o que autorizaria classificar o projeto da psicologia do século XIX coimo uma "biologia do comportamento humano".
Já o que vimos em Bréhier ("História da filosofia") sobre isso é que se Biran refutou a definição usual, como ainda professada por Bonald, do homem como uma inteligência servida por um organismo, a sua objeção é que o homem é um ser duplo - espécie biológica e intersubjetividade, mesmo não sendo essa a terminologia própria de Biran. Em todo caso, nem apenas substituindo a inteligência pela vontade para manter o dualismo cartesiano numa interpretação idealista/intelectualista da introspecção, nem pelo contrário, para reduzir a psicologia à psicofisiologia.
O próprio Pena manifesta, mais à frente, uma apreciação mais sutil de Biran, assinalando que "por esforço", Biran entende "a atividade autenticamente humana e mista" pelo que o movimento do corpo implica a potência decisória da vontade. Mas sua exposição está marcada pela centralidade do relato de Piaget a que já nos referimos. Aqui o importante é a opinião de Michote pela qual Biran antecipa Piaget por ser um pensador da ação causativa, e Piaget, não obstante a inscrição distorcida do "espiritualismo", concorda parcialmente, mas para ele é importante notar que se Biran representa a tomada de consciência do nexo intrínseco de causa e efeito, ainda assim ele creditou a auto-concepção a uma noção errada de esforço físico.
Como a maioria das fontes de história da psicologia começam com a superação da "consciência" dos positivistas -associacionistas, na transição ao século XX, aqui não reservei um espaço para a problemática da psicologia no Romantismo, o que creio dever se assinalar por sua peculiar irredutibilidade ao que se segue com o surgimento do positivismo. O blog intitulado "O romantismo, el doble e o fantástico" contém um texto sobre isso e particularmente sobre a psicologia de Biran, que considero da ação, não da causa, assim como toda essa questão da necessidade de releitura do Romantismo pela inserção da temática do duplo está permeando os textos que tenho publicado na Internet, oriundos de elaboração posterior à de O Devir das ciências humanas.
É preciso também registrar que nessa História das ideias psicológicas, Pena está lidando com uma concepção de mentalidade selvagem na base de uma referência antropológica já desusada. É certo que ele referencia a antropologia posterior, mas sempre mantendo-se na premissa inicial de que todos os primitivos tem uma concepção de "alma" como "substância sutil"- por onde questões como a da origem desse universal humano, por exemplo, podendo ser uma generalização do conteúdo dos sonhos, como propuseram ainda Janet e Seailles. Mas podemos contrapor que essa é a posição que implicou a série de erros de Rank a propósito da temática dos "duplos" na literatura romântica, como até mesmo a introdução do seu texto na coleção "Gama de orion" fez notar. Pois, de fato, já está assente que as concepções dos povos não-ocidentais sobre essa problemática são variadíssimas, muitos povos não comportando ideias de antropomorfização, etc.
Sobre a mentalidade selvagem ou primitiva, é importante registrar que já na elaboração de O devir das ciências humanas (2006/08), pude constatar que minha intenção inicial de verificar se poderia ser discernido um "texto" de época ou de tendências - portanto histórico - a partir da tipologia dos "enunciados" que formam os mapas historicamente assinaláveis por reunirem-se em formas definidas de sua enunciação em épocas diferentes (os ramos de filosofia que mudam através dos tempos, ou as disciplinas na atualidade), foi contemplada pelo destacamento nítido da relação entre a cientificização do pensamento humano em princípios do século XIX, e a transformação da imagem do passado da cultura pela inserção da alteridade na mentalidade do homem, isto é, quando os outros povos, não-europeus, começam a ter que ser conceituados como tais pelas ciências humanas assim como põe a evolução a origem do europeu numa outridade em relação à sua atualidade.
A princípio, no entanto, isso só fica incontornável ao olhar justamente nos inícios do século XX, quando a antropologia social se torna, impulsionada pelo neocolonialismo, um trabalho de campo, e a terminologia do "primitivo" vem a ser preponderante como o problema crucial das humanities.
Na elaboração posterior a esse estudo, quando desenvolvi um outro projeto focalizando apenas, com um intuito de mapeamento de enunciados, os dois séculos recentes, o que eu havia sedimentado como os "textos" realmente assinaláveis até aí, tendências mais gerais como aqui já discernimos o formalismo desde os anos trinta, ou regimes de objeto, como o que chamei o "quântico" dessa época e o "sedutor" ou binário-informático da atualidade, revelaram-se apenas transversalidades, inclusive por vezes podendo ser rastreadas a sua auto-comcepção expressa na própria época.
Mas nesse novo projeto, que intitulei "Conceito e expressão, dois séculos de arte e pensamento" (2009), a reaproximação daqueles inícios de século XX tinha agora por condução um exame acurado da revolução modernista em artes, o que implicava o exame da produção nos países "demargens" - como os americano-latinos- que por esse movimento se tornavam produtores estéticos com relevância na história da arte "oficial",lembrando que, conforme Otavio Paz observou, o modernismo penetra na Espanha pela importação do que estava se produzindo aqui, invertendo o sentido costumeiro da assim chamada assimilação cultural.
Nesse projeto houve então uma real ruptura, não por intenção já determinada, mas porque o exame honesto dessas produções, não já marcado por preconceitos, mostra que o que nelas atua como "texto" recuperável de seus "enunciados" é a crítica e transformação de parâmetros epistêmicos arraigados por um etnocentrismo muitas vezes intematizado, como uma regra de construção subjacente à tradição europeia, algo que se comunica da filosofia às ciências humanas, mas que nestas encontra o seu limite por se tratar de uma dupla elaboração, tanto "de campo" e por aí sendo forçada ao confronto da alteridade real, quanto " de sistematização" desses dados, onde se os re-elabora à luz de teorias já dispostas na tradição etnocentrada.
Então o que ocorre no conflito desses dois vetores da pesquisa, é que não há como contornar ao olhar o fato das mudanças de paradigma estarem impulsionadas pelas descobertas de campo que desconcertam o sedimentado pela teoria que orientava a sua própria descrição. Por exemplo, o funcionalismo como uma metodologia mais geral, o que estamos vendo como a tendência formal dos anos trinta, vem intrinsecamente relacionado aos estudos in loco de Malinowski e Radcliffe-Brown que implicam a ruptura para com os esquemas lineares oriundos dos simples arranjos de dados obtidos sem controle, do século XIX.
Nos países de margem, paralelamente, o modernismo relacionado ao novo conceito de "primitivismo", como vimos, estará enveredando pelas vias de pesquisa da própria singularidade de formação e cultura, portanto inviabilizando a reapropriação em nível de sistematização, pelos esquemas tradicionais etnocentrados europeus. Mas assim torna-se inevitável esclarecer também como a sistematização etnocentrada, e já o disponível na tradição que a viabiliza, é uma concepção de alteridade que, distorcida como se comprova, ainda assim é intrínseca à formulação das próprias ciências humanas que portanto, atuam como discursos de auto-constituição para si desse "centro" de Saber universal da identidade (do outro e de si). O nível da minha pesquisa do "texto" encontrou assim um critério firme, autônomo.
A releitura do Romantismo, que desenvolvi em torno do tema dos duplos literários (2010/11), deve-se a que, enquanto cenário da emergência das humanities, ele assinala a origem do que é um erro designar "encontro de culturas" a partir das Grandes Navegações, já que ´desde aí até o início do século XIX, na margem o europeu não discerne "cultura" e sim tão somente "natureza" e o "selvagem" não é um ser cultural, e sim natural. A emergência das humanities deve ser reconceituada assim, de modo a evidenciar o seu nexo intrínseco ao fator "alteridade cultural" que se torna o seu "texto", de modo que podemos afirmar que seus "enunciados"reportam-se a um objeto antropológico por elas produzido, não a um postulado intematizado da generalidade da Representação como o "postulado do Homem" imaginado por Foucault.
Constituí vários aportes teóricos hauridos dessa ruptura, os quais tenho desenvolvido em sua apresentação e implicações nos outros blogs:
a) o nexo de enunciação e tópica (inconsciente-linguagem) da alteridade como algo variável historicamente conforme a visibilidade do outro e as políticas subjacentes (guerras, apropriações, relações legalizadas, colonialismo, etc.), por onde se vê que a explicitação para si de uma alteridade cultural é um acontecimento capital, implicando regimes irredutíveis de enunciação tais que as ciências humanas se tornam possíveis, e em relação a que as possibilidades de redução do outro ao mesmo é uma das variáveis da tópica;
b) a reconceituação do ex-cêntrico (o outro em relação à política e regime de enunciados do "mesmo" etnocentrado) pelo desfazimento do apriori da neutralidade formal da hiância (linguagem), de modo a reinterpretar a tópica como heterogeneidade politica (não mero "suplemento");
c) a releitura do Romantismo como estruturando, desde as humanities nascentes, a formação do ego geopolítico ou auto-compreensão do Ocidente que é restrita a essa regra de construção ainda que o que ela gera são formas de reinterpretação inconsciente do passado (Grécia, Idade Mèdia, etc.)como unidade ou "tradição" de si mesmo. Nessa auto-compreensão, porém, o Ocidente é Centro em relação aos outros povos que foram conceituados como sua Margem, desde as condições do Saber (da tradição filosófica à ciência) do centro em relação a toda margem; mas não havia até então, o conhecimento desses povos, nem sua conceituação como "povos" (cultura/margem).
as releituras dos discursos metafísicos do passado como possibilitados pela ausência/oclusão da visibilidade do outro (paralógica "fundamento-suplemento"); o que implica especialmente a releitura da Sofística como pensamento da alteridade, quando a heterogeneidade grega era politicamente presente (indeslocável), sendo a sofística um pensamento do ex-cêntrico (em relação à nobreza ou mentalidade homérica); e a posição do Barroco/classicismo, como discurso de uma "natureza" que implicava a presença do outro, mas ainda permitindo-se sua redução dualista pela transcendência filosófico/religiosa. A emergência das ciências empíricas pensáveis autônomas pode assim ser relacionada com a visibilidade gradualmente alargada, da alteridade da margem, o que franqueia o limite metafísico que impedia pensar inteligível a visibilidade do devir (alteridade do signo).
d) o critério que permite relacionar a tópica e a efetividade histórica - como a luta de classes grega, as dominações eclesiÁstica e imperial-colonialista subsequentes, até a emergência da ego-logia do Ocidente podendo estruturar a reconceituação do Capitalismo como "assimetria internacional do capital" por onde não se conserva o dualismo de infra e subra estrutura, mas se pensa a estruturação em termos de dominação cultural (linguagem da cultura oficial imposta universalmente junto com as condições de exportação da sociedade industrial/"ocidentalização"/"racionalização"/"cientifização". A regra de construção da assimetria é a História narrativizada desde o Positivismo, em função do Sujeito universal dessa cientificização, o Ocidente (Saber/Poder).
e. 1) a releitura da história das humanities como períodos ou "textos" (tópicas) demarcáveis na sua irredutibilidade, pelas transformações decorrentes das mudanças históricas das condições de visibilidade da margem intrinsecamente relacionadas às transformações da sociedade industrial, ou seja, das formas sucessivas de apropriação imperialista. O inconsciente freudiano não teria fornecido o universal desejo, mas discursivizado o desejo da dominação imperialista ("discurso"), isto é, a Geo-egologia ("Inconsciente Geopolítico").
O Romantismo sendo a formação do ego no Centro, não implica ainda senão a visibilidade da margem como heterogneiedade da livre empresa ("liberalismo econômico"/ independência das ex-colônias) e da cultura (oralidade): o Positivismo não seria uma decorrência universal necessária da oralidade como analidade, mas o anal-positivismo (sadismo sócio-darwinista, imperialismo inglês na América Latina) demarca a preensão propriamente ocidental (geopolítica moderna) do desejo, condicionado internamente pela nuclearização das famílias (formação do "privado") e instrumentação (narrativização) da História pela sociologia determinista (Comte/Marx); a formação fálica é implicada pelo trabalho de campo que assinala o neocolonialismo afro-asiático, inserindo o círculo hermenêutico mas ao mesmo tempo supondo a linguagem o universal do sentido (visão de mundo; totalidade); a descolonização afro-asiática é concomitante e inter-relacionada ao estruturalismo e pós-estruturalismo da era pop, o que corresponderia ao descentramento da maturidade "genital";
Mas o que se segue historicamente é o Recentramento ou Neo-analidade da Globalização ("Império"/Neoliberalismo econõmico/Neobjetivismo informático, etc.). Assim, o inconsciente freudiano ele mesmo é uma interpretação da maturidade como uma identidade universal, mas se o visarmos como "tópica", obviamente "identidade universal" é inevitavelmente a neoanalidade do adulto sujeito da competição/dominação etnocêntrica/capítalista.
Já o inconsciente como conceito, conforme o desenvolviemnto das descobertas em Humanities, especialmente as da ciência humana feita na margem ou pelo "ex-cèntrico", mostram, é a heterogeneidade das linguagens culturais, portanto, do desejo e de inteligibilidades, que só podem ser tematizadas na decorrência do seu estudo específico, e tendo esse estudo um caráter não paradigmático e sim complementar às premissas de suas tematizações ("cult-studies", teoria feminista, "estudos subalternos", "estudos étnicos", etc.). A rubrica epistemológica desse conceito de "estudos" poderia sustentar a legitimidade de uma circunscrição da teoria como "pós-modernismo" em termos de um Ex-centramento. .
E. 2) Os países de margens cooptados pela assimetria internacional do capital não desenvolvem geo-egologias, ~pois suas classes dominantes não são representativas de uma autonomia política (independência econômica nacional), aquilo que o Centro interpreta para si como Identidade (universal).
A dominação cultural que expressa a dependência econômica/política desses países de margem, como o Brasil (terceiro mundo / pós-colonial) implica que suas classes dominantes formam sua tópica como Alter-ego do Centro. O Alter-ego é a identidade referencial do "efeito de demonstração" dos produtos industrais importados ou copiados do Centro, à sua hinterlândia (os grupos e classes não-dominantes, não necessariamente "letradas").
O que ocorre assim é que para-si o Alter-ego se identifica com o ego do Centro, não com a sua hinterlândia. Esta não pode expressar uma subjetividade real na cultura oficial (discurso/Saber importado do Centro), organizada pelas instituições do Alter-ego onde só pode trafegar a cópia do ego. Por outro lado, a cópia não pode se expressar senão como degradação em relação ao modelo. Não há assim um meio - ou mercado - autêntico de Cultura na margem, mas as produções autênticas são marginalizadas e recalcadas, o que não implica que não sejam de algum modo circuladas.
Quando a produção autêntica chega a um patamar de organização política que excede a dominação do Alter ego, no sentido de um projeto de autonomia local sócio-historicamente relevante (" movimentos de libertação", governos autenticamente representativos, socialismo, etc.) o Centro intervém pela força (golpe de estado, guerra, intervencionismo para-legal, etc.), o que configura a assimetria internacional do capital. Em todo caso, a liberação cultural sempre implica produzir-se uma pós-história, a linguagem de uma história local alternativa ao relato da dominação do Centro, que resgata a cultura e iniciativa local. A pós-história não é ausência de história, mas inversamente, a recuperação da História em relação à sua narrativização sócio-evolucionista de fato fantasiosa do "universal". Este tema específico da problemática cultural do terceiro mundo está desenvolvido em meu blog "Pensamento Brasileiro", e vários tópicos tratados nesse trecho encontram-se em blogs que tenho assinado na Internet desde 2011.
Quanto ao Ex-centramento, é cronologicamente coincidente com o Recentramento, mas não deriva de nenhum modo do inconsciente freudiano, e consequentemente é uma deriva antagonizada ou deliberadamente ignorada pelo Recentramento (conceitual/político). O Ex-centramento ou pós-modernismo expressa o desejo heterogêneo nas produções culturais do ex-cêntrico ou de margens, na sua Interlocução (crítica) da cultura oficial (ocidental), por meio da tematização de questões e linguagens culturais não "oficiais", não "tradicionais" e não-majoritária-ocidentais.
O Ex-centramento ou pós-modernismo teórico, especialmente nessa abranência da mnha proposta de liberação cultural desde a compreensão da problemática social como Dominação, pode ser pensado como uma terapêutica, em relação à analidade freudiana e/ou seus efeitos, tais como às vítimas de apart-heids raciais e/ou sociais, mas até agora não desenvolvi categorias especificamente voltadas ao aspecto clínico. Apenas afirmo que o exercício efetivo da democracia - liberdade de expressão, igualdade de direitos, inviolabilidade da pessoa, etc. - forma o ambiente em que a produção cultural do ex-cêntrico se libera, de modo a propiciar também a sua liberação política.
Além disso, enfatizei nos outros escritos que a teoria dos gêneros de linguagem, entre tantas a de Bakhtin sendo bem referencial, é útil na superação do fosso cultural dos sujeitos de proveniência heterogênea, especialmetne os alunos de países com muita desigualdade social, em relação à linguagem da cultura oficial. Esta se torna não um padrão do que é universal, correto ou racional, mas um conjunto de gêneros cultos em que se irá iniciar pessoas ou alunos que já são iniciados em outros gêneros de linguagem, sendo que cada gênero tem seus próprios critérios de aceitabilidade, performance, etc.
O fosso começa a ser transposto desde a possibilidade de expressar nos meios oficiais, outros gêneros - por exemplo, escrever a fala coloquial na redação de crianças - enquanto se compreende que o certo dos gêneros cultos são convenções culturais relativas a eles, não a atuação do que é por natureza diverso. Os parâmetros curriculares nacionais tem utilizado com proveito essa perspectiva, e em pedagogia ela costuma ser extensa ao conceito de "letramento" que opondo-se a que exista analfabetismo como alguém sem alguma iniciação em sistemas de signos, ´transforma vários conceitos de ensino, por exemplo, o da correção em que não se contam "erros" a cada vez que se manifesta um desacordo à norma culta, mas somente se conta um erro a cada forma de desacordo manifesto.
A dialética de Ex-centramento e Recentramento traduz a cartografia geopolítica atual em que o mapa do mundo está dividido em Norte (Ocidente/países ricos/reserva de Sabe tecnológico) e Sul (terceiro mundo/países pobres/economias dependentes) pela assim designada "linha de pobreza".
Essa dialética está aqui proposta em termos da leitura do mapa como indecidível, pois não se pode resolver sobre os dois sentidos conflitantes da leitura: um só mundo globalizado (economia internacional/Recentramento) ou dois mundos dominante e dependente (terceiro mundo/Ex-centramento). O que institui uma condição esquizofrenizante ao discurso geopolítico da Dominação na atualidade ("double bind"/dupla ligação).
Com relação ao que estamos examinando aqui, sendo que como já especifiquei, nos trechos constitutivos dessa publicação trata-se da parte relacionada à psicologia de O devir das ciências humanas, podemos agora aduzir que não seria possível afirmar uma "mentalidade selvagem" única ou sócio-evolutivamente distinta da " civilizada" (ocidental). Mas o importante a ressaltar, é que a tendência formal que já discernimos emergindo junto à estabilização da epistemologia quântica, estando como vimos, relacionada à superação de um quadro ativista e pragmático de inícios de século, pôde com efeito, no "Devir...", ser divisada também tratando-se das demais ciências (antropologia, geografia, sociologia, etc.).
Ora, quanto a esse início de século, como estamos notando agora, ele é referencial à polêmica concernente à periodização não só em psicologia, mas em vários contextos de humanities, e então algumas palavras são necessárias a propósito do porque dele ser visto, numa enformação geral das humanities, como assinalação de sua real irredutibilidade metodológica - ainda que isso já tivesse sido explícito no Romantismo. Isso, mesmo no interesse de esclarecer o que o torna irredutível à tendência formal das décadas seguintes.
Sabe-se bem que a emergência do que chamei a formação fálica como superação do anal-positivismo está relacionada à descoberta das culturas "primitivas" cuja visibilidade é haurida diretamente do trabalho de campo. Trata-se geralmente esse trânsito pela emergência da problemática do "compreender" como requisito metodológico em humanities, contra a universalidade do positivista "explicar" oriundo do paradigma das ciências da natureza. Aqui, então, se instituiu de fato, por vezes, uma reinterpretação do Romantismo como antecipação do "compreender", mas não se fez a partir daí um trabalho de clarificação do que o Romantismo havia sugerido como reserva metodológica das "ciências do espírito".
Os temas da ação social e da totalidade das culturas como visões de mundo (Europa), são assim concomitantes ao ativismo pragmático (Eua) como orientações que em comum tem uma vocação "empírica" fortemente contrastada à "formal" que estamos vendo agora. Mas esse fator comum decorre da universalidade do sentido, que se pensa subjacente à variação das visões totalizantes de mundo. O ativismo anti-racista nos Eua é um exemplo disso, já que pugna por integrar o negro na sociedade industrial, mas assim para fundir as temáticas de fato contraditórias da sua pureza e "originareidade" (na África) à de sua racinalidade e igualdade ao ocidental (nos Eua). Como já se notou, essa luta anti-racial é muito contrastável à dos sixties, onde trata-se, inversamente, das singularidades das linguagens culturais, mas justamente não-totalizantes
Outro exemplo são os nacionalismos xenófobos como discursos conexos ao acirramento da concorrência das potências industriais europeias.Esse é bem importante, porque é o suporte das reaproximações do Romantismo que o pensam, então, como passadismos anti-progressistas do mesmo modo que esses discursos o foram.
Mas é preciso ver que por um lado, esse anti-progressismo do nacionalismo xenófobo totalitário de inícios do século XX, não era senão um suporte para justificar a superioridade da índústria nacinal, portanto, ele só atingia a conexão de modernidade industrial e modernismo (estético/comportamental) para recusar a este e justificar aquele como decorrência natural de sua superioridade racial. Ora, a raça aí - que se deveria traduzir como totalidade da cultura ou visão de mundo - não pode ser como o Romantismo autêntico pensou a cultura, uma formação heterogênea. Pelo contrário, ela deve ser a excelência dentre todos os demais evoluídos desde um gênero primitivo, por exemplo, Ariano, a unidade racial melhor.
A história do Lied, de Schuré (1903) fabrica esse mito do mito único branco (do Sol), isto é, pensa estar antropologicamente embasada ao descrever a unidade da raça ariana ou branca, como tendo uma origem primitiva comum, os povos que tem um mesmo mito de adoração ao Sol, e praticam as mesmas formas culturais, dentre as quais a canção (lied) popular.
Mas quando vemos o que se descreve como a "canção", descobre-se que se trata de uma unidade quanto ao que se entende por desejo "do homem", um ideal do feminino e do amor ideal reservado à juventude; o específico do humano sendo o élan ou passionalidade (ardor sentimental; agressividade instintiva, etc.). Esses traços que estariam expressos invariavelmente na canção popular, se pensa contrastado por mentalidades artificiais, não espontâneas, isto é, não naturalmente derivadas da índole "primitiva" dessa raça - como a canção estudada, fria (racinalista) dos palácios, orientada por ideais não coincidentes com o descrito, de amor ou de virtude; ou ainda a religião luterana que primeiro censura a canção popular, e a parodia, depois, substituindo as letras e temas emblemáticos do que seria o desejo natural branco por mensagens da bíblia.
O importante aqui é notar o quão artificial paracerá a nós, a unidade suposta óbvia daquele desejo, bastante idealizada na verdade. Ora, impossível supor que isso é o Romantismo retomado pelo totalitarismo ariano, já que o próprio Schuré critica asperamente os românticos - Schlegel, Schelling, etc, e precisamente porque segundo estes, não há um desejo natural único reportável da raça branca, ou da raça qualquer.
Assim, para Schuré, o desejo dos românticos é uma monstruosidade, ele usa esse emsmo termo, porque em princípio, é livre em relação ao objeto, que ele cria conforme o que ele então se descobre ser, não está pre-detestinado pela natureza do objeto. A canção dos românticos, que sabemos ser a que se inspira justamente na canção popular, sendo Schubert o que se atribui verdadeiro criador do Lied - que é a canção popular vertida nas formas orquestrais eruditas, não a canção popular tout court como a trata Shurré- para este é aberrante assim como a estética do Ateneu que defende essa liberdade de formas e temas, conforme o desejo livre daquele que se expressa por meio deles.
Quando essa unidade totalizante se torna reconceituada pela pesquisa de campo, num parâmetro estritamente funcional desde a curva aos anos trinta, a solidariedade do primitivo ao natural-espontâneo se perde, enquanto que, do mesmo modo, o ocidente reorganiza o seu discurso da superioridade racional, abalado como estava pelos trabalhos de campo pioneiros coincidentes com as vanguardas que no centro e nas margens, dos primitivos entenderam coisa bem oposta a um mito branco, e pela mecânica quântica ainda não estabilizada. Seria demasiado estender-se aqui a propósito dos fatores que podem exemplificar essa viragem, mas creio que em relação aos propósitos desse escrito, é suficiente o que acrescentei nesse trecho. Mas ambos os momentos são aspectos da ambiguidade fálica frente ao seu próprio discurso da diferença como mera circulação pelas posições distribuídas (pai, mãe, eu) do Mesmo (falo/Poder).
Tornando à "Introdução...", Pena mostra, oportunamente, que a descrição do movimento reflexo suporta os "três grandes sistemas que iniciam o movimento da psicologia contemporânea", de Thorndike, Freud e do próprio Pavlov. Focalizando agora a contribuição deste, esclarece sua oposição conceitual entre os dois tipos de respostas reflexas. As absolutas são inatas, permanentes e invariáveis, "expressivas das atividades dos centros nervosos inferiores (medula, tronco cerebral)", conforme Pena, algo como as reações instintivas, ainda que mais complexas, integrando a programação biogenética do organismo. As condicionadas, Pavlov conceitua como efeitos de aprendizados.
Pavlov relacionou o condicionamento à apresentação de um estímulo neutro (como o som de uma sineta) associada à de estímulos absolutos (como as reações normalmente ligadas à alimentação), aqueles um pouco antes destes. Isso depende de uma certa relação de tempo, pois intervalos muito pequenos ou muito grandes entre esses dois tipos de estímulo tornam ineficaz o processo. Meio segundo é o intervalo ótimo. Há outros elementos a considerar como o estado físico do cão, que deve ser saudável e estar bem desperto, ligeiramente com fome, a não ocorrência de outros estímulos perturbadores e a intensidade moderada do estímulo a considerar, pois se for muito forte ou invulgar se oporá à formação do reflexo.
Hyman descreve o modo de operação laboratorial de Pavlov. O cão era submetido à intervenção cirúrgica que expunha o conduto de uma das glândulas salivares à superfície da face do animal. Após recuperar-se da operação, o cão era treinado para aprender a interagir na situação experimental, mantendo-se quieto no aparelho, uma espécie de arnês no lado inverso do qual o experimentador ocupava a posição de observador, o cão não devendo sair do aparelho até que se realizasse a experiência. Por meio de um mecanismo o investigador fazia funcionar um metrônomo e, alguns segundos depois, fornecia automaticamente comida ao cão. Após algumas sessões, o animal salivava quando o metrônomo começava a funcionar, antes de receber a comida.
Pena observa que um importante contraste entre a resposta reflexa condicionada e a absoluta é que aquela pode ser extinta com o tempo, não esta. No entanto, uma resposta condicionada extinta pode ser reativada se novamente apresentarem-se os estímulos específicos conjugados com o que já se aprendeu.
Hyman registra que, tanto quanto esse fenômeno de extinção, perda de resposta condicionada após manifestações do metrônomo que não foram seguidas por apresentação de comida, Pavlov detectou também o fenômeno da "neurose experimental" que resulta quando se exige do cão que faça distinções excessivamente difíceis entre estímulos condicionados, pelo que o comportamento se torna desordenado.
Conforme Pena, Pavlov postulou dois fenômenos como centrais ao sistema nervoso, a excitação e a inibição. Por excitação compreendeu a atividade que fundamenta as respostas apresentadas por um organismo. Ela seria governada por três leis, a de irradiação, de concentração e de indução, que regem também os processos de inibição. Esta se define como um processo ativo que exerce um efeito oposto ao da excitação, impedindo ou diminuindo a força da resposta.
A inibição pode ser provocada por estímulos externos ou internos. Sua decorrência se tipifica pela excitação de outro centro quando o primeiro estava ativo, no caso da inibição externa; ou se define como o reverso da excitação de acordo com a lei da indução, sendo interna, e este é o caso que mais se aproxima ao fenômeno de extinção descrito por Pavlov, quando não ocorre o estímulo reforçador. A interna também se exemplifica pela assim designada inibição diferencial, implicando comparação de estímulos, rejeitando-se aqueles com características meramente análogas. Pena informa que, ao pesquisar esse tipo de inibição diferencial, é que Pavlov verificou o fenômeno da neurose de laboratório.
Há ainda outros tipos de inibição como a condicionada, de retardo e com reforço. Pavlov também estudou a desinibição. Conceitua-se como uma forma de inibição, mas com efeitos opostos aos que se produzem normalmente na decorrência dos processos inibitórios, atuando sobre a própria condição inibitória que eliminou a resposta que se aprendeu.
Podemos deduzir a importância do conceito de reflexo condicionado quanto à compreensão de fenômenos biológicos, pois nessa enformação ele rege todos os processos comportamentais dos seres vivos. Assim, conforme Pena, Pavlov formulou algumas propriedades das respostas condicionadas que se estendem à influência da economia adaptativa:
a) generalização, pelo que o sujeito reaje do mesmo modo a estímulos parecidos ao estímulo condicionado; Pena acentua a importância desse fator, pois a não generalização das respostas poderia tornar o processo de condicionamento trabalhoso e inútil; b) a discriminação, pela qual o sujeito aprende a responder apenas ao estímulo que associou às seqüencias reforçadoras; o que, podemos notar, complementa, limitando oportunamente, a generalização; c) a inibição, de que já tratamos a conceituação; d) o reforçamento, cujos efeitos verificamos ao notar como a apresentação da comida (recompensa, reforço), interfere com o desempenho do animal no processo de condicionamento.
Mas, ainda que estendendo as conseqüências do que observou no condicionamento aos seres vivos em geral, Pavlov não supõe, evidentemente, uma completa igualdade entre homem e animal. O que singulariza o homem é a linguagem. As pesquisas psicológicas encaminharam-se, porém, no sentido de reduzir essa distância, ao focalizar o comportamento comunicativo dos animais. Em todo caso, Pavlov supôs que não se poderia colocar num mesmo nível o que definiu como o primeiro e o segundo sistema de sinais.
No primeiro sistema, trata-se apenas de formação de respostas condicionadas. O animal, por certo, lida com traços discriminativos ao aprender respostas conforme certos eventos se apresentem. Tal sistema é temporal, ou seja, depende de ser "reforçado mediante freqüentes associações com o excitante incondicionado" conforme a expressão de Wallon destacada por Pena. No segundo sistema, porém, que se apóia no anterior, o vínculo que se estabelece é entre sinal verbal e objeto, acentuando-se que não precisa haver uma série de sessões trabalhosas para fixar o vínculo e que não ocorrem facilmente processos de extinção. Conforme o mesmo trecho de Wallon, no texto de Pena, "a vinculação da palavra com o objeto que ela aponta e significa é definitiva". Pavlov não generalizou absolutamente as leis do comportamento, preservando as diferenças individuais, mas explicando-as como devidas a variações na relação entre o potencial excitatório e o inibitório. Assim, na maioria dos cães os dois potenciais se equilibram; em alguns, ocorre que a razão da excitação pela inibição é muito alta, sendo então os exemplares fáceis de condicionar mas difíceis de extinguir; em outros, ocorre o inverso, a razão da excitação pela inibição sendo muito pequena, o que dificulta o condicionamento, facilitando a extinção.
Ele propôs que esses dois conceitos poderiam revelar alcance terapêutico. Os processos histéricos seriam basicamente inibitórios, opondo-se aos casos esquizotímicos, excitatórios. Pavlov fez notar que a inibição se associa indubitavelmente aos fenômenos mais comumente associados à histeria, como paralisia (inibição do sistema motor), perturbações de percepção (anestesias, inibição do sistema perceptivo) e de memória (amnésias, inibição de porções do sistema cortical). Os histéricos seriam, portanto, difíceis de condicionar devido ao excesso do potencial inibitório sobre o excitante.
A aplicação da reflexologia permitiria, através de técnicas objetivas, o tratamento dos problemas de adaptação. Vimos a oposição dessa abordagem à indole subjetiva da psicoterapia. No caso do condicionamento propõem-se técnicas objetivas, com base na proposição da ação terapêutica como simplesmente a extinção do sintoma.
Pena mostra a contribuição, na formulação dessas técnicas, de Wolpe, Skinner e do próprio Eysenck. Assim, temos já um parâmetro da extensão da reflexologia ao behaviorismo, este voltado como esteve à orientação objetiva do comportamento. Será agora oportuno focalizar o seu desenvolvimento, inicando-se com Watson.
IV
Ao focalizar o desenvolvimento do Behaviorismo, não se pode deixar de notar a contraposição de dois pontos de vista básicos que se determinam, inicialmente, em torno da obra de Watson e Hull. O pivô aqui torna-se a teoria, sendo, respectivamente, negada ou estabelecida como algo necessário à orientação da pesquisa experimental em psicologia. O desenvolvimento do behaviorismo repetiu, subseqüentemente, essa oposição, agora sendo ilustrada pelas obras de Skinner e Tolman.
Será oportuno observar esses autores conforme essa convergência, inicialmente a continuidade dos motivos de Watson e Skinner, logo depois a ambiência dos trabalhos de Hull e Tolman. Eventualmente pode haver referências a contribuições determinadas de alguns desses autores no contexto do exame da obra que está sendo focalizada.
Watson e Skinner
a)
Assim, enquanto esta opera com o estudo dos sistemas que compõem o organismo, o que lhe permite estudar as respostas de alguns dos seus segmentos, àquela compete o estudo das respostas do organismo global, isto é, como totalidade. Por esse meio, Watson contribui para a negação radical da psicologia clássica, introspectiva, logrando ainda "uma definição concreta do fato psicológico", conforme a apreciação de Politzer, citada por Cosnier.
Anti-sistemático e anticonstrutivo, assim como naturalista e anti-metafísico, portanto, pretendendo ater-se unicamente ao fato e ao observável, o behaviorismo exibe um inequívoco parentesco com o positivismo, sendo Comte aceito geralmente como influência de Watson.
Quanto a isso, notou Hyman que, de fato, a relevância de um experimento na pesquisa psicológica não parece depender das premissas teóricas adotadas. Contudo, e contrapondo-se explicitamente a Skinner, que repete e aprofunda a orientação positiva de Watson, ele mostra que o inverso não se coloca como verdadeiro. Pois, se a tentativa de imitar certas sistematizações pode resultar na trivialidade, também importantes contribuições podem emergir da aceitação desses mesmos critérios teóricos.
Na verdade, é praticamente impossível não lidar com algum sistema explicativo. Mas isso não implica na aceitação de que o requisito básico da pesquisa deva ser a elaboração de uma teoria formal, algo mais ambicioso, envolvendo uma sistematização dedutiva para todo o comportamento humano. Enquanto Hull se lançou na tentativa de estabelecer um resultado assim, Skinner tipificou a posição oposta, pelo que o comportamento deveria ser explicado na sua relação com certas variáveis que se possam revelar oportunas ao longo dos experimentos.
Nesse enfoque skinneriano, principiar por uma teoria formal esperando que dela se obtivessem as respostas que deveriam ser obtidas pela observação do que ocorre na efetividade, ou a natureza dos experimentos a implementar, seria limitar deliberadamente o campo da pesquisa psicológica.
Quanto a isso, Hyman parece adotar um meio termo. Ele pensa que sistemas explicativos sempre atuam, de certo modo, como teorias orientadoras, já que só há experimentação com base em premissas aceitas sobre o que é ou não relevante. Mas a formalização do que na prática já está se aceitando não implica a cristalização dos rumos da pesquisa.
A teoria deveria ser considerada como uma rota que conduz à supressão de seus próprios pressupostos, logo que revela os limites do que com ela se pode descobrir. Mas esses limites jamais seriam constatáveis sem a teoria. Hyman não deixa de notar, como num capítulo mais inicial, que renunciar a um conjunto de premissas aceitos não parece fácil, não obstante o mito de que o cientista está sempre procurando mudar as perspectivas e regras do jogo.
Assim, Hyman esclarece bem o que vinha sendo observado como consenso acerca do sistema nervoso, à época em que Watson estabelecia a pedra angular da ciência psicológica na posição rigorosamente de tipo E-R, que vimos implicar a negação dos fatores que poderiam se interpor entre estímulo e resposta, tais como o mental, a subjetividade ou a descrição neurológica, isto é, o que pudesse estar como o interior da "caixa preta". Como veremos, à medida que a posição rigorosamente "comportamentista" foi se tornando polêmica, tendeu a se concentrar terminologicamente em torno da sua recusa do "mentalismo" e das posições contrárias a si como "mentalistas".
A relação entre Estímulo e Resposta é, atualmente, do ponto de vista estritamente biológico, conforme Store e Usinger (Zoologia Geral), estipulada do seguinte modo: qualquer alteração física ou química capaz de excitar um organismo ou suas partes é um estímulo. Este pode ser este externo, como umidade, gravidade, contato, pressão, oxigênio, concentração de sais e odores (emanações químicas); ou interno, provindo da quantidade de alimento, água, excretos corporais, fadiga, doenças, etc.
A resposta pode ser local, produzida por um estímulo que age diretamente sobre as células dos tecidos, como na queimadura de sol, mas na maioria dos animais há vários tipos de receptores especializados (órgãos sensitivos) na recepção de estímulos. Alguns destes são graduais, com resposta lenta, como no resfriamento que demora a produzir o espirro, ou abruptos produzindo resposta correlata, como o afastamento brusco qu decorre de uma pressão sobre a pele.
Se a definição da psicologia proposta por Watson envolve o conceito central de comportamento como resposta à estimulação, parece lícito relacionar o contexto da revolução behaviorista àquilo que Hyman mostra ser o modelo de sistema nervoso ainda aceito entre as décadas de 10 e 20, pelo que a célula nervosa só deixa de ser inerte por forças externas. Compreende-se que este modelo se tenha generalizado, conseqüentemente, na orientação da pesquisa acerca da motivação determinante do comportamento.
Também Marx e Hillix, conforme Romeu Gomes, incluíram entre os pressupostos de Watson o postulado pelo qual o comportamento pode ser basicamente reduzido a processos físico-químicos, o que podemos deduzir coerente com o esquema E-R. O comportamento seria composto de elementos de resposta, regido por rigoroso determinismo de causa e efeito. Só assim seu estudo poderia ter valor científico, excluindo-se que isso pudesse abranger a tematização da consciência.
Aproximando a colocação de Hyman, parece que se pode mostrar que, mesmo que Watson tenha recusado a implementação de qualquer modelo teórico de sua concepção motivacional, de fato estava influenciado por aquilo que já se percebe como ultrapassada interpretação do processamento do sistema nervoso. E, de fato, o autor aponta essa colocação como explicitamente atribuível a Skinner, que vimos estar, quanto à recusa da teoria, numa linha de continuidade com Watson.
Hyman nota que somente com base nesse modelo se teria possibilitado a comparação, favorecida pelos sucessos da Revolução Industrial, do organismo com uma máquina que só funciona quando abastecida de energia ou força proveniente de uma fonte externa. Essas fontes puderam ser atribuídas como correlatos de impulsos primários de comportamento, como fome, sexo, sede, dor ou criação da prole. Instigações ulteriores, como ambicionar prestígio, poder, posses, foram consideradas derivadas destas. É bem caracteristicamente a posição do "behaviorismo radical", desde Watson.
Skinner esclarece sobre essa terminologia, contando a história do que Hyman designou a teoria do impulso. Tudo começa com a reversão da concepção secular do ambiente como um meio puramente físico, até a época moderna, especialmente o século XIX, quando o ambiente se tornou conceituável como um fator de estímulo. O que estava mudando agora era a concepção do comportamento, até então visto como independente do meio, então se designando pela reflexologia como inteiramente correlacionável a ele.
Seria esse o contexto de surgência da psicologia de Watson. O termo latino "stimulus" significa "aguilhão", de modo que Watson, de acordo com Pavlov, sustentava que animais e homens desenvolviam novos comportamentos através do condicionamento e continuvam a se comportar enquanto os estímulos apropriados estivessem agindo. A inviabilização progressiva do esquema estímulo-resposta conduziu a revisões. Na prática, parece impossível demonstrar que todos os comportamentos derivam de estímulos.
A terminologia do "impulso" surge para contornar esses obstáculos. Sugeriu-se que se uma situação derivada do ambiente, por exemplo, a escassez do alimento, não poderia ser considerada um estímulo, poder-se-ia imaginar que gerava um "impulso" como estímulo que "aguilhoasse" internamente. Isso teve, segundo Skinner, a vantagem de reduzir os próprios componentes internos ou subjetivos a estímulos, mantendo o viés watsoniano original.
Hyman, bseando-se em Hebb, mostra que logo de início a concepção de "estímulo-reação do impulso externo" defrontou-se com o fato dos animais mostrarem-se ativos quando nenhum dos impulsos primários parecia estar atuando. Os animais pareciam aprender coisas sobre o meio, procurar e explorar novos modos de interação, mesmo quando não estavam com fome ou sede. Interveio assim o conceito de "impulsos adquiridos ou aprendidos", para suplementar os primários ou inatos, enquanto outros pesquisadores teriam proposto aumentar a lista desses motivos básicos, incluindo os impulsos de atividade e exploração.
Ora, aquilo que Hyman expõe como um dos recursos habitualmente utilizados para manter uma teoria comprometida pelos fatos, isto é, adicionar princípios ou hipóteses suplementando o sistema original, nesse caso o conceito de impulsos adquiridos para suplementar os que seriam primários ou inatos, se mostra no texto de Pena sobre Watson como um ponto polêmico no desenvolvimento do seu pensamento. Em 1919 Watson fornece uma relação de instintos ou respostas fundamentais; em 1924, nega radicalmente essa hipótese. Pena esclarece o que aparentemente é uma contradição. A tese de Watson seria que há certas estruturas constantes nos seres humanos, com pequena margem de variação individual. Ocorre assim uma propensão a responder a certos estímulos de forma determinada, o que implica a formação de um repertório designado como de comportamento não aprendido, de fato sendo derivado de um aprendizado precoce.
Isso se compreende bem, pois já vimos ser relativamente generalizada a concepção de inclinações naturais que, no entanto, só são atualizadas por meios variáveis no tempo e no espaço, estes não podendo assim ser considerados, por si mesmos, inatos. Também é atualmente aceito que o hábito resulta de mudanças mais ou menos duráveis do modo de resposta a um estímulo, derivando de condicionamento.
Atividades rotineiras, reduzindo-se a hábitos, podem ser induzidas por certos estímulos sem a intervenção do controle consciente, como no caso do vestir, inicialmente aprendendo-se conscientemente, depois tornando-se hábito, a pessoa podendo, sem perceber, pegar uma roupa que não corresponde ao que pensou, como exemplificam Storer e Usinger.
Krech e Krutchfield aceitam, acerca do tema da motivação do comportamento humano um quadro invariável de categorias de "motivos". Estes, já definindo-se na base do caráter sistemático que demarca a padronização de atitudes de cada pessoa, como uma necessidade ou um desejo seu, ligado a uma intenção acerca de certo objetivo. Assim, haveria motivos observáveis em todos os sujeitos de todas as culturas, mas com enormes variações, tanto sociais quando individuais, acerca da forma, do conteúdo, da importância relativa na consciência da pessoa, e maneiras de expressar-se no comportamento. O quadro opõe fundamentalmente dois tipos, os motivos de sobrevivência e segurança (motivos de deficiência), e os de satisfação e estimulação (motivos de excesso).
As categorias de motivos "referentes ao corpo", "referentes às relações com o ambiente", "referentes às relações com outras pessoas" e "referentes ao eu" podem ser preenchidas confome a deficiência e o excesso. Por exemplo, motivos referentes ao corpo, por "deficiência", seriam ilustrados como evitar a fome, a sede, o excesso de temperatura, a fadiga, etc., enquanto que por "excesso" seria obter experiências sensoriais agradáveis relacionadas a gostos, cheiros, sons, prazer sexual, conforto físico, etc. Vemos que também Watson estabelece estruturas invariáveis e uma variação de padrões comportamentais efetivamente exibidos. Contudo, se as evidências se acumularam no sentido de inviabilizar a teoria motivacional clássica de impulso, com ela parece-me Watson não ter, de fato, rompido, mesmo que, conforme Pena, possa ser rastreado em sua obra tanto o esquema E-R quanto o E-O-R, sendo "o" alguma variável interveniente admitida entre o estímulo e a resposta, o que não implica a princípio o ultrapassamento da premissa não-"mentalista".
Pena sublinha a novidade de Watson, quanto a isso, pois se até aqui a linguagem sempre havia sido definida como expressão do pensamento, ele identificou pensamento e linguagem. Esta seria agora, conforme o conceito que Skinner formulou com base nessa sua colocação, objetivamente Verbal Behavior. A tese de Watson sugere que a palavra desencadeia a mesma resposta que seria desencadeável pelo objeto. A palavra seria apenas sinal substitutivo da coisa, o comportamento verbal podendo ser tratado na extensão dos fenômenos de condicionamento.
Se a linguagem é pensamento vocalizado, o pensamento é linguagem subvocalizada, o que iria implicar obstáculos à abordagem do pensamento por um viés E-R, já que este escapa à observação. Esse tópico esclarece bem acerca do papel heurístico do conceito de comportamento, pois equivalendo a Resposta, ele se coloca como uma espécie de termo de equivalência que permite reduzir os fenômenos de natureza aparentemente díspares a uma igualdade fundamental. Creio que isso permite notar como a abordagem de Watson permanece tributária da formação clássica das ciências humanas, como se vê com Ricardo, onde o conceito de trabalho opera essa equivalência fundamental na ambiência da economia política. Enquanto "Resposta", ainda que coberta, não explicitada, o pensamento se tornava objetivamente equacionável na pesquisa experimental. Seria, por um lado, registrável através de instrumentos tecnológicos avançados, mas também não se poderia deixar assim de aceitar processos intermediários, relativos ao componente interno, como dados necessários à interpretação do comportamento.
Envolvendo-se com a temática do pensamento Watson precisou retroceder de sua posição estritamente E-R, perifericialista (o fator "interno" é vazio) ou ambientalista (só a relação com o meio circundante conta na interpretação do comportamento) para antecipar o tipo de abordagem E-O-R, mediacional (fatores intervenientes, "internos", devem ser equacionados à interpretação), que se revelaria, desde Hull, um caminho alternativo no desenvolvimento do behaviorismo. Contudo, devemos notar que o objeto da psicologia continuava a ser unicamente "comportamento", não consciência, mente, sujeito, etc. Todos os fatores, como pensamento e linguagem, que se poderiam supor dependente da postulação de alguma realidade dentre estas deveriam, inversamente, ser redutíveis a "comportamento" para poderem, no behaviorismo, serem objeto da psicologia. Isso é bem explícito na leitura dos textos de Skinner, integrantes da coleção Pensadores.
Assim, aquelas realidades como a mente ou o sujeito, etc., seriam meramente idealizações do senso comum, não demosntráveis por si mesmas, e em todo caso, o que elas implicavam seriam da alçada da ciência do cérebro, em vez da psicologia - motivo pelo qual o behaviorismo é considerado uma "revolução". Ainda nos dias de hoje, as relações entre "mente" e "cérebro" se mantém como uma das metas da ciência do cérebro esclarecer, restando muitos enigmas nesse caminho, e dentre eles havendo as posições teóricas correspondentes, por exemplo, fundamentalmente a opção por considerar a mente ou consciência redutível ao cérebro, ou não. Em todo caso, essa continua não sendo a problemática específica da psicologia. Ph. Meyer (O olho e o cérebro) equacionou essa questão de um modo interessante, designando a problemática da mente em termos de "suntuosidade", as performances intelectuais superiores que a neurociência teria que explicar.
Também Pena nota que a adoção do fator intervenicnte não comprometeu a posição comportamentista fundamental, aquela de Watson, enquanto tais processos intermédios puderam ser considerados "fragmentos de respostas" de acordo com um funcionamento seqüenciado de estímulos. Ou seja, seriam relacionados a atos que mais tarde Hull designou "de puro estímulo", tanto quanto a respostas por ele chamadas "antecipatórias da meta".
Haveria assim, entre o estímulo ambiental e a resposta finalmente fornecida, uma série de respostas fragmentadas destinadas a funcionar como estímulos mediacionais para o desencadeamento de outras respostas fragmentárias, numa seqüência que iria conduzir à resposta finalmente fornecida como o atingimento da meta: por exemplo, se a meta é o alimento, o animal começa a mastigar e engolir, mesmo enquanto ainda está correndo no labirinto. Em todo caso o fator interno se organiza em função do determinante do comportamento que permanece no ambiente externo.
Hyman faz ver a irredutibilidade dessa posição a uma conceituação do sistema nervoso como a que se tornou aceita desde a década de 30. Muito do desenvolvimento do behaviorismo, naquilo em que exibiu o abandono de posições inicialmente colocadas, mas permaneceu uma "psicologia do comportamento", se compreende assim.
A transformação do modelo neurológico até então aceito se deveu à descoberta de um sistema de alerta no eixo cérebro-espinal. Conforme Hyman, na concepção clássica ou positivista, o influxo sensorial dos receptores - olhos, ouvidos, nariz e tato - chega às áreas sensoriais do córtex através de percursos diretos. Com a descoberta tornou-se claro que existem dois caminhos no trajeto do influxo sensorial para o córtex: a via já descrita pela teoria clássica, provocando estimulação relativamente localizada de regiões do cérebro, e a via que se motrou igualmente eficiente, o sistema de excitação no eixo cérebro-espinal.A estimulação proveniente dos trajetos sensoriais clássicos dota o organismo com informações específicas e qualitativas, a que vem por essa via cérebro-espinal não fornece qualquer informação, mas tonifica o córtex, para excitá-lo e pô-lo em alerta para a ação. Onde esse caminho se interdita ocorre o estado de coma. Hebb, que conceitualizou essas descobertas na psicologia, polemizando com Skinner, mostrou que há dois efeitos no evento sensorial: a função condutora, ou comportamento orientador; e a função de alerta ou vigilância que é pré-requisito da existência desse funcionamento condutor.
Assim, no momento em que a transformação do modelo de sistema nervoso se impôs, o problema do comportamento deixou de ser explicar a sua dinâmica, para ser explicar a sua orientação. No conceito clássico a fome era considerada o impulso que incita o animal à ação, nessa versão o animal já está ativo, a fome só se torna uma pista que orienta a escolha do comportamento para uma espécie de atividade conforme o momento. A adoção do que os psicólogos designaram um "construto hipotético", uma base teórica que se supõe relacionar-se a estruturas reais e observáveis, em Hebb mostra-se não uma questão de opção, mas algo acarretado pela própria posição do problema considerado.
Houve duas experiências que se complementaram para favorecer a extensão do novo modelo neurológico à interpretação psicológica. Uma, de "estimulação reduzida", registrada tanto por Hyman quanto por Krech e Crutchfield, na Universidade Mac Gill, mostrou-se deveras surpreendente aos pesquisadores. Estudantes eram pagos a 20 dólares por sessão apenas para ficar num pequeno quarto, durante o período diário (24 horas), com excessão dos intervalos de refeição ou de idas ao banheiro. Eles deviam permanecer numa completa inatividade, inclusive sendo munidos de anteparos corporais destinados a inviabilizar ou atenuar estímulos sensoriais como luz ou som.
O resultado foi que nenhum estudante quis repetir a experiência após algumas tentativas, mostrando-se comum a todos o fato de tornarem-se progressivamente mais inquietos e mesmo psicologicamente transtornados após um período de quatro a oito horas. Os pesquisadores ficaram surpresos com a intensidade da rejeição demonstrada pelo homem à inatividade total.
Conforme Hyman, foi o resultado dessa pesquisa que fez Hebb abandonar a teoria da motivação do behaviorismo clássico para reinterpretar o comportamento com base no modelo do cérebro ativo. Este se lhe afigurou como o termo mais satisfatório de uma busca por suporte teórico adequado a esse resultado que não lhe pareceu isolado, mas acumulado a outros dados que pareciam inexplicáveis pela moldura do behaviorismo clássico.
Assim, também Hyman transmite a experiência que fora conduzida por Hebb e até então mantida sem uma coerente integração conceitual. Em uma escola todos os estudantes foram informados de que nenhum trabalho seria exigido e que, sendo assim, deveriam fazer apenas o que quisessem. Mas se prejudicassem com seu comportamento o trabalho de outros alunos, que haviam escolhido fazer alguma coisa ao invés de nada, então apenas seriam convidados a ficar na área exterior à sala de aula, onde poderiam brincar. E aqueles que mostrassem bom comportamento receberiam mais tarefas como prêmio. Todos os alunos preferiram trabalhar, após um breve período de adaptação à experiência, o que resultou num grau maior de aproveitamento nas matérias, conforme Hyman.
No contexto de Watson vimos que os conceitos básicos permanecem o de estímulo e resposta, aqueles sendo definidos como quaisquer mudanças registradas no meio capzes de serem detectadas pelos receptores sensoriais, as respostas sendo mudanças observáveis no organismo somente como decorrência de estímulos, conforme Pena. Sua observação orientava-se para explicar a interação do que deveriam ser os fatores determinantes com o resultado comportamental observado, mas não de um ponto de vista "sistemático" de modo que "compreendêssemos" o "como" do sujeito observado agir assim.
Não havendo mais do que uma subsunção da resposta ao fator de estímulo ou impulso, dentro da conceituação de cérebro passivo, somente se poderiam almejar duas coisas: uma vez que se identificasse o estímulo, dever-se-ia poder prever a resposta e, sabendo-se a resposta, então dever-se-ia poder identificar o estímulo. A necessidade da teoria parecia nula, se por esse termo se designasse a tarefa de enunciar o porquê dessa correlação observacional manifesta. Mas, sendo a função de alerta ou excitativa o requisito da função de condução, como no modelo do cérebro ativo assim como interpretado psicológicamente por Hebb, o impulso ou motivação não poderia ser considerado apenas na sua relação ao estímulo externo. Ele propôs então, em vez do impulso, a "função excitativa" como fator desencadeador do comportamento.
Observa-se assim a necessidade de que a interpretação envolva uma compreensão "teórica" do que ocorre, o que abrange o elemento motivacional externo, mas não se limita a ele. Há efetivamente uma relação entre motivação e desempenho, mas não direta, de modo que um impulso, visto sob o aspecto de excitação, tanto pode facilitar quanto obstaculizar a realização.
Os extremos de motivação, pouquíssima ou demasiada, resultam no fraco desempenho ou o inviabilizam. Compreede-se assim que uma excitação demasiada pode tornar impossível qualquer tarefa - até mesmo a intensidade do motivo tão simples do perigo em relação à fuga, pois se parecer demasiado grande poderá induzir, inversamente, à paralisia. Cada tarefa parece ter um nível ótimo de motivação, pelo que, conforme a hipótese da discrepância, o organismo é motivado para procurar o nível ótimo seja qual for a situação.
Muitos fatos observáveis parecem explicáveis assim, já que a expectativa deve ser mantida em certo grau ótimo. O fato da música popular, por exemplo, estar sempre renovando seus números, seria explicável por que se prenchesse completamente a expectativa seria insuportável. Mas um tipo de música como a atonal é, a princípio, rejeitada, o que se torna compreensível, uma vez que se a estimulação for demasiadamente inesperada também não soa de modo cômodo. Se o comum é evitar-se o desvio, também o é procurá-lo com moderação. Creio que isso também esclarece sobre o fato de certos comportamentos parecerem ser procurados apenas por serem proibidos.
Conforme nota Hyman, com esse modelo explicativo Hebb não se põe na completa exterioridade da orientação fundamental da teoria do impulso, sendo mais como o enriquecimento de suas premissas. Creio que a concepção de Hebb aproxima a noção de objeto interno, pois o correlato da experiência sensorial não se põe como a coisa ou o reflexo de um sinal gerado pela recepção de suas características perceptíveis conforme limiares de sensação, e sim como objetividade produzida no contexto da economia psíquica, interna, do sujeito. Mas esse não foi o problema considerado por sua metodologia de pesquisa.
Hyman mostra igualmente que enquanto perdurou o modelo neurológico do cérebro passivo, pôde ser mantida a ambiência da teoria motivacional dos fatores locais, pelo que o impulso ou motivo comportamental resulta de um estímulo local determinado (por exemplo, a fome, das contrações do estômago) . Skinner exemplifica isso mostrando que emergiu na tentativa de solucionar os problemas da abordagem estímulo-resposta através da noção de impulso ou estímulo interno. Assim, se as contrações do estômago pareciam plausíveis como correlatos do impulso de fome, a proposição de Watson de que o impulso sexual seria derivado de uma estimulação comparável das vesículas seminais provou-se inviável. Mas, quando se mostrou inviável a previsão da resposta apenas pela sua correlação a um estímulo interno, também o comportamento deixou de ser apenas uma correlação ao fator de estímulo, como sugere a noção de "Resposta". Veremos como Skinner reformulou o esquema behaviorista de modo a contornar a exigência "de apelar para estados ou processos internos hipotéticos". Aqui evidenciamos a contraposição notada por Hyman, pelo que, na concepção de Hebb, já se lida com a teoria do estado de motivo central, o "impulso" ou mais simplesmente, o motivo comportamental sendo devido a uma combinação de influências resultantes de fatores sensoriais, hormonais e neurais.
Hyman exemplifica a importância dessa mudança ao descrever as experiências de Teitelbaum com ratos, as quais não precisamos narrar aqui pois se mostram muito minuciosas, desenvolvendo-se num quadro de reversão teórica tão marcante que desencadeou uma inversão de perspectivas, agora tendo sido a descoberta psicológica que orientou a pesquisa fisiológica.
A contribuição de Teitelbaum ocorre num ambiente de pesquisa intensa acerca da relação entre obesidade e a lesão numa parte do cérebro. Coube a P. E. Smith liquidar com a polêmica que vinha se estabelecendo entre a glândula pituitária ou o hipotálamo, região a que a pituitária está intimamente associada, como local da causa da forma de obesidade devida à lesão. Os estudos de Smith mostraram sem dúvida que se tratava do hipotálamo, mas inovaram decisivamente ao mostrar ser possível produzir essa obesidade no animal, de modo que se tornava viável o seu estudo experimental no laboratório.
No entanto, foram as observações do comportamento do rato hiperfágico, operado para exibir o fenômeno da obesidade hipotalâmica, isto é, quando se reuniu à problematização dos fisiólogos aquela dos psicólogos do comportamento, que se desencadeou a evidenciação de uma série de questões que conduziram à reversão do que até aqui vinha se propondo como explicação suficiente. Com esses resultados, a pesquisa fisiológica se reposicionou para localizar a influência de uma substância humoral no sangue que ativa as células hipotalâmicas associadas à alimentação.
Por uma série de experiências, com resultados por vezes conflitantes ou surpreendentes, Teitelbaum descobriu que o rato regulava o alimento não apenas para atingir um estado subjetivo de saciação (para "encher"), mas para manter um peso constante, maior do que o dos ratos normais. Isso se tornou óbvio quando ele focalizou o problema no fato de que o rato pára de superalimentar-se tão logo o peso atinge um certo nível. Seria preciso então explicar como ocorre essa regulagem do peso, pelo que a hipótese de um controle humoral circulando no fluxo sangüíneo se tornou coerente. Para completar-se a saturação da substância que, atingindo o hipotálamo, iria finalmente inibir o apetite, o rato operado precisa comer muito mais do que o normal, já que o problema interfere com o volume de células que compõe a substância, menor nos doentes.
Seria interessante acrescentar, apemas a título de esclarecimento, a focalização da temática da obesidade experimental cusada por lesões bilaterais na região HVM ( ventro-medial do hipotálamo) por Daniel Kimble (A psicologia como ciência biológica). Ele atribui o mérito da descrição fisiológica a Hetherington e Ranson (1942) e coloca a ênfase nos trabalhos de Hervey que acrescentou a técnica cirúrgica de parabiose. Consiste em unir as correntes sangüíneas de dois animais para estudar alguns aspectos da síndrome HVM.
O resultado, contudo, apóia a descrição de Hyman, pois induziu à sugestão de que o fenômeno depende da regulação de substâncias humorais na corrente sangüínea. Kimble referencia Teitelbaum, quando mostra a importância da observação da seqüência de acontecimentos no desenvolvimento da ingestão de comida e bebida nos ratos, naquilo em que parece estar relacionada com a teoria fisiológica que associa as ocorrências do impulso de comer à lesão, ainda que não se conheça totalmente a natureza do processo à época da redação do título referenciado,nos anos setenta. Quanto à extensão dessas observações à obesidade humana, Kimble referencia Schachter, que constatou haver impressionante semelhança com o comportamento hiperfágico dos ratos. Sugere-se assim a necessidade de pesquisas envolvendo a região do hipotálamo, Schachter propondo que a hiperfagia dos seres humanos obesos deriva de padrões perceptivos que os faz serem mais controlados pela natureza externa dos estímulos do que as pessoas com peso normal.
Hyman mostra que contornar os aspectos conflitivos ou desconcertantes das experiências que evidenciavam o comportamento dos ratos hiperfágicos com a comida - eles páram de comer após atingir um patamar de peso - só se mostrou exequível a Teitelbaum quando ele equacionou fatores de estímulo muito variados, tanto o componente da intervenção neurológica como os dados do paladar dos alimentos, na indução do comportamento a observar. Tornou-se claro que uma teorização na base dos fatores locais não poderia conduzir à evidenciação do que estava em jogo nesse caso. Assim como o psicólogo que precisou lançar mão dos dados neurológicos, os fisiólogos precisavam agora da observação psicológica para incluir dados comportamentais decisivos no equacionamento da questão.
Também Cosnier fornece um panorama do desenvolvimento do behaviorismo que abrange o surgimento da neuropsicologia, pelo que entre Estímulo e Resposta se faculta a observação do que ocorre no interior da "caixa preta". Ele o exemplifica com os trabalhos de Lashley.
Quanto a isso, Cosnier registra que os progressos técnicos, instrumentais, têm um papel decisivo. Ele converge com o testemunho de Hyman que ressalta a importância da introdução do instrumento estereotáxico, na década de 30, facultando precisas e minuciosas lesões bilaterais, nos vários lugares do hipotálamo do rato, na pesquisa da obesidade. Cosnier lembra ainda a importância dos progressos em eletrofisiologia e biotelemetria, esta permitindo que se coloque no animal um pequeno emissor transistorizado, registrando dados à distância, como eletroencefalogramas e eletrocardiogramas, enquanto o animal fica com os movimentos livres. Mostrou-se assim a necessidade da descrição das relações entre várias estruturas intervenientes no comportamento instintivo (hipotálamo), afetivo (rinencéfalo) na atividade cognitiva (neocórtex) e a importância de estruturas de convergência (reticulares do córtex associativo, etc.).
As Leis do Aprender
Se Watson, porém, não deixou de trazer a psicologia ao patamar de uma ciência do comportamento, muito contribuiu na superação de certas concepções ainda populares na época em que desenvolveu suas pesquisas. Opôs-se assim às leis de Thorndike, estas emergindo num quadro de pesquisas orientadas para o esclarecimento do aprendizado por Trial and Error.
Nos EUA os resultados de Thorndike, na transição ao século XX, influenciaram acentuadamente o sistema educacional, conforme registram Krech e Crutchifield. O aprender por tentativa e erro pode ser definido ora do ponto de vista de um tipo específico de situação de aprendizagem, ora como uma teoria geral do aprender. No sentido mais específico, distingue-se do condicionamento e do aprender por memorização, pois nestes o padrão de estímulo é menos ambíguo e o indivíduo não precisa descobrir a resposta correta. Também se nota que no caso do trial and error não ocorre que o conhecimento geral do sujeito possa intervir como fator de solução do problema numa padronização dedutiva, isto é, antes de uma verificação concreta, como no pensamento produtivo.
O trabalho de Thorndike na Universidade de Columbia teve o mérito de fazer ver a importância da experimentação com animais, mas parece ter generalizado de modo demasiado simplista suas conclusões. Seu trabalho inicial envolveu o experimento de gatos na "caixa de puzzle", compartimentos fechados com anéis de correntes, alavancas e botões que funcionavam como mecanismos pelos quais os gatos poderiam se libertar. Nos EUA os resultados de Thorndike, na transição ao século XX, influenciaram acentuadamente o sistema educacional, conforme registram Krech e Crutchifield. O aprender por tentativa e erro pode ser definido ora do ponto de vista de um tipo específico de situação de aprendizagem, ora como uma teoria geral do aprender. No sentido mais específico, distingue-se do condicionamento e do aprender por memorização, pois nestes o padrão de estímulo é menos ambíguo e o indivíduo não precisa descobrir a resposta correta. Também se nota que no caso do trial and error não ocorre que o conhecimento geral do sujeito possa intervir como fator de solução do problema numa padronização dedutiva, isto é, antes de uma verificação concreta, como no pensamento produtivo.
O experimento consistia em observar o comportamento dos gatos enquanto tentavam fugir da caixa. Logo emergiu uma padronização consistente: primeiro o animal tenta tudo, desordenadamente; depois, gradualmente, começa a eliminar os "erros", isto é, as respostas que não o libertam, conservando as respostas eficientes. Revelaram-se assim duas etapas principais no aprender por tentativa e erro: aquela que conduz ao surgimento da resposta correta, e aquela, subseqüente, que conduz ao abandono das respostas incorretas.
Thorndike formulou duas leis gerais do comportamento, a do Exercício e a do Efeito. Inicialmente temos que quando as diferenças em freqüência e proximidade temporal entre a resposta certa e as respostas irrelevantes são suficientemente grandes, a resposta certa será provavelmente provocada pela situação estimuladora. A freqüência compreende-se pelo fato de que em todos os experimentos o investigador permitiu que ocorresse, pelo menos uma vez, a resposta certa (as tentativas continuam até que se realize). Quanto à proximidade temporal, significa que a certa será sempre a resposta mais recentemente realizada, pois o experimento se conduz até que esta se apresente na conduta do animal.
Mas a lei do Exercício só poderia ter sentido se a ela se acrescentasse a lei do Efeito, pelo que a resposta certa só é gravada, o que não ocorre com as respostas incorretas, porque é associada ao bom resultado (as outras o sendo a um mal resultado).
Krech e Crutchifield registram que a simplicidade dessas leis de Thorndike foi o que implicou a sua infiltração tanto no senso comum acerca do aprender, quanto no sistema educacional norte-americano. O "Sr. Fulano" não pode deixar de pensar que, seja o animal adestrado, seja a criança ou o adulto humanos, todos aprendem pela "prática" (lei do Exercício) e por "recompensa e punição" (Lei do Efeito).
Relacionada à pesquisa do aprender por tentativa e erro está a contribuição de W.S. Small, da Universidade Clarck, que bem no início do século publicou o estudo sobre os "processos mentais do rato". Small usou uma reprodução em miniatura do labirinto da cerca de Hampton Court Palace, e desde então, milhares de ratos, assim como um grande número de outros animais e até seres humanos, têm sido utilizados em situações de labirinto conforme os propósitos da pesquisa psicológica.
A situação típica dos estudos de labirinto é o que se designa "aprendizagem de discriminação", em que o sujeito precisa identificar certos padrões de estímulo. Trata-se de algo muito relevante na pesquisa do aprender por trial and error, já que a discriminação de um ou outro elemento não tem uma razão "lógica", mas tão somente factual. Outro aparelhamento do aprender por discriminação foi introduzido por Lashley. O rato fica numa plataforma frente à qual há dois cartões lado a lado, um com listas horizontais, outro com listas verticais. Um deles é inamovível, sempre que o rato salta na direção dele, cai na rede localizada inferiormente aos cartões. O outro se verga e o rato atravessa a caixa, atingindo outra plataforma onde encontra pelotas de alimento. Mas na série de experimentos a localização dos cartões varia, de modo que o rato precisa aprender qual a posição de listas, não qual dos lados, que se identifica ao cartão "certo". A caixa de discriminação e o labirinto forneceram muitos dados na pesquisa do aprender.
Krech e Crutchfield registram que a polêmica envolvendo os resultados de Thorndike e as questões geralmente ligadas ao aprender por tentativa e erro permanecem atuais, o trabalho experimental nesse campo tendo se revelado bastante amplo. Eles demarcam alguns estudos como básicos, porém. Entre estes, os autores não focalizam o posicionamento de Watson, reservando a exemplificação do behaviorismo, quanto a isso, a Tolman. Mas como já notamos, Watson se opôs explicitamente à lei do efeito, considerando-a "remanescente de uma posição subjetivista", conforme Pena. No entanto, conservou a do exercício, expressando-a em termos de duas leis separadas, de freqüência e de recência.
Watson defrontou-se assim com as mesmas críticas que se endereçaram a Thorndike. Pois existem muitos experimentos em que o sujeito realiza o ato errado tão freqüentemente quanto o certo, sem que isso inviabilize que aprenda o certo.No entanto, a prática do ato correto parece ser necessária para que o sujeito grave o ato. Coube a Tolman, no que foi apoiado pelo experimento de Blodgett sobre "aprendizagem latente", formular uma interpretação adequada. O experimento mostrou que, mesmo se num percurso sem recompensa os ratos não mostram sinais de aprendizagem, logo que a recompensa se apresente demonstram progresso surpreendente no desempenho. Isso faculta deduzir que há um aprender latente, oculto até que se torne compensador mostrá-lo.
Tolman sugeriu também que o processo de aprender se estende às conseqüências de cada resposta, envolvendo tanto a descoberta de que a resposta errada conduz ao resultado insatisfatório, quanto que o ato certo conduz ao resultado feliz, o fator decisivo não sendo nem a freqüencia diferencial nem a proximidade temporal da resposta certa, mas a freqüência total das respostas com seus resultados correlatos.
Quanto à lei do efeito, sua problematização se deve a que, a despeito do fato de ser tão popular, provou-se a preminência do reforço parcial no aprender. Assim, se quisermos treinar um animal ou uma pessoa num certo comportamento é melhor recompensá-lo em algumas ocasiões, não todas as vezes.
Isso parece bastante oposto à lei do efeito. Contudo, por sua popularidade, esta parece não dever fundar-se sobre algo totalmente falso, conforme observam Krech e Crutchfield. Ora, o problema parece solucionar-se com base na oposição dos conceitos de aprender e realizar. Assim, o esquema de melhores recompensas, melhor aprendizagem, só conduz a melhores realizações. E, de fato, com melhores recompensas e maior grau de motivação, o sujeito realizará com maior eficiência ou velocidade o que, contudo, já aprendeu. Mas vê-se que o fato de uma resposta ser recompensada e outra ser punida não faz com que uma seja gravada e a outra esquecida. Só faz com que o sujeito aprenda que, numa determinada situação, cada uma das resposta tem por correlato um certo efeito.
Foi devido à confrontação geral às leis de freqência e recência que Watson, conforme Pena, aproveitou a influência de Pavlov e colocou a ênfase no conceito de resposta condicionada. Isso se relaciona à aparente contradição já apontada, agora mais nitidamente descrita nos termos de uma ruptura: ainda em 1919, Watson definia as emoções como reações estruturadas hereditárias, implicando fenômenos verificáveis nos domínios visceral e glandular, opondo-as aos instintos. As emoções seriam, ao menos no momento, caóticas, o que não ocorre nas respostas instintivas. A emoção seria uma resposta interna e localizada, já a resposta instintiva ocorreria em termos globais, do organismo como um todo.
Mais tarde, porém, ele mudou essa posição, pois insistiu que tanto as respostas emocionais como as instintivas, isto é, tanto as respostas localizadas quanto globais, derivam do aprender. No entanto, isso não implica, conforme a explicação de Pena, como vimos, que esse aprender não esteja dependendo de certas estruturas geneticamente estabilizadas. Podemos aquilatar a oportunidade do novo posicionamento, pois, de fato, conforme a apresentação do tema por Storer e Usinger, o condicionamento se propõe como característica de muitos atos humanos, freqüentemente de caráter complexo. Watson definiu três aspectos básicos de emoções, o medo, o ódio e o amor, originalmente associados a um número reduzido de estímulos, invariavelmente ligados à resposta que desencadeam: os estímulos do medo seriam o desequilíbrio súbito, ruídos fortes ou agressões dolorosas; os do ódio, seriam as obstruções ao movimento voluntário da criança; quanto ao amor, vincula-se a excitaçõs suaves realizadas sobre a pele, pequenos embalos como no movimento de ninar, Watson acentuando as excitações nas zonas erógenas e sexuais.
A psicologia da emoção se enriqueceu muito desde então. Krech e Crutchefield registram uma ampla tipologia de cólera, alegria, medo, tristeza e emoções ligadas a estímulo sensorial (dor, repugnância, desprazeres e prazeres, susto). Estas, especialmente, não devem ser identificadas às anteriores, que não derivam diretamente de contato com objetos. Por exemplo, o prazer e a alegria são descritos como emoções irredutíveis uma à outra.
Incluem ainda emoções ligadas à auto-estima (sentimentos de autoconsciência em situações sociais como orgulho ou constrangimento, de êxito ou fracasso, de culpa e remorso); emoções ligadas a outras pessoas (amor, ciúme, inveja, ódio, sentimentos mais gerais, positivos e negativos); emoções de apreciação (humor e riso, sentimentos estéticos como admiração e reverência, experiência religiosa, solidão).
Há também um tipo de estado emocional transitório que se determina como disposições, onde não se apresentam relações explícitas a aspectos concretos da situação. Grosseiramente se propõe uma tabela de disposições conforme sejam agradáveis ou desagradáveis (animado - deprimido, alegre - sombrio, feliz - triste, satisfeito - insatisfeito, calmo - tenso). Mas há inúmeras nuanças e gradações de disposições, assim a tristeza pode tender para a nostalgia, a tensão para a angústia.
Krech e Cruitchfield, acerca das emoções, referenciam as experiências de Watson com crianças, sobre o medo. Estas desencadearam uma linha de pesquisas psicológicas em laboratório sobre o tema, enfatizando esses pesquisadores a chamada resposta de susto. O medo e o susto foram definitivamente separados pelos dois autores que não deixam de comentar o interesse com que as pesquisas perseguiram a prova, ao que parece jamais lograda, de que o padrão de perturbações fisiológicas e expressões corporais durante o susto poderia ser identificado ao que ocorre durante o medo.
Mostram assim que existem muitos casos em que o susto não provoca medo, mas uma resposta inteiramente irredutível, por exemplo, o riso, e que o estímulo repentino ao susto só desencadea a emoção de medo conforme o contexto da situação. Um "uu!" pode induzir ao susto quando se está lendo histórias de terror, mas não quando se está assistindo a um jogo cujo resultado nos interessa. Aqui seria interessnte registrar a experiência de Hebb com chipanzés que Krech e Crutchfield transcrevem. O experimentador apresenta ao animal alguns objetos, constatando que existem respostas constantes de medo quando o chipanzé vê animais inertes, como outro chipanzé anestesiado, ou quando vê só uma cabeça, como a de um manequim. A explicação de Hebb envolve o processamento neurológico.
Seria assim que o animal aprende a esperar certos eventos quando estimulado por um objeto, por exemplo, ao ver uma cabeça, espera ver o corpo. Isso corresponde a uma seqüência coordenada de acontecimentos nervosos no cérebro. O medo resulta como perturbação dessa seqüência. Ocorrre uma desorganização profunda dos processos cerebrais se o estímulo do objeto for incompatível com a padronização de atividades já existente, definindo-se o medo.
Os dois autores notam o pequeno número de pesquisas a propósito de condições específicas que determinam disposições, de modo que não se sabe ainda como relacioná-las a contextos situacionais. Mas há um interesse crescente quanto ao estudo do funcionamento da experiência emocional, centrando-se sobre os seguintes temas: quais os determinantes de mudança de estado emocional; como se desencadeam fluxos de idéias relacionadas a emoções; saciedade e controle na experiência emocional; expressões emocionais e efeitos da emoção sobre o comportamento geral, por exemplo, o social; aspectos fisiológicos dos estados emocionais.
b)
limites da psicologia "estímulo - resposta"
A obra de Skinner já se insere num contexto bem mais complexo da ciência psicológica. Seu texto ventila temas que só fizeram proliferar, desde que a área se ampliou sobremaneira em relação ao princípio do século. Afinal, ele escreve num contexto que abrange o "Cinqüentenário do Comportamentalismo". Já está esclarecido que a escolha de tratar a obra de Skinner na seqüência de Watson se deve à continuidade de suas motivações, não tanto ao critério cronológico das obras fundadoras do behaviorismo.
Skinner registra o que de fato implicou a reversão do modelo estímulo-resposta assim como Watson e os behavioristas ortodoxos haviam pensado ser aplicável devido à influência de Pavlov. É somente quando a crítica alcança as noções de condicionamento e reflexo, como estabelecidas por este, que ao esquema E-R se aceita ser preciso acrescentar alguma variável ainda não equacionada. O problema nesse momento se torna determinar qual seria o componente a inserir.
O comprometimento do modelo pavloviano se coloca desde que começa a se indagar sobre o comportamento real, assim como ele se manifesta na experiência comum. Aqui, está claro que não se trata apenas de uma resposta condicionada por um estímulo, mas existe um elemento de contingência. Esse elemento é o resultado da ação, isto é, o retorno que o ambiente contrapõe ao comportamento respondente. O que ocorre após a resposta? Mas, especialmente: como isso influi no comportamento?
Torna-se bem nítido que a problematização pavloviana não permite colocar essas questões que se mostram cruciais. Por elas o comportamento se torna algo mais próximo do que nos parece ser, ocorre sua integração dentro de uma situação e o sentido da relação entre ciência do comportamento e teoria do aprender se torna bem mais claro.
Skinner tratou a contigência em termos de reforço, definindo-se a situação a tratar cientificamente como comportamento operante, algo que sempre se desenvolve numa ambientação com que o sujeito lida global e circunstancialmente. Introduz-se assim a clássica oposição entre a resposta condicionada de Pavlov e a de Skinner, esta "de tipo instrumental", conforme Pena, que esclarece o fato de que dois discípulos de Pavlov, Stefan Miller e Jerzy Konorski, já haviam estudado esse tema na Polônia, na transição à década de trinta.
Nos estados Unidos, porém, creio que seria preciso enfatizar que Skinner não apenas colocou o problema numa perspectiva observacional, mas desenvolveu uma abrangente área de aplicação do que seria a Análise Experimental do Comportamento com base no condicionamento operante, ambicionando com isso prover "tecnologias" aproveitáveis em várias regiões de problematização comportamental humana, como na economia, na educação e na clínica.
Skinner reporta os trabalhos de Miller e Konorski, mostrando que mesmo tendo se ocupado na observação do comportamento operante, não colocaram a questão da contingência, mas apenas se preocuparam com a descrição total da reação ao estímulo para formar um "complexo condicionado" completo. O animal não apenas saliva, mas flexiona a perna para movimentar-se até o alimento. Finalmente, o tom da campainha provoca a flexão.
Mas, assim, eles se limitaram a um tipo de indução comportamental apenas eliciante de comportamento, como quando a mão da criança é movida pelo professor para que forme letras. Não seria o mesmo caso dos estímulos imitativos ou aqueles usados na instrução, quando há um componente global de envolvimento do respondente na situação. No caso de Konorski e Miller ainda se trata de uma resposta reflexa, não uma "resposta operante" real que possa ser utilmente reforçada, como na colocação de Skinner.
A oposição entre o condicionamento clássico - pavloviano e o operante está nisso pelo que naquele o comportamento induzido não é um requisito para a obtenção do reforço. Isso, no modo mesmo em que se tipifica como um comportamento na experiência do sujeito. O animal não "aprende" a salivar para obter a comida. Ele desenvolve uma resposta concomitante ao oferecimento de alimento, mas este é independente daquela. Também, nota-se que a resposta é associada ao sistema nervoso autônomo.
Skinner "treina" o animal ou manipula o comportamento humano conforme a expectativa que cria no sujeito em relação ao reforço - se bem que o termo "expectativa" não seja exatamente o que ele considera ser o caso, pois mantém a interdição ao "mentalismo", isto é, à interpretação do que ocorre em termos possivelmente introspeccionistas. Assim, conforme Skinner, não sabemos, nem precisamos saber, que termo seria o correspondente da experiência interna do sujeito. Aliás, o mais provável é que se ouvíssimos o que ele tem a dizer sobre isso, o resultado seria uma racionalização de motivos nada confiável, o tipo de "derivações" de Pareto, ou, como no texto de Skinner, "racionalizações" assim como já diagnosticadas por Freud. O que ocorre é que o comportamento operante se desenvolve em um meio de contingência que prevalece no momento da resposta. Observe-se que esta é agora associada ao movimento corporal (músculo-esquelético), necessário ao comportamento observável. "O que" é operante para "qual" reforço, eis o determinante do comportamento. O reforço operante fortalece uma resposta colocando-a, de fato, sob o controle do estímulo.
Romeu Gomes expõe a oposição do seguinte modo. Pavlov lida com o comportamento respondente, que se "traduz pelas respostas, aprendidas ou não, provocadas por estímulos". Skinner lida com o comportamento operante, onde não ocorre um estímulo particular que deva produzir a resposta, mas consiste em respostas emitidas pelo organismo que operam sobre o ambiente, como falar, brincar e caminhar.
A influência dos estímulos nesses exemplos de atividades é parcial, enquanto o comportamento respondente é produto do estímulo. Mas, se um estímulo funciona como reforço para aumentar a probabilidade da resposta, no comportamento operante, quando esta é reforçada tende a ser fixada, quando não, a resposta se extingue. Assim, o reforço se torna o fator central, traduzindo-se por qualquer estímulo, fornecido após a resposta, que aumente a probabilidade de sua freqüência.
É certo que a resposta fica sob o controle do estímulo nessa operação do reforço, mas o estímulo não elicia a resposta como num reflexo. Skinner se opõe à concepção de Pavlov, pelo que entre instinto e reflexo o intervalo seria de complexidade. Trata-se, sim, de ver como divergem as ações eliciadora e liberadora do estímulo, desde que o reforço fixa a ocorrência da resposta. A biiologia, porém, conserva a relação, pelo que define-se o instinto como uma série de reflexos coordenados pela totalidade do organismo, o reflexo definindo-se como a mais simples resposta coordenada invariável de que participa o sistema nervoso (Storer e Usinger).
Torna-se importante assim a noção de "unidade de comportamento", também enfatizada pelos etólogos, particularmente por Lorenz. É preciso que se tenha um referencial, em termos de propriedade definidora da resposta em relação ao estímulo, para o observador identificar as ocorrências relevantes como um comportamento, por exemplo, discriminando freqüências de resposta. Isso demarca uma análise experimental do comportamento frente a meros relatos históricos ou ilustrações de eventos fortuitos.
A novidade aqui é então, inicialmente, compreender a inserção do comportamento nesse meio de contingência, depois, evidenciar os modos de manipular ou criar situações contingentes de algum modo relevantes como contexto de um comportamento que se quer induzir ou mudar, por exemplo, desenvolvendo-se técnicas de "ensino programado", através da estipulação do resforço.
Skinner ilustra bem a situação que se originou por essa reversão que a abordagem comportamentalista provocou no panorama da psicologia dominada por Pavlov. Ele referencia Anokhin, registrando o trecho onde o autor se pronuncia sobre a extensão da descoberta, comunicando o quão contrastante ela se mostra em relação à reflexologia clássica ao mesmo tempo em que se interroga como se pôde, até então, jamais ter tematizado os "resultados da ação", algo tão obviamente relacionado à experiência comum, pois "de fato, os homens e os animais estão sempre interessados nos resultados da ação".
Anokhin pensa que isso pode ter se devido ao dualismo ainda conspícuo não somente na orientação de Pavlov, mas na própria pesquisa fisiológica da época de surgimento da reflexologia. Assim, deve ter parecido inviável a busca de uma "solução materialista do problema de propósitos no comportamento humano e animal". O caráter fisiológico da propositividade teria sido um tema impossível. Skinner reporta o notável nesse pronunciamento, tendo sido publicado somente em 1965. Isso mostra o "poder da influência de Pavlov na Rússia". É sintomático que Skinner recupere muito da contribuição de William James, que vimos ter recusado a pesquisa do reflexo, utilizando amiúde referências suas. Utiliza, por vezes, a expressão "behaviorismo radical" para designar a análise experimental do comportamento.
Ele também reporta os posicionamentos de Hull e Tolman, ambos já lidando com os temas da propositividade da ação. O básico é sua crítica ao modo como eles enfrentaram a questão, como definiram o termo a acrescentar ao esquema E-R. Assim, Hull resvalou para "processos centrais", assim como Tolman pensando a variável a introduzir como sendo o organismo. Em todo o caso, a Skinner isso parece menos radical do que parece. Seriam modos de manter o esquema estímulo-resposta desde que não alteraram substancialmente o "velho padrão do arco-reflexo".
A variável que Skinner insere como realmente transformadora do modo de colocar a questão do comportamento, sem falsear a intenção científica que era, afinal, a de Watson, seria a contingência. Todas as outras colocações se limitam à "topografia" do comportamento, algo como a troca de energia no início ou no término do qual há um estímulo, a descrição do conjunto de passos que são observáveis numa correlação respondente.
Mesmo Tolman, que parece ter trocado a "topografia da resposta" pela sua orientação no rumo do objetivo, limitou-se a considerar a interveniência do ponto de vista de uma dinâmica "dentro" do organismo. "Propositividade" pode se tornar um conceito ambíguo, mantendo a impressão de que pertence ao mundo interior do sujeito, se não se especificar sua dependência das variáveis objetivas. Assim, conforme Skinner, em vez da topografia seria preciso considerar a contingência.
O estímulo é parte da ocasião na qual uma resposta é emitida e reforçada. A interpretação do comportamento será, nessa proposta, muito favorecida pela observação do comportamento verbal. Colocar a ênfase na contingência significa observar o sujeito como sempre envolvido num processamento conseqüente das circunstâncias.
Focalizando o desenvolvimento da problemática por meio do confronto com esses outros autores, Skinner estende o panorama da transposição de uma psicologia "de estímulo e resposta" àquela de "contingência de reforço".
o comportamento operante
Compreende-se essa crítica de Skinner a Hull e Tolman se voltarmos a atenção ao que focalizei como a novidade da posição de Skinner. A compreensão do comportamento num meio de contingência abrange, por exemplo, a inviabilização do esquema do trial and error, não apenas no sentido de uma teoria geral de aprendizagem, mas mesmo como uma situação específica do aprender.
Skinner desenvolve uma argumentação envolvendo a caixa de Thornkike, para mostrar que aquilo que induz a pensar que o que ocorre é uma série de tentativas seguida pela eliminação das respostas erradas e fixação da resposta certa é o modo como a experiência foi conduzida. Skinner observa que definir o comportamento do gato que se introduz repentinamente na caixa como "tentando escapar" é um prejulgamento grosseiro. Tampouco o termo "erro" descreve o comportamento do gato. Se o gato fosse aclimatado à caixa e seu comportamento de levantar a tranca modelado por reforço, ao invés de que se esperasse vê-lo surgir após tentativas a esmo de que já se fez apressadamente a interpretação do que significam, é praticamente certo que se observaria um aumento substancial e imediato da probabilidade de novos levantamentos da tranca. Referencia-se, a propósito, as famosas caixas de Skinner, planejadas de modo diferente das de Thornkike, em que animais poderiam acionar uma alavanca ou executar algum ato simples a fim de obterem uma recompensa,conforme registra Kimble.
Mas ainda que com isso se lograsse evidenciar a inviabilidade de se tratar a questão na base do trial and error, não parece a Skinner que a própria situação da caixa de Thornkike seja a mais adequada para estudar ou ensinar a resolução de problemas.
Na verdade o que ocorre no aprender é sempre algo como no pensamento produtivo, isto é, uma autêntica resolução de problemas. Estes se definem como "uma questão para a qual não há resposta até o momento". Nesse sentido, o aprender, como a resolução de problemas, envolve a discriminação das variáveis relevantes.
Mas observa-se que uma definição assim abrange praticamente qualquer aspecto comportamental que se torne relevante para a solução. Por isso, estudar a resolução de problemas coincide com o estudo do comportamento como um todo. Ora, a questão do reforçamento torna-se central, pois é o que garante, na sua relação a uma resposta, o aumento da probabilidade de que esta seja repetida na presença dos mesmos estímulos.
O problema se apresenta quando as contingências, isto é, os elementos da situação que induzem à resposta na presença dos estímulos, se tornam complexas. Pode não haver resposta já fixada para um certo conjunto de contingências. Várias respostas podem, inversamente, parecer adequadas, num conflito de alternativas. Alterações emocionais podem intervir na escolha daquela que provavelmente tornaria o reforço contingente, isto é, conseqüente.
Mas, em todo caso, o sujeito não está simplesmente tentando a esmo. Qualquer resposta, por inválida que pareça, está dentro de uma padronização coerente de estímulos e de uma continuidade de respostas que se entre-esclarecem, com seus resultados. Skinner não exclui a terminologia da cibernética de Wiener, e considera adequada a terminologia da "reatroalimentação".
A resolução ocorre quando a coerência envolve a identificação dos estímulos que determinam a solução. Encontrar a solução é construir o Estímulo Discriminativo ("Sd") relevante. Quando se observa o que é relevante para a situação, mas isso não sem estar numa relação determinada com o reforço, isto é, com os resultados das respostas, sendo a "meta" o resultado que se aprendeu como reforçador do comportamento como um todo. O ensino é então definido como a combinação de contingências de reforço que acelera o aprender.
A inclusão do fator "resultado" no esquema estímulo-resposta conduz a relacionar a temática da cultura na psicologia. Pois trata-se de definir a cultura como função de reforçamento na padronização de comportamentos estabelecidos. Se constatamos que a cultura ensina e fixa conhecimento, a leitura desse fato na formulação behaviorista de Skinner resulta em afirmar que ela recontrói a discriminação de estímulos que funcionam como fórmulas públicas de resolução de problemas específicos. É assim que o Verbal Behavior se torna particularmente esclarecedor em relação ao comportamento.
Aliás, é importante observar, conforme Pena, que a teoria comportamentista da lingaugem, de Watson, foi considerada tão revolucionária em psicologia, por ter negado qualquer diferença entre pensamento e linguagem, que nesta não obteve muita relevância, tendo seu impacto sido absorvido na linguistica, repercutindo na obra de Bloomfield. Somente com Skinner a teoria da linguagem de Watson obteve desenvolvimento em psicologia, ísto é, décadas após ter sido formulada.
Skinner, novamente, irá posicionar a linguagem, uma vez que um tipo de comportamento, no âmbito mais geral do learning ou da resolução de problemas. Ou seja, uma questão de identificação da variável relevante, um procedimento discriminativo. Exemplifica com a tarefa de encontrar uma mala no aeroporto para um amigo, sendo que não se conhece o aspecto da mala e só se tem o número do cartão que lhe corresponde. Como a plataforma giratória irá expor centenas de malas, como fazer para encontrar a certa? Aliás, é importante observar, conforme Pena, que a teoria comportamentista da lingaugem, de Watson, foi considerada tão revolucionária em psicologia, por ter negado qualquer diferença entre pensamento e linguagem, que nesta não obteve muita relevância, tendo seu impacto sido absorvido na linguistica, repercutindo na obra de Bloomfield. Somente com Skinner a teoria da linguagem de Watson obteve desenvolvimento em psicologia, ísto é, décadas após ter sido formulada.
Ele mostra que enquanto o procedimento se limita ao aleatório olhar e desprezar amostras oferecidas a esmo, nada pode ser contado como fator no aprender a resolução desse problema. O tempo, por exemplo, que a pessoa usa para fixar as que já viu e desprezou. O comportamento só se mostra - enquanto behavior conseqüente - quando se tem a idéia de fazer marcas nas malas examinadas, por exemplo, com giz.
Assim, a linguagem se torna uma fixação de fatores discriminativos que se mostram relevantes nas situações humanas, do mesmo modo que as marcas de giz. Esse, o mecanismo da atribuição, que Skinner parece usar como referencial do ser da linguagem. "As maçãs vermelhas são doces" encerra uma variável relevante a um comportamento compensador para qualquer membro da espécie. Na exposição desse tema, a prosa de Skinner lembra, por vezes, os textos de Wittgenstein.
A questão se torna esvaziar o conteúdo aparente das asserções que envolvem estados internos, assim como para Wittgenstein era mostrar a impossibilidade da linguagem transmitir algo efetivamente comum como referência desse tipo de asserção. Aquilo que se "sente", como a dor comunicada pela proposição, não pode ser "sentido" pelo outro, a quem a proposição, no entanto, se dirige. Skinner considera a dor como o "exemplo de experiência imediata" comumente utilizado.
Em ambos os casos, trata-se de esvaziar a categoria do sujeito não lingüístico, o sujeito humano, como aquele que fala na linguagem. Esta "funciona" como um evento independente, com suas leis imanentes, em Wittgenstein, o sujeito da linguagem atuando como um transcendental que possibilita seu exercício; em Skinner a linguagem atua integrando um comportamento ou uma orientação, sendo, como uma parte da ação, uma prática ambiental, social.
Com essa posição, Skinner desloca a análise da linguagem para a descoberta das funções que com ela a comunidade atualiza, isto é, funções que pertencem à comunidade, marcando uma certa distância entre o "lingüístico" e o "verbal". Aquele interessa aos lingüistas, este, somente, ao psicólogo. Com isso Skinner denega, igualmente, que seja preciso atrelar a compreensão da linguagem do ser humano à zoo-semiótica, já que seu comportamento verbal pode ser tratado sem precisar previamente analisar-se o sistema de sinais de outras espécies.
comportamento e cultura: a tecnologia operante
O posicionamento behaviorista pode induzir, à apreciação apressada, críticas não inteiramente válidas. Por exemplo, de voluntariamente ignorar os estados de alma ou os sentimentos das pessoas. Não ocorre negação daquilo que habitualmente se nomeia "sentir", "esperar", "ter idéias", etc. Apenas se nega que o comportamento objetivo seja causado por esses fatores, explicável por eles. Logo, que esses são os fatores alvo da explicação psicológica.
Isso permite manter a oposição original entre o trabalho do fisiólogo e o do psicólogo. Não se ignora a fisiologia da sensação ou da perceção, o trabalho dos sentidos, etc. Mas não se identificando os assim designados "fatores internos" como causas de comportamento, e sim como partes operantes dele, o que o psicólogo tem a explicar é esse comportamento, agora visto apenas na sua objetividade, como na sua contingência de reforço. Ora, que o correlato desses nomes, "sentir", "esperar", etc. seja objetivo dentro do sujeito, eis o que nunca se poderia provar, e é isso o que o behaviorismo coloca em questão. O sujeito "sente" raiva ou compaixão, e isso está coerente com as providências que toma com relação ao objeto. Mas por que essas providências são, com tanta segurança, designadas estarem no exterior, enquanto o correlato do discurso de legitimação do sujeito, no interior? Ambos são igualmente relevantes para o comportamento como um todo, na relação que este exibe invariavelmente com o ambiente em que está ocorrendo. Se queremos mudar esse comportamento, o que precisamos é alterar o ambiente - verbal ou não-verbal - não imediatamente os sentimentos do sujeito.
Skinner exemplifica com as guerras, que "nascem primeiro na mente dos homens", conforme o documento da Unesco, que cita. É preciso que eles deixem de pensar na guerra como uma coisa válida. Mas por que eles "pensam" assim? É preciso, então, procurar as variáveis ambientais relacionadas ao presente, onde já existe algo como o behaviorismo, que precisam ser transformadas, os tipos de reforço que precisam ser investidos, para que se evitem guerras "desejadas".
Creio que se pode mostrar a colocação de Skinner observando como o religioso está disposto a integrar campanhas evitando a legalização do aborto, mas não está disposto a renunciar ao seu ímpeto de marchar contra os infiéis, sem notar que se a guerra atua como redutor populacional, o aborto é um meio bem menos comprometedor da integridade da espécie, com o mesmo objetivo. É provável que o religioso não aceite que seu comportamento seja movido pela necessidade de evitar o colapso demográfico, apelando para sua "consciência" moral, subjetiva. No entanto, esse comportamento não pode ser separado dessa conseqüencia. E quanto do ambiente verbal não fica, assim, modulado pela "guerra na cabeça dos homens"?
Essa questão é importante na obra de Skinner, que envolve uma preocupação social bem pronunciada. Pena sublinha o fato de que, se ele intentou fornecer tecnologias comportamentais, especialmente o ensino programado e o planejamento terapêutico, sua originalidade abrange a recusa do controle do comportamento na base de recursos aversivos, isto é, punitivos. A aplicação terapêutica da Análise Experimental do Comportamento autorizaria apenas a utilização de reforçamentos positivos. Há dois exemplos interessantes no texto de Skinner, como aquele do horário de refeições no hospital de mulheres esquizofrênicas e o que referencia a experiência num reformatório de menores delinqüentes.
O problema envolvendo o horário das refeições é relatado para exemplificar a tecnologia terapêutica operante. Compreende uma definição de distúrbio que substitui a complementação nominal de "psíquico" por "comportamental". O comportamento é que é anormal, não especificamente a mente ou a pessoa. Mas este é anormal "simplesmente porque não é característico da situação".
A tecnologia terapêutica consiste em construir um ambiente no qual o psicótico volte a se mostrar, ou venha a se tornar, sensível às contingências normais de reforço - o que seria o ambiente "prostético" como na designação de Lindsley. Isso inclui a variável pela qual pode ser que a deficiência não pertence originalmente à sensibilidade do psicótico às contingências, mas às próprias contingências. É esse o caso mais particularmente bem ilustrado pela experiência de administração de enfermaria de Ayllon e Haughton.
As trinta esquizofrênicas internadas exigiam um enorme contingente de funcionários para serem movidas à sala de refeições nos horários prescritos, necessitando-se de trinta minutos para reuní-las no local. O experimento consistiu em mudar as contingências, de modo que nenhum esforço seria feito para mover as pacientes. Não havia outro alimento disponível. Inicialmente, poucas afluíram ao refeitório. Mas logo, todas as pacientes mostraram-se capazes de afluir ao refeitório no horário certo, o intervalo requerido sendo de cinco minutos. A tecnologia terapêutica consiste em construir um ambiente no qual o psicótico volte a se mostrar, ou venha a se tornar, sensível às contingências normais de reforço - o que seria o ambiente "prostético" como na designação de Lindsley. Isso inclui a variável pela qual pode ser que a deficiência não pertence originalmente à sensibilidade do psicótico às contingências, mas às próprias contingências. É esse o caso mais particularmente bem ilustrado pela experiência de administração de enfermaria de Ayllon e Haughton.
O que mudou foram as contingência do reforço. Antes, o que reforçava o comportamento das internas era a atenção que conseguiam angariar dos funcionários, ao mostrar resistência a serem movidas por eles ao refeitório. Agora, o que se tornou reforçador foi a comida institucional. A comida não era reforçadora nas circunstâncias normais, mas mostrou-se assim tão logo as pacientes ficaram famintas. Naturalmente essa experiência fôra rigorosamente controlada, de modo que se ficasse nítido que a mudança não alteraria o comportamento das internas, não se as deixaria chegar à inanição.
O outro exemplo ilumina a aplicação do behaviorismo de Skinner no planejamento isntitucional. Em Washington, uma Escola de Treinamento para meninos delinqüentes foi replanejada minimizando o controle aversivo. Não se pedia que nenhum menino fizesse qualquer coisa. Poderia "ficar em paz", sem se ocupar, se assim desejasse. Cada um possuía um acolchoado no dormitório, sendo alimentado normalmente, mas sem qualquer componente mais atrativo. Poderia, contudo, engajar-se na consecução de tarefas que lhe garantiriam cartões com os quais conseguia comida mais saborosa, quarto particular, assistir televisão, viajar, etc. Os cartões eram acumulados tanto por trabalhos de cozinha ou zeladoria, quanto por estudar e aprender, mas estas ocupações garantiam mais "pontos" computados pelas respostas corretas a exercícios.
Os meninos não somente ostentaram um moral mais alto, quanto comportavam-se bem, engajavam-se em tarefas, tratavam melhor uns aos outros, não havendo os "produtos colaterais indesejáveis" sempre associados ao controle aversivo. A coisa mais importante nessa experiência foi a descoberta de que muitos desses meninos, fracassos notáveis nas escolas comuns, revelaram altos potenciais cognitivos. Haviam sido convencidos de que eram "bobos", mas agora as contingências educacionais planejadas os fizeram sentir que eram pessoas capazes e responsáveis. Como seres humanos autênticos, os meninos se referenciaram como pessoas respeitáveis e livres. Essa aplicação envolveu o tema do controle aversivo socialmente consagrado. Nas sociedades atuais predominam "sistemas coercitivos de controle", conforme a expressão de Pena, algo que Skinner, como Bandura, tematizaram com especial interesse, exemplificando com estruturas fundamentais, a escola, a empresa, e os meios de comunicação.
O apelo seria no sentido de substituir os controles de comportamento, na escola e na empresa, que se apóiam em recursos aversivos e punitivos, pelo planejamento centrado na manipulação de reforçadores positivos. Quanto à comunicação de massa, envolveu um problema comum a propostas psicoterápicas de pessoas agressivas, que ostentam comportamento sádico. Particularmente, o problema foi atacado por Bandura, mas o cerne dessa argumentação pode se estender, a meu ver, à posição de Skinner, ainda que este não insira no tema da prendizagem social uma valorização da imitação, como faz Bandura.
A questão é a contraposição deste ao argumento psicanalítico que vinha propondo um tipo de representação do comportamento agressivo como redutor de sua ocorrência real. Assim, permitir ou conduzir crianças hiperagressivas a participar de atividades recreacionais brutais, que incluíam agredir, ou a ver programas de televisão agressivos, com cenas particularmente violentas, era colocado como forma de catarse, que iria evitar respostas agressivas futuras.
Em contraste, a teoria do aprender social de Bandura, assim como o comportamento contingente de Skinner, iriam prognosticar que expor-se a modelos agressivos e a reforçamento positivo da agressão são procedimentos muito eficazes, sim, mas para aumentar predisposições a respostas agressivas.
Pena ilustra a situação experimental que simula entrevistas psicoterapêuticas nas quais estudantes coléricos expressam diretamente sua hostilidade a um médico "permissivo". O resultado foi um aumento de "agressão pós-experimental", ao invés do decréscimo. A evidência geral decorrente de estudos laboratoriais mostra que esse tipo de estimulação não apenas mantém o comportamento indesejado, como aumenta sua incidência.
A posição da psicanálise se torna assim contrária a essa teoria do aprender social. Conforme enfatizado por Bandura, o paradigma energético da psicanálise - o aparelho psíquico de Freud - assim como qualquer outra derivação desse paradigma, contando com a dinâmica da catarse, orienta pais, educadores e terapeutas no sentido de permitir situações simuladas de reforçamento positivo à agressão. Bandura, inversamente, afirma segundo Pena que "as expressões catárticas são procedimentos altamente eficazes para aumentar predisposições a respostas agressivas". Especialmente ficou demonstrado que a observação de um guia que age agressivamente sendo recompensado induz não só à imitação como acresce, no imitador, seu potencial de conduta agressiva. Em outros termos: os mesmos padrões de agressão transferem-se para o observador e liberam-se generalizações das repostas agressivas primitivas
A meu ver, seria o caso de perguntar, porém, se o problema da violência na linguagem da mídia não resulta de que certos programas são formulados por pessoas, elas mesmas, hiperagressivas ou identificados com capitalistas competitivos, que consagram seu comportamento psicótico como modelo socialmente valorizado, já que qualquer referencial sancionado pela comunicação de massa é recebido como modelar.
Assim, a pessoa que recusa essa linguagem violenta pode ser marginalizada, como alguém que não observa a moda, ou que é ingênuo, apático não-capitalista, etc. Aliás, seria de se notar como a rotulação é relativa, nesse caso.Por apático, geralmente se entende aquele que não é capaz de iniciativas, ou preguiçoso.Inversamente, "apatia" como uma incapacidade de fazer coisas não já ordenadas por uma autoridade, foi característica assinalada de grupos autoritários.
Esses estudos recolocam aquilo que vemos na pesquisa sociológica de B.Wotton e outros autores citados em Bottomore ("Introdução à sociologia"), mostrando como o comportamento agressivo ou deletério não está determinado pela marginalização ou pobreza, mas, bem inversamente, profundamente arraigado na sociedade por integrar o perfil do capitalista competitivo. Os índices do crime na sociedade americana não são majoritariamente provenientes dos guetos, mas das firmas capitalistas.
Skinner trata a agressão como um caso de especial oportunidade para evidenciar que a explicação do comportamento pela sua atribuição filogenética ou ontogenética, conforme a programação da espécie ou do indivíduo, é algo não muito útil. Somente quanto às conseqüências é que torna-se relevante saber se pertencem a um ou a outro plano. Assim, o ser humano, como espécie, não teria "preferido" a inteligência ao instinto, conforme a posição de Bergson, mas simplesmente desenvolvido uma sensibilidade às contingências ontogenéticas que tornaram menos importantes as filogenéticas e seus produtos. Tampouco ocorre trial and error evolutivo. Uma mutação só seria uma "tentativa" se fosse previamente determinado que a evolução tem direção ou propósito, de modo que as mutações indesejadas seriam "erros".
Em geral, tão logo uma espécie se torna sujeita a contigências filogenéticas e ontogenéticas, as filogenéticas se tornam menos determinantes, pois a espécie pode sobreviver com um repertório filogenético menos adequado. No ser humano isso atinge o paroxismo. As práticas culturais ontogenéticas da medicida e da higiene têm, de fato, anulado as contingências filogenéticas, de modo que podem reduzir a capacidade de "defesa natural". A saúde torna-se dependente da assistência dessas ciências. Um exemplo determinado de agressão tanto pode ser atribuído a um como a outro dessas determinações. O ser humano parece ser o único caso de agressão, particularmente de tendência homicida, aos membros da mesma espécie, de modo tão constante e diversificado. Skinner supõe que isso está relacionado com a história do reforço que esse comportamento têm provido ao longo do tempo. Assim, o problema social da agressão pode ser sanado se for construído um ambiente em que o dano aos outros não tenha valor de sobrevivência, nunca funcionando como um reforço. Inversamente, nesse mundo os comportamentos não agressivos são abundantemente reforçados em esquemas eficazes.
Um tema importante na argumentação de Skinner é a sua recusa da imitação como componente determinante de um planejamento comportamental adequado. A questão envolve a oposição que ele demarca entre dois tipos de comportamento: o modelado por contingência e o governado por regras.
Essa oposição é ilustrada por um grande número de distinções clássicas que podem ser reduzidas assim: impulso e deliberação, natural e cultural, emoção e razão, intuição e raciocínio, inconsciente e consciente, know-how e saber, etc. Isso recoloca a ação cultural, inclusive quanto ao aspecto da linguagem, esta mostrando-se, como vimos, como transmissão e fixação de estímulos construídos.
A oposição entre esses tipos de comportamento é relevante, pois ainda que sua exemplificação não seja difícil, torna-se complicado desfazer a impressão posterior de que todo comportamento é do tipo governado por regras.Essa oposição é ilustrada por um grande número de distinções clássicas que podem ser reduzidas assim: impulso e deliberação, natural e cultural, emoção e razão, intuição e raciocínio, inconsciente e consciente, know-how e saber, etc. Isso recoloca a ação cultural, inclusive quanto ao aspecto da linguagem, esta mostrando-se, como vimos, como transmissão e fixação de estímulos construídos.
O jogador de beisebol e o comandante de navio estão respondendo à mesma estimulação quando aquele precisa apanhar uma bola no ar, e este, recuperar um satélite. Ambos se posicionam para aparar um objeto cadente no momento de atingir a superfície. Mas o comportamento do jogador é praticamente modelado pelas contingências de reforço, enquanto o comandante está obedencendo regras derivadas da informação disponível e de situações análogas.
O erro consiste na crença de que o comportamento está sempre sob o controle de estímulos anteriores. Isso ocorre geralmente porque é mais fácil observar os estímulos discriminativos controladores de comportamento, como regras, máximas e leis, do que as contingências que especificam uma conduta no momento em que a situação se desenrola.
Assim, torna-se possível definir o cérebro como o órgão que manipula símbolos, transformando tudo o que descobre em regras corretas, por armazenagem de dados. O que se deixa de colocar como necessitando de explicação, assim, é porque o homem deveria obedecer uma máxima, regra, plano ou lei. Nada no cérebro como processador de símbolos o explica.
Em vez disso, Skinner acentua que o papel do cérebro está na mediação de alterações do comportamento resultante de reforço. Como estímulo discriminativo a regra é eficaz como parte de um conjunto de contingências de reforço. Mas a especificação completa do comportamento precisa incluir a avaliação da oportunidade da regra, na contingência atual de sua ocorrência. Pode ser que a situação tenha mudado. A lei continua válida, ou não? A cultura pode precisar de muito tempo para superar o contraste entre o seu repertório de estímulos construídos, o reservatório de conhecimento sobre contingências já observadas na forma de conselhos sancionados por provérbios, sabedoria popular, etc., e o devir humano, social.
Skinner enfatiza a função auto-reguladora exibida pela cultura, inscrita nas formas de proposição como "O que você fez?" "Por quê?", ou descrições de comportamentos que falham em satisfazer contingências, como "eu desisti prematuramente". Chama a isso "comentário corrente" sobre as contingências de reforço. A evolução da cultura encoraja comentários assim, para que se desloque a atenção à eficiência no ato mesmo da resolução de problemas, em vez da fixação no repertório admitido. Culturas com menos capacidade de evoluir colocam muito mais o peso nos acontecimentos interiores, focalizando demasiadamente a observação de prescrições, o que se revela pouco vantajoso aos seus membros.
A comunidade verbal exibe, por meio dessa função do comentário, sua capacidade de ensinar comportamento operante, nesse caso, destinado a superar a sua própria limitação representada pela função mais conspícua de estocagem de informação sancionada como útil.
O menos satisfatório quanto a isso é utilizar as próprias contingências como regras, como nas campanhas contra o fumo que se baseiam na argumentação de suas conseqüências. Espera-se que as pessoas observem uma regra, no sentido de uma injunção (parar de fumar). Apresenta-se então a conseqüência como se fosse associada ao não cumprimento da regra (doença). Mas o comportamento de parar de fumar só pode ser eficaz se houver operadores contingentes que o reforcem de modo a alterar o esquema reforçador do ato de fumar. As pessoas não fumam por uma regra que as induz a fumar, e sim pelo reforço que isso opera.
Mais coerente seria uma lei que pune o hábito de fumar, pois a contingência do reforço muda. No entanto, pelo que podemos deduzir do que Skinner expõe ao longo do texto, os "efeitos colaterais", conseqüências desse reforçamento aversivo não iriam tardar - seria possível prever que, como colegiais que fuman por que seus pais não podem vê-los fumar, muitos iriam procurar o comércio paralelo para continuar fumando, ou para começar a fumar expressando sua revolta ou insatisfação social relacionados a outros motivos.
Esses, logo desenvolveriam o sentimento de ser marginalizados, o que aumentaria sua predisposição para realizar outros atos ilegais e os afastaria dos hábitos comuns, e assim sucessivamente. Seria então necessário investir em programas terapêuticos ao qual as pessoas que quisessem, estando convencidas dos males do tabaco, poderiam se engajar, tratar-se e se curar da compulsão. Mas nem todo hábito desse tipo é compulsivo. Há culturas que utilizam o tabaco sem a característica do "vício". Outrossim, para inviabilizar qualquer comportamento cujo resultado é a injestão de substâncias nocivas, teria que ser proibida, primeiro, a indústria automobilística, até que fossem inventados veículos cuja propulsão não comprometesse o meio ambiente. Em todo caso, o pior é sempre o controle aversivo, pois suas conseqüências sociais se acumulam.
critério e teoria : a crítica do "mentalismo"
A imitação é um tipo de observação de regras. Um modelo a ser imitado é uma "regra fragmentária" que especifica a topografia da resposta imitativa. Vemos a posição de Skinner na polêmica acerca do comportamento modelado por guia, pelo que imitar o guia não seria aprender respostas, mas aprender o plano ou mapa do comportamento. Ele ironiza, de fato, essa idéia de mapa mental, mostrando que este, se existe enquanto "mapa cognitivo", como na expressão de Tolman, corresponde ao próprio funcionamento do comportamento modelado por contingências, não resultando da imitação, e sim das circunstâncias da experiência efetivamente investida pelo sujeito - ele aprende a geografia das ruas ou o percurso no labirinto pelas quais realmente andou, não o que viu o modelo fazer. O modelo se limita a desencadear o comportamento exploratório que resulta nesse aprender.
Skinner exemplifica a oposição entre o comportamento seguidor de regras e o modelado por contingências, com o jogador que está imitando um treinador, contrastando-o com o jogador de golfe cujo balanço se modela por seus efeitos sobre a bola. Mas nem sempre é tão fácil observar a oposição entre os dois tipos. Como saber se a observação que um homem está pronunciando deriva do que outros lhe disseram para dizer, ou do que ele realmente pensa sobre o caso? O critério essencial é que as variáveis controladoras do comportamento não são as mesmas. Assim, os dois tipos de comportamento jamais coincidem de todo. Num caso o homem está lembrando o que deve dizer ou obedecendo a uma prescrição, no outro, está deliberadamente propondo uma observação derivada do seu exame do assunto.
Ora, aqui notamos que a argumentação de Skinner tangencia a crítica acerca de sua recusa de teoria, já que se apresenta a estipulação de critérios. Esta se mostra bem nítida na formulação de Hyman. Skinner tem um trabalho bastante volumoso de experimentação com animais, sua programação envolvendo o comportamento de pombos, induzido por reforço. Hyman coloca a questão de que, inicialmente, é complicado não supor que Skinner esteja lidando com algum nível de teorização que orienta o planejamento de suas situações experimentais. Muito mais complicado se torna, já que ele se recusa a "sistematizar", mostrar porque, não aceitando "saltar" do comprotamento do pombo para o cérebro do pombo, aceita fazê-lo do comportamento do pombo para o comportamento do homem. Não me parece que isso não estivesse já aquilatado pelas respostas de Skinner aos seus críticos, mas vemos assim como a recepção do behaviorismo se tornou polemizada pela ambientação de escolas menos "revolucionárias" em psicologia.
A questão que ilustra o problema da teoria é o ritual supersticioso. Skinner construiu uma situação laboratorial em que se apresentava comida a pombos em certos intervalos, independente do que cada pombo estivesse fazendo no interior de sua cela. Sua suposição era que, como "sempre que apresentamos um estado de coisas que sabemos agir como reforço de um determinado impulso, devemos supor que ocorre um condicionamento", conforme a citação de Hyman, ao sentir fome o pombo iria repetir o gesto que, por acaso, estivesse concomitante à apresentação da comida.
Isso é exatamente o que se verifica - um pombo dava voltas em círculos, outro projetava a cabeça para a barra da cela, sempre que sentia vontade de comer, pois estes eram os gestos que faziam ao ser apresentada a comida quando foram introduzidos, semi-famintos, na situação experimental.
Hyman julga que as precisas e detalhadas predições de Skinner acerca dos resultados que se deveriam verificar, conformes a mudanças específicas nas condições da experiência, são, de fato, generalizações no sentido de teorizações. No entanto, como ele não produz uma formalização, supomos que no sentido de uma tentativa para equacionar todas as hipóteses conforme uma ampla gama de interligações fenomênicas designadas na forma de leis e princípios gerais, não fornece a base de apoio de suas generalizações e previsões. Muda as variáveis, mas não consegue explicar as razões de sua escolha. Como poderia então sustentar a generalização mais ampla pela qual se garante a validez do comportamento do pombo como "superstição" em geral?
Ocorre que Skinner conceitua "comportamentalismo" em dois sentidos. Num deles, trata-se da pesquisa experimental e hipóteses correlatas - incluindo a asserção pela qual a psicologia ainda não tem condições para reunir uma teoria geral, assim como já faz a física. Mas no segundo sentido, trata-se de um "ismo", ou seja, uma "filosofia da ciência" cujo objeto é "o tema e métodos da psicologia". A questão é definir o objeto de estudo da psicologia. Logo se têm, como correlatos, os métodos que lhe são adequados.
É devido a essa colocação que o mentalismo precisou se tornar o alvo crítico do behaviorismo. Como disciplina da "vida psíquica", no sentido de "experiência consciente" ou "vida mental", uma metodologia da psicologia seria pouco esperável, pois teria que se desenvolver do nada ou simplesmente continuar a teorização filosófica. Mas, definindo-se como "ciência do comportamento dos organismos humanos ou não", a psicologia seria um ramo da biologia e assim se beneficiaria do sólido edifício epistemológico já construído por esta.
A argumentação se desenvolve então no sentido de inviabilizar a interpretação mentalista dos eventos comportamentais, de que já examinamos as linhas básicas.
Trata-se de mostrar a impropriedade da valorização do que Watson designou "discurso sub-audível", o pensamento ou atividade mental, enquanto aquilo de que o comportamento é explicado. Skinner aceita que a polêmica de Watson não foi devidamente conduzida. Mesmo o pensamento parece à custo ser bem carcterizado como linguagem sub-vocalizada. E ter se confundido "com os pscólogos introspectivos ao negar a existência de imagens" seria desculpável apenas por que, ao que parece, o próprio Watson "não tinha imagens visuais". Mas considera como seu inegável mérito o ter lançado a proposta, ainda que "ruidosa", da psicologia como ciência do comportamento. No essencial, conforme Skinner, Watson estava certo.
A psicanálise já seria algo em apoio da hipótese behaviorista, ao operar com a hipótese de pensamento inconsciente, que ocorre sem o conhecimento do sujeito. Mas o condutismo - como também se designa a tendência behaviorista - inova, ao estender a questão do acesso ao que se habitualmente designa consciência. Ora, deve-se opor à simplificação da proposta behaviorista na base de que sua solução compacta descartar os eventos privados da consideração científica, em prol do que seriam os públicos. Skinner marca, assim, posição frente ao positivismo lógico e ao operacionalismo de Bridgman.
O que ocorre "sob a pele" e que seria o "privado", de fato não se consideram como mediadores fisiológicos ou subjetivos do comportamento, mas sim como partes dele. No entanto, o que significam como "privados", é o que está em questão. Como já assinalamos, o ponto de vista do behaviorismo desfaz a oposição. Não há necessidade de supor que a pele é o limite. O privado e o público estão sendo colocados no mesmo nível físico.
Assim, o importante aqui é manter a equivalência do que habitualmente se considera reservado à experiência do sujeito na ambiência fenomênica passível de descrição biológica. A classe de experiências que se designam habitualmente "privadas", como no exemplo da dor, não dependem da existência de um mundo à parte que seria a interioridade, mas responde ao quadro geral da estimulação, isto é, relaciona-se a receptores físicos, conforme sua especificidade.
Seja o caso da cinestesia, literalmente "sensibilidade ao movimento", correspondendo à percepção pelo sujeito do seu corpo no espaço, que Wallon reporta como tendo sido proposta, após Biran, como compactando numa certa unidade de consciência as sensações derivadas do esforço, dos movimentos e das funções viscerais. Skinner, como na fisiologia atual, a relaciona aos mecanismos de proprioceptividade.
Há assim receptores da cinestesia, os "proprioceptores", células sensoriais localizadas nos músculos, tendões e articulações, que são efetivamente pequeníssimos "órgãos sensitivos" (Storers e Usinger) que tornam possível a percepção dos movimentos dos membros, a contração e relaxação dos músculos. Os receptores cinestésicos apresentam habitualmente a forma de fusos de estrutura variada, que possuem uma pequena fibra motora responsável pelos impulsos que vem do cérebro, e uma grande fibra sensorial responsável pelos impulsos que vão ao cérebro, ambas incluídas numa cápsula de tecido, o fuso imerso em líquido, e o trajeto das fibras já está bem estudado desde o córtex à medula, onde fazem ligações para vários reflexos, aos fusos localizados no corpo - como se pode ver o esquema em Krech e Crutchifield (v. 1).
A memória inconsciente das tensões e deslocamentos dos músculos necessários é o que possibilita o ato simples de tocar certas partes do corpo sem vê-las. O mesmo mecanismo funciona em atos como andar, tocar piano, patinar, etc. (Storer e Usinger). Também é bem descrito o papel do aparelho vestibular, localizado no ouvido interno, quanto ao sentido de estabilidade ou equilíbrio. Skinner mostra ainda o papel dos receptores internos, recebendo estímulos do interior do corpo, na formação do que designamos a experiência subjetiva. Tudo isso, como vimos, não necessita de uma dimensão suplementar ao domínio físico.
Se a proprioceptividade e a interoceptividade não deixam de ser irredutíveis, como experiência, à recepção de estímulos externos, de modo que sentir tontura, orgulho ou pesar não parece com pisar forte, apalpar lixa ou cetim, o que importa é a ordenação metodológica de seu equacionamento como fenômenos de ordem não ulterior a estes outros. A ciência do comportamento não considera os eventos de proprioceptividade e interoceptividade como "mediadores" fisiológicos do comportamento, mas como partes deste.
O deslocamento epistêmico, a meu ver, centra-se na noção de causalidade, não só por que muda o foco do que implica o que, mas principalmente por que instaura menos o funcionamento de uma implicação (monocausalidade) do que a inter-relação de fatores relevantes numa situação complexa. Romeu Gomes nota, a propósito, que se o behaviorismo lida com um determinismo e o homem "está realmente controlado pelo ambiente" - conforme a citação de Skinner - é preciso, contudo "lembrar" que trata-se de um "ambiente constituído", em muito, pelo homem.
O ser humano não se define como autônomo, mas sim pelo controle, no sentido de que "ele controla e é controlado", conforme a expressão de Gomes. Como vimos, não se age a esmo, mas dentro de situações onde o ser humano não se expressa menos como determinante do que as circunstâncias com que ele opera de modo relevante. Creio que essa noção de causalidade desloca, na verdade, o dilema de determinismo e liberdade no sentido de autonomia, pela introdução do conceito também tradutível pela terminologia da "retroalimentação".
Skinner, exemplificando a interpretação do ciúme de Otelo por um viés não-mentalista, mostra que todas as partes do comportamento ciumento narrados pelo personagem - ações passadas, presentes e futuras (intenções), respostas emocionais "públicas" e "privadas", são inter-relacionadas, nenhuma podendo ser apontada como causa de outra.
Skinner se pronuncia acerca de uma "epistemologia empírica", como produto do behaviorismo. Isso supõe que não se deriva essa "teoria empírica do conhecimento", nem da filosofia, nem da lógica. A crítica que se faz habitualmente a isso - trata-se de um procedimento circular, uma petição de princípio - é contornada com base em que aquilo que se propõe alternativamente também o é, não pode evitar sê-lo, com o agravante de que não apresenta o alcance do behaviorismo no tratamento dos fenômenos que se propõe explicitar.
Ora, a argumentação de Skinner me parece evidenciar a inserção mais notável do behaviorismo no que designei a epistemologia do simbólico, isto é, aquela ambiência contemporânea que rompe definitivamente com a representação moderna enquanto pré-contemporânea. Outras posições que deveremos examinar, ainda que não possam pela sua própria inserção no tempo manter o viés clássico, exibem meios de reposição da representação dentro do encaminhamento simbólico dos temas. O behaviorismo é o mais típico movimento desse período, pois evita a representação por todos os meios. Como vimos, Skinner não pensa o cérebro como meio de símbolos, mas não é isso o que está em questão. E sim que a contingência, enquanto situação discriminativa, só se exerce por meio de uma semiótica.
O símbolo como codificação de regras é próprio meio da representação, a característica universal de Leibniz sendo o seu ideal. O behaviorismo está recusando precisamente essa colocação. A semiótica comportamental é autônoma, o signo é operatório. Não depende de uma "natureza" no sentido de um encadeamento filogenético que de algum modo iria subsumir ações a um todo conceituável (conjunto de espécies). A "recusa da teoria" deveria ser vista por esse viéis. Não tanto uma recusa, e sim uma impossibilidade. Não há o meio dos princípios que seria preciso formular. Os critérios que orientam uma experiência se implementam conforme os resultados observados ao longo dessa mesma experiência.
Assim, o argumento mais notável é que "as relações entre o organismo e o ambiente, envolvidas no conhecimento, são de tal sorte que a privacidade do mundo dentro dos limites da pele impõe limitações mais sérias ao conhecimento pessoal do que ao acesso deste mundo pelo cientista". Isso é o inverso da suposição de que não há nada no mundo mais partilhado do que o bom senso, como na velha fórmula cartesiana, ou que tudo o que o homem pode conhecer são suas experiências subjetivas, como estava, concomitantemente à emergência do behaviorismo, sendo sustentado pela fenomenologia de Husserl.
É curioso que Skinner tenha registrado a metáfora fenomenológica do "habitar" como correlato de "compreender" em "Science and man in the universe", de Polany. A frase célebre de Merleau-Ponty pelo que "a ciência manipula as coisas, mas se recusa a habitá-las" aplica o termo precisamente nesse sentido, pelo que a explicação da ciência não equivale à "compreensão". Com isso, ele desqualifica a pretensão de validez do cientista.
Este seria - utilizo aqui as aspas para tipificar a argumentação usual nos textos de Merleau-Ponty - até mesmo um desonesto, pois "sabe muito bem" que tudo de que dispõe "inicialmente" ("autenticamente", nessa interpretação), é o conteúdo de sua experiência interna, subjetiva, e que o pretenso caráter objetivo dos fenômenos é meramente "derivado" ("secundário") de sua preconcepção errônea acerca desse conteúdo "original". O porquê de identificar autêntico e inicial se torna "óbvio", já que o autêntico é o que se tem de "imediato".Mas o pivô do argumento, conforme Skinner, reside na equivocada discrepância entre o interno e o externo pelo que só compreenderíamos o que pudéssemos adentrar - nesse sentido, o cientista nem mesmo "sabe" o conteúdo de um manual de sua competência, pois ali exibem-se quadros e tabelas que ele consulta, mas que não precisou decorar.
Skinner insiste na dependência desse tipo de colocação a uma pretensão copiadora do mundo, pelo que o que "habitamos" na verdade seriam nossas próprias idéias - cópias das coisas, como no platonismo - ainda que este tenha invertido a correspondência ao nomear as idéias como modelos. Nesse modo de ver, é o conhecedor que "invade" ou "possui" ( a metáfora é de natureza sexual) o conhecido, não o inverso.
A posição de Skinner não vai inverter o platonismo para sustentar que tudo é matéria, em vez da mente. Trata-se de se contrapor ao dualismo. O termo do exame experimental do comportamento são variações nas respostas. O problema da psicologia deixa de ser, absolutamente, saber de que o mundo é feito.
Vemos que o mesmo viés sustenta o movimento psicanalítico. De modo algum ocorre que o homem conheça ou compreenda suas experiências subjetivas tão necessária e naturalmente quanto as vivencia. O supersticioso nunca dá as razões de seus rituais. Ninguém compreende totalmente seus próprios sonhos. O problema da formulação fenomenológica é manter a argumentação tendo por referencial não o pensamento consciente, como assevera, mas tomando por este apenas o comportamento cognitivo, como perceber, atribuir, imaginar, lembrar. A meu ver, a fenomenologia, no período contemporâneo, é a formulação que mais se manteve relacionada à representação como uma recusa da ciência, porém, e Foucault pode ter baseado seu equívoco na identificação precipitada de fenomenologia e humanities, numa petição de princípio quanto ao caráter que julgava não- científico destas.
Assim, o termo fenomenologia significa aquela escola de filosofia que odeia as ciências, a não ser que as reduza a "ontologias regionais", o que me parece ofensivo à liberdade do pensamento, pois pode-se ter começado por recusar a ontologia, o que me parece bastante saudável. Não obstante, cumpre notar que o termo também é usado, numa acepção irredutível, como sinônimo da parte meramente descritiva do fenômeno, de uma pesquisa científica.
Já a psicologia está tratando com automatismos, reflexos, comportamentos e demais fenômenos inexplicáveis para o sujeito. Consegue assim evidenciar os limites quando se trata de fenômenos que a este parecem imediatamente acessíveis. Aquilo que Husserl manteve sempre como o mais óbvio, e somente por um viés perverso negável, conteúdo original, imediato, da percepção - o sentimento subjetivo, autoevidência ou autoconsciência de si - já se evidenciou na literatura da ciência psicológica como muitas vezes simplesmente não constando na experiência do sujeito.
Há aí muitos exemplos de relatos em que a consciência "parece" estar no exterior, identificar-se ao objeto ou ao ambiente, em vez de ao sujeito, ainda que isso não corresponda ao que se costuma considerar comum na referência do homem adulto, branco, civilizado, no seu estado habitual desperto, enquanto idealizável conforme os conteúdos de sua tradição de saber. O problema da argumentação fenomenológica, conforme o ponto de vista da ciência psicológica, é que Husserl jamais ouviu ou confrontou as experiências alheias, apenas modelou o que seria "a experiência" conforme o que lhe pareceu ser a sua própria, ainda selecionando-a conforme o seu preconceito intelectualista.
Em todo caso, Skinner se pronuncia explicitamente no sentido de que considera um ponto a favor do behaviorismo o fato de que permite pode deixar as coisas como estão, mais uma expressão referencial nessa problemática do compreender, como vimos. Com isso, quer afirmar que "as formulações científicas não mudam a natureza das coisas".
O behaviorismo estaria assim nos antípodas da fenomenologia, naquilo pelo que manifesta a epistemologia do simbólico no seu estado mais típico, assim como aquela o faz no menos. A explicação da "resposta encoberta" que tanto intrigava Watson, na colocação de Skinner, por exemplo, me parece bem aproximável da teoria do signo de Ogden e Richards, como apresentado em O significado de Significado.
O comportamento semiótico que rege os fenômenos ligados ao sentido prescindem agora de um correlato por si existente, como um cópia da coisa, uma essência ou forma, um "significado" ou "conceito" nessa acepção - uma idéia platônica seja com morada na mente / alma ou com subsistência lógica. Trata-se de um ato integrando uma situação de comportamento que ocorre, na conceituação do famoso triângulo de Ogden e Richards, como referência, o que aqui não pode ser transposto, por se tratar de uma figura.
A linha pontilhada na base do triângulo, nestando um vértice o signo, no outro o referente, chama atenção para o fato de que a relação do signo com a coisa não é direta. O que não está pontilhado são as duas linhas quede cada vértice se litam no ponto acima, onde é o lugar da referência, o ato mental efetivo.
Assim, tampouco essa relação direta precisa ser teorizada conforme sua atualização na mente, uma vez que inexiste no sentido de algo dado anterior ao ato, conforme Ogden e Richards. O que ocorre é uma atuação real do signo como a referência atual que o está, nesse momento, relacionando-o ao refererente. Quanto a este, é mais como o resultado dessa relação do que a coisa no mundo, mas esse resultado não deixa de ser a coisa no sentido de que está objetivamente dentro da situação global na qual ocorre a referência.
Além disso, o behaviorismo cabe bem na concepção científica de mundo que anima o neopositivismo, nos seus desdobramentos políticos de valorização do socialismo dentro da moldura democrática. Assim como Bottomore evidenciou em sociologia, não há qualquer condição prévia da consciência au da pessoa, como pertença a raça, sexo ou casta, que impeça que a boa allimentação, boa educação, saneamento e higiene, etc,, implique em performances comportamentais iguais, no sentido de estarem no mesmo nível de excelência, às dos sujeitos atribuídos como "superiores" por condições assim.
Skinner polemiza com a psicanálise, a meu ver, muito devido a uma concepção semelhante - descontando-se a alusão subjetivista que poderia se manter como "pensamento" nesse esquema triangular. Não há armazenagem de cópias que explique a visão do sonho, conteúdo a ser explicado, mas ver é sempre o comportamento do ver - não importando "onde" se coloca a coisa vista. O sistema nervoso não está determinado a fazer cópias dos estímulos, mas sim envolvido na interação com eles, por outros meios.
Ele ironiza: Freud havia "dramatizado o resultado referente ao sonhar adormecido", como "uma atividade na qual alguma parte do sonhador desempenha o papel de produtor teatral enquanto outra parte senta-se na platéia". Supõe que se demorou para o ser humano entender que o objeto do sonho não era o mesmo que o da realidade, muito mais ainda é preciso para entender que não ocorrre "sequer uma representação" do objeto. Não crê, assim, que o sonho seja adequadamente utilizável na análise. Quanto à "resposta encoberta", correlato do que seria a introspecção, pode ser convenientemente tratada como comportamento, isto é, na correlação às variáveis relevantes da experiência, enquanto sua "explicação" não precisa de mais do que já se enraizou como fenômenos de proprioceptividade e interoceptividade, como vimos. O behaviorismo não destrói, nem ignora, o fenômeno associado à introspecção ou às formas de auto-observação, apenas as coloca de outro modo, isto é, como variáveis controladoras do comportamento determinado, ao qual se relacionam.
Ambos os contextos, tanto de Ogden e Richards, quanto de Skinner, citam Malinowski. Aqueles, centrando na sua teoria da linguagem como prática, fundamentalmente compreensível apenas relacionada ao Contexto de Situação. Transcrevem um texto de Malinowski elogioso a propósito dos resultados apresentados em O Significado de Significado ( "O problema do significado em linguagens primitivas"). Assim, define-se a linguagem como "modo de ação", apenas num uso posterior, civilizado, podendo surgir suas funções intelectualizadas, com seu enraizamento pragmático não diretamente inferível. Skinner, reinterpretando o funcionalismo de Malinowski para remodelar o conceito de cultura.
A cultura deixa de ser um objeto, um fundo de totalidade, supomos, contra o qual se põem as ações das pessoas. A cultura é a ação das pessoas, "as contingências do reforço social que geram e mantêm o seu comportamento".
Skinner supõe que é isso que Malinowski quis enunciar ao propor que os costumes são observados por causa de suas conseqüências. Registrar o que as pessoas fazem é importante, mas apenas como preliminar para descobrir por que o fazem. Isso não pode ser representado como resultado de uma introspecção dos membros da cultura. As regras que eles podem enunciar em sã consciência "representam apenas as contingências mais óbvias".
Skinner critica assim não somente o que seria um funcionalismo ingênuo, que quisesse apenas traçar uma totalidade observável como que a olho nú, mas o que se designou "comportamentalismo" em ciências políticas, o mero registro de aspectos topográficos do comportamento político. A crítica, porém, não seria que se deve incluir a explicação mentalista, mas sim que se requer mais do que simples descrição, a compreensão das contingências de reforço, algo não óbvio à simples observação até por que pode estar relacionada a fenômenos de latência.
É interessante notar que é com o conceito de latência que Robert Merton flexibilizou o funcionalismo, não só permitindo que lidassse com a mudança social, como mantendo-o numa pespectiva menos fechada que a de Talcott Parsons. Na elaboraçaõ de O devir das Ciências Humanas, observei que na transição ao parâmetro formal desde os anos trinta, o conceito de latência mostra-se transversal às áreas de humanities, como se pode ver pela sua importância em psicanálise.
Skinner enfatiza a noção de função, mas num viés contraposto ao tipo de funcionalismo sistematizante de Parsons, que iria implicar um determinismo do todo como explicação do comportamento local ao modo de parte, sendo parte, assim, qualquer relação socialmente relevante desde a família. Inversamente, é a correlação funcional dos fenômenos localizáveis que permite configurar o presente da cultura sempre em devir, na acepção de Skinner. Sua posição epistemológica me parece bem próxima daquela que designei, no panorama de evolução da sociologia, como sendo de Simmel e Weber antes de serem reconceituados por Talcott Parsons.
Mostra Skinner que as circunstâncias da experiência laboratorial dependem muito do aparato tecnológico (retransmissores, cronômetros, calculadoras, analisadores de freqüência, etc.) e do controle da situação de estímulo, isto é, suporte epistêmico adequado (códigos de registro, cálculos de freqüência determinando curvas de respostas no aprender, etc.). Um expectador não iniciado nessa utilização de aparelhos e técnicas de controle não compreenderia o resultado experimental, não saberia enunciar o que ocorre, literalmente não saberia "ver as contingências de reforço". A observação direta, "não importa quão prolongada", não habilita o observador que nada sabe das técnicas envolvidas na análise do comportamento a compreender o que se desenvolve no espaço experimental.
Os critérios existem, assim como o suporte epistêmico e teconológico, mas independem de uma teoria formal para ser aplicados. A interpretação depende da contingência, tanto quanto o comportamento. Aliás, não seria exato afirmar que Skinner explicou a superstição humana pelo comportamento do pombo. No caso do ser humano intervém a cultura, de modo que uma superstição no sentido humano pode ser definida como um conteúdo discriminativo para o qual não mais existe a situação determinante, conteúdo este fixado culturalmente ao modo de uma crença, regra ou lei. No comportamento do pombo subsiste apenas a contingência da apresentação para o que ele "infere" ser o comportamento operante. Não seria possível esperar que esse ritual se comunicasse como fundo de "saber" da espécie. Skinner mesmo criticou a "extrapolação de uma espécie para outra" como procedimento generalizado, suportado, por exemplo, pela proximidade das espécies. Exemplificou com o trabalho de Harlow com filhotes de macacos, considerado significativo para o comportamento humano, por serem primatas. Mas, argumenta que no que concerne ao repertório comportamental a criança está mais próxima do filhote do cão ou do gato do que do macaco que vive em árvores. São as contingências da sobrevivência que enunciam um "parentesco", nesse sentido comportamental, ao invés da linha de descendência.
Creio que se poderia notar, a propósito da superstição, que Skinner enunciou uma característica do objeto comportamento em geral na sua relação essencial com a contingência do reforço, o que se mantém coerente com a epistemologia relacionada a esse objeto, e o que a seu ver autoriza as interpretações localizadas que formulou.
c)
Sistema operante: o cenário da mudança
Vimos que Skinner, assim como Watson, se manteve numa perspectiva "molar", conforme Pena, aquela que se recusa "a procedimentos de análise fisiológica". Hull não rompe, imediatamente, com esse viés. Contudo, ele optou pelo esquema E-O-R, inversamente ao que caracteriza a fase inicial de Watson e a tendência geral da obra de Skinner, exlusivamente voltadas ao E-R, se por reforço entendemos algo imanente ao comportamento, não que deva ser introduzido a mais no seu conceito.
Quanto ao esquema E-O-R, destaca-se Woodworth como quem mais insistiu na sua adoção, conforme Pena. Também se verá que Tolman tornou-se um representante importante da tendência. A novidade em Clarck Hull, juntamente com o intuito de construção de uma teoria formal, é a recolocação da problemática do reforço em função da noção de drive (impulso). Essa noção de drive é a que pode ser associada ao termo Trieb, em alemão, que também significa "tendência", o que em Freud se utiliza para designar o habitualmente traduzido por "pulsão".
Na posição de Hull, o reforçamento só ganha sentido teórico e científico se puder ser localizada a variável que, formalmente, define esse valor para qualquer organismo. Encontra-a na noção de drive reduction. A ação de qualquer organismo é somente devida ao efeito de reduzir drives e, conseqüentemente, atividades a que se segue redução de drives são reforçadas. Quanto ao esquema E-O-R, destaca-se Woodworth como quem mais insistiu na sua adoção, conforme Pena. Também se verá que Tolman tornou-se um representante importante da tendência. A novidade em Clarck Hull, juntamente com o intuito de construção de uma teoria formal, é a recolocação da problemática do reforço em função da noção de drive (impulso). Essa noção de drive é a que pode ser associada ao termo Trieb, em alemão, que também significa "tendência", o que em Freud se utiliza para designar o habitualmente traduzido por "pulsão".
Creio que seria proveitoso notar que essa perspectiva, ainda que molar, se torna agora menos limitadora em relação às possibilidades de convergência de pesquisas psicológica e fisiológica. Se a observação psicológica não precisa de outro procedimento que não seja localizar a relação da conduta com o impulso que se destina a reduzir, a noção mesma de drive é menos contingente do que a construção de estímulos discriminativos num meio de multiplicidade de fatores. Assim, desloca o foco da questão, da relação do organismo com o exterior para uma sua necessidade ou razão de ser "interior".
E de fato, o desenvolvimento das pesquisas em fisiologia parece iluminar fenômenos que são ao mesmo tempo comportamentais e dependentes somente do que pertence a essa razão. Na perspectiva de Skinner uma situação assim poderia ser somente descrita, não explicada. É certo que ele incluiu o fator fisiológico como parte da contingência, mas nesse caso este é o determinante do comportamento como um todo.
Uma das áreas que mais contribuíram para a emergência de uma psicologia fisiológica foi a pesquisa do Aprender, agora, geralmente, incluído nos processos de mudança do cérebro. Estes se tornaram um tema importante desde que a antiga noção de que os organismos nascem com um estoque definitivo de neurônios foi ultrapassada, tendo-se demonstrado que ocorre formação de novos neurônios após o nascimento. Assim, conforme Kimble, "os cientistas do cérebro" são praticamente "unânimes em concordar na existência provável de mudanças na microestrutura de alguns neurônios durante a aprendizagem", ainda que "a identificação de tais mudanças ainda não foi conseguida". A esse título, seria oportuno ajuntar a referência à obra atual de Changeaux, à exemplo de Matéria e Pensamento.
Nessa área, os condicionamentos de Pavlov e Skinner deixaram de ser associados como norteadores de dois modos diferentes de aprendizagem. Contudo, inversamente ao viés epistemológico pelo qual eles puderam ter sido assim considerados na Reflexologia e na Análise Experimental do Comportamento, nota-se agora que uma definição satisfatória do Aprender é algo muito complexo, devido a numerosos fatores, um deles sendo a existência de grande número de fenômenos que podem ser arrolados sob a mesma noção.
O Imprinting ou "Estampagem", pelo qual animais de algumas espécies seguem o primeiro grande objeto em movimento que virem, ao nascer; o desenvolvimento da fala pela criança; o decréscimo da resposta de fechamento pela anêmona-do-mar quando repetidamente tocada; todos seriam arrolados como correlatos do Aprender.
Quanto ao imprinting ou Prägung, por alguns traduzido como "cunho", é interessante registrar, conforme Cosnier, a descoberta de Lorenz na década de trinta, pelo que a fixação dos patinhos à mãe pata, é algo que decorre ao mesmo tempo de uma resposta hereditária e de um aprender. A fixação é inata, mas o objeto, não. Assim, qualquer coisa móvel com tamanho compatível visto no período sensível (36 h.) se torna objeto de fixação irreversível. Esse período varia conforme as numerosas espécies que apresentam fenômenos de cunho. Animais que se fixam em objetos não correspondentes ao específico podem recusar os seus parceiros normais no momento da reprodução, tentando acasalar-se com animais ou objetos que copiam a configuração fixada. Esse comportamento de imprinting não se verifica no ser humano.
O resultado de pesquisas acerca desse tópico - inicialmente "etológicas", isto é, derivando de observações no meio natural, mas depois em laboratório - mostrou que a aptidão do jovem animal para fixar-se no objeto móvel soma-se a uma motivação muito forte para constituir a base precoce da aptidão ao aprender operante, conforme Cosnier. Existe algo como a "fome de estímulos" a que se integra a força dessa motivação.
Os organismos têm necessidade tanto de um meio físico conveniente e de alimentação, quanto de informações. E isso tanto quantitativa quanto qualitativamente, pois não apenas necessitam, para o crescimento e a estabilidade emocional, de numerosas reações de adaptação, mas também de estímulos de uma certa qualidade em momentos precisos da ontogênese, para que a organização comportamental ocorra normalmente.
Também se revela importante o estudo da capacidade de algumas pessoas para produzir "imagens eidéticas" que resultam como que de um processo de fotografar mentalmente: é preciso olhar a imagem, depois olhar para uma superfície "limpa", i.e., sem imagens, para ver nesta superfície a imagem fixada repetir-se parecendo-se com o negativo de uma foto. O exemplo em Krech e Crutchfield é a figura de um garotinho acorrendo aos galhos de uma árvore postada à margem de um rio, para subir, fugindo de um jacaré situado no rio. Geralmente o resultado é "ver-se" a imagem na superfície, ainda que se saiba a superfície estar "limpa", não conter de fato a imagem. Nesta experiência, uma mulher até mesmo contou o número correto de dentes "na mandíbula inferior do jacaré", 18, na imagem resultante.
Contudo, como assinala Daniel Kimble, é evidente que todas essas situações se relacionam a mecanismos biológicos bastante irredutíveis. A complexidade parece ter sido contornada pela colocação de dois níveis que supõem-se reunir todas as questões procedentes.
Um deles é o que abrange as questões moleculares, onde a pergunta básica é sobre se há uma mudança conspícua no sistema nervoso que possa ser idoneamente relacionada ao aprender de uma resposta pelo organismo observado. Isso, à época de publicação do livro de Kimble, ainda não pudera ser demonstrado, ainda que fatos sugestivos houvessem sido apontados. Por exemplo, colocando como objeto da investigação a atividade sináptica, aquela dos neurônios, procurou-se saber se o ritmo de aceleração ou desaceleração destes se altera em correlação com um estímulo condicionado (o tom), o que foi afirmativamente verificado (Olds & outros, Universidade da Califórnia, 1972).
Procurou-se também demonstrar mudanças no mecanismo metabólico das células cerebrais, por exemplo, se são produzidas moléculas de ARN ou protéicas de certas características em decorrência de aprendizagem. A experiência de Hydén e Lange, com ratos, na Universidade de Gotemburg, Suécia, demonstraram a importância da proteína S100 no aprender do comportamento da preferência do uso de uma das patas; Beach & outros (1969) encontraram provas do aumento na produção de ARN e de metabolismo protéico no hipocampo do rato durante o aprender de uma resposta de evitação (como quando o animal desenvolve uma atividade para evitar um choque).
Resta o nível das questões organizacionais. Quais seriam os menores fragmentos de tecido nervoso sobre que se poderia mostrar que produzem mudanças sistemáticas como exemplos de Aprender simples? Como o cérebro dos mamíferos é muito complexo, essa indagação compacta a possibilidade de orientação da pesquisa a um pequeno pedaço de tecido, de modo que o que pudesse ser demonstrado nesse nível seria mais facilmente objeto das técnicas e intrumentos atuais.
As experiências de Horridge (1962), com fragmentos de inseto sem cabeça, mostraram a plasticidade ou aprendizagem em porções relativamente pequenas do tecido nervoso. Também foi demonstrada a existência, no ser humano, de ao menos dois procesos mnemônicos independentes, de curto e de longo prazo. Esse resultado dependeu da longa observação psicológica de um jovem operado por Scoville (1953) para cura de epilepsia, que, no entanto, teve os processos de memória danificados em decorrência da operação (Brenda Milner, 1970).
Igualmente, afirmou-se o aprender de respostas relativas ao funcionamento do sistema nervoso autônomo, como na experiência de Miller e colegas na Universidade Rockefeller (1969), mostrando que ratos podem aprender a controlar respostas até então consideradas puramente autonômicas, como pulsação cardíaca, atividade gastrintestinal e fluxo sangüíneio. Para contornar a objeção de que esse controle poderia ser indireto, derivando de respostas na verdade múlculo-esqueletais, já sabidamente sob controle voluntário, que iriam subseqüente e automaticamente interferir com o involuntário, Miller usou curare, sendo notório que este paraliza qualquer atividade sob controle voluntário. Mantendo artificialmente a respiração dos sujeitos, sua consciência do ambiente se mantém igualmente intacta durante o efeito do curare. Ratos exibiram respostas conspícuas no ritmo da pulsação cardíaca, num empreendimento de evitação, ainda nessas condições.
Quanto a isso, como assinala Miller, o mais provável é que os seres humanos sejam "tão espertos quanto os ratos", na expressão de Kimble, podendo controlar respostas corporais tão importantes quanto a batida do coração, as contrações intestinais e o fluxo sangüíneo. Investigadores conseguiram, efetivamente, adestrar pacientes com arritmias cardíacas a melhorar parcialmente sua anormalidade de ritmo. Permanece esse resultado um tanto prematuro para resolver se essa terapias do aprender seriam regularmente integráveis no tratamento médico, mas o alcance das descobertas permanece amplo, sem dúvida.
As experiências de Lashley e colegas, especialmente Yü-Chuan Tsang, parecem ter demonstrado que o hábito - incluído nessa rotulação do aprender, inversamente à fadiga que não se considera efeito de aprendizagem - depende da quantidade do córtex, não da localização do tecido. Assim, ratos que desenvolveram o hábito do labirinto Lashley III perderam o hábito somente com ablação de porções significativas do córtex.
O interesse de Lashley consistiu em demonstrar a existência do que seria a unidade funcional cerebral do aprender, o "Engrama". O "léxico de psicologia" já citado (Internet) referencia o Engrama como "traço mnésico inscrito no tecido nervoso em seguida a uma estimulação". Teria sido postulado por Semon (1905). Porteriormente, Lashley utilizou o termo para descrever as mudanças químicas ou elétricas que correspondem a uma informação. Os resultados referentes às experiências do Lashley III foram severamente contrastados por Cecile Finley. Ela intentou demostrar que estas haviam sido incorretamente orientadas, de modo que seriam áreas determinadas do córtex, objetos de lesões a implementar para demonstração, o importante nessa situação de hábito que deveria ser definida como resultante da estimulação visual.
Mas Lashley repetiu alguns dos experimentos, sofisticando seu aparelhamento e inserindo os dados focalizados por Finley especialmente relacionados ao papel do córtex visual primário. Logrou assim contornar formalmente as objeções de Finley, de modo que, até o momento de publicação do volume de Kimble, nada havia de fato refutado suas deduções. Contudo, ele mesmo não chegou a afirmar ter encontrado o "engrama", o que permaneceu como uma hipótese válida dentro de um quadro coerente de argumentação.
O problema aqui é basicamente técnico, sendo impossível remover partes substanciais do córtex sem danificar áreas adjacentes. Assim, as pesquisas de Lashley não revelaram o locus ou natureza do engrama do hábito do labirinto, mas constituem a base mais substancial de resultados experimentais nessa área, o que inviabiliza prévias teorias do funcionamento cerebral. Mostraram, por exemplo, que os neurônios daquela área do córtex são responsáveis por mais do que a "mera análise da alimentação visual".
Mas não seria apenas nessa área do Aprender, tão dramaticamente envolvida com o que vinha ocorrendo paralelamente na psicologia do comportamento, que este parece ser substancialmente relacionado ao funcionamento orgânico. Até mesmo o contraste entre comportamento estereotipado ou flexível parece depender de uma compreensão do que ocorre nesse nível, pois o grau de liberdade revelado em nível ontogenético, relativamente à filogênese, já se considera, sem dúvida, em função da complexidade cerebral.
Se os fatores ambientes estão obviamente relacionados a mudanças no comportamento, especialmente de mamíferos, não exercem seus efeitos sobre uma tábula rasa. Mas, ainda que o organismo em desenvolvimento já esteja geneticamente predisposto a comportar-se em geral como os outros membros da espécie, quanto mais complexo for o cérebro, mais variações individuais em curso no sistema nervoso podemos prever.
Igualmente, a pesquisa na área da sexualidade é importante, quanto a isso, pois envolve não somente a relação entre produção de substâncias e preferência sexual, o que está na base da questão da homossexualidade, mas também comportamentos aparentemente muito enraizados como devidos à interação instintiva com o meio.
Quanto à psicossexualidade, parece cada vez mais claro que seu desenvolvimento é distorcido em relação à variável da presença de androgênios durante períodos embrionário e fetal, de modo que as forças sociais (família, sociedade, igreja) que pretensamente moldam esse comportamento desempenham papel bem pequeno na história.
Quando da publicação do livro de Kimble, a orientação geral proveniente dos resultados da pesquisa experimental mostra que a natureza se inclina à produção de fêmeas, sendo preciso algo mais (os androgênios) para produzir o macho. Mas a "síndrome de insensibilidade aos androgênios" em indivíduos feminilizados não faz com que sejam biologicamente "fêmeas", e sim psicossexualmente. Eles não desenvolvem úteros, mas apresentam acentuado grau de maternalismo. O mesmo se observa no pseudo-hermafroditismo feminino, quando a presença anormal de androgênios ou compostos afins nas fêmeas genéticas acarreta desenvolvimento psicossexual masculinizado. O sujeito nasce com características externas masculinas, mas na puberdade exibe características femininas, como o desenvolvimento mamário e a menstruação. Geralmente o sujeito se define, psicossexualmente, como masculino.
O papel da pesquisa do cérebro se demonstra na sua importância, quanto a isso, quando se pôde demonstrar que o sexo, macho ou fêmea, é uma característica cerebral. Assim, implantando-se a glândula pituitária masculina no hipotálamo de uma rata, verificou-se que a glândula produzia as substâncias relacionadas à eclosão do cio, dois no lobo anterior e dois nos ovários, à maneira feminina típica, não no ritmo do macho. Na rata normal, o cio ocorre ciclicamente, a cada quatro ou cinco dias, mantendo-se pelo período de 24 h. correspondente, enquanto no macho o ritmo de produção das substâncias associadas é constante, mas inferior.
É flagrante a irredutibilidade comportamental da rata no cio, em relação ao macho. Ela se torna agressiva logo após a cessação do período (mostra os dentes, atitude de hostilidade conspícua nessa espécie animal, e se o macho insiste, escoicea ou tenta mordê-lo), relativamente ao mesmo indivíduo ao qual demonstrou os sintomas do comportamento sexual (corridas provocantes, abanar de orelhas, posição de "lordose", com a barriga arqueada e a cauda lateralizada).
Exemplo interessante, quanto ao outro aspecto mencionado, é o que relaciona o "recolher" na rata. Entre os comportamentos maternais inter-relacionados nessa espécie há o amamentar, limpar, defender os filhotes e o "recolher", que consiste em correr até os filhotes colocados a alguns centímetros no exterior do ninho, a fim de trazê-los para o interior do mesmo.
A resposta de recolher não se enfraquece com o aumento do número de filhotes: uma rata-mãe recolheu 58 filhotes em sete minutos, na experiência de Sheard e Wiesner (1933). No entanto, decresce com o tempo. O decisivo não reside no período, desde o nascimento, mas sim na aparência dos filhotes que se tornam mais velhos. Os filhotes maduros não são estímulos adequados ao comportamento de recolher da mãe. Inversamente, oferecendo-se continuamente filhotes, portanto apresentando estímulos adequados, o comportamento parece perdurar quase que indefinidamente ainda que o afastamento temporal do nascimento aumente muito.
A experiência constava da injeção de certos hormônios para constatar a dependência do comportamento a esse fator interno. Foi demonstrado que fêmeas virgens, que normalmente não recolhem filhotes, e até mesmo machos, recolherão filhotes quando recebem hormônios maternais. Se a injeção de hormônios amplia-se muito, também objetos que possam ser tidos como semelhantes a filhotes serão recolhidos, como pedaços de pano movidos de forma saltitante, cobaias e camundongos.
Conforme Krech e Crutchfield, que referenciam essa experiência, constata-se pois uma demonstração cabal da interação entre instigadores internos e externos dos assim designados "estados de motivação". Nota-se também que aquilo que consideramos habitualmente um "instinto" pode ser experimentalmente examinado em função de seus determinantes sistemáticos. Como na experiência de Richter (1932), em que se mostrou a relação entre o aumento de nível da atividade geral e o período de cio da rata, de modo que há um ciclo de atividade bem nítido no comportamento dessa espécie, o que se prova é que há estados de motivação na realidade instigados por condições internas.
Ora, essas condições podem ser traduzidas, no sistema comportamental visto da perspectiva do psicólogo, a impulsos, drives cuja redução é o que importa ao organismo conseguir por meio da atividade na qual se empenha. Isso, facilitando assim o alisamento, por assim expressar, do campo no interesse da especificação dessa perspectiva, inversamente a forçar a inclusão da descrição dos fatores fisiológicos, ora podendo ser considerados extrínsecos ao campo de interesse. Se essa solução parece, atualmente, algo provisória, deve ter surgido como bastante apropriada na época, a Hull, seu defensor.
Reformulando o Aprender
Parece notável que a perspectiva de Hull, ainda que se caracterizando pela opção da teoria, tendo publicado na década de trinta um trabalho sobre construção teórica em psicologia que se tornou clássico, tenha se aproximado do Círculo de Viena, quando este se tipificava pela posição verificacionista de M. Schlick.
Na verdade Skinner se manteve crítico a propósito do neopositivismo, devido a simplificação revelada por oposições como público e privado. Não obstante, a meu ver consequências das abordagens do seu comportamentismo se mostram convergentes com algumas que também se derivam da "visão científica do mundo" tal como proposta no manifesto do Círculo de Viena. As questões de divergência portam sobre determinações relativas à pesquisa psicológica, e vemos que também Lewin recusou o "fisicalismo" - tradução de todos os fatos em físicos, como propugnava o neopositivismo - negando que o mero uso de conceitos matemáticos em psicologia pudesse se compreender como uma concepção dos fenômenos psicológicos em termos de fatos físicos.
Pena interpreta o posicionamento de Hull, inversamente, de proximidade em relação ao Círculo de Viena, como uma sofisticação em relação a Watson, uma vez que o positivismo de Comte havia sido uma influência conspícua deste.
Esses fatos são bem compreensíveis. O neopositivismo, ainda que Schlick tenha acentuado o caráter puramente verificacional das proposições dotadas de sentido, se manteve numa dependência do formalismo lógico, o que mantém sua irredutibilidade em relação ao quadro comteano do século XIX. Aquilo que se focalizou agora como o pré-requisito do sentido, sua adequação ao fato experimentalmente observado, é uma característica proposicional.
Supôs-se assim estar munido, formalmente, de um critério de separação dos discursos científico e filosófico, estes "sem sentido" no sentido de não-verificáveis, portanto, compactando meras visões de mundo como asserções acerca de estados de espírito subjetivos. Mas é claro que o critério de verificabilidade é ele mesmo intraproposicional, não factual. É de natureza lógica, não física, ainda que essa orientação neopositivista tenha eleito a física como modelo de inteligibilidade racional por sua estrita limitação ao observável. A fragilidade dessa colocação epistemológica logo tornou-se patente. O pré-requisito observacional não é, ele mesmo, observável. Conhece-se bem a história desse impasse que envolveu, tangencialmente, todo o percurso wittgensteiniano. O neopositivismo desaguou numa teorização semiótica completa, após as aventuras do formalismo sintático, que ambicionava traduzir toda "linguagem observacional" em "linguagem teórica" através de símbolos algébricos (Carnap), de modo que não houvesse o teórico não suportado pela observação; e da semântica lógica (Tarski-Carnap), que almejava construir quaisquer linguagens com adequado aparelhamento formal. Aportou assim, num resultado inteiramente contrário às premissas iniciais, à pragmática (Morris) incluindo necessariamente o sujeito da linguagem na teorização do sentido.Isso, tão logo os integrantes do Círculo foram recebidos nos EUA, emigrados devido à guerra nazista. Atualmente, a escola que continua parâmetros neopositivistas agrupa-se sob o rótulo de "filosofia analítica".
A liderança de M. Schlick caracteriza o momento inicial, quando Carnap se esforçava por reduzir toda possibilidade proposicional ao observacional, o que se revelou impossível. Seu Der logische Aufbau der Welt (A construção lógica do mundo) foi tido por "quase todo mundo" como o pior das publicações nesse âmbito, algo como uma "abominação filosófica", conforme Bouveresse, que repete o pronunciamento de Goodman, mas mantém reservas quanto a essa crítica.
Contudo, o autor não se desencorajou, revelando uma capacidade surpreendente de incorporar as críticas em novos empreendimentos teóricos destinados a superar os problemas assim revelados pelas propostas anteriores. A obra de Carnap é de fato significativa do movimento neopositivista, que parece ter se cristalizado, finalmente, como uma teoria da ciência de importância fundamental no cenário contemporâneo, na formulação de Karl Popper. Este permitiu superar o verificacionismo, mantendo-se a premissa anti-metafísica da escola, ao conceituar o critério de "falseabilidade".
O verificacionismo havia sido uma derivação da proposição de Wittgenstein pela qual o sentido de uma proposição é nada mais que o meio de saber se é verdadeira. Assim, se não há meio algum além do que ela mesma afirma, não há sentido na proposição - por exemplo, "Deus existe".´Essa proposiçaõ se reduz ao significado de cada um dos seus termos. Pensamos que tem sentido, mas de fato, pela definição acima, não.
Mas isso conduziu às aporias já apontadas, pois a própria proposição é inverificável no plano dos fatos. Popper mostrou que mais geralmente, o problema era de que a proposição de Wittgenstein sugere que toda a questão do sentido se mantém no plano das asserções, não se eleva ao plano da teoria, até mesmo impede que se instale esse plano na pesquisa como legítimo, não metafísico.
Ora, a questão do sentido de fato é relativa à possibilidade da validação, não ao plano de enunciação. Assim, eleva-se ao plano da teoria a problemática, ao constatar que o científico é a teoria, contanto que aquilo que ela produza sejam enunciados falseáveis, isto é, que admitem refutação factual. "Deus existe" não é falseável, assim como o plano do qual essa asserção deriva não é científico. Mas a teoria da relatividade é científica porque ela almeja produzir enunciados tais como se certos fenômenos podem ou não ocorrer. Uma teoria é válida apenas enquanto suas previsões não forem contraditadas no plano dos fatos.
Ela é científica porque espera confirmação ou refutação no plano factual, e inclusive deve estar sempre testando-se para obter uma coisa ou outra. Relatos não científicos, inversamente, não podem ser refutados no plano factual, nem confirmados, não admitindo, tampouco, testes com valor de universalidade quanto aos modos de sua aplicação. Ora, sendo assim uma teoria não deixa de ser "científica" se for falseada, posto que é por emitir enunciados falseáveis que ela era científica, não imediatamente por ser válida. Não existe, pois, o critério do verdadeiro, em ciências, somente os de falseabilidade e validez. O verdadeiro é um falso problema, não poderia ser uma pretensão do conhecimento humano.
Quanto a Hull, assinala-se coerente sua ênfase na teoria, como suporte lógico-formal, e sua perspectiva mediacional, que concede o devido peso às verificações empíricas, uma vez que não necessita manter a recusa da motivação orgânica na compreensão do comportamento. Mas Hull promoveu a concepção da psicologia como ciência natural.
Isso afetou sobremodo a concepção behaviorista do aprender. Hull o definiu como reforçamento de conexões recepto-efetoras inatas. Aqui sua influência é de Thorndike. Mas, também, aprender poderia incluir a criação de conexões recepto-efetoras novas, o que mantém sua posição dependente da reflexologia de Pavlov.
Quanto ao registro da influência de Thornkike sobre Hull, seria oportuno lembrar que se estende à preocupação comum com o tema das diferenças individuais de capacidade, isto é, a pesquisa sobre a inteligência, o que tangencia o desenvolvimento da psicometria, conforme Butcher (Human Intelligence, 1968) . Ele registra uma experiência de Hull na área de pesquisa de obtenção de conceitos (1920). Vários cartões são apresentados, ao mesmo tempo ou sucesivamente, ao sujeito. Na experiência de Hull a tarefa deste é descobrir o aspecto comum num subconjunto. Na de Whitfield, seria emparelhar os cartões no menor número possível de tentativas, conforme localizações predeterminadas pelo experimentador.
Butcher nota que o planejamento experimental nesse exemplo de Hull acentua a semelhança entre os processos mentais empregados na formação de conceitos e os exigidos na aprendizagem de discriminação. Assim, "obtenção" ou "aprendizagem" de conceitos tornam-se praticamente sinônimos. Esse problema não se limita a simples terminologia, pois, de fato, como acentua Butcher ("A inteligência humana"), a expressão "formação de conceitos" talvez não fosse adequada a experimentos com adultos, para saber como estes descobrem ou discriminam características observáveis, e descrevesse mais o tipo de trabalho de Piaget sobre como essa capacidade se desenvolve na criança.
A situação do condicionamento clássico pavloviano seria aquela em que se produzem conexões, mas onde as já ocorrentes no organismo se revelam bastantes é a situação do trial and error que descreve o processo do aprender, conforme Hull. Mas, ao que parece, segundo Pena, pela influência de Thorndike, Hull manteve a produção de conexões como aprendizagem de respostas, o que não permite deduzir, como Broadbent propôs, que desses dois modos que ele admitiu como tributáveis do aprender, o segundo revela a interseção com a posição de Tollman, ainda que este o tenha reservado somente como definição de aprendizagem. Pois, de fato, Tollman propôs o aprender como relativo a sinais ou mapas cognitivos, não apenas a respostas.
A irredutibilidade da posição metodológica de Hull está no modo como ele supõe a orientação da pesquisa, jamais dependendo de um fato, e sim de um problema, para o qual se formula uma hipótese e só então se inicia o trabalho verificacional, empírico. Propõe também que o sistema esteja apoiado em definições rigorosas, tão gerais, mas também no menor número, quanto possível com suporte observacional ou indiretamente comprovável, a título de postulados. Assim, destes se poderiam gerar mais deduções e predições, como corolários e teoremas, igualmente verificáveis.Uma vez os corolários e teoremas tendo sido demonstrados experimentalmente, os postulados estariam reforçados. Mas o impasse em nível de teorema conduziria à revisão em nível de postulados, seja para substituir, corrigir, ou agregar algum postulado novo.
Quanto a isso, é também oportuno mostrar que a inteligência, como objeto de intensa polêmica acerca de uma satisfatória definição, foi o tópico que mais comprometeu a aplicação de "métodos hipotético-dedutivos rigorosos" com intuito de "desenvolver um conjunto geral de axiomas e relações previsíveis" , assim como exemplificado especialmente por Hull, conforme Butcher. Mesmo na "área mais desenvolvida da psicologia experimental", isto é, no estudo de formas simples do aprender, onde a referência a Hull se torna relevante.
Com efeito, Butcher mostra que não se obteve qualquer consenso acerca dessa definição, mas de um modo muito mais exagerado do que nos desvios comuns de focalização dos temas em psicologia. Em particular salienta-se que não se chega a um acordo sobre quais capacidades são definidoras, no conjunto, da inteligência. As discrepâncias de opinião são gritantes.
Ora, ainda assim, pode ser evidenciado, quanto às pesquisas nesse campo, que aquilo que poderia ser desejável a longo prazo não se revela como "o melhor programa imediato". As definições operacionais que não são suportadas pela observação de regularidades demonstráveis se comprovaram limitadas e arbitrárias. Contudo, esse julgamento só parece caber num quadro geral de expectativas após um período em que a opinião inversa era ainda muito geralmente aceita. Á época de Hull, perseguir uma generalidade capaz de orientar um programa parecia não somente algo muito preciso, mas também algo inovador em relação aos inícios mais empíricos do behaviorismo ortodoxo.
Pena informa que o mais característico da obra de Hull está nos volumes publicados entre as décadas de 40 e 50, envolvendo os "Princípios", os "Fundamentos" e o "Sistema do Behaviorismo". Basicamente, podem ser designados alguns construtos como relevantes de sua contribuição.
Já se mencionou o construto de drive. A este associa-se o de incentivo. Reúnem-se como os dois fatores determinantes na formação de hábitos. O impulso é visado como resultante de privações biológicas ou estimulação intensa, aspecto este que será enfatizado por Dollard e Miller. Se o organismo só se comporta a fim de, direta ou indiretamente, reduzir drives, a efetuação desse objetivo aumenta a probabilidade de emissão da resposta, definindo-se como um reforço. Portanto, constitui condição para a ocorrência do Aprender.
Pena acentua a irredutibilidade da posição de Hull com relação a Skinner. Este define reforçamento apenas como o aumento da probabilidade de emissão de uma resposta, enquanto Hull inclui a característica de ser redutor de algum impulso.
Novamente incide a oposição entre primário e secundário no que se relaciona ao impulso. Cinco ou seis drives primários, de natureza biológica, não poderiam ser bastantes para abarcar toda a gama de condutas, pelo que impõe-se a referência a drives secundários. Pena chama a atenção para o fato de Miller, assim como Mowrer, ter incluído a ansiedade como drive vinculável a aprendizados.
Importante é a formulação do construto de família de hábitos. Hull pôde por esse meio contornar a simplicidade do sistema de Thorndike. As "tentativas" iniciais do animal não seriam inteiramente casuais, de tipo acidental ou imprevisível, mas revelam de uma probabilidade relativa ao já consolidado repertório de respostas do animal, em função do reforçamento de que anteriormente se beneficiou. A história do reforçamento, o mais importante para compreender o desenvolvimento comportamental na perspectiva de Skinner, é também aqui decisiva.
Mas Skinner pensava que enfatizar a "história do reforçamento" era algo oposto da análise do que seria um "sistema de reforço", isto é, um conjunto de ações já prescritas numa formulação de regras. Onde houvesse um sistema assim, sem dúvida a observação se tornava mais fácil do que quando se precisava reconstruir a história. No entanto, como vimos, os dois modos eram opostos assim como as duas definições de comportamento, o modelado por contingências e o derivado do cumprimento de regras.
Essa oposição é axial em Lewin, como dois conceitos de causação que se opõe em psicologia, o histórico e o sistemático. São duas formas de entender a pergunta "por que". Uma causação sistemática responde a por que uma dada situação tem um certo evento como resultado, e a resposta é satisfatória se desdobrimos a lei tradutível por uma função matemática, que é válida para estruturar a situação. Mas uma causação histórica responde a por que essa situação é aquela da qual se trata, em vez de outra. A resposta envolve não uma função ou lei, mas um encadeamento de fatores e pontos de convergência desses encadeamentos.
Conforme Lewin, opor essas duas ordens de causalição é um dos requisitos para transigir do antigo modo de pensar, "aristotélico" e não científico, ao modo de pensar "galileano" e científico. Além disso, o pensar galileano científico implica a recusa da derivação de um acontecimento da natureza de um objeto singular, em prol da afirmação da validade geral da tese segundo a qual "um evento é sempre o resultado da interação de numerosos fatos".
Lewin, contudo, observa que há uma preminência da causação sistemática sobre a histórica, ainda que isso não implique não haver formalmente duas, não só uma, ordens. Hull reduz, de certo modo, a história ao sistema, desde que há uma espécie de regra geral de todo comportamento.
Mas assim, no que se relaciona ao trial and error, Hull não eliminou a imprevisibilidade constante no esquema de Thorndike, apenas inverteu a sua localização. Inicialmente ocorre previsibilidade máxima, se conhecemos a história de reforçamento, isto é, sabendo as respostas reforçadas do animal nas mesmas condições, prevemos o tipo de coisa que ele irá "tentar" tão logo se veja numa situação que lhe pareça semelhante à que já experimentou.
Visualizando o desempenho numa figura piramidal, essa resposta inicial previsível estaria no ápice, enquanto, progresivamente, no sentido da base, cresce a imprevisibilidade das respostas, assim como o empenho da criatividade do animal, já que o conhecido vai se revelando, paulatinamente, sempre mais ineficaz. Mas a progressão também é hierárquica. As respostas conhecidas são eliminadas conforme a ordem da apresentação que situa sempre, primeiro, a que mais "parece" com a situação anteriormente experimentada. Ora, na base reencontrar-se-á o acaso, conforme a situação típica do "trial and error".
Creio que, quanto a isso, demonstra-se o maior alcance da posição de Skinner, pois é difícil supor um organismo, com a coerência que o caracteriza, realmente se pondo a fazer qualquer coisa totalmente a esmo. Contudo, Pena registra que o construto da hierarquia de família de hábitos, de Hull, foi posteriormente desenvolvido por I. Maltzmann, objetivando alcançar maior grau de eficiência no processamento de respostas para solução de problemas.
Nessa área de "resolução de problemas", Butcher notou como a expressão se consagrou devido à recusa behaviorista do uso do termo "pensamento" para designar o processo. Também registrou que as pesquisas se desenvolveram de modo a declinar o volume de estudos sobre a solução de problemas num sentido amplo e geral, com uma concentração e volume crescentes nas pesquisas interessadas pelo tema da "obtenção de conceitos", como na experiência já citada de Hull. Mas parece também haver uma predomínio no tratamento da solução de problemas humanos como sui generis, não como apenas um tipo mais complexo de aprendizagem estímulo-resposta.
No entanto, pode-se concordar com Hyman ao notar que "o volume de pesquisa que resultou da tentativa de Hull para estabelecer um sistema formal" ainda se mantém como algo que qualquer novo posicionamento teórico terá que considerar. Isto é, que a obra de Hull assinala um momento fundamental no desenvolvimento da ciência psicológica. É especialmente registrável, ainda a propósito da influência de Thornkike, que Hull baseou seu sistema não somente em Pavlov, mas também na Lei do Efeito, conforme Hyman. Pena identifica o construto de "gradiente de meta" (goal-gradient), pelo que Hull pretendeu existir uma relação logarítmica entre a distância da meta e o nível de excitabilidade revelado pelo animal em relação a ela. Quanto mais longe, menor a excitação, e inversamente, em função da aproximação da meta, aceleram-se os movimentos produzidos pelo sujeito.
Pena registra que Osgood enunciou alguns corolários dessa proposição: numa situação de impasse, os animais sempre escolherão o caminho mais curto na direção da meta; quanto mais próximos desta, e quanto mais forte a motivação, tanto menor será a possibilidade de escolher o caminho mais longo; a probabilidade da escolha de um trajeto que se revele como contorno ou rodeio dos obstáculos que impedem o caminho mais curto variará inversamente em relação ao ângulo entre os trajetos mais curtos e os trajetos de contorno.
David Krech, na Universidade de Chicago, durante a década de trinta, desenvolveu um método para mensurar, no rato, a força da motivação dirigida para um objetivo ("Measurement of tension. Paper read at Symposium on Topological Psychology"). Ele o referencia no volume publicado juntamente com Crutchfield, aqui abundantmente citado.
O "gradiente do objetivo" no rato foi objeto desse experimento em que o animal corria do compartimento de entrada para a caixa de comida, usando um arreio, ao qual estava preso um cordão que o refreava. O cordão se desenvolvia numa velocidade lenta e constante, de modo que o rato só poderia avançar conforme o ritmo do desenvolvimento do cordão. Este estava ligado a mecanismos que permitiam registrar, continuamente, num rolo de papel encerado, a quantidade de força feita pelo rato a cada momento em que corria em direção à comida, tentando puxar o arreio e forçando assim
o avanço.
Parece ter-se comprovado que a tensão decresce à medida que o rato penetra na caixa do alimento, mesmo antes de obtê-lo. Observando-se os gráficosmostrados por Krech e Crutchifield, obtidos dos registros, algumas observações puderam ser deduzidas.
No gráfico I vemos uma depressão no meio da linha. Não significa qualquer obstáculo para o animal, nem diminuição de motivação. Mas sim, que, aparentemente, em meio ao caminho ocorre um "marco" perceptual e funcional, de certo modo como um "objetivo secundário" cujo atingimento é marcado por um afrouxamento temporário da tensão, que logo é retomada com o mesmo vigor.
No gráfico II vemos o resultado de uma comparação entre tentativas consecutivas, com três minutos de alimentação na caixa após cada tentativa. A linha superior (tentativa I) é contrastada com a linha referente à tentativa 6. Nota-se que o animal puxa com muito mais força se estiver menos saciado. Porém, o aumento gradativo da tensão conforme a aproximação do objetivo se mantém nitidamente visível, mesmo na tentativa 6. Krech deduz assim que "a atração da comida, mesmo para um animal saciado, aumenta à medida que se aproxima dela".
Hull apresentou ainda outro construto relacionado a este. Trata-se das respostas fracionárias antecipatórias da meta, a que já houve menção, devido a estar de certo modo antecipado pelo conceito de pensamento como linguagem sub-vocalizada, de Watson. O construto de Hull destina-se a responder à questão sobre como compreender que determinadas respostas que conduzem, em seqüência determinada, ao objetivo, se encontrem também beneficiadas pelo reforçamento.
Vimos que esse tipo de resposta fracionária, na verdade recompensada como se reproduzisse o que deve ocorrer como atingimento da meta, vincula-se ao "ato de puro estímulo". Hull utiliza essa expressão para designar uma hipótese mediacional, pelo que esses atos desencadeiam estímulos orgânicos, necessários ao desenvolvimento de respostas fragmentárias numa seqüência coerente, apta à conduzir ao objetivo. Esses dois construtos inter-conectados foram utilizados por Hull para explicar os "comportamentos propositivos", orientados no sentido de um resultado objetivado previamente.
Um construto especialmente relevante, de Hull, é o que inclui o conceito de inibição reativa. Seria a tendência a inibir uma ação, tão logo ela se tenha efetivado. Sendo esse fenômeno temporário, Hull deduziu assim explicar por que os desempenhos apresentados algum tempo após encerrados os exercícios são melhores do que aqueles que se alcançam logo após as sessões de fixação. Também seria devido ao mesmo motivo a vantagem do aprender em intervalos. A elevação do nível do desempenho algum tempo depois de cessados os exercícios se deve a que o efeito da inibição reativa teria cessado. A reminiscência seria correspondente ao que ocorre nessa elevação.
Guillaume tangencia esse construto de Hull. Assevera assim que quando uma série se apreende depois de outra, exerce influência prejudicial sobre a evocação da anterior. Isso define a apresentação de "inibição retroativa". Mas esta não seria um efeito de fadiga, e sim efeito da semelhança intrínseca entre as séries. Ele reporta do mesmo modo um tipo de inibição anteroativa como efeito prejudicial da série que se apreende inicialmente sobre a que se deve aprender subseqüentemente. Seria o relevo estrutural da forma que preservaria como que a recordação daquilo que se esqueceu. A recordação de um termo da série depende do todo do qual faz parte. A fixação de pares não é aditiva, como associações independentes umas das outras. Apreender-se-ia a série, como um todo organizado. Pena reporta a refutação de Glanzer ao construto de inibição reativa de Hull, pelo que o fenômeno corresponderia efetivamente à saciação. A oposição reside muito naquilo que determinará a eclosão do que Dember designou como o new look in motivation. A convergência nesse sentido abrange a controvérsia acerca do aprender, tipificando-se nas posições de Hull e Tolman, seja, respectivamente, como referente a respostas (mecanicismo), seja como referente a sinais, direções ou mapas (cognitivismo). Faz-se entre o behaviorismo propositivista de Tolman, a Gestalt, o inatismo de Chomski, a importância da observação da regra na formulação de Lashley e a influência da fenomenologia. Em todos esses âmbitos, o enfoque centra-se na relevância dos processos da percepção.
Parece ser o conceito de finalidade o determinante, quanto a isso. Pois, devido à predominância behaviorista ortodoxa, ainda que a tendência do desenvolvimento das pesquisas se mostrasse francamente favorável à sua afirmação, hesitava-se em expressá-la como fait accomplie teórico. Mas assim já se torna oportuno aproximar a obra de Tolman.
Mas deve-se lembrar que Hull influenciou decisivamente a emergência da "teoria do aprender social", sobre que já vimos as linhas gerais, tanto pela sua própria teoria da aprendizagem, quanto pelos seminários realizados sob sua inspiração que procuravam incorporar os temas psicanalíticos.
Essa "teoria", que se desdobra em dois momentos caracteristicamente marcados pela proeminência respectiva de Miller - Dollard e Bandura - Walters, focalizou eminentemente os temas da agressão e da imitação, como observamos no contexto do pragmatismo. Aqui seria oportuno examinar as importantes contribuições que lançou no domínio da linguagem.
Tipifica-se pela polêmica entre Bandura e Skinner acerca da importância da modelação, ou seja, o aprender pela imitação do guia. Pena registra as objeções de Skinner como sendo que a rapidez do processo impede que se mostre adequado à teorização do comportamento em geral e que, no que abrange a aprendizagem verbal, se mostra limitada aos seres humanos. Vimos que a mais séria objeção de Skinner se deveu à sua concepção de que a imitação sempre se desenvolvia na proximidade de incorporação de regras, o que considerava como apenas um componente provável numa conduta fundamentalmente devida à contingências do reforço.
Bandura ironiza, conforme Pena, as objeções de Skinner, não considerando-as relevantes e propondo, em contraposição, que se comparem os tempos de aprendizagem de uma criança em dar laços num par de sapatos, pela contingência reforçadora ou pela intervenção de um modelo ou guia.
Ora, esse conceito de modelo foi ampliado por Bandura, para incluir não somente a presença de um membro da espécie apto a desempenhar uma atividade na presença de outros, mas ainda as formas pictórica e verbal. Uma figura ou um filme, assim como a palavra, revelam-se adequados meios à modelação de comportamentos.
Particularmente a contribuição verbal se combina com os outros dois meios, no caso do ser humano. A pessoa a quem se imita ou o filme a que se assiste podem veicular não somente jestos, mas também palavras. A clareza aumenta e o processo de assimilação pela imitação do guia se intensifica. O recurso à palavra na modelação tende a ser tanto mais aplicável quanto o sujeito aumenta o seu domínio lingüístico.
Luria, especialmente, preserva essa posição, e no processo da modelação verbal identifica duas fases: a externa organiza o comportamento pelas recomendações verbais do adulto, mais comumente a mãe; a interna, quando absorve ou introjeta o modelo materno. Ele também opôs a modelação positiva e a restritiva, esta mais lenta e difícil.
A introdução do tema da linguagem se torna especialmente ilustrativo da convergência que está se manifestando entre a preocupação dos autores ligados ao behaviorismo e o panorama geral de desenvolvimento da psicologia, em que será decisiva a influência da lingüística.
Revolucionando o Aprender
Um sintoma desse novo trend parece-me rastreável na visita de Heisemberg aos EUA. Ele narra uma conversa com Barton, um físico de Chicago, no já citado A Parte e o Todo. O tema, inicialmente, versava sobre a facilidade com que o mundo acadêmico norte-americano recebeu a abordagem quântica, algo que na Europa, como vimos, havia enfrentado tantas objeções.
Barton expõe o modo como a epistemologia inspirada no pragmatismo lidava então com a complementaridade. Não cultivando-se qualquer preconcepção acerca de como as coisas são, o caráter inesperado da duplicidade de descrições possíveis, se não deixou de exercer o seu efeito de surpresa, tampouco mostrou-se como algo inviabilizador de suposições aceitas. Nesse enfoque, isso devia apenas induzir a criar novos termos conceituais. Barton sugere "ondículas" para designar essas coisas que parecem, alternativamente, ondas e partículas.
A objeção de Heisemberg enfatiza, porém, a característica mais geral que a teoria quântica estava implicando. Tratava-se, na complementaridade, não de uma propriedade particular dos átomos, mas de um aspecto fundamental a todo o mundo material. Os aspectos estatísticos das leis naturais haviam se revelado universais, no sentido de que se aplicavam a todo o campo da natureza em geral.
O básico da conduta pragmática, pelo que se interditava a enunciação de princípios para reservar-se a formulação aos fatos só parcialmente acessíveis, se tornava um obstáculo para compreender a índole revolucionária da física. Barton não aceitava que o formalismo quântico encerrasse mais do que alterações nas leis de Newton e Maxwell.
Como Heisemberg objetou, de modo algum se tratava de um aperfeiçoamento, a teoria newtoniana não podendo "ser aperfeiçoada sob nenhum aspecto", pois sua adequação ao nível de descrição proposto não havia sido contrastado, e sim a sua impossibilidade de enunciar qualquer coisa sobre o nível somente alcançável pela descrição quântica. O que me parece decisivo aqui é que a mecânica quântica, na perspectiva de Heisemberg, lida com características intrínsecas da natureza. Esta não pode ser ignorada como um "ser" com modalidades "internas", por assim expressar, de existência.
Não se trata, por exemplo, na transição da física clássica à quântica, de algo como mudanças que um engenheiro precisa introduzir para lidar com um mesmo mecanismo, resistente às técnicas usuais. Não se trata de uma intervenção puramente operatória, mas de uma enunciação sobre algo dotado de independência em relação às suas partes constitutivas, algo que de modo regular e uniforme, as integra. A descontinuidade epistemológica se poderia enunciar em termos da importância do formalismo.
Se os domínios sistemáticos "fechados" que compactam a contemporânea inteligibilidade da natureza, a mecânica de Newton, a temodinâmica estatística, a teoria da relatividade restrita e a eletrodinâmica de Maxwell, finalmente, a mecânica quântica, podem agora ser, ao mesmo tempo, afirmados com todo rigor, mas posicionados como campos irredutíveis uns aos outros, assim como os conjuntos numéricos na formulação matemática, isso se deve a que cada um deles se formula através de conjuntos axiomáticos precisos e altamente coerentes, "regendo os conceitos e relações lógicas internas ao sistema".
O caráter mais importante aqui é o da simplicidade de cada um desses todos, algo que no domínio epistêmico está reproduzindo o que se observa no domínio atômico. Essa "extrema simplicidade de todas as leis físicas", porém, jamais se poderia compreender, conforme Heisemberg, na abordagem pragmática. Pois por tal meio somente seria possível agregar campos parciais experimentalmente acessíveis que deveriam subseqüentemente, tentar "representar os fenômenos" através de "aproximações".
Somente o formalismo axiomático autoriza, na posição de Heisemberg, a falar em "leis da física", isto é, leis que se relacionam a realidades objetivas "exatas". A conseqüência ulterior seria o ultrapassamento do "estágio de descrição fenomenológica", pelo que é preciso incorporar as relações decorrentes desse nível de pura observação - ele utiliza o termo "representação" - ao sistema axiomático. Ora, nesse momento surgem relações que, "evidentemente", não foram inventadas por nós, nem por qualquer outra pessoa, relações que fornecem o conteúdo mais autêntico da ciência física.
Ao mesmo tempo exibindo um caráter objetivo e uma caraterística formalizável, nem puramente fenomenológica, nem apenas pragmática, a física parece induzir a considerar o sistema e seu equacionamento epistêmico como realidade independente, auto-regulada, do mesmo modo que os organismos dotados de propositividade, no sentido da psicologia.
Basicamente a oposição mais notável é aquela entre Heisemberb e Dirac. Este nem mesmo se havia mostrado inteiramente surpreso com a ampla aceitação da física quântica em ambiente pragmático. Pensava, como os teóricos norte-americanos, que a ciência é um processo contínuo e infindável de adaptação do pensamento aos conhecimentos experimentais, conforme a expressão de Heisemberg. Este, inversamente, sustentava que "as mesmas forças organizadoras" que haviam modelado a todas as formas da natureza também deviam ser "responsáveis pela estrutura de nossa mente e de nossas faculdades intelectuais".
O que se descobre nesse trecho é então que "a parte e o todo" não são apenas inter-relacionados de modo a superar o elementar, devido à ênfase epistemológica na coerção do todo sobre a parte, isto é, não se mostra apenas como a palavra de ordem da metodologia quântica. Mas também se mostram como duas epistemologias em confronto, conforme o exemplificado nesse paralelo de Heisemberg e Paul Dirac. Este, tipificando a perpectiva do montanhista que só se preocupa com os próximos três metros a cobrir. Heisemberg, sempre preservando a visão da totalidade, a cada passo da jornada.
Creio que isso ilustra do modo mais completo a situação intelectual desse momento particularmente favorável ao ponto de vista do funcionalismo, o que estamos designando a tendência formal. Assim, o que a metáfora do montanhismo significa, é a opção que já vimos opor as perspectivas de Skinner e Hull. Ou se espera que o verdadeiro problema só se manifeste quando se chegar "às saliências mais difíceis", ou se trata de, inicialmente, tomar a decisão quanto "à escalada" como um todo, isto é, ter-se o roteiro traçado conforme um problema definido. Ou se lida com um problema por vez, ou se supõe que "nunca se pode superar uma dificuldade isolada, devendo-se sempre ultrapassar várias delas ao mesmo tempo".
Werner Heisembeg não julgava que a solução autêntica de um problema fosse separável do vislumbre do contexto mais amplo, de modo a capacitar a eliminação de todas as dificuldades possivelmente localizáveis nesse campo - já conhecidas ou nem sequer imaginadas. Contudo, a enunciação do confronto epistemológico no seu título não se lhe afigurava como algo dogmaticamente resolúvel. Ele estava consciente da natureza conflitiva do que assim enunciava, o que ilustra com a frase de Niels Bohr, a qual lhe parecia a mais adequada na situação: "O oposto de uma afirmação correta é uma afirmação falsa. Mas o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda".
Contudo, o ambiente parecia agora bem mais favorável a essa impressão de que em cada domínio do saber havia um conjunto de leis simples, apto a descrever uma interação finita, no sentido de inteiramente estabelecida, expressa, contudo, em termos de uma ampla variação fenomênica. Assim, por exemplo, a premissa gerativa da gramática de Chomski, ou a noção de Forma na Gestalt, e mesmo, ainda, o esquema de Parsons pretensamente totalizante da "ação social".
A ironia de Kimble ao referenciar o famoso conselho de Whitehead - busque a simplicidade, mas desconfie dela - vota-se precisamente à noção de "totalidade" como algo que se revelou, por vezes, limitante na pesquisa do cérebro. No entanto, essa crítica localizada num ramo do saber, não partindo de uma concepção epistemológica de amplo alcance, de modo geral não pertence ao momento considerado, sendo mais uma atitude posterior aos sixties
O que se nota, também na psicologia, como já se observou, é que a curva dos anos trinta aos cinqüenta sinalizou para uma acentuação da construção sistemática, baseando-se nessa mesma correlação de todo objetivo, enquanto algo dotado de propositividade ou autonomia, e o instrumental epistêmico formal liberado pela própria natureza da capacidade intelectiva do ser humano. Aprender torna-se referente "ao que está em questão", não apenas ser capaz de reproduzir uma resposta. Isso implica, por exemplo, que o aprender pode ter ocorrido sem que se possa demonstrar o que na perspectiva anterior seria o seu correlato, ou seja, a repetição da resposta. Já tendo bem sabido o lugar de um restaurante, podemos caminhar até ele, num outro momento, vindo, no entanto, de um outro ponto da cidade, que não aquele pelo que iniciamos o caminho que nos conduziu à descoberta do restaurante, como no exemplo de Broadbent citado por Pena. Mostra-se assim o aprender como a aptidão a realizar uma ação que nunca havia sido anteriormente produzida.
Particularmente essa característica do novo ressoa a colocação de Chomski. Sua contribuição se tornou extremamente importante na psicologia, ainda que se tenha implementado na área da lingüística, pois parece ter desencadeado o movimento da Psicolingüística, definida por Mehler como "disciplina que combina a psicologia e a lingüística para estudar o emprego da linguagem e, em particular, os processos psicológicos subentendidos na produção, compreensão, memorização e reconhecimento do material lingüístico", conforme a citação de Cosnier.
A problematização do campo da linguagem, desde a obra de Saussure, deve ser observado com minúcia, mas aqui seria importante registrar que o cerne da posição de Chomski é a asserção pelo que "todo o sujeito que fala uma língua está apto a compreender e a emitir um número indefinido de frases inéditas". Grifei esse termo da citação de Chomski por Cosnier, para focalizar a sua convergência com a teorização do Aprender que o behaviorismo estava modulando como seu new look.
É verdade que Chomski não se põe num acordo com o behaviorismo. Coloca-o, juntamente com o estruturalismo dos anos 50, como as opções que rejeita no rumo de continuidade do que seria a gramática filosófica clássica, descendendo do cartesianismo. Não obstante, mostra Pena que sua peerpectiva compatibilizou-se com aplicação generalizada no cognitivismo como tendência em psicologia, que se estende ao behaviorismo propositivista de Tolman e no gestaltismo. O que me parece importante é a convergência em torno de posições gerais que se observa entre "escolas" que se mantém, ainda assim, com sua feição particular. O behaviorismo nesse visual novo não parece com o empreendimento empírico que caracterizou o seu ímpeto inicial. Ele exemplifica assim, como outros cenários de humanities, o que estamos enfatizando como a transição da tendência empirista de inícios de século à tendência funcionalista que vai se afirmando desde os anos trinta. Entre os anos cinquenta e os sixties, ocorre, inversamente, o rise dos estruturalismo estrito.
Instala-se aí um cenário complexo, porque a importância estruturalista está concomitante a um novo desdobramento, existencialista, do funcionalismo. Em psicologia é o caso da concomitância entre Piaget (estruturalismo) e a psicologia humanista como a de Laing, Rogers e Rollo May.
O pós-estruturalismo (Foucault, Deleuze, Derrida) não é realmente uma ruptura com o estruturalismo, mas um aprofundamento dele, inclusive suas produções clássicas sendo produzidas concomitantemente a atuação de Lacan, nos sixties.
Atualmente, o que se chama pós-modernidade assiste ao que já designei recentramento, fazendo apelo aos funcionalismos (gestalt.hermenêutica) para reinstalar aquela universalidade obtida nos anos de após guerra. O qual está contrastado pelo ex-centramento como, inversamente, a mistura de motivos não-ocidentais na produção cultural, a que geralmente associam-se temas e críticas ligadas ao pós-estruturalismo.
Quanto à transição que estamos estudando agora, é importante notar que a etabilidade que o funcionalismo usufruiu antes da preponderância de Levi-Strauss, Althusser e Lacan, está muito relacionada à aliança que firmou com a fenomenologia, o que permite afirmar que a psicologia humanista dos sixties é uma continuidade dessa tendência. Mas essa aliança não foi um mero transporte do sedimentado filosófico, o que se pode exemplificar pelo gestaltismo.
Pena, na "Introdução...", acentua bem o nexo dos gestaltistas com a fenomenologia, mas o resultado é bem oposto à postulação anti-científica e "compreensiva" que geralmente se associa a um nexo assim. Inversamente, serviu aos gestaltistas para, desfazendo a fronteira de psicologia e física, defender que as leis da forma nesta descritas teriam validez para a física, como na proposta de Köhler.
Além disso, Köhler desfez a oposição do "compreender" e do "explicar", na base de que, se significado e valor são categorias adequadas tanto a nível psicológico, quanto físico e biológico, ambos seriam idênticos. Mas que esse foi um modo precário de re-estabelecer em novas bases a antiga pretensão positivista de uma ciência unificada, se mostra pelo fato de que já Merleau-Ponty, no cenário de predominância existencialista, não só tornava a acentuar a incompatibilidade de fenomenologia e do compreender frente ao explicar das ciências, quanto ainda operava, erradamente sem dúvida, na base de uma crítica da gestalt como "empirista".
Como o espaço do Blog tem oferecido dificuldades para textos muito extensos, se bem que quando comecei a colocar estudos em blogs isto não tivesse ocorrido, o que dificulta supor que trata-se de problema técnico, neste documento tratarei apenas do behaviorismo e possivelmente da Gestalt. Se não ficar muito obstaculizada a postagem, incluirei aqui a psicologia humanista, se não, utilizarei um espaço específico para essa escola. É importante o seu estudo, não só porque permanece atuante, especialmente no Brasil, como porque dele se podem rastrear temas conexos aos que serão ventilados, com outro tratamento, no pós-estruturalismo. A transcrição do estudo de Piaget, de O devir das ciências humanas, será em todo caso tratado num blog somente focalizado nele, intitulado "PIaget e o construtivismo".
Não penso, por agora, transcrever os estudos de psicanálise, que então poderiam ser complementados, num só documento, pela esquizoanálise pós-estruturalista. Esses são temas conspícuos da elaboração dos blogs sob variados assuntos - especialmente teoria literária ("textos escolhidos"). São objeto das minhas críticas atuais, que não implicam recusa do "inconsciente" e sim a necessidade de reconceituá-lo à luz do Ex-centramento, como também examinar o movimento recentrante que essas démarche de fato exibem desde os sixties até suas formas recentes, objetivando apreender o nexo dessa consequência com as premissas aparentemente descentrantes de seus inícios.
O estatuto da psicologia oscila historicamente, do ponto de vistra intrínseco à sua elaboração múltipla, mas as posições várias interceptam tendências metodológicas mais gerais. Enquanto o behaviorismo e a gestalt pretenderam fazer dela uma ciência natural, os humanistas objetivam que ela não seja uma ciência para poder ser uma compreensão real do homem. Em todo caso, ela não tem o estatuto legal de ser uma medicina. Como ciência humana tem sido aceita, de um modo mais costumeiro.
Cosnier supõe o afirmado pela proposição citada de Chomski como "perfeitamente falso". Parece-lhe "evidente" que se somos "capazes de compreender um número indefinido de frases inéditas", não somos capazes de "emitir um número indefinido delas, pois cada um de nós tem o seu estilo e o seu repertório e um estudo estatístico permite caracterizá-los", o que, aliás, é o que torna a psicologia possível, assim como nosso conhecimento do outro.
Essa posição de Cosnier obtem reforço, inclusive, nos estudos estatísticos da linguagem, de que se podem haurir "leis do acaso", ou seja, frequências recorrentes da constância preferencial de certos fornemas numa linguagem considerada, conforme Abbagnano (Dicionário de filosofia). Já a observação como a dos glotólogos, de uma comunidade linguística, ou seja, mesmo não usando métodos estatísticos, pode descrever as tendências limitantes dos empregos linguísticos, tendo sido deste modo que Lutoslawski logrou colocar sobre base mais confiável a cronologia dos escritos platônicos.
No entanto, conforme Cosnier, há várias categorias em que a contribuição de Chomski se mostra importante, como na compreensão da "língua" e na ampliação dos conceitos de "competência cognitiva". Quanto à "competência idiossincrática", o papel de Chomski parece ter sido de instigar estudos num aspecto por ele manifestamente negligenciado, assim como ocorre com o "desempenho".
Cosnier mostra que a ampliação do conhecimento sobre a "competência cognitiva" marcou a limitação do behaviorismo quanto a isso, pois seu trabalho não focalizou o aspecto da performance com que muitos lingüistas e psicólogos se tornaram conscientes da necessidade de operar. É precisamente esse aspecto da universalidade, no exemplo lingüístico, a "competência", o foco dessa mudança na curva dos anos trinta aos cinqüenta que parece também ter impulsionado a obra de Chomski. Aqui é oportuno registrar sobre o "gerativismo" de Chomski, que ele não é sinônimo de "estruturalismo".
Um behaviorismo Cognitivo
A contribuição de Tolman não caracteriza uma volta ao fenomênico, no sentido da evidência imediata. Pena destaca, quanto a isso, o paralelismo de sua posição, em psicologia, com a física. A verificabilidade, no entanto, é agora colocada em termos de replicação.
Seria salientável aqui, também, as reflexoes epistemológicas de Einstein, opondo-se ao empirismo puro de Mach, em prol da base teórica e matemática que lastreia a produção na própria ciência física. Einstein as desenvolve particularmente em seu Como vejo o mundo.
A importância atribuída aos fatores ou variáveis intervenientes, na perspectiva mediacional de Tolman, implica a condição de serem objetivamente definidas. Assim, há três tipos de variáveis: as dependentes, as independentes e as intervenientes.
Quanto às independentes, são arroladas em dois grupos. No grupo SP, as Releasing variables (detonadoras) são aquelas que determinam o início do comportamento. No grupo HTA, Governing variables são as três que orientam a sua processualidade, definindo-se como hereditariedade, treinamento prévio e maturidade. Quanto às intervenientes, como "processos mentais", também se colocam conforme dois grupos. Eventos mentais e traços ou capacidades mentais. Traços ou capacidades são produtos de HTA. Os eventos o são de SP em combinação com os traços. Pena menciona ainda, a título de exemplo de variáveis intervenientes, as necesidades, as manipulandas, os meios-fins.
Uma característica notável na obra de Tolman é a manifestação recorrente da preocupação com fatores que se revelarão determinantes no desenvolvimento da psicologia, assim como ela veio a se tornar "uma ciência multiforme e ricamente ramificada", conforme a expressão de Kurt Müller (Psicologia aplicada à educação).
O que vimos quanto ao agrupamento de variáveis efetivado por Tolman expressa a partição mais atual de tarefas entre "psicologia da cognição" e "psicologia da motivação". Müller o ilustra com o que se requer para o funcionamento de um navio, tanto um sistema de direção quanto o sistema de propulsão. Assim, a psicologia da cognição ocupa-se das condições da direção do comportamento, como a percepção, o pensamento e a memória, enquanto a psicologia da motivação vai se ocupar com as condições que detonam e mantém o comportamento. Mas, inversamente ao que ocorre com o navio, os dois sistemas se influenciam mutuamente no caso do ser humano.
Com esse intuito de visar o comportamento dos organismos como algo complexo, Tolman já lida também com aquela noção de que este precisa ser objetivado de algum modo que suponha sua irredutibilidade a categorias mais simples como reflexos e tropismos.
Ora, como já se ventilou, o surgimento mesmo do behaviorismo enquanto uma psicologia do estímulo-resposta, como afirmou Skinner, foi particularmente influenciada por dois fatores, as pesquisas do reflexo, ampliadas por Pavlov, e a descoberta dos tropismos, acentuada pelos escritos de Jacques Loeb. Esses fatores corroboraram o que os fisiólogos do século XIX já estavam se propondo a considerar como a necessidade conceitual do elemento do estímulo, isto é, da ação do meio ambiente. Geralmente consideram-se tropismos como algo restrito ao movimento de encurvamento das plantas. O que seria correspondente, no animal, é designado como taxia. Trata-se de um tipo de resposta invariável, no qual um animal orienta-se rumo a determinado estímulo ou dele se afasta. Um peixe que se coloca contra a corrente para que ambos os lados do corpo sejam igualmente estimulados pela água (reotaxia positiva), um inseto que sobe em oposição à força da gravidade (geotaxia negativa), a mariposa que voa para a luz (fototaxia positiva) e o inseto que dela foge (fototaxia negativa), o inseto que encontra o parceiro devido ao odor emitido, para acasalar, são exemplos desse tipo de resposta que dependem de reflexos (Storer e Usinger).
Vimos que Skinner tentava também estabelecer meios para lidar com a variação no grau de complexidade dos comportamentos, por exemplo, tentando deslocar a determinação do comportamento, desde sua conceituação pela dependência ao reflexo ou ao instinto, pela relativa autonomia da interação do organismo conforme a especificidade de sua relação com o meio. Contudo, o essencial é que mantinha a orientação behaviorista ortodoxa, pois "de uma maneira ou de outra, o meio forçava o organismo a se comportar", como pareciam demonstrar os fenômenos de tropismo e taxia. Skinner nota que até mesmo Hull manteve essa posição científica, pois o que ele teria feito seria apenas o equivalente a desenvolvê-la "sistematicamente".
Tolman, porém, já implementa a corrente que afinal problematizará a continuidade entre comportamento humano e processos biológicos gerais descritos nos termos da dependência ao meio. Mas ainda procede a definição da conduta em termos de generalidade. Toda conduta é propositiva, isto é, visa a um objetivo; é seletiva, persistente e dócil, subordinável a mudanças sob a pressão do aprender. Não obstante, apresenta já uma tipologia de aprendizados, conforme o aprender é de catexias (aprende-se a preferir objetos redutores de estímulos), de expectativas de campo (direções) e de padrões motores (habilidades não intelectuais).
Vimos ser no sentido do aprender que a irredutibilidade de Tolman ao behaviorismo clássico se manifesta mais plenamente, devido à ênfase no mapa cognitivo, pelo que se torna "uma aquisição de regras em função das quais vários tipos de respostas poderão ser produzidas", conforme a expressão de Pena. A teorização de Tolman se encaminhou até mesmo no sentido de aceitar a designação "sign-gestalt".
Tolman inclui o conceito, que se mostrou operatório em vários outros setores, de latência. O aprender pode não ser imediatamente constatável, dependendo de fatores que desencadeam a exibição da resposta ou a aceleração de sua aquisição. Mas assim, fatores internos, não observáveis, tornam-se relevantes ao processo. A variável importante é motivacional, pois é o que determina a latência ou explicitação da aquisição. No entanto, como vimos, a motivação não é determinante do aprendizado, e sim do desempenho (realização).
Pena registra vários fatores que atuam como fundamentos da teoria cognitivista de Tolman. A já citada noção de latência e alguns grupos de experimentos ligados a tentativas vicariantes (efeitos sobre os sujeitos devido ao que se aplica sobre o modelo ou guia), pesquisa de estímulos, formulação de hipóteses, organização e orientação espacial.
A obra de Tolman é bem extensa, interceptando o desenvolvimento da Teoria da Aprendizagem Social. A noção de reforçamento vicariante é muito utilizado por Bandura e Walters, pois a imitação pode ser, como havia notado Mowrer, facilitada ou inibida pela observação de recompensas ou castigos aplicados sobre o modelo,se bem que essa dedução parece ser objeto polêmico. Mas para os dois autores, o reforçamento tem menos importância do que a observação do modelo. Assim, a pura observação pode induzir ao aprender, sem que seja preciso envolver qualquer reforçamento. Pena apoia, quanto à polêmica, este ponto de vista.É à Teoria da Aprendizagem Social, principalmente devido à preocupação de Bandura e Walters com a linguagem, que já vimos quanto ao problema da agressividade, que cabe a ilustração da situação do movimento behaviorista no panorama geral de desenvolvimento da psicologia. Cosnier assinala, a propósito, o impasse a que chegava a tendência.
Já se assinalou a incorporação geral à rejeição de uma implementação irrestrita do comportamento humano, especialmente quanto ao aprender, ao que pudesse ser observado como característica de todas as espécies. Pena, comentando as críticas que se fizeram ao behaviorismo, nota que essa idéia, atualmente, está desacreditada.
Especialmente John Garcia parece ter demonstrado que, "em vez de uma teoria geral da aprendizagem pela qual todos os eventos dispõem de possibilidades ou probabiliddes iguais de se associarem", há um conjunto de restrições com validade limitada, como "uma sintaxe do aprender", que supõe uma seletividade na condição dos estímulos, variando de espécie a espécie, conforme situações peculiares a cada uma. Outra crítica recorrente é a desumanização ou objetificação do ser humano, como algo inerente ao enfoque behaviorista. A isso se associa o que seria a sua inadequação para cobrir comportamentos lógicos, especificos do homem. Outras objeções, a meu ver menos procedentes, como a de Lorenz pelo que o behaviorismo negligencia o aspecto da cultura na conduta humana, parecem correlatas.
Ora, como Cosnier mostrou, Politzer sintetizou a limitação prática do behaviorismo a essa altura dos acontecimentos, em que a psicanálise revelava todo um alcance clínico como suporte do exercício concreto da psicologia. O behaviorismo acumulava uma grande soma de trabalho, mas não parecia localizar nenhum campo de aplicação objetiva para eles. Eis o que estava na raiz de sua limitação, pois essa busca demasiado teórica dos "mecanismos 'fundamentais'" impediam que se aproximassem de um comportamento humano efetivo. O apogeu da psicologia estímulo-resposta, a que se costuma reduzir todo o behaviorismo, apesar de termos visto que isso não é exato, marca, de fato, o máximo "hiato existente entre a teoria e a prática".
É interessante como essa situação é a mesma a que chegou a psicometria, conforme Cosnier. Pois a medida comparativa de eficiência, conforme uma escala de aptidões, ou tem aplicação demasiado limitada a um interesse comprometido, a que o esclarecimento do que está em questão pouco interessa, ou, inversamente, mostra-se redundante. O bom clínico não precisa do teste para identificar aquilo que este, com tanto trabalho e custo de tempo, fornece em termos de pistas sobre características de personalidade e tendências gerais do sujeito. O clínico o faz sem mais demora e no curso de uma interação bem mais proveitosa, bem menos constrangedora para o sujeito.
A formação pessoal ou experiência do psicólogo, com as técnicas que o contato real lhe sugere, chega assim a ter bem pouco que ver com o aparato, conhecimentos psicofisiológicos e corpo de teorias gerais concomitantemente produzidas na área. Ao psicanalista, por exemplo, pode nem importar ser a sua formação em psicologia ou psiquiatria.
Foram duas as vias encontradas pela ciência da psicologia para contornar o impasse. Por um lado, optou pelo alinhamento com a biologia, desenvolvendo-se teorias informadas pela genética e pela etologia. Mas a lingüística, é que se mostrou a "grande fornecedora de modelos", permitindo que problemas de especial interesse psicológico fossem reformulados e equacionados com clareza e aplicação máxima, na visão de Cosnier.
Os dois aspectos estão intimamente relacionados. O modelo da teoria da comunicação, que integra a linguística, interessa tanto ao etólogo quanto ao psicolingüista que se debruça sobre o tema da relação simbólica do humano. Também na "epistemologia genética" de Piaget o problema da linguagem será especialmente relevante. É importante salientar que não obstante a terminologia usada por Piaget, na verdade a sua é uma gnoseologia que explica como sabemos, não uma epistemologia que é uma teoria sobre o que é o saber. Além disso, a gnoseologia torna parte da psicologia apenas por seus meios serem laboratoriais e por isso subsiste a problemática acerca do estatuto da psicologia, se ela é ou não ciência, etc., problemática esta que Piaget de fato não resolve, não obstante a sua crença de que o fez cabalmente.
Ora, para Cosnier, trata-se de objetivar áreas exclusivas de problematização, pois ainda que o modelo linguístico possa abranger todos esses terrenos de interesse, o que demonstra é a especificidade dos fenômenos que pertencem a cada um deles. O que ensejou desenvolvimentos surpreendentes, inclusive naquelas áreas que pareciam estagnadas, como a psicometria. O resultado foi um novo tipo de inter-relação proveitosa entre vários setores das ciências do humano. A esse esquema poderão ser agregados, então, tópicos referentes à contribuição de Piaget e ao desenvolvimento da psicometria.
Será necessário, aqui, observar algo do desenvolvimento dessas áreas, a etologia e a lingüística. Mas o que ocorre na exposição dos temas asociados envolve a emergência do estruturalismo e sua influência. Assim, o ponto de vista cronológico, quanto a isso, repõe algo da apreciação da evolução conceitual.
É verdade que o desenvolvivento no tempo da lingüística e da etologia começam bem antes da sua conseqüência estruturalista, mas esse fator pode ser contornado, já que a importância do que surge se recupera facilmente quando se o associa ao que ele desencadeou. Há várias tendências correndo paralelamente desde o início do século, de modo que sua exposição poderia ser estrategicamente facilitada pela observância dos "picos" a que conduziram, ainda mais por que estes ensejam a visualização de contraposições nítidas que recortam a episteme.
Assim, como dejá vu, à voga do behaviorismo se contrapõe a da Gestalt e se registra o écart entre psicanálise e fenomenologia, ainda que não de um modo tão marcado. A predominância do modelo "comunicológico" na expressão de Cosnier, i.e. linguístico, viria assinalar-se num período em que se pode ver como está aparelhado para se propor como interlocutor dessas tendências já desenvolvidas ao máximo, o que parece estar na base do tão amplo alcance logrado pelo estruturalismo. No entanto, com isso podemos demarcar aqui uma crítica à generalidade com que Cosnier tratou o assunto, já que a associação entre teoria da comunicação e línguística precisa ser muito cuidadosamente posicionada.
No Brasil, atualmente, estão usando uma dicotomia de "formalismo" que significaria "estruturalismo", e "funcionalismo", de modo tal que Foucault, enquanto inserido na tendência da "análise do discurso" seria funcionalista, o que é manifesto absurdo.
Recentemente asisti numa faculdade, a uma aula de linguística na qual se ensinava essa dicotomia, e quando interroguei a professora sobre como Foucault, que é manifestamente estrutural, poderia ser dado como funcionalista, a resposta foi que todas as tendências que definem linguagem como comunicação podiam ser arroladas "funcionalistas". Ora, nesse caso especialmente, Foucault jamais poderia ser suposto definir linguagem como comunicação, ou num parâmetro único qualquer.
Por outro lado, também comunicação e linguística se interceptam justamente por meio de uma teoria da comunicação que é estrutural, não "fenomenológica". Assim, "comunicacional" tanto pode significar a hermenêutica transformada, como de Habbermas, Apel e os psicólogos humanistas quanto, inversamente, as pesquisas que prolongam o formalismo russo e interceptam a cibernética e a teoria da informação, como as dos estruturalistas, mas entre estes não ocorre a redução da linguagem a esse fator. Inversamente, o que é assim haurido é utilizado para finalidades variadas, com especial relevância à teoria do inconsciente.
Como já se observou, uma abordagem mais voltada aos trabalhos de autores do que a tendências gerais, sem dúvida, pode esclarecer bem mais sobre o que ocorre na metade inicial do século XX. Ainda assim, a utilização de rótulos não se mostra totalmente sem utilidade.
Em história das ciências, esses rótulos orientam não só especificidades de escolas, mas de metodologias que as podem enfeixar em tendências específicas. Mas a polissemia costuma ser incontornável na recuperação dos documentos, sendo necessário minucioso exame para saber o que está sendo falado em cada caso.
Além disso, os rótulos na sua abranência metodológica mostram-se úteis para conceituar derivas dentro de uma mesma escola. Assim, por exemplo, o livro de Ch. Brenner, "Noções básicas de psicanálise", esclarece as noções fundamentais da psicanálise funcionalista, como ele mesmo salientou, mas pelo que se pode haurir da leitura, isso corresponde ao que o autor pressupõe ser o genuíno do pensamento freudiano e das contribuições que se seguem a ele, mantendo-se porém na mesma linha assim inaugurada. Não se fala aí de Lacan. Quanto a este, manifesta sem dúvida que operou um tratamento estruturalista sobre o material oriundo do pensamento freudiano, o que lhe permitiu ao mesmo tempo que manter orientações gerais deste, impulsionar o movimento psicanalítico a partir de propostas especificamente suas.
Entre funcionalismo e estruturalismo, a irredutibilidade básica está em que para os funcionalistas há um todo, que corresponde ao fenômeno estudado, o qual subsume aquilo que aparece como partes suas. O estruturalismo, inversamente, estuda sistemas, que seriam as partes na interpretação funcional, como autônomas, de modo que o todo é apenas um efeito, de certo modo uma ilusão, oriundo da concomitância desses sistemas autônomos. Ambos se contrapõem ao empirismo como à premissa de um acesso das partes assim como elas se mostram a nós, isto é, não como sistemas articulados internamente, e independentes do todo.
Os caminhos do behaviorismo
Conforme a observação de Butcher acerca do destino do comportamentismo, assinala-se que, ao menos, uma contribuição sua se revelou permanentemente incorporada à psicologia, aquela pelo que a "impressões subjetivas" são preferidas as "respostas comportamentais" como objeto da observação do psicólogo. Sobre isso poderíamos notar que as pesquisas mesmas, que tanto foram apontadas como inúteis ou pouco práticas, revelam singular penetração como a denúncia de Skinner, feita com base na observação e situações experimentais, do "uso e o abuso dos sistemas coercitivos de controle predominantes nas sociedades atuais", incorporados "em todas as estruturas que compõe o sistema tais como a escola e a empresa" , conforme a expressão de Pena.
É interessante, por outro lado, notar que o dicionário de ingles Webster apresenta de fato dois significados para Psicologia:
Psy - chol - o - gy (...) 1. the science dealing withe the mind and mental processes, feelings, etc. (A ciência que lida com a mente e os processos mentais, sentimentos, etc. 2. the science of human and animal behavior ( a ciência do comportamento humano e animal).
E já quanto a "psyche", há o significado mítico de "esposa do deus grego cupido" (wife of Cupid) , o sinônimo de "alma" ("soul"), e um terceiro significado, o de "mente" (mind) como especialmente "um sistema orgânico ajustando o organismo total ao meio ambiente" (an organic system adjusting the total organism to the environment).
Ora, o que se mostrou subseqüentemente foi que muito do radicalismo dos fundadores da tendência behaviorista poderia ser posto de lado sem prejuízo para essa posição fundamental da rejeição do processo subjetivo em prol das respostas comportamentais.
A questão importante é que aquilo que se apresenta como imediatamente subjetivo não pode ser demonstrado como tal, universal, mantém-se como generalização etnocentrada desde a filosofia ocidental, dentro de um esquema dicotômico de sujeito-objeto. Há uma idealização da unidade onde de fato, se houver relevância para a pesquisa e para a psicologia ou mesmo para o conceito, teria que se começar por se colocar a questão dessa unidade como meramente aparente ou até aprendida. Na atualidade há uma grande arrogância, com prejuízo da liberdade do pensamento, ostentada pelos subjetivistas, especialmente fenomenólogos, que dizem que aqueles que não compartilham de sua idealização, estão sendo desonestos porque suas premissas subjetivistas seriam óbvias, quando na realidade estão muito longe de o serem. Além disso, uma posição fenomenológico clássica proíbe que a questão possa ser tratada com base naquilo que se observa, porquanto a palavra "experiência" é dada entre essas pessoas como ofensiva ao seu pressuposto de imeditez da evidência interna. Para elas, portanto, os cientistas são desonestos, e os que defendem a "experiência" são imorais.
Isso não significa que o behaviorismo foi bastante para lidar com todas as questões relevantes, mas sua contribuição não me parece ignorável ou destituída de interesse.
Não significa, por exemplo, que a questão seja redutível à dicotomia de se há ou não a unidade do Self, mas interceptando o cenário pós-moderno do "inconsciente-linguagem", a problemática que se instala como variável textual entre o enunciado e a enunciação: como a enunciação instaura relações tópicas e singulares com seus enunciados? A perspectiva universalista de Benveniste pode se revelar etnocentrada, e o pós-modernismo literário e teórico, inversamente, explora a gama de variação que pode se instaurar nesse intervalo entre ambos, o qual é estruturante da sua pressuposição recíproca localizada como o texto em questão.
Conforme Pena, se algo que é comum a todos os envolvidos com o comportamentalismo, não importa o quanto difiram nas suas posições teóricas específicas, é a observância da metodologia empírica, é precisamente isso que foi alvo de tantas críticas por autores mais preocupados com o suporte formal.
Butcher assinala assim que se continua a haver "psicologia experimental", por esse nome se devia designar algo como um "neobehaviorismo": renúncia ao radicalismo dos fundadores, mas mantendo a tendência observacional empírica. O objetivo continua a ser o mesmo, naquilo que se relaciona ao ser humano: "descrever e explicar o pensamento humano mais complexo e abstrato através de mecanismos mais simples".
O desenvolvimento da cibernética não se mostrará pouco útil a esse intuito, ou seja, o percurso foi no sentido de eliminar o fosso entre o requisito da prática e a necessidade da teoria. Nesse caminho, conforme Butcher, é possível que se demonstre finalmente que "inteligência" é apenas uma palavra para mascarar a ignorância quanto "à mecânica do pensamento". Butcher enfatiza, contudo, que as pesquisas nessa temática também são exemplo no que tange à interconexão de áreas nas ciências do humano - a sociologia, especialmente educacional, se mostra essencial quanto a isso. É interessante, por outro lado, notar que o dicionário de ingles Webster apresenta de fato dois significados para Psicologia:
Psy - chol - o - gy (...) 1. the science dealing withe the mind and mental processes, feelings, etc. (A ciência que lida com a mente e os processos mentais, sentimentos, etc. 2. the science of human and animal behavior ( a ciência do comportamento humano e animal).
E já quanto a "psyche", há o significado mítico de "esposa do deus grego cupido" (wife of Cupid) , o sinônimo de "alma" ("soul"), e um terceiro significado, o de "mente" (mind) como especialmente "um sistema orgânico ajustando o organismo total ao meio ambiente" (an organic system adjusting the total organism to the environment).
Ora, o que se mostrou subseqüentemente foi que muito do radicalismo dos fundadores da tendência behaviorista poderia ser posto de lado sem prejuízo para essa posição fundamental da rejeição do processo subjetivo em prol das respostas comportamentais.
A questão importante é que aquilo que se apresenta como imediatamente subjetivo não pode ser demonstrado como tal, universal, mantém-se como generalização etnocentrada desde a filosofia ocidental, dentro de um esquema dicotômico de sujeito-objeto. Há uma idealização da unidade onde de fato, se houver relevância para a pesquisa e para a psicologia ou mesmo para o conceito, teria que se começar por se colocar a questão dessa unidade como meramente aparente ou até aprendida. Na atualidade há uma grande arrogância, com prejuízo da liberdade do pensamento, ostentada pelos subjetivistas, especialmente fenomenólogos, que dizem que aqueles que não compartilham de sua idealização, estão sendo desonestos porque suas premissas subjetivistas seriam óbvias, quando na realidade estão muito longe de o serem. Além disso, uma posição fenomenológico clássica proíbe que a questão possa ser tratada com base naquilo que se observa, porquanto a palavra "experiência" é dada entre essas pessoas como ofensiva ao seu pressuposto de imeditez da evidência interna. Para elas, portanto, os cientistas são desonestos, e os que defendem a "experiência" são imorais.
Isso não significa que o behaviorismo foi bastante para lidar com todas as questões relevantes, mas sua contribuição não me parece ignorável ou destituída de interesse.
Não significa, por exemplo, que a questão seja redutível à dicotomia de se há ou não a unidade do Self, mas interceptando o cenário pós-moderno do "inconsciente-linguagem", a problemática que se instala como variável textual entre o enunciado e a enunciação: como a enunciação instaura relações tópicas e singulares com seus enunciados? A perspectiva universalista de Benveniste pode se revelar etnocentrada, e o pós-modernismo literário e teórico, inversamente, explora a gama de variação que pode se instaurar nesse intervalo entre ambos, o qual é estruturante da sua pressuposição recíproca localizada como o texto em questão.
Conforme Pena, se algo que é comum a todos os envolvidos com o comportamentalismo, não importa o quanto difiram nas suas posições teóricas específicas, é a observância da metodologia empírica, é precisamente isso que foi alvo de tantas críticas por autores mais preocupados com o suporte formal.
Butcher assinala assim que se continua a haver "psicologia experimental", por esse nome se devia designar algo como um "neobehaviorismo": renúncia ao radicalismo dos fundadores, mas mantendo a tendência observacional empírica. O objetivo continua a ser o mesmo, naquilo que se relaciona ao ser humano: "descrever e explicar o pensamento humano mais complexo e abstrato através de mecanismos mais simples".
Quanto à ilustração desse movimento de flexibilização da psicologia estímulo-resposta, correspondendo ao neobehaviorismo, ele focaliza, na Rússia, os trabalhos de Luria e Vinogradova, descrevendo o estabelecimento de ligações semânticas através de processos de condicionamento. Há também a pesquisa referente às diferenças entre crianças mais jovens e mais velhas na importância relativa de mediação verbal. Nas crianças mais velhas ocorrem respostas verbais internas, não enunciadas, enquanto que nas mais jovens se mostra adequada a explicação na base dos princípios simples do condicionamento.
Nos EUA também as análises experimentais e teóricas se focalizam sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, como no trabalho de Kendler, semelhante ao dos russos. Verifica-se aqui, igualmente, que a flexibilização do behaviorismo se faz muito em função dos fenômenos observados no comportamento verbal.
Butcher considera que esse é, de fato, o tema mais inviabilizador do esquema estímulo-resposta ortodoxo, que exemplifica com a teoria da linguagem de Skinner, a qual considera incompatível com os dados da pesquisa mais atual. Contudo, creio ser preciso notar que a polêmica das duas posições conflitivas sobre a linguagem, de Skinner e Chomski, na época de maior predominância do comportamentismo, não está totalmente resolvida. Bem inversamente, a ênfase no fator cultural, ambiental, social, do comportamento lingüístico, como em Labov, continua se constrastando à solução inatista, formal, gerativa, de Chomski. Assim também em geral o pós-estruturalismo é incompatível com o gerativismo universalista. No entanto, sem dúvida a resistência ao inatismo precisa agora equacionar dados que Skinner, recusando toda perspectiva mediacional, não focalizou.
Conforme Müller ("Psicologia aplicada à educação", 1973) atualmente seria impossível pensar uma abordagem geral que iria cobrir todo o campo dessa ciência, sua evolução tendo sido implementada no sentido da especificação bem marcada de áreas parciais.
O autor apresenta o seguinte quadro da ramificação da psicologia científica, organizado em pares antagônicos, desde a complementaridade básica entre "psicologia geral" e "psicologia individual-diferencial".
- oposição básica:
. psicologia geral === psicologia individual-diferencial
- localizações de áreas de domínio e modos de abordagem conforme as oposições:
. psicologia da cognição ========= psicologia da motivação
. psicologia do comportamento atual =========== psicologia da personalidade
. psicologia de situações definidas ========= psicologia do desenvolvimento
. psicologia do indivíduo ========== psicologia social
. psicologia dos processos conscientes ========= psicologia do inconsciente
. psicologia de pessoas sãs ========= psicologia de pessoas doentes
. psicologia teórica ========== psicologia aplicada
A título de ilustração quanto à interação entre áreas em ciências do humano e desenvolvimento da psicologia aplicada, Müller fornece ainda outro quadro:
Área da Educação: Psicologia pedagógica
Direito: Psicologia forense , Psicologia penal
Administração: Psicologia da administração, Psicologia do consumo
Área trabalhista: Psicologia industrial e do trabalho, Psicologia vocacional
Trânsito: Psicologia do trânsito
Família: Psicologia de aconselhamento matrimonial, Psicologia de aconselhamento educacional
Religião: Psicologia religiosa, Psicologia pastoral
Contudo, algo que introduz eficazmente o que deveremos observar como tendência a acentuar-se no desenvolvimento da psicologia, desde aqui, é a evidenciação da problemática metodológica das ciências do humano, enquanto o panorama comportamentista se baseia na premissa tranqüila da assimilação epistemológica às ciências exatas e da natureza. Müller enfatiza que a oposição no interior da psicologia entre essas duas abordagens continua existindo.
Registra assim, por um lado, o fato de que geralmente "ganham maior significado os métodos de trabalho das ciências exatas", o que faz com que o psicólogo deva se posicionar acerca de "métodos da matemática, da estatística e dominar a técnica experimental". Mas também exibe-se a característica circular típica do conhecimento "especulativo", isto é, aquele que se beneficia do repositório teórico e filosófico, o que é exemplificado ao tratar-se do fator religião, atinente à psicologia da criança.
Müller mostra a pesquisa psicológica comparada, dos povos e das religiões, evidenciando que povos que concebem seus deuses como poderes predominantemente vingativos, raivosos e punitivos, tendem a educar os seus filhos de modo rígido e inflexível. Exemplifica com duas citações da Bíblia, o fragmento de um salmo ensinando a reverenciar a Deus com "temor e tremor" e um dos provérbios em que se aconselha a não "poupar a vara" na educação dos filhos, como prova mesma de amá-los.
A questão é então por que determinados povos temem seus deuses enquanto outros os concebem como poderes benéficos. Ora, essas configurações básicas podem ter surgido através da educação. Mas são também o que explica as várias atitudes educacionais. Se incluíssemos o fator "traços de caráter" para explicar a variedade de posições religiosas que é característica dos povos em questão, o círculo seria um pouco ampliado, mas permaneceria círculo, já que os traços também poderiam ser reconduzidos, finalmente, às variáveis educacionais.
Também se podem comparar duas versões acerca da questão de saber se a pobreza favorece o amor às crianças. Conforme Müller, sim, exemplificando ele a posição com o estudo de Margareth Mead sobre os Mondugumor, agressivos e egoístas, habitantes de planícies fecundas, e os Arapesh, cooperativos e tolerantes, habitantes de áridas porções montanhosas. Aqueles, rudes e descuidados com as crianças; estes, meigos e carinhosos com elas.
Alguns estudos sociológicos, porém, enfatizaram que não, pois seria prática corrente, na periferia das grandes cidades brasileiras, até mesmo mães tentarem desfazer-se de crianças devido à impossibilidade de alimentá-las. Essa informação é atual, constando em manuais de sociologia em nível de segundo grau. No entanto, nada inviabiliza a cientificidade desses novos ramos de conhecimento humano, já que o interesse da inteligibilidade pode estar tanto na apresentação de resultados objetivos quanto na problematização daquilo que se tem por certo.
Assim, que a "professora" - infeliz no casamento, cujos alunos descrevem como rude, amargurada, sem afeto; o "casal de aposentados" - o homem é porteiro, o casal não tem filhos, as crianças do prédio os temem; o "senhor" - que ocupa elevada posição econômica, exige aplicação, produtividade, pontualidade e ordem do filho a quem se apresenta por todos como pai modelo e que costuma ter pouca motivação, medo, dificuldades escolares, possam ser vistos respectivamente como "extraordinária" e "benemérita"- numa escola autoritariamente dirigida num país ditatorial; merecedores de reforçamento - numa sociedade que impõe às crianças o dever da obediência cega aos adultos; pai responsável e bom - numa sociedade de produção, eis o que deixa de ser dado como algo natural, "universal". Deixa de ser considerado conforme o ponto de vista dessas sociedades ditatoriais. Torna-se o que se precisa, devidamente, equacionar em termos da implicação recíproca entre vivências pessoais e comportamento dos educadores, estilo de educação e sociedade.
Ainda assim, mostra Müller, isso não conduz a que se identifique a conduta "má" - agressiva, repressora, etc. - apenas como não "cientificamente" educada. As mães simples e ingênuas são muito freqüentemente boas mães. Tampouco se deve antepor que palavras usadas na linguagem comum como "sentir", ou "querer", por sua pouca precisão, são destituídas de sentido operatório para aqueles que as utiliza, contrastando com os neologismos técnicos criados pela ciência. Seu uso envolve, de fato, sentido, e a tarefa da psicologia é compreender esse uso, não destorcê-lo para caber num molde preconcebido, conforme Müller.
Tudo contribui para aceitar-se que o escopo da psicologia não deve ser, como pensava Skinner, na concepção de Müller, o controle direto da sociedade pela ciência, mas sim o engajamento na compreensão daquilo que tematiza, não sem a esperança de que sua aplicação se revele útil aos propósitos de melhoria, pessoal e social. Mas podemos ver que se da compreensão o que se deduz é essa expectativa, há algo em comum entre os propósitos de Skinner e Müller acerca da psicologia como fator de reforma social objetiva, a mais do que um papel terapêutico subjetivo.
A ênfase na "compreensão", porém, já implica o cenário familiar ao de prevalência da "psicologia humanista", o que certamente destoa profundamente, pela influência que sofre da fenomenologia-hermenêutica ("existencialismo"), das intenções empíreo-científicas do behaviorismo, como daquele ambiente de surgência da psicologia do século XX.
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22 / 05/ 2012
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